sexta-feira, 5 de junho de 2026

Câmara dos EUA aprova resolução que limita poderes de Trump

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos (EUA) aprovou nesta quarta-feira (3/6) uma medida que busca impedir o presidente Donald Trump de realizar novas ações militares contra o Irã.

A votação foi apertada, com 215 a favor e 208 contra — quatro republicanos se juntaram aos democratas em uma rara demonstração pública de desaprovação da guerra, iniciada em fevereiro.

Esta foi a quarta tentativa da Câmara de limitar os poderes de guerra de Trump, que, segundo críticos, precisam de aprovação do Congresso.

A resolução ainda precisa passar pelo Senado, que é controlado pelos Republicanos. Mesmo que seja aprovada, é improvável que ela consiga restringir totalmente as ações militares contra o Irã.

Trump poderia vetar a medida, e para derrubar o veto seria necessária uma maioria de dois terços em ambas as Casas legislativas.

Em maio, o Senado conseguiu avançar em uma resolução semelhante, após sete tentativas frustadas. Apesar disso, ainda não houve votação no plenário.

Na votação desta quarta, os republicanos Thomas Massie, Brian Fitzpatrick, Tom Barrett e Warren Davidson se juntaram aos democratas para aprovar a resolução na Câmara.

O democrata Jared Golden, do Maine, que antes havia sido contra as medidas, declarou apoio desta vez.

"Somente o Congresso declara guerra, isso é algo que certamente precisamos proteger", disse Barrett, republicano de Michigan.

Questionado se temia represálias de Trump por seu voto, Barrett respondeu: "Eu voto de acordo com minha consciência, pelo que acho certo, e estou disposto a aceitar isso."

O deputado Gregory Meeks, principal democrata no Comitê de Relações Exteriores da Câmara, descreveu a votação como uma "repreensão bipartidária significativa à guerra ilegal do presidente Trump no Irã e o primeiro passo para encerrá-la de uma vez por todas".

Meeks afirmou que Trump não conseguiu atingir os objetivos declarados da guerra, ao mesmo em que aumentou os preços dos combustíveis no país e tornou ainda mais difícil uma solução diplomática para o programa nuclear iraniano.

"A aprovação desta medida hoje sinaliza um ponto de virada significativo: cada vez mais republicanos estão ouvindo seus eleitores, que não querem outra guerra sem fim no Oriente Médio", disse.

Os Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã em 28 de fevereiro. O Irã respondeu atacando Israel e Estados aliados dos EUA no Golfo, e efetivamente fechou o Estreito de Ormuz, uma via marítima vital para o transporte global.

Em abril, os EUA anunciaram que iriam impor um bloqueio a navios que viajassem de ou para a costa do Irã.

No dia 08 de abril, os dois países anunciaram um acordo inicial de cessar-fogo.

Apesar dessa trégua, os EUA realizaram novos ataques contra o Irã nos últimos dias, com Teerã respondendo com ataques ao Kuwait, um aliado dos EUA.

Antes da votação, Trump voltou a afirmar que as negociações para encerrar a guerra estão indo "muito bem" e poderiam ser finalizadas já neste fim de semana.

"Nós os atingimos com força na noite anterior, e também na noite anterior a essa", disse Trump a repórteres na Casa Branca na quarta-feira, referindo-se aos ataques no Irã.

"Algumas pessoas diriam que eles foram ligeiramente provocados, porque tomamos uma ação forte por um motivo diferente, então eles estavam apenas revidando."

O presidente acrescentou que a maioria dos membros de sua administração espera encerrar o conflito em breve com um acordo "sem matar todo mundo".

"Em teoria, eles estão bem perto de assinar. Na verdade, nós nos demos muito bem com eles."

¨      Quebra da hegemonia dos EUA arrasta aliados na esteira da turbulência, apontam especialistas

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmam que antigos parceiros de Washington, como a Europa Ocidental, estão escanteados nos planos do governo Trump, enquanto novos amigos, como Buenos Aires, são subjulgados.

Os Estados Unidos tentaram, ao longo de múltiplos governos democratas e republicanos, imprimir uma relação de hegemonia global após a Segunda Guerra Mundial. No Ocidente, Washington parecia reinar sem grandes dificuldades através de mecanismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), onde recebia forte apoio de países da Europa e pouquíssima resistência, especialmente nas Américas.

Entretanto, após décadas de controle baseados nos campos econômico, por meio do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI), e militar, com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), a Casa Branca tem esbarrado no teto de suas aspirações de gerenciamento mundial.

Capitaneada por países como China e Rússia e grupos como o BRICS, a ideia cada vez mais forte de um mundo multipolar enfraquece a hegemonia norte-americana e, de sobra, arrasta para uma crise política seus aliados mais próximos.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas afirmaram que parceiros de longa data da Casa Branca, como os países da Europa Ocidental, não são mais prioridade de Washington. Já os novos aliados, como a Argentina, precisam lidar com o subjulgamento da atual gestão estadunidense.

William Gonçalves, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), explica que o governo Trump promoveu uma grande mudança nas relações externas da Casa Branca, o que causou ressentimento em aliados de longa data.

Para Gonçalves, um exemplo é o encontro de Donald Trump com o presidente da China, Xi Jinping, que mostra uma nova configuração da política internacional, na qual a Europa passou a ter papel secundário na estratégia de Washington.

"Aquela [ordem] era representada pelo Joe Biden, do consenso bipartidário, segundo o qual a OTAN na Europa tinha uma importância muito grande para Trump. Não tem. Ele não desligou os EUA formalmente da OTAN, mas a importância que ele atribui à OTAN é muito pequena. A Aliança Atlântica deixou de ter o significado que tinha. E isso cria grandes mudanças, porque a Europa se sentia bem sendo liderada pelos EUA."

Na visão de Gonçalves, o fim do governo Biden marcou a transição de um fim de capítulo para a Europa. Agora, os olhos de Washington se viram para Pequim.

"A ideia de Trump é rejeitar a ideia de multipolarização e estabelecer bases de uma bipolarização com a China. Uma bipolarização diferente daquela da Guerra Fria, uma vez que não estamos diante de mudança de sistema, de confronto de sistemas. Todos são capitalistas, todos estão situados no mesmo mercado internacional. Agora, quando eu digo que é necessário pensar a ideia de aliado se tratando de Trump, é que ele não pensa em alianças, ele pensa em imposição."

Roberto Goulart Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB), vê os Estados Unidos como líder da ordem internacional liberal, em uma posição de hegemonia predatória que não permite o crescimento de aliados.

"Essa hegemonia predatória significa que os EUA passaram a colocar, em primeiro lugar, os seus interesses mais imediatos e a deixar a condução do conjunto das relações entre esses países [parceiros] em segundo plano."

Para Menezes, o atual governo em Washington tenta tutelar a Europa, o que, de certa forma, revolta as autoridades do continente, que por muito tempo aproveitaram a vantagem no status quo global vigente.

"Os europeus, que tanto se beneficiaram dessa ordem internacional liderada pelos EUA, nesse momento vivem esse estremecimento da relação. Nós também sabemos que essa ordem está em declínio, ainda que em câmera lenta, de certa forma, mas não deixa de ser também um declínio que, sobretudo, se acelerou a partir da crise de 2008."

<><> América grande novamente?

Trump se lançou à candidatura presidencial com o slogan "Faça a América Grande Novamente", que ficou conhecido no Brasil por sua sigla em inglês, MAGA.

Para Gonçalves, se os Estados Unidos podem ser grandes novamente, na visão de Trump, é porque em algum momento deixaram de ser. Essa busca pela hegemonia, contudo, vem com a diferença nas relações institucionais entre aliados e até governos antagônicos ao projeto norte-americano.

"O relacionamento que Trump estabelece com China e Rússia é baseado no respeito mútuo. Agora, em relação aos países mais fracos, ele usa da brutalidade, e não há como se livrar disso. O caso da Venezuela é exemplar. Todos os recursos militares de inteligência, o poder naval, tudo isso foi usado de uma vez, e não houve como os venezuelanos resistirem."

Se por um lado os Estados Unidos querem mostrar ao mundo uma imposição política, há também aqueles aliados que conseguem dobrar essas diretrizes norte-americanas, como Israel. Segundo Gonçalves, Tel Aviv não é um parceiro qualquer, tornando-se "uma questão de política interna dos Estados Unidos" pela capacidade da comunidade judaica estadunidense em financiar as custosas campanhas presidenciais.

"O peso que os judeus têm na sociedade norte-americana, seja do ponto de vista social, político ou econômico, influencia muito na política doméstica dos EUA. Nenhum político que queira fazer carreira nos EUA, que tenha pretensões políticas mais amplas, se coloca contra o Estado de Israel."

Menezes explica que a queda norte-americana começa nos anos 2000 com a guerra do Iraque, no governo de George W. Bush, e, posteriormente, com a crise financeira de 2008. Após esses eventos, grupos multipolares fora da governança ocidental tradicional, como o BRICS, surgiram redesenhando a ordem internacional.

Na visão do professor da UnB, os Estados Unidos relutam em admitir uma crise de sua hegemonia, impedindo qualquer adaptação ao mundo contemporâneo. Segundo Menezes, a queda norte-americana acontece no dólar, na liderança tecnológica e até nos valores sociais impostos como certos.

"Essa realidade global vai se impondo aos EUA, ao governo Trump, de tal modo, é claro, que também às elites políticas nos EUA e à elite intelectual. […] O consenso mínimo que eles têm, me parece, é de que Donald Trump acelera esse processo de perda de prestígio dos Estados Unidos."

¨      Não é mais possível retornar ao auge das relações entre China e EUA, diz analista

Um retorno aos melhores tempos anteriores nas relações entre a China e os EUA é impossível, devido à concorrência contínua entre os países, disse à Sputnik Nelson Wong, analista político chinês, no decorrer do 29º Fórum Econômico Internacional (SPIEF 2026).

Wong destacou que a visita do presidente dos EUA, Donald Trump, foi necessária para impedir a escalada do conflito, e que essa é uma pequena estabilização.

"Pessoalmente, não acho que as relações entre China e Estados Unidos voltarão aos seus melhores dias. Isso é irrevogável, pois a competição entre os dois países já está em andamento", ressaltou.

Segundo ele, os países criaram mecanismos para permitir que ambos os lados negociem, em vez de permitir que os norte-americanos tomem medidas unilaterais sempre que desejarem, pois perceberam que isso não era do interesse deles.

Nesse contexto, ele observou após a visita de Trump à China, não se pode falar em aquecimento nas relações entre Pequim e Washington, mas sim em estabilização. Isso não tem absolutamente nenhum efeito sobre as relações entre a China e a Rússia. Pelo contrário, elas só estão melhorando.

Durante a visita a Pequim do presidente russo, Vladimir Putin, em maio, foram assinados mais de 40 acordos que elevaram as relações russo-chinesas a um novo patamar, concluiu.

Cabe destacar que o fórum acontece de 3 a 6 de junho. A Sputnik é a parceira geral de informação do fórum.

¨      Guerra contra o Irã reduz as reservas de petróleo dos EUA ao nível mais baixo desde 2004, diz mídia

De acordo com a mídia britânica, a informação é baseada em uma investigação que utilizou dados oficiais da Administração de Informação Energética (EIA, na sigla em inglês) dos EUA.

Os números oficiais revelam que os estoques totais de petróleo bruto e derivados, como gasolina, diminuíram em 10,6 milhões de barris na última semana, atingindo um total de 1,57 bilhão de barris, um nível não visto em 22 anos. Essa forte redução alarmou analistas do setor energético, que alertam para um aumento iminente nos preços dos combustíveis em todo o mundo.

Refletindo essa tendência, o preço do petróleo bruto norte-americano subiu 2,6% em um único dia, chegando a US$ 96,17 (R$ 486,60) por barril.

Especialistas consultados pela mídia especializada indicam que o preço pode chegar a US$ 200 (R$ 1.011,96) nos próximos meses se o estreito de Ormuz, rota marítima crucial para o transporte de energia que permanece bloqueado devido ao conflito iniciado pelos EUA e Israel, não for reaberto.

Baseando-se em estatísticas governamentais, a apuração destacou que a queda nos estoques dos EUA eliminou completamente o excedente acumulado durante a chamada revolução do xisto, que anteriormente havia consolidado o país como o maior produtor mundial de petróleo bruto.

