O
que os direitos digitais têm a ver com a crise climática?
Enquanto
governos latinoamericanos disputam investimentos estrangeiros em matéria de
inteligência artificial, data centers e mineração para o que têm chamado de
“transição digital”, expande-se a narrativa enganosa segundo a qual a crise
climática poderá ser resolvida por meio da inovação tecnológica. A COP30,
realizada no Brasil em 2025, contribuiu para reforçar esse imaginário ao
colocar a digitalização, a inteligência artificial e as chamadas “tecnologias
verdes” no centro de parte importante das discussões sobre desenvolvimento e
sustentabilidade.
A
promessa aparece em discursos oficiais sobre cidades inteligentes,
monitoramento ambiental, agricultura de precisão, eficiência energética e
“inovação verde” e deságua em políticas como as de digitalização de programas
ambientais e agrários e de abono tributário para atividades extrativistas
relacionadas à tecnologia. O futuro sustentável, de acordo com essa linha,
seria também um futuro digital.
Mas
quem sustenta materialmente esse futuro? Quem sofre seus ônus e quem de fato
ganha seus bônus?
Esse
discurso também se beneficia de escolhas semânticas que ajudam a ocultar a
materialidade da economia digital. Talvez o exemplo mais evidente seja a
popularização da expressão “computação em nuvem”, que sugere algo leve,
abstrato e distante do mundo físico, reforçando a ideia de que dados,
plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial existiriam em uma
esfera quase etérea. Na prática, porém, a infraestrutura que sustenta essas
tecnologias está longe de ser invisível. Começa na mineração, passa por cadeias
industriais complexas, consome grandes quantidades de energia e água e depende
da ocupação de territórios para funcionar.
Em
outras palavras, longe de ser imaterial, portanto, a digitalização está
profundamente enraizada em territórios e recursos naturais. E seus impactos
socioambientais recaem de forma desproporcional sobre países do Sul Global –
entre eles, os latinoamericanos -, onde persisten dinâmicas históricas de
extração de recursos naturais que sustentam agora também a expansão da economía
digital. E a questão não se limita à infraestrutura, pois tecnologias digitais
também passaram a intermediar cada vez mais as relações sociais, econômicas e
políticas ligadas ao meio ambiente, influenciando a circulação de informações e
a participação em decisões que afetam os territórios.
À
medida que a gestão de recursos, os sistemas de monitoramento ambiental e a
produção de informação sobre os territórios dependem cada vez mais de
infraestruturas e plataformas digitais, direitos como o acesso à informação, a
transparência, a participação pública e a autodeterminação dos dados adquirem
uma dimensão ambiental cada vez mais evidente. Por isso, se queremos enfrentar
a crise climática de forma séria, o debate precisa passar a incorporar os
impactos das tecnologias e a luta deve encampar também a defesa dos direitos
digitais.
Na
prática, isso significa olhar para as infraestruturas que sustentam a
digitalização e para as relações de poder que ela aprofunda.
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Quando a tecnologia encontra o território
A
América Latina oferece exemplos reveladores dessa conexão. O Brasil, por
exemplo, é o segundo no ranking mundial de países em reservas de terras raras,
das quais pode ser extraído grupo de minerais essenciais para a fabricação de
chips, baterias, smartphones e diversos outros componentes utilizados na
infraestrutura digital. O interesse geopolítico por esses recursos, não à toa,
vem crescendo rapidamente. Em um contexto de disputa tecnológica entre Estados
Unidos e China, insumos considerados estratégicos para essa cadeia passaram a
ocupar lugar central nas políticas industriais e de segurança nacional.
Por
isso, o questionamento que deve ser realizado vai além de extrair ou não
extrair esses recursos. Deve considerar também, a posição ocupada pelos países
latinoamericanos nessa cadeia produtiva. Embora concentrem parte importante das
reservas minerais, seguem participando essencialmente das etapas de extração e
exportação de matérias primas, enquanto o processamento industrial, o
desenvolvimento tecnológico e os maiores benefícios econômicos permanecem
concentrados no Norte Global. No caso brasileiro, pesquisadores têm alertado
sobre como a corrida por terras raras pode, justamente, aprofundar uma inserção
subordinada na economia digital global, baseada no fornecimento de recursos
estratégicos sem que haja transferência significativa de tecnologia ou fortalecimento
das capacidades produtivas locais.
Essa
dinâmica também aparece de forma semelhante no fenômeno de expansão dos data
centers na América Latina. Nos últimos anos, empresas de tecnologia
estrangeiras têm mirado cada vez mais a região aproveitando-se de condições
favoráveis para instalação da infraestrutura física necessária ao armazenamento
e processamento de dados em larga escala. Além da disponibilidade de energia,
alguns países latinos oferecem extensas redes de transmissão, conectividade
internacional e disponibilidade territorial. A isso se somam escolhas
preocupantes de governos da região, que têm adotado políticas de incentivo para
atrair essas empresas, especialmente por meio de benefícios fiscais e
flexibilização regulatória.
