sexta-feira, 5 de junho de 2026

Ricardo Queiroz Pinheiro: Dark Horse e a pedagogia do escândalo

A família Bolsonaro é uma desgraça que assolou o Brasil, isso não quer dizer, aliás só reafirma, que ela não representa as profundas raízes culturais de boa parte de nosso povo. Flávio Bolsonaro é um candidato miserável, isso não quer dizer, que ele deixe de representar uma grande parcela de pessoas que vicejam nessa miséria, que se reproduzem no misto de ressentimento, autoritarismo e negação da política.

A revelação dos vínculos entre o Banco Master, a operação Dark Horse e os circuitos financeiros que irrigam o campo bolsonarista deveria, na teoria, produzir o que os analistas mais otimistas chamam de colapso de credibilidade. Vorcaro não é uma figura lateral: é o ponto de encontro entre o dinheiro dos cotistas do FGC, a arquitetura de um projeto de poder e a demonstração de que o bolsonarismo nunca foi apenas um fenômeno de rua. A base, diante de tudo isso, não se move.

Isso desconcerta a esquerda e o centro porque ambos operam, com graus distintos de ingenuidade, dentro de uma pedagogia do escândalo: a crença de que a exposição da podridão corrói o apoio. Essa crença pressupõe que o apoio se funda na confiança na probidade dos líderes. Não, não se funda. Quem apoia Flávio Bolsonaro não o apoia porque acredita que ele é honesto. Apoia porque ele encarna, com fidelidade suficiente, um conjunto de disposições culturais que antecedem o bolsonarismo e que o bolsonarismo apenas nomeou, organizou e amplificou: a desconfiança radical nas instituições, o ódio ao que se percebe como elite progressista, o autoritarismo como resposta ao medo social, e a recusa da política como espaço legítimo de mediação.

O escândalo do Dark Horse, nesse quadro, era o pangaré que faltava. A narrativa bolsonarista sai dele confirmada, por um mecanismo perverso de imunização discursiva. Se todos roubam, se o sistema todo é podre, se a mídia que denuncia também tem dono, então a denúncia é mais uma prova de que o campo adversário não quer o bem do povo, quer apenas trocar quem manda. O raciocínio é fechado por uma racionalidade cultivada durante décadas de descrença justificada, depois capturada e deformada pelo populismo de direita.

O eleitorado bolsonarista aprendeu, em parte corretamente, que as instituições brasileiras são seletivamente punitivas, que o escândalo tem endereço preferencial, que a indignação moral é um recurso distribuído de forma desigual. Quando essa percepção real é sequestrada por um discurso que a redireciona para o ódio ao PT, às minorias, à “ideologia de gênero”, ela se torna impermeável à evidência porque já incorporou a evidência como categoria de guerra, não de conhecimento.

Daí que Flávio Bolsonaro possa ser, ao mesmo tempo, um candidato sem substância e um candidato com futuro. Sua base não exige a substância que lhe falta. Mais importante é a presença, o reconhecimento, a sensação de que alguém, mesmo que miserável, fala por ela e contra os que ela identifica como seus adversários históricos.

Há, porém, uma vulnerabilidade de outra natureza. A base bolsonarista aguenta escândalo. O candidato pode não aguentar a acumulação de pequeneza. Flávio não tem o que Bolsonaro pai tinha, que era uma performance. Uma performance grotesca e autoritária, mas com energia própria, com a capacidade de ocupar o espaço emocional do eleitor. Flávio é o herdeiro sem o talento da herança. Se não entrega nem a adrenalina do confronto, nem a sensação de representação visceral que o pai entregava, o voto pode migrar para quem ofereça isso com mais eficiência. A extrema direita sobrevive a Flávio Bolsonaro. A questão é se Flávio Bolsonaro sobrevive a Flávio Bolsonaro.

