Por
uma reforma do serviço militar obrigatório
Ao
fazer 18 anos o jovem passa por transformações fundamentais, e, na maioria das
vezes inicia um percurso de maturidade fora da família. No Brasil ele passa por
um rito de passagem marcante, mas ainda de pouca elaboração nas políticas
públicas: deve se alistar no serviço militar obrigatório.
Os mais
velhos terão memórias cômicas, trágicas ou apenas constrangedoras do dia em que
tiveram que se alistar, seja pelo momento inicial, do exame médico, dos testes
de preferência do soldado ou dos vários contatos com a rotina militar ao longo
do período de serviço. Ao comparecer no quartel, talvez uma pergunta que vêm a
cabeça daquele jovem seja: “por que eu estou fazendo isso?”. Alguém então dirá
simplesmente: “pela pátria”. Mas quão honestos estamos sendo nessa resposta?
Se o
jovem vier de uma família de classe média ou rica, muito provavelmente, por
vias legítimas ou do “jeitinho brasileiro” será dispensado, e então deve voltar
mais uma vez apenas para jurar à bandeira, um rito já há muito esvaziado de
sentido. Se precisar do soldo ou quiser seguir carreira militar receberá uma
instrução que não o prepara para a vida em comunidade e sequer o insere no
mercado de trabalho. Não estamos sendo capazes de enxergar, mas estamos dando
um papel marginal a algo que deveria ser um pilar no fortalecimento do tecido
social brasileiro.
O
Brasil mantém, assim como cerca de 80 países, um serviço militar obrigatório.
Esse dever está inscrito na constituição em seu artigo 143 e regulamentado pela
lei do serviço militar. Todo ano, cerca de 1 milhão de jovens se alistam, mas
apenas cerca de 20% desses de fato o realizam. O alistamento é um processo
burocrático, com benefícios a nossa política de defesa, mas mal aproveitado
para promover a educação cívica da população e uma experiência profissional
compatível com as exigências do dia de hoje.
É de
causar espanto que temos nos debruçado tão pouco em estudar os efeitos que o
serviço militar obrigatório tem nos jovens, e sua relação quanto a perspectivas
de carreira e rendimento. Um estudo conduzido em 2020 avaliando seus efeitos na
Dinamarca chegou à conclusão de que na sua maior parte o serviço militar
obrigatório reduz as oportunidades de renda para aqueles que servem.
Estudo
publicado no American Economic Journal com dados do sorteio militar argentino
mostrou que recrutas têm maior probabilidade de desenvolver ficha criminal na
vida adulta do que não-recrutas, inclusive entre os que serviram em tempo de
paz. E se, por pura inércia, estivermos reproduzindo essas perdas aqui no
Brasil?
É
preciso repensar todo esse processo e aproveitar anos valiosos da formação da
nossa juventude. O Brasil registra um dos piores índices de confiança
institucional da América Latina. A sociedade está fragmentada, os laços
comunitários corrompidos e a construção do chamado capital social (tão
importante entre os teóricos institucionalistas) está fora do alcance das
políticas públicas. O país convive hoje com cerca de 10 milhões de jovens entre
15 e 29 anos que não estudam nem trabalham segundo o IBGE.
Como
poderíamos iniciar essa reforma? No início é preciso avaliar como o serviço
militar pode ser melhorado como política de Estado, primeiro revisando a
necessidade de contingente e aprimorando os programas de instrução militar.
Devemos
ampliar o serviço militar e construir alternativas de serviço civil adaptados a
necessidade e alcance dos serviços públicos prestados à população: Suíça e
Alemanha já possuem exemplos interessantes de serviços alternativos
remunerados, em mais variados setores, como saúde, transportes e assistência
social. Lá o jovem escolhe dentre uma gama variada de experiências práticas, a
começar por ajudar seu próprio bairro, mas podendo servir em bairros e cidades
com distintas necessidades, ajudando a quebrar o isolamento entre classes
sociais.
Uma
bolsa dá uma perspectiva de remuneração e possibilita a construção de laços com
mentores e organizações sérias que os afastam do canto da sereia do dinheiro
fácil e de atividades ilícitas. Um programa desse no Brasil ajudaria o jovem a
se sentir parte da construção de um país justo e igualitário, em um momento
crítico de sua formação quando começa seu percurso de maturidade.
Por
último é necessário reconsiderar a obrigatoriedade no seu sentido mais estrito
seja no tempo de serviço como na idade de alistamento. Embora isso possa
ensejar reforma constitucional, parece ser um caminho mais coerente com a
complexidade da sociedade Brasileira.
Há um
baixo custo fiscal de implementação. O custo por participante poderia ser
aproximadamente metade do custo atual de um conscrito no serviço militar
tradicional. Seriam 200 mil jovens por ano atuando em UBSs, escolas públicas,
projetos de defesa civil, de acolhimento de populações vulneráveis, de
mapeamento de problemas na infraestrutura urbana, lugares carentes de sangue e
ideias novas.
O
programa geraria qualificação profissional certificada – equivalente ao estágio
supervisionado reconhecido pelo MEC se conectando com o acesso a outras
políticas públicas educacionais, como a formação técnica e o FIES tendo impacto
direto sobre o desemprego juvenil. Uma plataforma digital de gestão, inspirada
em modelos de marketplace, eliminaria de estruturas pesadas e custosas de
seleção.
O
serviço civil tem o potencial de ser uma ferramenta estrutural na formação da
juventude, um recurso para quebrar preconceitos e aumentar a confiança entre
grupos sociais distintos, e resgatando os laços intergeracionais de aprendizado
mútuo. No contexto que vivemos hoje, com o crime organizado à espreita e a
perda de sentido de pertencimento na sociedade, parece urgente. É preciso
voltar aos princípios de convivência e ajuda mútua que florescem numa sociedade
amadurecida.
Fonte:
Por Diogo F. Bardal, em A Terra é Redonda

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