O
Paraguai talvez seja hoje um dos exemplos mais emblemáticos desse processo. A
energia gerada pela Usina de Itaipu transformou o país em destino atraente para
projetos ligados à infraestrutura digital. Não por acaso, empresários e
investidores influentes têm intensificado sua presença no local – entre eles
Peter Thiel, bilionário do Vale do Silício e cofundador da Palantir, empresa
que é reconhecidamente uma das principais fornecedoras de tecnologias de
vigilância para o aparato militar dos Estados Unidos.
É
preocupante que o debate sobre data centers esteja aparecendo especialmente em
discursos de governos e do setor privado como uma oportunidade econômica, com
pouca ou nenhuma atenção dada a seus impactos ambientais e territoriais. Data
centers são instalações altamente intensivas em energia e água. Operam
ininterruptamente, exigem sistemas permanentes de refrigeração e podem
pressionar redes elétricas e recursos hídricos já disputados por outros usos
sociais e econômicos.
Os
efeitos não se limitam ao consumo de recursos. Um estudo recente identificou a
formação do que pesquisadores chamaram de “ilhas de calor de dados”, ou seja,
áreas ao redor de data centers onde a temperatura da superfície pode aumentar,
em média, 2°C após o início das operações. Segundo os autores, esse impacto
pode se estender por até 4,5 quilômetros ao redor das instalações, alterando
microclimas locais e produzindo efeitos sobre populações humanas e
ecossistemas. Casos analisados no estudo incluíram regiões do Ceará e do Piauí,
no Brasil, além de polos de data centers no México.
Também
crescem as preocupações sobre os efeitos dessas instalações nos territórios.
Relatórios recentes produzidos por organizações da sociedade civil apontam
obstáculos ao acesso à informação sobre consumo de água e energia,
flexibilização de regras ambientais e fragilização de mecanismos de consulta às
comunidades afetadas. Em alguns casos ainda mais problemáticos, a expansão
dessa infraestrutura tem avançado sobre territórios ocupados por comunidades
indígenas, camponesas e outras populações tradicionais, aprofundando disputas
históricas e constitutivas da América Latina como região.
A
preocupação com esses impactos já alcançou os principais mecanismos regionais
de direitos humanos. Em fevereiro de 2026, a Relatoria Especial sobre Direitos
Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comissão
Interamericana de Direitos Humanos advertiu que a expansão acelerada dos data
centers pode colocar em risco direitos como o acesso à água, à saúde e a um
meio ambiente saudável, e sustentou que os Estados deveriam adotar moratórias
para novas autorizações até que existam salvaguardas adequadas.
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A política da informação ambiental
Os
impactos da digitalização sobre a agenda ambiental ainda vão além dos
territórios onde são extraídos minerais ou instalados servidores. Eles também
se manifestam nas decisões políticas sobre como e onde informações circulam e
disputas públicas sobre temas como sustentabilidade e crise climática são
travadas.
O
enfrentamento das mudanças climáticas depende da produção e do acesso a
informações confiáveis. Isso inclui dados científicos, monitoramento ambiental,
denúncias de violações socioambientais e informações produzidas por comunidades
afetadas por empreendimentos como projetos de mineração, desmatamento ou
grandes obras de infraestrutura. Quando esses fluxos de informação são
comprometidos, a própria capacidade da sociedade de responder à crise climática
é afetada.
Nesse
contexto, o ambiente digital tornou-se um espaço central de disputa. Já há
ampla evidência empírica que mostra como plataformas digitais amplificam
conteúdos enganosos sobre questões ambientais por benefícios econômicos, a
partir de seus modelos de negócio que são baseados na maximização da atenção e
do engajamento das pessoas usuárias. Informações falsas ou sensacionalistas
tendem a gerar mais interações, aumentando seu alcance e sua rentabilidade para
as plataformas.
O
problema não se limita ao negacionismo climático tradicional. Também inclui
práticas de greenwashing, termo utilizado para descrever estratégias que
apresentam atores, produtos, serviços ou projetos como ambientalmente
responsáveis sem que isso corresponda à realidade, ocultando seus reais
impactos socioambientais. Na América Latina, esse tipo de narrativa tem sido
utilizada especialmente por governos em empresas, inclusive nas iniciativas
associadas à expansão da mineração de minerais críticos, à instalação de
grandes data centers e a empreendimentos apresentados como indispensáveis para
a transição energética ou digital, mesmo diante de seus efeitos deletérios ou
insuficientemente avaliados sobre territórios, recursos naturais e comunidades.
