Câmara
dos EUA aprova resolução que limita poderes de Trump
A
Câmara dos Representantes dos Estados Unidos (EUA) aprovou nesta
quarta-feira (3/6) uma medida que busca impedir o presidente Donald Trump de realizar novas
ações militares contra o Irã.
A
votação foi apertada, com 215 a favor e 208 contra — quatro republicanos se
juntaram aos democratas em uma rara demonstração pública de desaprovação
da guerra, iniciada em
fevereiro.
Esta
foi a quarta tentativa da Câmara de limitar os poderes de guerra de Trump, que,
segundo críticos, precisam de aprovação do Congresso.
A
resolução ainda precisa passar pelo Senado, que é controlado pelos
Republicanos. Mesmo que seja aprovada, é improvável que ela consiga restringir
totalmente as ações militares contra o Irã.
Trump
poderia vetar a medida, e para derrubar o veto seria necessária uma maioria de
dois terços em ambas as Casas legislativas.
Em
maio, o Senado conseguiu avançar em uma resolução semelhante, após sete
tentativas frustadas. Apesar disso, ainda não houve votação no plenário.
Na
votação desta quarta, os republicanos Thomas Massie, Brian Fitzpatrick, Tom
Barrett e Warren Davidson se juntaram aos democratas para aprovar a resolução
na Câmara.
O
democrata Jared Golden, do Maine, que antes havia sido contra as medidas,
declarou apoio desta vez.
"Somente
o Congresso declara guerra, isso é algo que certamente precisamos
proteger", disse Barrett, republicano de Michigan.
Questionado
se temia represálias de Trump por seu voto, Barrett respondeu: "Eu voto de
acordo com minha consciência, pelo que acho certo, e estou disposto a aceitar
isso."
O
deputado Gregory Meeks, principal democrata no Comitê de Relações Exteriores da
Câmara, descreveu a votação como uma "repreensão bipartidária
significativa à guerra ilegal do presidente Trump no Irã e o primeiro passo
para encerrá-la de uma vez por todas".
Meeks
afirmou que Trump não conseguiu atingir os objetivos declarados da guerra, ao
mesmo em que aumentou os preços dos combustíveis no país e tornou ainda mais
difícil uma solução diplomática para o programa nuclear iraniano.
"A
aprovação desta medida hoje sinaliza um ponto de virada significativo: cada vez
mais republicanos estão ouvindo seus eleitores, que não querem outra guerra sem
fim no Oriente Médio", disse.
Os
Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro. O Irã
respondeu atacando Israel e Estados aliados dos EUA no Golfo, e efetivamente
fechou o Estreito de Ormuz, uma via marítima vital para o transporte global.
Em
abril, os EUA anunciaram que iriam impor um bloqueio a navios que viajassem de
ou para a costa do Irã.
No dia
08 de abril, os dois países anunciaram um acordo inicial de cessar-fogo.
Apesar
dessa trégua, os EUA realizaram novos ataques contra o Irã nos últimos dias,
com Teerã respondendo com ataques ao Kuwait, um aliado dos EUA.
Antes
da votação, Trump voltou a afirmar que as negociações para encerrar a guerra
estão indo "muito bem" e poderiam ser finalizadas já neste fim de
semana.
"Nós
os atingimos com força na noite anterior, e também na noite anterior a
essa", disse Trump a repórteres na Casa Branca na quarta-feira,
referindo-se aos ataques no Irã.
"Algumas
pessoas diriam que eles foram ligeiramente provocados, porque tomamos uma ação
forte por um motivo diferente, então eles estavam apenas revidando."
O
presidente acrescentou que a maioria dos membros de sua administração espera
encerrar o conflito em breve com um acordo "sem matar todo mundo".
"Em
teoria, eles estão bem perto de assinar. Na verdade, nós nos demos muito bem
com eles."
¨
Quebra da hegemonia dos EUA arrasta aliados na esteira da
turbulência, apontam especialistas
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmam que
antigos parceiros de Washington, como a Europa Ocidental, estão escanteados nos
planos do governo Trump, enquanto novos amigos, como Buenos Aires, são
subjulgados.
Os
Estados Unidos tentaram, ao longo de múltiplos governos democratas e
republicanos, imprimir uma relação de hegemonia global após a Segunda
Guerra Mundial. No Ocidente, Washington parecia reinar sem grandes
dificuldades através de mecanismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas
(ONU),
onde recebia forte apoio de países da Europa e pouquíssima resistência,
especialmente nas Américas.
