Francisco
Calmon: Uma candidatura natimorta para o bem do Brasil
A
trajetória política de Flávio Bolsonaro talvez diga mais sobre o Brasil
contemporâneo do que sobre um único parlamentar. Porque, quando observada de
forma cronológica, ela revela não apenas uma sequência de episódios
controversos, mas um padrão persistente de relações entre poder político,
circulação opaca de dinheiro, milícias, fisiologismo econômico e alinhamento
subordinado a interesses externos.
Mais do
que casos isolados, o que aparece é um método, uma maneira de exercer a
política.
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O início: homenagens perigosas e as conexões com as milícias
Ainda
como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Flávio
Bolsonaro concedeu a Medalha Tiradentes - maior honraria do estado - a Adriano
da Nóbrega. Naquele momento, a homenagem poderia parecer apenas mais um gesto
parlamentar protocolar. O tempo, porém, transformou completamente seu
significado político.
Anos
depois, Adriano seria apontado pelo Ministério Público como liderança do
chamado “Escritório do Crime”, organização associada a execuções sob encomenda,
extorsão e controle armado de territórios no Rio de Janeiro. A situação
tornou-se ainda mais grave quando vieram à tona informações de que familiares
de Adriano - sua mãe e sua ex-esposa - trabalhavam no gabinete de Flávio
Bolsonaro.
Não se
tratava apenas de uma homenagem equivocada. Tratava-se da proximidade entre um
núcleo político influente e personagens ligados ao universo miliciano
fluminense. E isso importa porque as milícias no Rio de Janeiro não surgem fora
do Estado. Elas nascem justamente da fusão entre agentes públicos, violência
armada e controle territorial.
Ao
longo das últimas décadas, investigações e CPIs demonstraram repetidamente as
conexões entre milícias e setores da política institucional. Nesse contexto,
homenagens, vínculos e nomeações deixam de ser detalhes administrativos.
Tornam-se sinais políticos.
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O escândalo das rachadinhas: corrupção como método
Mas foi
o caso das “rachadinhas” que colocou definitivamente Flávio Bolsonaro no centro
de um dos maiores escândalos de corrupção da política recente.
O
núcleo da investigação envolvia Fabrício Queiroz, ex-policial militar e
assessor histórico da família Bolsonaro.
Relatórios
do antigo Coaf apontaram movimentações financeiras consideradas atípicas
envolvendo Queiroz e assessores ligados ao gabinete de Flávio Bolsonaro na
Alerj.
As
suspeitas iam muito além da simples devolução de salários.
O caso
revelou uma engrenagem marcada por: circulação informal de dinheiro público;
funcionários fantasmas; depósitos cruzados entre assessores; movimentações
incompatíveis com os rendimentos declarados; e uso político da máquina pública
para interesses privados.
Mais do
que um escândalo administrativo, as rachadinhas expuseram um modelo
patrimonialista de poder: a confusão permanente entre gabinete, família,
dinheiro público e redes privadas de influência.
Mesmo
após decisões judiciais que anularam etapas da investigação, o desgaste
político nunca desapareceu. Porque a questão central jamais foi apenas
jurídica.
O que
ficou para a opinião pública foi a imagem de um grupo político constantemente
cercado por suspeitas de corrupção, operadores financeiros paralelos e relações
pouco transparentes com o dinheiro.
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A chegada ao Senado e a continuidade do padrão
Ao
chegar ao Senado em 2019, Flávio Bolsonaro não rompeu com essa trajetória.
Apenas a transportou para uma escala nacional. Enquanto se consolidava como
herdeiro político do bolsonarismo, manteve uma atuação marcada por contradições
profundas entre discurso e prática.
O
patriotismo exaltado em discursos convivia com posições econômicas que
fragilizavam a indústria nacional e ampliavam a dependência externa. O
nacionalismo retórico convivia com alinhamento quase automático aos interesses
dos Estados Unidos e às pautas de Donald Trump.
Ao
mesmo tempo, as relações políticas e financeiras ao redor de Flávio Bolsonaro
continuavam cercadas por zonas cinzentas. E então surge o caso que talvez
sintetize tudo isso de maneira ainda mais explícita.
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A política transformada em negócio de família
Mas
existe um elemento talvez ainda mais revelador no bolsonarismo: a transformação
da política em uma estrutura familiar de poder.
A
trajetória de Flávio Bolsonaro nunca aparece isolada. Ela funciona como parte
de um núcleo político comandado por Jair Bolsonaro e sustentado pelos filhos
transformados em personagens permanentes da política nacional: Flávio, o “01”;
Carlos Bolsonaro, o “02”; e Eduardo Bolsonaro, o “03”, como cabeças da manda,
os filhos se somam na política de acordo com os interesses da família.
Ao
longo dos anos, o que se consolidou não foi apenas um grupo político, mas uma
espécie de dinastia cercada por investigações, disputas internas, escândalos e
crises sucessivas. Rachadinhas, ataques às instituições, conflitos
diplomáticos, guerras digitais, suspeitas de corrupção e brigas públicas entre
aliados e familiares passaram a fazer parte da rotina do próprio clã.
Nem
mesmo Michelle Bolsonaro escapou de ser arrastada para o centro das
controvérsias políticas e disputas internas do grupo. Até madrastas,
ex-esposas, irmãos e parentes frequentemente aparecem envolvidos em conflitos,
acusações ou episódios constrangedores que expõem um ambiente político
permanentemente tensionado.
No fim,
o bolsonarismo escancarou a farsa que é: tentou vender um projeto nacional e
apolítico, mas acabou evidenciando os negócios familiares - onde poder,
proteção, interesse pessoal e sobrevivência política se tornam uma simbiose
dentro da política.
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Patriotismo no discurso, dependência na prática
Existe
também uma contradição difícil de ignorar na trajetória política de Flávio
Bolsonaro: o abismo entre o discurso nacionalista e a prática econômica
defendida por seu grupo político.
Ao
longo dos últimos anos, o bolsonarismo construiu sua identidade pública em
torno da ideia de patriotismo. Mas, na prática, muitas de suas posições
caminham no sentido oposto da soberania nacional.
A
famiglia é adoradora dos EUA ao ponto de prestar deferência, com um beijo, à
bandeira daquele país, cuja história é de assassinatos, genocídios e apoios a
golpes,
No
debate sobre terras raras, mineração estratégica e exploração de recursos
naturais, por exemplo, a lógica predominante não foi a construção de autonomia
econômica brasileira, mas a abertura ampla ao mercado internacional. O mesmo
ocorre em relação à indústria nacional.
Ao se
posicionar contra mecanismos de proteção comercial e defender importações sem
políticas robustas de compensação industrial, Flávio Bolsonaro reforça uma
agenda econômica que aprofunda a desindustrialização brasileira. O impacto
disso é concreto: perda de competitividade da indústria nacional, redução da
capacidade tecnológica do país e aumento da dependência externa. Durante o
governo do seu pai, o pais viveu a maior desindustrialização.
O
contraste chama atenção porque desmonta a própria narrativa patriótica
mobilizada pelo bolsonarismo. Defender a abertura irrestrita do mercado
enquanto setores estratégicos nacionais perdem força, não fortalece a
soberania. Amplia a dependência.
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O alinhamento automático aos Estados Unidos e a Trump
Essa
contradição aparece de maneira ainda mais explícita na relação do bolsonarismo
com os Estados Unidos e, especialmente, com Donald Trump. Ao longo dos últimos
anos, Flávio Bolsonaro e seu grupo político demonstraram alinhamento quase
automático às pautas da extrema direita norte-americana.
Guerras
culturais importadas, retóricas conspiratórias e ataques às instituições
democráticas passaram a ocupar o centro do debate político brasileiro. Mais do
que afinidade ideológica, trata-se de uma relação de subordinação simbólica e
política.
Enquanto
discursam em nome da pátria, reproduzem agendas estrangeiras, importam
conflitos políticos norte-americanos e demonstram admiração permanente por
lideranças externas. A contradição é evidente: falam em soberania nacional
enquanto se comportam como linha auxiliar de projetos políticos forasteiros.
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O caso Banco Master: dinheiro, poder e irmandade
Recentemente,
uma reportagem publicada pelo Intercept Brasil revelou áudios, mensagens e
documentos envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro,
controlador do Banco Master. Segundo a investigação, Flávio negociou
diretamente com Vorcaro um aporte de 24 milhões de dólares - cerca de R$134
milhões - para financiar um filme sobre seu pai, o preso da Papudinha.
As
mensagens reveladas demonstram uma relação de extrema proximidade entre ambos
os personagens.
“Irmão,
estou e estarei contigo sempre”, escreveu Flávio a Vorcaro, em uma das
conversas divulgadas.
O
episódio torna-se ainda mais grave quando observamos o contexto envolvendo
Daniel Vorcaro. O banqueiro passou a ser alvo de investigações relacionadas a
fraudes financeiras bilionárias envolvendo o Banco Master, além de acusações de
ocultação patrimonial e corrupção.
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Reparem que também a família Vorcaro é quadrilheira tal qual a Bolsonaro.
Ou
seja: mais uma vez, o nome de Flávio Bolsonaro aparece associado a relações
financeiras obscuras, negociações milionárias e personagens envolvidos em
escândalos de grande escala. E, novamente, a questão central não é apenas
jurídica. É política.
O que
significa para a democracia brasileira que um pré-candidato à Presidência da
República mantenha relações tão próximas com operadores financeiros
investigados, banqueiros envolvidos em falcatruas e negociações milionárias
conduzidas longe do escrutínio público?
O que
revela uma trajetória marcada por: homenagens a figuras ligadas às milícias;
suspeitas de corrupção envolvendo dinheiro público; operadores políticos
associados a esquemas financeiros; relações pouco transparentes com grandes
banqueiros; e alinhamento constante entre poder econômico e poder político?
Ainda
nem começou para valer a disputa presidencial, e a candidatura de Flávio já faz
água e começa a ir a pique. O próprio bolsonarismo dá sinais de falência
múltipla - uma espécie de enterro dos ossos de um projeto político desgastado
por contradições, escândalos e crises sucessivas. Ocorre que, ao que parece, já
não há ninguém capaz de segurar as alças do caixão.
Talvez
a pergunta mais importante seja justamente a mais simples: É esse um dos grupos
políticos que pretende governar o Brasil nos próximos anos?
Governar
ou golpear o Estado democrático de direito, como tentaram no 8 de janeiro de
2023?
Golpista
uma vez, é risco de ser outra vez!
• BolsoMaster: o escândalo que as
pesquisas ainda não viram. Por Oliveiros Marques
Não se
frustrem. Essa é a mensagem para quem torce por Lula e aguardava com brilho nos
olhos a pesquisa do DataFolha desta semana - aquela que poderia traduzir, em
pontos percentuais, o devastador impacto das revelações feitas pelo The
Intercept Brasil sobre a relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel
Vorcaro. Os números não mostraram terra arrasada, porque ainda é cedo. E a
palavra “ainda” carrega aqui todo o peso que merece.
Para
quem não acompanhou - ou preferiu não acreditar -, vamos ao cardápio do que já
foi servido pelo The Intercept. Os diálogos entre Flávio Bolsonaro e Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master, compõem uma narrativa digna dos melhores
roteiros de drama financeiro. Tem de tudo: mensagens íntimas e carinhosas sobre
o momento da vida dos dois interlocutores; cobrança, de maneira bastante
educada, de uma dívida de dezenas de milhões de reais em moeda norte-americana
que o senador teria a receber do banqueiro; e o inefável charme de dois homens
discutindo dinheiro público como se fosse quintal de casa. Porque, convenhamos,
era exatamente isso.
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O
escândalo batizado de BolsoMaster - e que nome mais preciso - envolvia 100% de
recursos públicos canalizados para alavancar uma instituição financeira nascida
sob as bênçãos, o estímulo e o calor paternal do governo Jair Bolsonaro. O pai
criou o ambiente. O filho gerenciou a janela. E o banqueiro agradeceu na moeda
que os Bolsonaro entendem melhor do que qualquer outra: influência e dinheiro,
de preferência juntos.
