Ricardo
Queiroz Pinheiro: Dark Horse e a pedagogia do escândalo
A
família Bolsonaro é uma desgraça que assolou o Brasil, isso não quer dizer,
aliás só reafirma, que ela não representa as profundas raízes culturais de boa
parte de nosso povo. Flávio Bolsonaro é um candidato miserável, isso não quer
dizer, que ele deixe de representar uma grande parcela de pessoas que vicejam
nessa miséria, que se reproduzem no misto de ressentimento, autoritarismo e
negação da política.
A
revelação dos vínculos entre o Banco Master, a operação Dark Horse e os
circuitos financeiros que irrigam o campo bolsonarista deveria, na teoria,
produzir o que os analistas mais otimistas chamam de colapso de credibilidade.
Vorcaro não é uma figura lateral: é o ponto de encontro entre o dinheiro dos
cotistas do FGC, a arquitetura de um projeto de poder e a demonstração de que o
bolsonarismo nunca foi apenas um fenômeno de rua. A base, diante de tudo isso,
não se move.
Isso
desconcerta a esquerda e o centro porque ambos operam, com graus distintos de
ingenuidade, dentro de uma pedagogia do escândalo: a crença de que a exposição
da podridão corrói o apoio. Essa crença pressupõe que o apoio se funda na
confiança na probidade dos líderes. Não, não se funda. Quem apoia Flávio
Bolsonaro não o apoia porque acredita que ele é honesto. Apoia porque ele
encarna, com fidelidade suficiente, um conjunto de disposições culturais que
antecedem o bolsonarismo e que o bolsonarismo apenas nomeou, organizou e
amplificou: a desconfiança radical nas instituições, o ódio ao que se percebe
como elite progressista, o autoritarismo como resposta ao medo social, e a
recusa da política como espaço legítimo de mediação.
O
escândalo do Dark Horse, nesse quadro, era o pangaré que faltava. A narrativa
bolsonarista sai dele confirmada, por um mecanismo perverso de imunização
discursiva. Se todos roubam, se o sistema todo é podre, se a mídia que denuncia
também tem dono, então a denúncia é mais uma prova de que o campo adversário
não quer o bem do povo, quer apenas trocar quem manda. O raciocínio é fechado
por uma racionalidade cultivada durante décadas de descrença justificada,
depois capturada e deformada pelo populismo de direita.
O
eleitorado bolsonarista aprendeu, em parte corretamente, que as instituições
brasileiras são seletivamente punitivas, que o escândalo tem endereço
preferencial, que a indignação moral é um recurso distribuído de forma
desigual. Quando essa percepção real é sequestrada por um discurso que a
redireciona para o ódio ao PT, às minorias, à “ideologia de gênero”, ela se
torna impermeável à evidência porque já incorporou a evidência como categoria
de guerra, não de conhecimento.
Daí que
Flávio Bolsonaro possa ser, ao mesmo tempo, um candidato sem substância e um
candidato com futuro. Sua base não exige a substância que lhe falta. Mais
importante é a presença, o reconhecimento, a sensação de que alguém, mesmo que
miserável, fala por ela e contra os que ela identifica como seus adversários
históricos.
Há,
porém, uma vulnerabilidade de outra natureza. A base bolsonarista aguenta
escândalo. O candidato pode não aguentar a acumulação de pequeneza. Flávio não
tem o que Bolsonaro pai tinha, que era uma performance. Uma performance
grotesca e autoritária, mas com energia própria, com a capacidade de ocupar o
espaço emocional do eleitor. Flávio é o herdeiro sem o talento da herança. Se
não entrega nem a adrenalina do confronto, nem a sensação de representação
visceral que o pai entregava, o voto pode migrar para quem ofereça isso com
mais eficiência. A extrema direita sobrevive a Flávio Bolsonaro. A questão é se
Flávio Bolsonaro sobrevive a Flávio Bolsonaro.