Entretanto,
após décadas de controle baseados nos campos econômico, por meio do Banco
Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), e militar, com a Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Casa Branca tem esbarrado no teto de
suas aspirações de gerenciamento mundial.
Capitaneada
por países como China e Rússia e grupos como o BRICS, a ideia cada vez mais
forte de um mundo multipolar enfraquece a hegemonia norte-americana e, de
sobra, arrasta para uma crise política seus aliados
mais próximos.
Em
entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas
afirmaram que parceiros de longa data da Casa Branca, como os países da Europa
Ocidental, não são mais prioridade de Washington. Já os novos aliados,
como a Argentina, precisam lidar com
o subjulgamento da atual gestão estadunidense.
William
Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e
Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), explica que o
governo Trump promoveu uma grande mudança nas relações externas da Casa
Branca, o que causou ressentimento em aliados de longa data.
Para
Gonçalves, um exemplo é o encontro de Donald Trump com o presidente
da China, Xi Jinping, que mostra uma nova configuração da política
internacional, na qual a Europa passou a ter papel secundário na
estratégia de Washington.
"Aquela
[ordem] era representada pelo Joe Biden, do consenso bipartidário, segundo o
qual a OTAN na Europa tinha uma importância muito grande para Trump. Não tem.
Ele não desligou os EUA formalmente da OTAN, mas a importância que ele atribui
à OTAN é muito pequena. A Aliança Atlântica deixou de ter o significado que
tinha. E isso cria grandes mudanças, porque a Europa se sentia bem sendo
liderada pelos EUA."
Na
visão de Gonçalves, o fim do governo Biden marcou a transição de um fim de
capítulo para a Europa. Agora, os olhos de Washington se viram para Pequim.
"A
ideia de Trump é rejeitar a ideia de multipolarização e estabelecer bases de
uma bipolarização com a China. Uma bipolarização diferente daquela da Guerra
Fria, uma vez que não estamos diante de mudança de sistema, de confronto de
sistemas. Todos são capitalistas, todos estão situados no mesmo mercado
internacional. Agora, quando eu digo que é necessário pensar a ideia de aliado
se tratando de Trump, é que ele não pensa em alianças, ele pensa em
imposição."
Roberto
Goulart Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de
Brasília (UnB), vê os Estados Unidos como líder
da ordem internacional liberal, em uma posição de hegemonia
predatória que não permite o crescimento de aliados.
"Essa
hegemonia predatória significa que os EUA passaram a colocar, em primeiro
lugar, os seus interesses mais imediatos e a deixar a condução do conjunto das
relações entre esses países [parceiros] em segundo plano."
Para
Menezes, o atual governo em Washington tenta tutelar a Europa, o que, de
certa forma, revolta as autoridades do continente, que por muito tempo
aproveitaram a vantagem no status quo global vigente.
"Os
europeus, que tanto se beneficiaram dessa ordem internacional liderada pelos
EUA, nesse momento vivem esse estremecimento da relação. Nós também sabemos que
essa ordem está em declínio, ainda que em câmera lenta, de certa forma, mas não
deixa de ser também um declínio que, sobretudo, se acelerou a partir da crise
de 2008."
<><>
América grande novamente?
Trump
se lançou à candidatura presidencial com o slogan "Faça a América
Grande Novamente", que ficou conhecido no Brasil por sua sigla em
inglês, MAGA.
Para
Gonçalves, se os Estados Unidos podem ser grandes novamente, na visão de Trump,
é porque em algum momento deixaram de ser. Essa busca pela hegemonia,
contudo, vem com a diferença nas relações institucionais entre
aliados e até governos antagônicos ao projeto norte-americano.
"O
relacionamento que Trump estabelece com China e Rússia é baseado no respeito
mútuo. Agora, em relação aos países mais fracos, ele usa da brutalidade, e não
há como se livrar disso. O caso da Venezuela é exemplar. Todos os recursos
militares de inteligência, o poder naval, tudo isso foi usado de uma vez, e não
houve como os venezuelanos resistirem."
Se por
um lado os Estados Unidos querem mostrar ao mundo uma imposição política, há
também aqueles aliados que conseguem dobrar essas diretrizes
norte-americanas, como Israel. Segundo Gonçalves, Tel Aviv não é um parceiro
qualquer, tornando-se "uma questão de política interna dos Estados
Unidos" pela capacidade da comunidade judaica estadunidense
em financiar as custosas campanhas presidenciais.
