sexta-feira, 5 de junho de 2026

Novo tarifaço é revés para Flávio Bolsonaro, avaliam Centrão e aliados

Políticos do Centrão e mesmo aliados de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) avaliam que a imposição pelos Estados Unidos de um novo tarifaço de 25% sobre importações vindas do Brasil é um revés para a campanha presidencial do senador, que se tornou alvo do governo Lula (PT) desde o anúncio da medida.

A sugestão para que os EUA apliquem novas sobretaxas ao Brasil partiu do USTR, órgão americano responsável por comércio internacional, como resultado de uma investigação sobre supostas práticas prejudiciais ao país. A decisão sobre efetivar ou não as tarifas cabe ao presidente dos EUA, Donald Trump.

O entorno de Flávio diz acreditar numa virada de jogo pelo senador, apesar de identificarem desorientação e omissão nas primeiras respostas públicas. Enquanto o bolsonarista tem sido responsabilizado por Lula pelo tarifaço, seus aliados tentam distanciá-lo da crise que se aproxima, mas ainda não emplacaram uma narrativa de defesa nas redes.

O senador divulgou um vídeo para tentar se reposicionar na crise. Na gravação, ele alegou ter defendido a Trump abandonar novas tarifas, tentou resgatar a pauta das facções criminosas, que foi benéfica a ele, e se descolou da medida ao dizer que ela envolve outros países e antecede sua visita a Trump.

“Uma investigação que começou em 2025, muito antes da minha visita aos Estados Unidos na semana passada. A realidade é que essa tarifa é do Lula, pelo seu tom agressivo com os Estados Unidos, pelo seu discurso antiamericano”, disse.

Flávio afirmou que enviou uma carta ao governo dos EUA pedindo que as tarifas não sejam aplicadas e se colocou à disposição de Lula para ajudá-lo nisso.

Integrantes do Centrão afirmam que o novo tarifaço pode até anular os ganhos políticos colhidos por Flávio após sua visita a Trump na semana passada. Presidentes de partidos até então independentes na disputa nacional avaliam que o senador ficou desorientado após o escândalo do Master e não mediu as consequências ao se aproximar do americano neste momento.

Na avaliação desses líderes, Flávio não colocou na conta o efeito negativo sobre a economia da designação do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. A medida foi anunciada após o encontro do pré-candidato com Trump, e o senador alardeou ter tido influência na decisão da Casa Branca.

Agora, esses chefes do Centrão pontuam que Flávio tende a derreter com o anúncio de um novo tarifaço. Eles alertam, também, que uma possível ofensiva contra o Pix por parte dos EUA pode prejudicar ainda mais a situação de Flávio.

Nesta terça (2), o governo Lula passou a usar o possível novo tarifaço como forma de desgastar Flávio e reforçar a defesa da soberania, argumentando que o senador quer entregar o país aos Estados Unidos, além de colocar em risco o Pix.

Na opinião de aliados de Flávio, o tamanho do estrago para a candidatura do senador vai depender de as tarifas serem de fato aplicadas ou não. Eles apostam ainda que o bolsonarista deve seguir pontuando como o adversário mais competitivo contra Lula, o que vai manter o apoio do mercado a ele.

Uma publicação de Trump nesta terça também tem sido usada por bolsonaristas a favor de Flávio. O presidente americano escreveu que foi bom receber Flávio na Casa Branca e que o senador é um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

Para políticos ouvidos pela Folha, porém, há uma série de contradições que prejudicam Flávio na boa relação com Trump, ao mesmo tempo em que o presidente americano atendeu o pleito bolsonarista em relação às facções, o ignorou em relação às tarifas.

A coincidência temporal entre a visita de Flávio a Trump e o anúncio de possíveis novas tarifas também foi explorada pela esquerda. “Hoje, no mesmo dia em que Trump ameaça o Brasil com tarifa de 25% e ataca o Pix, ele publica sua foto com Flávio Bolsonaro dentro da Casa Branca. Coincidência? Flávio foi aos EUA pedir apoio político e, logo depois, veio uma ofensiva contra a soberania e a economia nacional”, publicou o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ).