A
semana que o transformou no candidato que gagueja foi construída por gestos
menores e acumulados que produziram uma imagem política de difícil reversão: a
de um homem que nega o que está documentado, é apanhado e recomeça. O ciclo
inteiro completou-se em menos de quarenta e oito horas. Na manhã de 13 de maio,
questionado por jornalistas do G1, ele respondeu já querendo encerrar o
assunto: “É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus.” À
tarde, o Intercept publicou as mensagens e o áudio em que o próprio Flávio
aparece cobrando pagamentos de Vorcaro. A negação foi o erro, e a exposição
veio selá-la.
A
qualidade do erro é reveladora. O pai mentia e não recuava; Flávio negou o que
era documentado e recuou quando apanhado. A diferença é dramatúrgica, e na
política de massas a dramaturgia tem peso de substância. O eleitorado
bolsonarista suporta a denúncia criminal com certa desenvoltura, tendo
incorporado faz tempo a ideia de que todos roubam e de que a acusação é arma
partidária. O embaraço tem custo diferente: corrói a imagem de força que é o
único capital eleitoral que o sobrenome transferiu. A gagueira política derruba
onde o escândalo pouco alcança.
A
eleição de 2026 será decidida pela capacidade de cada campo de mobilizar as
energias que já estão lá, sedimentadas, esperando forma. O risco da esquerda e
do centro democrático é continuar apostando que o escândalo faz o trabalho que
a política deveria fazer. Dark Horse e Vorcaro são importantes como
documentação do que o bolsonarismo é, de onde vem o seu dinheiro, de como opera
sua infraestrutura. Para o eleitor que já decidiu que a denúncia é parte do
problema, a tarefa é outra: a disputa, lenta, custosa e sem atalhos, das raízes
culturais que o tornaram disponível para esse projeto.
• Dark Horse é a ponta do iceberg. Por
Joaquim de Carvalho
O filme
Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro vendida como uma produção
internacional financiada por capital privado estrangeiro, passou a ocupar o
centro de uma teia de investigações que envolve suspeitas de desvio de emendas
parlamentares, contratos públicos milionários, fintech, sorteios regionais,
lavagem de dinheiro e até um caso de feminicídio.
No
epicentro desse enredo aparece Karina Ferreira da Gama Bernassi, executiva da
produtora Go Up Entertainment e presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB),
ONG que firmou um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para
instalação de redes de Wi-Fi gratuito.
Segundo
o dossiê elaborado por fontes policiais, Karina teria construído um ecossistema
empresarial baseado em ONGs, produtoras audiovisuais, uma fintech e empresas de
“filantropia premiável”, criando uma estrutura capaz de captar dinheiro
público, pulverizar recursos e remeter valores ao exterior por meio de
contratos culturais.
O caso
ultrapassou a esfera municipal e chegou ao Supremo Tribunal Federal. Segundo o
dossiê, no que diz respeito ao Congresso Nacional, o gabinete do ministro
Flávio Dino abriu diligências para apurar a destinação de emendas parlamentares
ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura, ambas ligadas a
Karina Gama.
Os
nomes citados na investigação incluem os deputados federais Mário Frias, Bia
Kicis e Marcos Pollon. O objetivo seria verificar se verbas enviadas às ONGs
acabaram beneficiando direta ou indiretamente a estrutura da Go Up
Entertainment e a produção de Dark Horse.
O
dossiê afirma ainda que Mário Frias destinou cerca de R$ 2 milhões em emendas
ao Instituto Conhecer Brasil e também aparece como produtor executivo do filme.
Já Eduardo Bolsonaro é apontado como produtor executivo com influência direta
sobre decisões financeiras da produção.
A
suspeita central é de que parte das emendas teria sido triangulada através das
ONGs para financiar despesas estruturais e operacionais do longa-metragem. A
produção sustenta, oficialmente, que o projeto não utilizou recursos da Lei
Rouanet nem dinheiro público direto, o que, à luz das revelações recentes, soa
com piada.
Paralelamente,
o Departamento Estadual de Investigações Criminais, da Polícia Civil de São
Paulo, apura o contrato de R$ 108 milhões firmado entre a Prefeitura paulistana
e o Instituto Conhecer Brasil para expansão do programa Wi-Fi Livre SP. A
investigação aponta suspeitas de direcionamento do edital, superfaturamento e
pagamento por serviços inexistentes.
Segundo
auditorias citadas no dossiê, menos de 3.200 pontos de internet teriam sido
efetivamente entregues, apesar do contrato prever cerca de 20 mil instalações.
Há ainda relatos de pagamentos integrais por manutenção de redes que sequer
funcionavam.
O ponto
mais delicado envolve a empresa Favela Conectada, ligada ao empresário Alex
Leandro Bispo dos Santos. A companhia recebeu R$ 12 milhões do Instituto
Conhecer Brasil para operacionalizar parte do projeto.
O nome
de Alex Bispo ganhou notoriedade nacional após sua prisão sob suspeita de
espancar a companheira, a influenciadora Maria Katiane Gomes da Silva, e
jogá-la do 10º andar de um prédio em São Paulo.
A
empresa dele havia recebido os R$ 12 milhões ligados ao programa de Wi-Fi da
Prefeitura de São Paulo, como previa o contrato com uma das ONGs de Karina, que
a influenciadora Maria Katiane (a vítima do feminicídio) assinou como
testemunha.
A
empresa Favela Conectada teria sido subcontratada para instalar 2 mil pontos de
internet, embora o serviço efetivamente entregue tenha sido muito inferior ao
previsto.
A
pergunta que não pode ser calada: Alex devolveu dinheiro para Karina? Se
devolveu, esse dinheiro entrou no esquema de lavagem de dinheiro que a Polícia
Civil de São Paulo teria detectado?
A
pergunta é necessária porque a morte de Katiane acabou atraindo atenção da
Polícia Civil para os extratos bancários e contratos ligados ao núcleo
operacional de Karina Gama, abrindo uma nova frente investigativa sobre lavagem
de dinheiro e movimentações financeiras suspeitas.
Outro
eixo da investigação envolve uma fintech com sede em São Paulo, descrita no
documento como uma espécie de “cofre regulado” do grupo. A fintech seria
responsável por processar pagamentos relacionados tanto ao Wi-Fi Livre quanto a
operações de títulos de capitalização e sorteios regionais.
O
dossiê -- a que a influenciadora Aline Dutra, conhecida como Esquerdogata, teve
acesso -- cita operações como “Tapajós de Prêmios”, sistema de filantropia
premiável que movimentaria milhões em microtransações pulverizadas no Norte e
Nordeste.
Apurações
realizadas por mim confirmam a veracidade das informações contidas no dossiê.
Esse modelo permitiria criar grande volume de entradas financeiras difíceis de
rastrear individualmente.
As
investigações sustentam a hipótese de que a combinação entre ONGs, fintech e
sorteios regionais teria criado um circuito fechado de circulação financeira: o
dinheiro público entra nas ONGs, mistura-se ao caixa dos sorteios, é processado
internamente pela fintech e reaparece como investimento cultural na produtora
cinematográfica.
O
dossiê aponta ainda o empresário Michael Brian Davis como operador
internacional do esquema. Naturalizado norte-americano, ele aparece como sócio
da Go Up Entertainment LLC nos Estados Unidos e responsável pela estrutura
financeira internacional da produtora.
Segundo
a análise, contratos de coprodução audiovisual permitiriam remessas ao exterior
sob justificativa de investimentos culturais, dificultando o rastreamento das
autoridades brasileiras. O documento também menciona supostas conexões
financeiras com Daniel Vorcaro, apontado como possível financiador da operação.
O que
emerge do conjunto de informações é que Dark Horse pode ser apenas a face mais
visível de uma estrutura muito maior, que conecta política, dinheiro público,
produção cultural, operações financeiras e influência internacional.
Embora
boa parte das acusações ainda esteja sob investigação e não existam
condenações, o caso já reúne elementos suficientes para provocar reações no
STF, no Ministério Público, na Polícia Civil e em órgãos de controle
financeiro.
E
quanto mais as investigações avançam, mais o filme sobre Bolsonaro deixa de
parecer cinema, e assume contornos de thriller político-policial em plena vida
real, um escândalo que revela o submundo corrupto e violento da extrema
direita.
Fonte:
Outras Palavras/Brasil 247

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