"O
peso que os judeus têm na sociedade norte-americana, seja do ponto de vista
social, político ou econômico, influencia muito na política doméstica dos EUA.
Nenhum político que queira fazer carreira nos EUA, que tenha pretensões
políticas mais amplas, se coloca contra o Estado de Israel."
Menezes
explica que a queda norte-americana começa nos anos 2000 com a guerra do
Iraque, no governo de George W. Bush, e, posteriormente, com a crise
financeira de 2008. Após esses eventos, grupos multipolares fora da governança
ocidental tradicional, como o BRICS,
surgiram redesenhando a ordem internacional.
Na
visão do professor da UnB, os Estados Unidos relutam em admitir uma crise
de sua hegemonia, impedindo qualquer adaptação ao mundo contemporâneo. Segundo
Menezes, a queda norte-americana acontece no dólar, na liderança
tecnológica e até nos valores sociais impostos como certos.
"Essa
realidade global vai se impondo aos EUA, ao governo Trump, de tal modo, é
claro, que também às elites políticas nos EUA e à elite intelectual. […] O
consenso mínimo que eles têm, me parece, é de que Donald Trump acelera esse
processo de perda de prestígio dos Estados Unidos."
¨
Não é mais possível retornar ao auge das relações entre
China e EUA, diz analista
Um
retorno aos melhores tempos anteriores nas relações entre a China e os EUA é
impossível, devido à concorrência contínua entre os países, disse à Sputnik
Nelson Wong, analista político chinês, no decorrer do 29º Fórum Econômico
Internacional (SPIEF 2026).
Wong
destacou que a visita do presidente dos EUA, Donald Trump, foi necessária para
impedir a escalada do conflito, e que essa é uma pequena estabilização.
"Pessoalmente,
não acho que as relações entre China e Estados Unidos voltarão aos seus
melhores dias. Isso é irrevogável, pois a competição entre os dois países já
está em andamento", ressaltou.
Segundo
ele, os países criaram mecanismos para permitir que ambos os lados negociem, em
vez de permitir que os norte-americanos tomem medidas unilaterais sempre
que desejarem, pois perceberam que isso não era do interesse deles.
Nesse
contexto, ele observou após a visita de Trump à China, não se pode falar em
aquecimento nas relações entre Pequim e Washington, mas sim em
estabilização. Isso não tem absolutamente nenhum efeito sobre as relações
entre a China e a Rússia. Pelo contrário, elas só estão melhorando.
Durante
a visita a Pequim do presidente russo, Vladimir Putin, em maio, foram
assinados mais de 40 acordos que elevaram as relações russo-chinesas a um novo
patamar, concluiu.
Cabe
destacar que o fórum acontece de 3 a 6 de junho. A Sputnik é a parceira
geral de informação do fórum.
¨
Guerra contra o Irã reduz as reservas de petróleo dos EUA
ao nível mais baixo desde 2004, diz mídia
De
acordo com a mídia britânica, a informação é baseada em uma investigação que
utilizou dados oficiais da Administração de Informação Energética (EIA, na
sigla em inglês) dos EUA.
Os
números oficiais revelam que os estoques totais de petróleo bruto e
derivados,
como gasolina, diminuíram em 10,6 milhões de barris na última semana,
atingindo um total de 1,57 bilhão de barris, um nível não visto em 22 anos.
Essa forte redução alarmou analistas do setor energético, que alertam para um
aumento iminente nos preços dos combustíveis em todo o mundo.
Refletindo
essa tendência, o preço do petróleo bruto norte-americano subiu 2,6% em um
único dia, chegando a US$ 96,17 (R$ 486,60) por barril.
Especialistas consultados pela mídia
especializada indicam que o preço pode chegar a US$ 200 (R$ 1.011,96) nos
próximos meses se o estreito de Ormuz, rota marítima crucial para o
transporte de energia que permanece bloqueado devido ao conflito iniciado pelos
EUA e Israel, não for reaberto.
Baseando-se
em estatísticas governamentais, a apuração destacou que a queda nos estoques
dos EUA eliminou
completamente o excedente acumulado durante a chamada revolução do xisto,
que anteriormente havia consolidado o país como o maior produtor mundial de
petróleo bruto.