Já a queda na última semana foi impulsionada principalmente por uma redução de 16 milhões de barris nas reservas comerciais e governamentais de petróleo bruto, coincidindo com um aumento substancial nas exportações para os mercados asiáticos e europeus.

Estatísticas oficiais indicam que as exportações de petróleo bruto dos EUA saltaram de 4,4 milhões para 5,8 milhões de barris por dia na semana passada, um volume superior à produção individual de vários membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Esse aumento nas exportações evidencia a situação crítica do fornecimento global de petróleo bruto, resultante do fechamento quase total do estreito de Ormuz.

Para tentar conter a escalada dos preços dos combustíveis no mercado interno, o governo dos EUA liberou aproximadamente 50 milhões de barris de sua Reserva Estratégica de Petróleo e autorizou a retirada de um total de 172 milhões de barris.

Ainda segundo a mídia britânica, o preço médio da gasolina nos Estados Unidos atingiu recentemente US$ 4,44 (R$ 22,47) por galão, representando um aumento de quase 50% em comparação com os níveis anteriores à ofensiva militar lançada por Washington e Tel Aviv.

Especialistas do setor consultados por um jornal concluíram que as empresas globais vão continuar a competir e a licitar o fornecimento de gasolina dos EUA para suprir a escassez causada pela guerra, o que deve manter os estoques norte-americanos sob extrema pressão e acabar forçando um aumento nos preços internos para conter as exportações.

¨      Líbano torna-se 'cartão de pressão' nas negociações entre Irã e EUA, opinam especialistas

O Líbano, de fato, se transformou em uma alavanca de pressão nas negociações entre os Estados Unidos e o Irã, enquanto Israel tenta usar o tempo antes de um possível acordo político para mudar a situação no front, opinaram dois especialistas libaneses em entrevista à Sputnik.

Na opinião do doutor em ciências políticas e históricas da Universidade Estatal do Líbano, Ronin Khalil, Estados Unidos e Israel buscam colocar o Estado libanês em situação de oposição direta ao movimento Hezbollah, transferindo a responsabilidade pelo desarmamento do movimento para autoridades libanesas.

"Obviamente, o Líbano tornou-se um cartão de pressão nas negociações. Apesar de todos os apelos internos e externos, o embate político continua. Vamos ver como a situação no terreno se desenvolverá", disse Ronin.

Segundo ele, em caso de colapso do cessar-fogo e da continuação da guerra e do deslocamento em massa da população, isso poderia levar a mudanças sociais e demográficas de longo prazo.

De acordo com Ronin, parte das regiões do sul pode separar-se do resto do país, e a realocação dos moradores em meio à crise econômica pode causar atrito entre os deslocados internos e as comunidades de acolhimento.

<><> Mediadores americanos podem propor mecanismo gradual de conciliação entre Líbano e Israel

Por sua vez, o especialista militar libanês, brigadeiro-general aposentado Malik Ayub, acredita que os mediadores dos EUA podem propor uma fórmula provisória.

Segundo ele, isso pode ser um mecanismo "passo a passo" no qual cada etapa da retirada israelense será acompanhada por ações recíprocas do Líbano para garantir a segurança e desmantelar a infraestrutura militar.

Ao mesmo tempo, segundo o especialista, a preservação do canal de negociação é necessária principalmente para evitar o colapso total da trégua e o retorno a uma escalada ainda mais ampla.

Ayub explicou que a delegação israelense apresentou mapas com as coordenadas dos locais onde, na avaliação de Tel Aviv, poderia haver infraestrutura militar remanescente, e vinculou a possível retirada de suas forças ao cumprimento das exigências de segurança do Líbano.

O lado libanês, por sua vez, exigiu primeiro um cessar-fogo final e um cronograma claro para a retirada das forças israelenses de todas as áreas por onde haviam entrado nas últimas semanas.

Na terça-feira (2), o presidente libanês, Joseph Aoun, disse que Beirute não vê alternativa às negociações com Israel, enquanto o primeiro-ministro, Nawaf Salam, classificou as negociações como o caminho menos caro para a paz. A liderança do Hezbollah declarou sua disposição de observar a trégua desde que cessem os ataques israelenses em todo o território do Líbano.

 

Fonte: BBC News Brasil/Sputnik Brasil

 

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