A semana que o transformou no candidato que gagueja foi construída por gestos menores e acumulados que produziram uma imagem política de difícil reversão: a de um homem que nega o que está documentado, é apanhado e recomeça. O ciclo inteiro completou-se em menos de quarenta e oito horas. Na manhã de 13 de maio, questionado por jornalistas do G1, ele respondeu já querendo encerrar o assunto: “É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus.” À tarde, o Intercept publicou as mensagens e o áudio em que o próprio Flávio aparece cobrando pagamentos de Vorcaro. A negação foi o erro, e a exposição veio selá-la.

A qualidade do erro é reveladora. O pai mentia e não recuava; Flávio negou o que era documentado e recuou quando apanhado. A diferença é dramatúrgica, e na política de massas a dramaturgia tem peso de substância. O eleitorado bolsonarista suporta a denúncia criminal com certa desenvoltura, tendo incorporado faz tempo a ideia de que todos roubam e de que a acusação é arma partidária. O embaraço tem custo diferente: corrói a imagem de força que é o único capital eleitoral que o sobrenome transferiu. A gagueira política derruba onde o escândalo pouco alcança.

A eleição de 2026 será decidida pela capacidade de cada campo de mobilizar as energias que já estão lá, sedimentadas, esperando forma. O risco da esquerda e do centro democrático é continuar apostando que o escândalo faz o trabalho que a política deveria fazer. Dark Horse e Vorcaro são importantes como documentação do que o bolsonarismo é, de onde vem o seu dinheiro, de como opera sua infraestrutura. Para o eleitor que já decidiu que a denúncia é parte do problema, a tarefa é outra: a disputa, lenta, custosa e sem atalhos, das raízes culturais que o tornaram disponível para esse projeto.

•        Dark Horse é a ponta do iceberg. Por Joaquim de Carvalho

O filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro vendida como uma produção internacional financiada por capital privado estrangeiro, passou a ocupar o centro de uma teia de investigações que envolve suspeitas de desvio de emendas parlamentares, contratos públicos milionários, fintech, sorteios regionais, lavagem de dinheiro e até um caso de feminicídio.

No epicentro desse enredo aparece Karina Ferreira da Gama Bernassi, executiva da produtora Go Up Entertainment e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG que firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para instalação de redes de Wi-Fi gratuito.

Segundo o dossiê elaborado por fontes policiais, Karina teria construído um ecossistema empresarial baseado em ONGs, produtoras audiovisuais, uma fintech e empresas de “filantropia premiável”, criando uma estrutura capaz de captar dinheiro público, pulverizar recursos e remeter valores ao exterior por meio de contratos culturais.

O caso ultrapassou a esfera municipal e chegou ao Supremo Tribunal Federal. Segundo o dossiê, no que diz respeito ao Congresso Nacional, o gabinete do ministro Flávio Dino abriu diligências para apurar a destinação de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, ambas ligadas a Karina Gama.

Os nomes citados na investigação incluem os deputados federais Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon. O objetivo seria verificar se verbas enviadas às ONGs acabaram beneficiando direta ou indiretamente a estrutura da Go Up Entertainment e a produção de Dark Horse.

O dossiê afirma ainda que Mário Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil e também aparece como produtor executivo do filme. Já Eduardo Bolsonaro é apontado como produtor executivo com influência direta sobre decisões financeiras da produção.

A suspeita central é de que parte das emendas teria sido triangulada através das ONGs para financiar despesas estruturais e operacionais do longa-metragem. A produção sustenta, oficialmente, que o projeto não utilizou recursos da Lei Rouanet nem dinheiro público direto, o que, à luz das revelações recentes, soa com piada.

Paralelamente, o Departamento Estadual de Investigações Criminais, da Polícia Civil de São Paulo, apura o contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura paulistana e o Instituto Conhecer Brasil para expansão do programa Wi-Fi Livre SP. A investigação aponta suspeitas de direcionamento do edital, superfaturamento e pagamento por serviços inexistentes.

Segundo auditorias citadas no dossiê, menos de 3.200 pontos de internet teriam sido efetivamente entregues, apesar do contrato prever cerca de 20 mil instalações. Há ainda relatos de pagamentos integrais por manutenção de redes que sequer funcionavam.

O ponto mais delicado envolve a empresa Favela Conectada, ligada ao empresário Alex Leandro Bispo dos Santos. A companhia recebeu R$ 12 milhões do Instituto Conhecer Brasil para operacionalizar parte do projeto.

O nome de Alex Bispo ganhou notoriedade nacional após sua prisão sob suspeita de espancar a companheira, a influenciadora Maria Katiane Gomes da Silva, e jogá-la do 10º andar de um prédio em São Paulo.

A empresa dele havia recebido os R$ 12 milhões ligados ao programa de Wi-Fi da Prefeitura de São Paulo, como previa o contrato com uma das ONGs de Karina, que a influenciadora Maria Katiane (a vítima do feminicídio) assinou como testemunha.

A empresa Favela Conectada teria sido subcontratada para instalar 2 mil pontos de internet, embora o serviço efetivamente entregue tenha sido muito inferior ao previsto.

A pergunta que não pode ser calada: Alex devolveu dinheiro para Karina? Se devolveu, esse dinheiro entrou no esquema de lavagem de dinheiro que a Polícia Civil de São Paulo teria detectado?

A pergunta é necessária porque a morte de Katiane acabou atraindo atenção da Polícia Civil para os extratos bancários e contratos ligados ao núcleo operacional de Karina Gama, abrindo uma nova frente investigativa sobre lavagem de dinheiro e movimentações financeiras suspeitas.

Outro eixo da investigação envolve uma fintech com sede em São Paulo, descrita no documento como uma espécie de “cofre regulado” do grupo. A fintech seria responsável por processar pagamentos relacionados tanto ao Wi-Fi Livre quanto a operações de títulos de capitalização e sorteios regionais.

O dossiê -- a que a influenciadora Aline Dutra, conhecida como Esquerdogata, teve acesso -- cita operações como “Tapajós de Prêmios”, sistema de filantropia premiável que movimentaria milhões em microtransações pulverizadas no Norte e Nordeste.

Apurações realizadas por mim confirmam a veracidade das informações contidas no dossiê. Esse modelo permitiria criar grande volume de entradas financeiras difíceis de rastrear individualmente.

As investigações sustentam a hipótese de que a combinação entre ONGs, fintech e sorteios regionais teria criado um circuito fechado de circulação financeira: o dinheiro público entra nas ONGs, mistura-se ao caixa dos sorteios, é processado internamente pela fintech e reaparece como investimento cultural na produtora cinematográfica.

O dossiê aponta ainda o empresário Michael Brian Davis como operador internacional do esquema. Naturalizado norte-americano, ele aparece como sócio da Go Up Entertainment LLC nos Estados Unidos e responsável pela estrutura financeira internacional da produtora.

Segundo a análise, contratos de coprodução audiovisual permitiriam remessas ao exterior sob justificativa de investimentos culturais, dificultando o rastreamento das autoridades brasileiras. O documento também menciona supostas conexões financeiras com Daniel Vorcaro, apontado como possível financiador da operação.

O que emerge do conjunto de informações é que Dark Horse pode ser apenas a face mais visível de uma estrutura muito maior, que conecta política, dinheiro público, produção cultural, operações financeiras e influência internacional.

Embora boa parte das acusações ainda esteja sob investigação e não existam condenações, o caso já reúne elementos suficientes para provocar reações no STF, no Ministério Público, na Polícia Civil e em órgãos de controle financeiro.

E quanto mais as investigações avançam, mais o filme sobre Bolsonaro deixa de parecer cinema, e assume contornos de thriller político-policial em plena vida real, um escândalo que revela o submundo corrupto e violento da extrema direita.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

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