Mas os
detalhes, ah, os detalhes. Há um fundo de investimento cuja gestão foi parar
nas mãos de um advogado de imigração - área de especialização notoriamente
aplicável à administração de ativos financeiros complexos. O advogado, com toda
a experiência que os voos regulares entre os EUA e Brasília proporcionam, é
ligado a Eduardo Bolsonaro, o filho do meio que nunca encontrou um negócio da
família do qual não quisesse participar. Que a gestão de fundos milionários
esteja nas mãos de alguém cuja expertise declarada é processar vistos de
trabalho é apenas um dos pequenos detalhes que fazem o filme não bater.
E o
preço do filme? Extraordinário. As revelações apontam para operações em que os
valores não se encaixam em qualquer lógica de mercado - a não ser que o mercado
em questão seja o da conveniência política. Contratos superfaturados,
movimentações que a contabilidade criativa mais inventiva teria dificuldade de
justificar, e transações que, ao serem colocadas lado a lado, formam um quadro
de clareza constrangedora. O filme não bate porque foi editado às pressas, com
cenas cortadas, roteiro improvisado e protagonistas que claramente não
esperavam que o making of fosse ao público.
E então
há a casa no Texas. Uma propriedade adquirida em circunstâncias que desafiam a
imaginação - e o salário de um deputado cassado. O Texas, como se sabe, é um
estado americano famoso por sua generosidade climática, seu espírito
independente e, aparentemente, pela capacidade de abrigar investimentos
imobiliários de políticos brasileiros cujas declarações de bens não pareciam
comportar tal extravagância. Como o dinheiro chegou lá? Boa pergunta. As
respostas dadas pelos envolvidos até agora têm a consistência de uma casa de
papel numa ventania.
Mas
voltemos às pesquisas. O DataFolha desta semana que passou - e as que virão -
captarão uma fotografia do momento, não do processo. E o processo de
assimilação de escândalos complexos, com camadas financeiras, nomes técnicos e
documentos extensos, é lento. A população que não respira política 24 horas por
dia - e que forma a esmagadora maioria do eleitorado - precisa de tempo para
digerir, processar e transformar informação em opinião. Não é falta de
inteligência. É a física da formação de imagem sobre eventos complexos.
O
estrago na candidatura de Flávio Bolsonaro será enorme. Esse julgamento não
requer bola de cristal - requer apenas a observação de que escândalos dessa
magnitude, com documentação, diálogos gravados e trilha de dinheiro rastreável,
têm uma trajetória conhecida. Eles não explodem. Eles corroem. E a corrosão já
está em curso, invisível nas métricas das próximas pesquisas, mas perfeitamente
perceptível para quem acompanha a temperatura dos grupos de WhatsApp das avós e
a cara do eleitor médio quando lê a manchete em seu celular ou assiste à
televisão e ouve o seu rádio no carro. Até mesmo em eventos políticos de até
então aliados é possível percebê-la.
O
eleitorado verdadeiramente em disputa - aquela fatia de no máximo 20% que ainda
não se rendeu à polarização bolsonarismo versus lulismo - tende a ser, por
definição, mais racional. São eleitores que pesam, que comparam, que se movem
lentamente, mas com finalidade. E quando se movem em direção a um candidato,
raramente retrocedem. A pergunta que Flávio Bolsonaro deveria fazer a si mesmo
não é o que as pesquisas das próximas semanas vão mostrar. A pergunta é: qual
percentual desses 20% estará caminhando em direção à Lula quando as pesquisas
de agosto chegarem? Imagino que será grande.
O
BolsoMaster não é apenas um escândalo familiar num país acostumado a escândalos
familiares. É a síntese de um projeto de poder que usou o aparato do Estado
como alavanca de enriquecimento privado - com recursos integralmente públicos,
sob olhos que preferiram não ver e com uma arquitetura cuidadosamente
construída para parecer legítima até o momento em que o The Intercept ligou o
projetor.
Não se
frustrem com as pesquisas desta semana. Elas são um termômetro tirado antes da
febre subir. A febre virá. E quando chegar, os eleitores racionais em disputa -
aqueles que querem um futuro mais seguro, mais previsível, menos barulhento -
saberão muito bem para qual lado inclinar a balança. Isso é uma questão de
tempo. E o tempo, como todo bom roteiro de thriller financeiro nos ensina, está
do lado da verdade.
Fonte:
Brasil 247

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