Já a
queda na última semana foi impulsionada principalmente por uma redução de
16 milhões de barris nas reservas comerciais e governamentais de petróleo
bruto, coincidindo com um aumento substancial
nas exportações para
os mercados asiáticos e europeus.
Estatísticas
oficiais indicam que as exportações de petróleo bruto dos EUA saltaram de
4,4 milhões para 5,8 milhões de barris por dia na semana passada, um volume
superior à produção individual de vários membros da Organização
dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Esse aumento nas exportações
evidencia a situação crítica do fornecimento global de petróleo bruto,
resultante do fechamento quase total do estreito de Ormuz.
Para
tentar conter a escalada dos preços dos combustíveis no mercado interno, o
governo dos EUA liberou aproximadamente 50 milhões de barris de sua Reserva
Estratégica de Petróleo e autorizou a retirada de um total de 172 milhões de
barris.
Ainda
segundo a mídia britânica, o preço médio da
gasolina nos
Estados Unidos atingiu recentemente US$ 4,44 (R$ 22,47) por galão,
representando um aumento de quase 50% em comparação com os níveis anteriores à
ofensiva militar lançada por Washington e Tel Aviv.
Especialistas
do setor consultados por um jornal concluíram que as empresas globais vão
continuar a competir e a licitar o fornecimento de gasolina dos EUA para suprir a escassez causada pela
guerra, o que deve manter os estoques norte-americanos sob extrema
pressão e acabar forçando um aumento nos preços internos para conter as
exportações.
¨
Líbano torna-se 'cartão de pressão' nas negociações entre
Irã e EUA, opinam especialistas
O
Líbano, de fato, se transformou em uma alavanca de pressão nas negociações
entre os Estados Unidos e o Irã, enquanto Israel tenta usar o tempo antes de um
possível acordo político para mudar a situação no front, opinaram dois
especialistas libaneses em entrevista à Sputnik.
Na
opinião do doutor em ciências políticas e históricas da Universidade Estatal do
Líbano, Ronin Khalil, Estados Unidos e Israel buscam colocar o Estado
libanês em situação de oposição direta ao movimento Hezbollah, transferindo a
responsabilidade pelo desarmamento do movimento para autoridades libanesas.
"Obviamente, o
Líbano tornou-se um cartão de pressão nas negociações. Apesar de todos os
apelos internos e externos, o embate político continua. Vamos ver como a
situação no terreno se desenvolverá", disse Ronin.
Segundo
ele, em caso de colapso do cessar-fogo e da
continuação da guerra e do deslocamento em massa da população, isso poderia
levar a mudanças sociais e demográficas de longo prazo.
De
acordo com Ronin, parte das regiões do sul pode separar-se do resto do
país, e a realocação dos moradores em meio à crise econômica pode causar atrito
entre os deslocados internos e as comunidades de acolhimento.
<><>
Mediadores americanos podem propor mecanismo gradual de conciliação entre
Líbano e Israel
Por sua
vez, o especialista militar libanês, brigadeiro-general aposentado Malik Ayub,
acredita que os mediadores dos EUA podem propor uma fórmula provisória.
Segundo
ele, isso pode ser um mecanismo "passo a passo" no qual
cada etapa da retirada israelense será acompanhada por ações recíprocas do
Líbano para garantir a segurança e desmantelar a infraestrutura militar.
Ao
mesmo tempo, segundo o especialista, a preservação do canal de negociação é
necessária principalmente para evitar o
colapso total da trégua e o retorno a uma escalada ainda mais ampla.
Ayub
explicou que a delegação israelense apresentou mapas com as coordenadas dos
locais onde, na avaliação de Tel Aviv, poderia haver infraestrutura
militar remanescente, e vinculou a possível retirada de suas forças ao
cumprimento das exigências de segurança do Líbano.
O lado
libanês, por sua vez, exigiu primeiro um cessar-fogo final e um
cronograma claro para a retirada das forças israelenses de todas as
áreas por onde haviam entrado nas últimas semanas.
Na
terça-feira (2), o presidente libanês, Joseph Aoun, disse que Beirute não
vê alternativa às negociações com Israel, enquanto o primeiro-ministro,
Nawaf Salam, classificou as negociações como o caminho menos caro para a
paz. A liderança do
Hezbollah declarou
sua disposição de observar a trégua desde que cessem os ataques
israelenses em todo o território do Líbano.
Fonte:
BBC News Brasil/Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário