Eugênio
Bucci: Quando a farda estapeia a beca
Em
licença-prêmio, eu estava fora do Brasil. Recebi relatos de docentes e
estudantes da minha universidade. Foi aflitivo acompanhar, de longe, tamanho
ultraje contra a Universidade de São Paulo.
Vou aos
fatos. Na madrugada de domingo, por volta de quatro da manhã, policiais
militares fantasiados de SWAT arrancaram de dentro da reitoria, à força, alunas
e alunos que tinham ocupado o prédio dois dias antes. Segundo depoimentos de
todas as testemunhas, houve agressões gratuitas e descabidas. A desocupação se
deu a tapas e pontapés.
Em
vídeos e fotografias que os manifestantes conseguiram fazer, vemos, num
corredor polonês, cassetetes espancando jovens desarmados. Foi um ritual de
aviltamento, sujeição e sadismo, com bombas de efeito moral, ou imoral.
“Dezenas de estudantes foram feridos”, declarou à rádio CBN o aluno Gabriel
Borges, do Diretório Central dos Estudantes. Segundo ele, “alguns tiveram que
ser hospitalizados com fratura no braço, fratura no nariz”. Houve quatro
prisões, ainda que por poucas horas.
Desde o
fim da ditadura militar, não é a primeira vez que uma coisa desse tipo
acontece. Não é nem a segunda ou a terceira. Vira e mexe, a brutalidade das
patentes faz da universidade o seu alvo preferencial. Em 2017, numa tarde em
que o Conselho Universitário deveria se reunir, na Cidade Universitária, houve
outro espetáculo de estupidez. Esse eu vi. Membro do Conselho, eu estava lá.
Centenas de estudantes protestavam em torno das grades da reitoria. A tropa
chegou. Eu e alguns colegas tentamos conversar com o oficial no comando.
Inutilmente. Alunos meus sofreram cortes na cabeça. Eu os vi correr
ensanguentados.
Agora
foi pior. A pretexto de promover a reintegração de posse do edifício, os
coturnos pisotearam o saber e, para não deixar dúvidas, pisotearam também as
formalidades jurídicas. Em comunicados públicos, coletivos estudantis
asseguraram que não viram nenhum mandado com os policiais. Entre docentes, o
desconforto é ainda maior. Departamentos e unidades divulgaram comunicados
rechaçando a truculência.
Reações
vieram. Ao menos isso. Na segunda-feira, no centro da cidade, uma manifestação
estudantil diante da sede do CRUESP (essa entidade de nome estranho, que soa
como “cruela cruel”, constituída pelas reitorias das três universidades
públicas paulistas) expressou sua inconformidade – e recebeu da polícia a
sordidez costumeira. Na terça-feira, o jornal Estado de S. Paulo noticiou:
“alunos de Medicina da USP aderem à greve e deixam de atender no HC”. A tensão
ganha dimensões mais fortes, sem pacificação à vista.
Nessas
horas, sempre aparece quem queira jogar a culpa nos estudantes. Tenhamos
cuidado. Claro que podemos ter reservas em relação a certos métodos do
movimento estudantil. Eu mesmo – que, na reta dos vinte anos, fiz piquetes,
assembleias, ocupações e passeatas – tenho os meus senões. Em mais de uma
ocasião, divergi publicamente de algumas condutas.
Tudo
nessa matéria é passível de debate, mas o que está em pauta é algo muito mais
grave e mais premente. A situação que se escancara diante dos nossos olhos é de
outra natureza: uma agressão despropositada contra nossa autonomia, nossa
tradição e nosso modo de vida. Nossas alunas e nossos alunos podem por vezes se
exceder, mas, se agora apanham das autoridades, a culpa definitivamente não é
deles. Eles são vítimas, apenas vítimas. A USP em sua totalidade é vítima. Se
não enxergarmos esse fato simples e cristalino não teremos entendido nada.
A
infâmia fardada que se abateu sobre a nossa instituição destroça todos os
ideais que, há séculos, inspiram as melhores universidades do mundo. A
comunidade acadêmica tem total consciência disso. Tanto é assim que, ainda no
domingo, a própria reitoria, em nota oficial, reclamou de não ter sido avisada
com antecedência da ação policial.
Além
disso, a nota condenou brutalidade: “A USP repudia que a violência substitua o
diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática como forma de
avanço de pautas e solução de controvérsias”. Agora, cabe ao governo apurar os
abusos cometidos e punir os responsáveis. Um insulto tão covarde, perpetrado na
escuridão da noite, dentro do nosso prédio mais solene, deve ser examinado à
luz do dia.