O mesmo
ambiente digital que amplifica narrativas negacionistas e campanhas de
greenwashing também tem sido amplamente utilizado para intimidar, desacreditar
e silenciar pessoas que denunciam conflitos socioambientais. Hoje, a América
Latina é a região mais perigosa do mundo para defensores da terra e do meio
ambiente. A Colômbia especificamente lidera o ranking de países mais letais
para esse grupo, junto ao México e ao Brasil.
Embora
a violência física seja sua manifestação mais extrema, ela não é a única forma
de silenciamento. Organizações da sociedade civil têm documentado o uso
crescente de tecnologias digitais para esse fim, seja por meio de estratégias
de vigilância ou por episódios de invasões de contas e campanhas coordenadas de
assédio online. Além de defensoras e defensores ambientais, jornalistas e
comunicadores que trabalham na pauta também são alvos recorrentes.
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São possíveis outras formas de construir tecnologia?
O
cenário produz um tom pessimista praticamente inevitável. Mas é importante
reconhecer que os exemplos apresentados até aqui não levam necessariamente a
uma crítica à existência das tecnologias em si mesmas. Eles apontam para a
necessidade de questionar os modelos políticos e econômicos que orientam seu
desenvolvimento. Afinal, para além das tecnologias em si, o debate deve sempre
ser permeado sobre quem define seus usos, quem se beneficia delas e quem arca
com seus custos.
A
própria América Latina oferece exemplos de iniciativas que seguem uma lógica
oposta e buscam construir infraestruturas digitais a partir de princípios
diferentes daqueles que predominam no modelo extrativista das grandes
plataformas e corporações tecnológicas. Em vez de depender exclusivamente de
redes controladas por empresas privadas, comunidades têm desenvolvido soluções
voltadas para suas próprias necessidades de comunicação, organização e gestão
territorial.
Um
grande exemplo é o das iniciativas de redes comunitárias de internet que vêm
sendo implementadas em diferentes países da região, entre eles Brasil, México,
Colômbia, Argentina e Nicarágua. Nesses projetos, são as comunidades – em sua
maioria situadas em áreas rurais ou isoladas, frequentemente ocupadas por
comunidades indígenas ou tradicionais -, que organizam sistemas autônomos de
telecomunicações para garantir acesso à conectividade em locais historicamente
negligenciados por operadoras comerciais. Mais do que ampliar o acesso à
internet, essas iniciativas fortalecem capacidades locais de gestão da
infraestrutura de comunicação e ampliam a autonomia das comunidades sobre
tecnologias que afetam diretamente sua vida cotidiana.
Essa
lógica também se manifesta em outras experiências de desenvolvimento de
ferramentas digitais a partir das necessidades definidas pelos próprios
territórios, como é o caso da colaboração entre as organizações Técnicas Rudas,
do México, e Diversa Studio, do Equador, junto ao povo indígena Yaqui. O
projeto combina inteligência artificial, imagens de satélite e análise
geoespacial para apoiar a gestão comunitária da água e o monitoramento das
transformações ambientais em seu território.
O
aspecto mais relevante dessa iniciativa não está na tecnologia utilizada, mas
na forma como ela é construída. Os dados produzidos permanecem acessíveis à
comunidade, as prioridades de pesquisa são definidas localmente e o objetivo
não é alimentar plataformas comerciais globais, mas apoiar processos de gestão
territorial e tomada de decisão coletiva.
Ao
mesmo tempo, como apontam perspectivas feministas e comunitárias da região,
essas experiências lembram que uma transição digital mais justa não implica
necessariamente produzir mais tecnologia. Também exige perguntar quais
tecnologias são realmente necessárias, para quais finalidades são desenvolvidas
e como reduzir seus impactos sobre os territórios e os recursos naturais.
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Onde as agendas se encontram
No Dia
Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, frisamos a importância de,
em uma economia cada vez mais atravessada por infraestruturas digitais, a
discussão sobre sustentabilidade e justiça climática incorporar também as
formas como tecnologias são produzidas, governadas e distribuídas. E, além
disso, de seguirmos travando esse debate situado em termos geográficos,
reconhecendo a posição da América Latina como fornecedora de insumos
estratégicos e palco de impactos socioambientais desproporcionais.
A
relação entre justiça climática e direitos digitais é cada vez mais nítida e
central. Ela diz respeito às condições sob as quais a transição digital está
sendo construída e a quem participa das decisões sobre seu futuro. Diz respeito
à capacidade de comunidades influenciarem projetos que afetam seus territórios,
acessarem informações de interesse público e desenvolverem tecnologias
alinhadas às suas próprias necessidades e prioridades.
Enquanto
a expansão da economia digital continuar reproduzindo padrões de concentração
de poder e deslocando seus impactos ambientais para determinados territórios, a
promessa de uma transição sustentável permanecerá dificilmente alcançável.
Fonte:
Por Marina Meira, em Outras Palavras

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