Em entrevista pela manhã, Flávio disse que pediu a Trump para não taxar o Brasil e que novo tarifaço seria uma retaliação a Lula.

“[Eu pedi] por favor, não taxa as empresas brasileiras, só que nós temos sentado hoje na cadeira de presidente alguém que simplesmente conseguiu ganhar a desconfiança do governo americano. Eles não confiam no Lula porque ele sai de lá pedindo primeiro para não combater facções criminosas”, declarou à rádio Itatiaia.

O episódio ainda deu força para o resgate da estratégia de defesa da soberania, que alavancou Lula no primeiro tarifaço. Na época, a aplicação das taxas foi vista como responsabilidade do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que havia pedido ao governo americano sanções contra autoridades brasileiras na tentativa de livrar seu pai, Jair Bolsonaro (PL), da prisão.

Integrantes da pré-campanha de Flávio afirmam que as primeiras reações ao novo tarifaço foram ruins para o senador e mostraram que os petistas estão mobilizados em torno do tema. Em discurso nesta terça, Lula chamou o adversário de imbecil e traidor da pátria.

“Flávio Bolsonaro foi beijar as mãos do Trump enquanto ele taxa as empresas brasileiras e ataca o Pix. […] É isso o que nos separa da extrema direita: enquanto eles lutam pelos interesses estrangeiros, a gente defende a nossa pátria e a soberania nacional”, publicou o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), que concorre ao Governo de São Paulo.

Na outra ponta, bolsonaristas têm dito que a nova ameaça de tarifa se deve a erros diplomáticos e provocações de Lula aos Estados Unidos. “Enquanto o PT alimenta atritos ideológicos com o governo Trump, Flávio atua onde o Brasil precisa: no diálogo, na articulação e na defesa real dos interesses nacionais”, escreveu o deputado General Pazuello (PL-RJ).

“É por isso que a gente está na merda diplomática que estamos: em meio a uma crise com os EUA, Lula resolve partir para a ofensa contra o homem mais poderoso da diplomacia americana. É a antidiplomacia. É claro que vai continuar dando errado”, publicou o influenciador Paulo Figueiredo, que vive nos EUA e acompanhou Flávio no encontro com Trump.

•        Campanha de Flávio Bolsonaro pode ter “encenação de atentado” e culpabilização do PCC ou CV, antecipa analista

A “jogada combinada” com Marco Rubio, secretário de Estado americano, para classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas internacionais imediatamente após a passagem de Flávio Bolsonaro pelos Estados Unidos, no fim de maio, pode servir de degrau para a extrema-direita brasileira alcançar uma tentativa de emplacar uma “facada 2.0” e turbinar a candidatura de Flávio durante as eleições de 2026. A avaliação é do doutor em Ciência Política, editor do Observatório de Geopolítica e analista de relações internacionais do GGN, Pedro Costa Jr.

Na noite de segunda (1/6), Pedro Costa Jr. antecipou o possível movimento do bolsonarismo durante seu editorial no programa Observatório de Geopolítica – que é transmitido ao vivo no Youtube de segunda a sexta, sempre às 19 horas – e também em conversa com o jornalista Luís Nassif, no programa TV GGN 20 Horas. O cientista político observou que, há tempos, os irmãos Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro têm construído uma narrativa de que Flávio, pré-candidato à Presidência em 2026, pode ser alvo de atentado da mesma forma que aconteceu com Jair Bolsonaro, que levou uma facada durante o período eleitoral de 2018.

Na rede social X, Carlos Bolsonaro compartilhou o print de um artigo no Substack cujo título afirma que o Comando Vermelho (CV) planejava “mantar Flávio Bolsonaro em Minas Gerais”, e que o plano teria sido identificado pela Polícia Civil. Para Pedro Costa Jr., o clã Bolsonaro abraçou o discurso de atentado político contra seus expoentes como “método”.

“Flávio começou a usar colete a prova de balas e tem ecoado muito esse cântico de atentado. Há um método na extrema-direita. Trump sofreu três atentados nos últimos anos. O mais forte foi aquele tiro que levou perto da orelha. A extrema-direita internacional tem tentáculos e conexões entre si. Essa narrativa de que pode haver um novo atentado, emulando o que aconteceu na campanha do pai [Jair] em 2018, é como se estivéssemos tateando uma facada 2.0”, alertou Pedro Costa Jr.

Só que, desta vez, “pode haver a encenação de atentado e atribuir-se a culpa ao PCC e CV. E a partir daí, ele [Flávio] montar a narrativa de que eles [narcotraficantes] são os ‘amigos do Lula’, e ‘nós estamos fazendo o combate a isso com ajuda do Trump’, e o resultado seria esse: ‘tentaram eliminar o Flávio Bolsonaro’. É um movimento que temos que antecipar. Vão montar a narrativa de que o narcotráfico tenta eliminar aquele que tenta combatê-lo com ajuda do Trump. Isso colar no imaginário social é muito fácil. Desconstruir isso é que é muito difícil”, disparou o analista.

Para o jornalista Luís Nassif, atentados políticos têm servido como “instrumento para alavancar candidaturas”. “É só lembrar do que aconteceu com Bolsonaro. O Brasil todo pensava que se escapasse, ganharia a eleição. Então faz todo sentido essa suspeita”, respondeu a Pedro Costa Jr.

Na última sexta (29), a Secretaria de Comunicação do governo Lula emitiu uma nota oficial reagindo à decisão dos Estados Unidos. “É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país”, apontou a nota. O mesmo informe também sustentou ser um erro técnico classificar as facções criminosas brasileiras como terroristas.

•        Tarifaço: STF libera julgamento do processo contra Eduardo Bolsonaro

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), liberou para julgamento a ação penal em que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) é réu pela acusação de promover o tarifaço dos Estados Unidos contra as exportações brasileiras. A data da análise do caso ainda não foi definida.

O caso será julgado pela Primeira Turma da Corte, que também é formada pelos ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin, Cármen Lúcia, além de Moraes, relator do processo.

Em novembro do ano passado, o STF aceitou denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) no inquérito que apurou a atuação do ex-parlamentar junto ao governo dos Estados Unidos para promover o tarifaço contra as exportações brasileiras, a suspensão de vistos de ministros do governo federal e de ministros da Corte. Ele responde pelo crime de coação no curso do processo.

Desde o ano passado, Eduardo Bolsonaro está nos Estados Unidos e perdeu o mandato de parlamentar por faltar às sessões da Câmara dos Deputados.

Antes de liberar o caso para julgamento, Alexandre de Moraes determinou a notificação do ex-deputado por edital, mas ele não foi encontrado nem indicou advogado particular.

Diante da situação, o ministro autorizou que a defesa fosse realizada pela Defensoria Pública da União (DPU).

Nas alegações finais apresentadas ao Supremo, órgão defendeu a anulação do processo e disse que Moraes não pode julgar o caso poder ter sido vítima do cancelamento de vistos e das sanções financeiras oriundas da Lei Magnitsky.

“Aqui o Julgador é, ao mesmo tempo, a principal vítima das condutas que é chamado a julgar”, disse a DPU.

De acordo com a acusação feita pela PGR, Eduardo fomentou as ações dos Estados Unidos para tentar impedir o Supremo de condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro no processo da trama golpista.

“Comprovou-se que o réu deliberadamente se utilizou de graves ameaças contra as autoridades responsáveis pelo julgamento da AP 2.668, algumas concretizadas, a fim de favorecer o interesse de seu pai, livrando-o de qualquer responsabilização criminal”, argumentou a procuradoria.

 

Fonte: FolhaPress/Jornal GGN/Agencia Brasil

 

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