É
verdade que o governador parece ter outra opinião. Dando respaldo à pancadaria,
ele declarou que a universidade “não pode ser um espaço de baderna” (Folha de
S.Paulo, edição online, terça-feira). Ora, a baderna só se instalou no campus
quando a mão armada do Estado foi até lá para esbofetear a geração a quem
dedicamos nosso trabalho e nossa vida. Se governador acredita que a disciplina
da caserna pode dar jeito nas nossas escolas, mas está errado. A disciplina da
caserna aniquila o sentido da palavra universidade.
O que
nos atropela agora é um projeto de poder opressivo e criminoso. O autoritarismo
late para a cultura, as artes, as ciências, a justiça, o conhecimento e a
informação. O ato ignominioso da Polícia Militar, no domingo, Dia das mães, é
parte de desse projeto obscurantista. Não pode ficar assim. Bem vale uma greve.
• Educação: o descarte do professor e o do
sistema. Por Artur Sabino de Carvalho
A
sociedade brasileira aponta à educação como a base para o futuro; contudo,
segundo dados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico), o Brasil ainda figura nas últimas posições no ranking de
valorização docente, com um dos piores salários de professores do planeta. É
preciso refletir sobre como essa contradição é construída e os aspectos
estruturais intrínsecos à educação brasileira. Em meio a um cenário de luta
sindical, piso salarial desrespeitado, estereótipos da mídia e violência em
sala de aula, os educadores de hoje são vistos como um projeto de descarte, só
utilizados para a manutenção da base social e desvalorizados constantemente.
De
acordo com o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, um terço dos
municípios brasileiros desrespeitava o piso salarial do magistério a
professores da rede pública em 2023. Além disso, a região Sudeste, mais
abastada do Brasil, é a região que pior paga seus docentes, com cerca de 45% de
suas prefeituras desprezando o piso do magistério.
Como
afirmou Darcy Ribeiro, há mais de três décadas, a crise da educação nunca foi
acidente, mas um projeto. Em meio ao avanço do neoliberalismo, uma ideologia
que prega a desestatização e a prevalência da propriedade privada, o Brasil
sofreu diversos cortes financeiros em áreas estratégicas. O Novo Teto de Gastos
impôs uma série de limitações e obstáculos para o desenvolvimento de setores
fundamentais do governo, um deles sendo a educação. Os principais beneficiários
do orçamento público brasileiro são os rentistas, e não as dezenas de milhões
de estudantes da rede pública de ensino.
O
excelente texto “A Cruzada de Haddad contra a Saúde e Educação”, escrito por
Antônio Martins, aborda toda a questão do neoliberalismo opositor do
desenvolvimento brasileiro; além disso, também reflete acerca do neoliberalismo
ser uma força histórica que não se prende aos governos, estando presente no
atual governo de Lula.
Nesse
período, foram ampliados os projetos de Parcerias Público-Privadas (PPP), que
exigem debate do campo educacional. Por exemplo, o Projeto Somar, criado em
2021 e continuado no governo de Romeu Zema, em Minas Gerais, pretende combinar
gestão pública com privada em mais de 80 escolas estaduais. Após a forte luta
sindical do Sind-UTE/MG, o projeto está paralisado e num impasse jurídico desde
2025, com apenas 3 escolas-piloto em funcionamento.
Já o
Novas Escolas, proposto em São Paulo no governo Tarcísio de Freitas, prevê a
construção de 33 escolas, em concessão de 25 anos, junto de um orçamento
bilionário para a empresa responsável. Em abril de 2026, foi inaugurada a
primeira escola do programa, já em funcionamento. Diferentemente do Projeto
Somar, o Novas Escolas foi aceito mesmo em meio a críticas.
Exemplo
mais preciso desse fenômeno é a atual luta do Sindicato dos Trabalhadores e
Professores dos Estabelecimentos Privados de Ensino de Campina Grande
(SINTENP), que anuncia paralisação por conta da sobrecarga e dos baixos
salários. No Estado da Paraíba a legislação obriga as instituições de ensino a
fornecerem estrutura devida para as mais diversas ocasiões relacionadas à
educação. No entanto, o que há, de fato, é a quebra dessa legislação, pois as
escolas não mantêm uma estrutura adequada para a prática do ensino e obrigam os
funcionários a se exaurirem em busca de soluções. Apesar de seu trabalho
excessivo, para solucionar questões que não deveriam existir, os salários são
sufocados de maneira mais agressiva, a desafiar ainda mais os direitos dos trabalhadores.
Não só
a estrutura precária de trabalho é problema, mas também o baixo salário é um
desafio. O Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sintempl)de
Campina Grande registrou uma decisão unilateral de cada escola de Campina
Grande, centro do confronto sindical, de ajustar um aumento da mensalidade das
escolas variando entre 10% e 13%. Paralelamente, o aumento da mensalidade não
acompanha um possível aumento do salário dos funcionários, que permanece
desrespeitado e menosprezado.
O
trabalho excessivo dos funcionários também significa a dificuldade de atender
às necessidades de estudantes neurodivergentes. Dentre as reivindicações do
Sintemp, está a remuneração adequada
para cada funcionário que teve de exercer uma função de mediador de aluno com
esta condição. É inadmissível que a instituição possa, de forma parasitária,
cobrar aumento de mensalidade e, simultaneamente, terceirizar o trabalho dos
funcionários para não entregar a mínima estrutura de funcionamento. É entregar
um ambiente conflituoso e estressante, não só para o funcionário explorado, mas
também para o aluno neuroatípico.
O
problema não se restringe à rede privada. O percentual de professores
temporários na rede estadual chega a de 52%. Trata-se, em grande medida, de um
mecanismo que, ao fragilizar a estabilidade do professor, o insere em uma
relação de dependência direta com o poder político local. A ausência de
concurso público e a natureza transitória do contrato produzem uma condição de
vulnerabilidade permanente. O docente temporário passa a depender da renovação
contratual, frequentemente subordinada à discricionariedade de gestores
públicos, como prefeitos e secretários de educação. Tal dependência não raro se
converte em instrumento de coerção indireta, sobretudo em períodos eleitorais.
Mas não
são apenas os vínculos precários e os salários baixos que compõem o projeto de
descarte. Há também um discurso que culpa o professor pelo fracasso escolar. A
respeito do senso comum neoliberal, que vê a avaliação por desempenho como
solução, pesquisadores da Universidade do Texas e da Cambridge University Press
demonstram que os chamados “modelos de valor agregado” apresentam três falhas
fatais: falha causal, falha de escala e falha estatística.
Falha
causal: Afirmar que mudanças nas notas dos alunos são causadas pelo professor
ignora dezenas de variáveis — condição socioeconômica, apoio familiar,
alimentação, saúde mental, estrutura da escola. Em ambiente não controlado,
essa relação é extremamente frágil.
Falha
de escala: Pressupor que testes aplicados em séries diferentes podem ser
comparados igualmente é “heroico”, ou seja, sem base empírica sólida.
Falha
estatística: Dados faltantes e amostras pequenas tornam as estimativas anuais
de “crescimento” pouco confiáveis.
Medir a
atuação do professor por nota de aluno, sem controlar variáveis
socioeconômicas, é como medir a eficácia de um médico sem considerar se o
paciente chegou ao hospital já em estado terminal. Ademais, quando o professor
é avaliado pela “satisfação do cliente”, ele deixa de ser educador para
tornar-se prestador de serviços. O sistema de avaliação por desempenho, ao
incorporar a opinião de alunos e pais como métrica, não estimula qualidade
pedagógica, mas o achatamento curricular e rebaixamento de padrões.
O
projeto de desprezo aos membros do aparelho escolar não é resultado de mau
planejamento; na verdade, trata-se de um planejamento bem executado. O
arquiteto dessa estrutura não são somente alguns governos — embora esses
governos ampliem a estrutura —, mas sim todo o paradigma neoliberal de décadas
que nossa sociedade enfrenta.
Ou
seja, o projeto de descarte docente não é falha do sistema, é função dele. São
necessárias mudanças vastas para que se possa enxergar uma nova realidade dos
trabalhadores da formação humana; é inviável para o futuro do Brasil um cenário
tão absurdo e desastroso da educação. Hoje, o que se quer não são cidadãos
críticos, mas trabalhadores treinados para executar. E para isso, o professor
precisa ser descartável. Diferentemente do que sustenta o pensamento
neoliberal, valorizar o magistério não é privilégio — é condição para uma
sociedade que não se limite a reproduzir desigualdades. Logo, é preciso nomear
o projeto para enfrentá-lo: o professor não é descartável, porém o sistema que
o trata como lixo — esse sim, precisa ser descartado.
Fonte:
A Terra é Redonda/Outras Palavras

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