sexta-feira, 5 de junho de 2026

Passou da hora de priorizar a pauta ambiental

Há 56 anos, no dia 22 de abril de 1970, 20 milhões de pessoas reuniram-se em eventos descentralizados em todo os EUA sob o clamor da necessidade de conscientização sobre a poluição, conservação da biodiversidade e necessidade de proteger o meio ambiente. Ou seja, nada menos que 10% da população estadunidense mobilizou-se nesta data: estava criado o Dia da Terra (Earth Day), celebrado mundialmente. A sempre demorada ONU reconheceu a data somente na sua Assembleia Geral de 21 de dezembro de 2009, com o nome de “Dia Internacional da Mãe Terra”.

A data, em 1970, foi precedida por um conjunto forte de desastres ecológicos de muita visibilidade e pela crescente conscientização ambiental da população. Entre os desastres ambientais dos EUA destacam-se: 1) 1969: Explosão de uma plataforma de petróleo em Santa Bárbara, Califórnia, espalhando 15 milhões de óleo no Pacífico ao longo de 161 km, causando a morte de milhares animais marinhos; 2) 1969: Imagine água pegando fogo pelo excesso de resíduos industriais; foi o que aconteceu em Ohio no Rio Cuyahoga; 3) 1962: a obra de Rachel Carson, “Primavera Silenciosa”, demonstrou os enormes prejuízos na cadeia alimentar e em todo o meio ambiente com o uso dos agrotóxicos; 4) Especialmente nos EUA, a partir dos anos 40, a poluição era saudada como sinal de progresso; a partir do final dos anos 60, a poluição das águas e mistura de intensa poluição aérea, que ficava retida principalmente com a neblina, tornaram-se insuportáveis para a saúde das pessoas, especialmente em Nova York e Los Angeles.

O 22 de abril de 1970 teve como principal idealizador e mobilizador o Senador Democrata de Wisconsin, Gaylord Nelson. A mobilização popular teve inúmeras consequências imediatas, como a criação das Leis de Água Limpa e Ar Limpo, além da criação de uma Agência de Proteção Ambiental (EPA – Environmental Protection Agency).

Bons tempos da luta ambientalista nos EUA, apesar do seu imperialismo: hoje temos lá muito menos militantes ambientais, que tentam segurar, com resistência científica e judicial, o desmonte regulatório, que promove um gigante aumento de ataque ao planeta, liderado pelo negacionista e líder do neofascismo Donald Trump.

Citamos o exemplo dos EUA para mostrar como e quando foi criado o dia da Terra, exemplo realmente extraordinário por todas as dimensões.

<><> Movimentos ambientalistas cresciam no mundo

Pelo mundo, igualmente ocorreram, nesta época, movimentos ambientais significativos com a criação de ONGs e reconhecimentos oficiais. Citamos alguns exemplos: em 1969, em São Francisco (EUA), foi fundada a organização Friends of the Earth, com atuação internacional como Amigos da Terra. A partir de 1970 intensificaram-se os movimentos contra os testes nucleares e contra o militarismo. Em 1971, em Vancouver (Canadá), foi criado o Greenpeace, que realizaria ações impactantes diretas e presenciais pelo mundo. Sua primeira expedição, vitoriosa, foi contra a realização de testes nucleares no Alaska pelos EUA. Em 1972, em Estocolmo, a ONU realizou a primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Ainda em 1972, o Clube de Roma fez alertas sobre o crescimento exponencial da economia e da população.

No Brasil, em plena ditadura militar, o movimento ambientalista também cresceu.

Na década de 70, também no Brasil, no contexto da luta contra a ditadura militar, a luta ambientalista passa a desenvolver-se com destaque. Em 1971 foi criada a pioneira AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural –, sob a liderança de José Lutzenberger. Desde esta época houve a criação de mais ONGs e a mobilização de milhares de mais ativistas; destacamos alguns como Henrique Luis Roessler, Giselda Castro, Magda Renner, Augusto Carneiro, Caio Lustosa e muitos outros. A Amazônia trouxe os grandes debates nacionais e internacionais, principalmente contra o desmatamento e a sua vil exploração; devemos destacar a atuação do sindicalista Chico Mendes, assassinado, assim como muitos(as) outros(as).

O exemplo, a profunda dedicação, as denúncias e os alertas dos inúmeros militantes ambientalistas é essencial e deve ser ampliada para garantir a sobrevivência da Terra, com a qualidade necessária.

Mas hoje é necessário muito mais: todos(as) precisamos conversar sobre isto, permanentemente, tanto quanto futebol e outros temas do cotidiano.

Não há um só dia sem que ocorram distúrbios climáticos de vários portes em algumas regiões do mundo. E o pior: as emissões dos gases de efeito estufa – GEEs -, que causam o sobreaquecimento da Terra e geram os desastres, continuam a crescer no mundo. Em 2024 bateram recorde, com a temperatura subindo a 1,55ºC acima do limite estabelecido no Acordo de Paris. As principais causas continuam sendo a queima de combustíveis fósseis e o uso inadequado do solo na agropecuária.

No Brasil, as emissões de GEEs reduziram 12%, graças à diminuição das queimadas, principalmente na Amazônia. Porém, esta é a causa, juntamente aos desmatamentos, que continua sendo nosso principal problema ambiental.

Mais do que nunca e de forma urgente precisamos reequilibrar a natureza de nossa Terra.

Assim como é fundamental uma melhor distribuição da riqueza, para que imensos contingentes, especialmente da África e regiões da Ásia, tenham possibilidade de vida. Em torno de 10% da população mundial concentra aproximadamente 75% de toda a riqueza.

Será que os muito ricos precisam de tantos recursos para terem tudo o que desejam e serem felizes? Será tão difícil entender a importância e a necessidade de um melhor equilíbrio da Terra? Cabe lembrar que a maioria dos ricos concentra-se no norte do Planeta, EUA, Canadá e Europa, região que também produz a maioria dos GEEs.

A riqueza vai além dos recursos financeiros, engloba as propriedades, o acesso aos serviços públicos básicos, possibilidades de aprendizagem, oportunidades de trabalho e tudo mais que envolve a qualidade de vida.

Pelos dados mais recentes, 8,2% da polução mundial continua enfrentando fome e aproximadamente 30% está sujeita à insegurança alimentar moderada ou grave. É muita gente!

No Brasil avançamos: saímos novamente no mapa da fome, porém, há muito caminho a percorrer para sairmos da condição de um dos países com a pior distribuição de renda.

Na Terra tudo está interligado, o seu desequilíbrio, além dos desastres climáticos, também aumenta as doenças e cria novos vírus como a Covid. Gera o aumento da violência, como temos assistido em todo o mundo, em especial os ataques às mulheres e aos negros.

A nossa casa comum, como o Papa Francisco chamou, é de 510 milhões de km² e 71% de sua superfície é água; o restante é a Terra onde habitam (ou tentam habitar) 8,3 bilhões de pessoas.

Alguém ainda duvida que a nossa Terra está em risco? Portanto, precisamos todos(as) conversar muito sobre isto. Se as mudanças climáticas hoje são reconhecidamente o maior problema do planeta, o tema precisa estar na pauta de todos(as), com maior intensidade de todos os gestores públicos e privados.

<><> No descobrimento (ocupação) do Brasil, destruímos os povos originários e sua vida sustentável; agora precisamos urgente recompor a natureza

Eu não esqueci: também foi num 22 de abril que 13 embarcações portuguesas, lideradas por Pedro Alvares Cabral, atracaram em Porto Seguro, data da descoberta (melhor seria dizer do início da ocupação) do Brasil.

Aqui havia uma cultura dos povos originários em equilíbrio com a natureza, com muitos saberes e capacidades.

Começamos mal: atacamos os indígenas e destruímos suas riquezas para fazer a ocupação branca.

Hoje, para reequilibrar a Terra, precisamos recompor parte da natureza e estabelecer modos sustentáveis de produção e de vida. A prioridade de nossa economia deve ser preparar melhor a Terra diante dos desastres climáticos e reconquistar o seu equilíbrio.

No Brasil, a maior parte da geração dos GEEs vem pelos desmatamentos e queimadas da Amazônia e dos demais biomas. Temos avanços, mas devíamos acelerar o fim destas práticas, talvez transformando o tema em caso de proteção nacional.

A segunda maior emissão de GEEs vem dos modos de produção agropastoril. O Brasil, em 2015, no Encontro de Paris, apresentou uma solução, de reconhecida eficiência, para produzir mais e melhor, o Plano ABC – Agricultura de Baixo Carbono -. Precisa adentrar os campos e as lavouras.

A terceira maior emissão de GEEs são os combustíveis de petróleo, que podem representar dois terços da poluição nas regiões urbanizadas. Aqui cabe sugerir que também as indústrias avancem para a condição de “indústria de resíduo zero”, tudo o que entra é transformado.

Somos campeões mundiais em produção de energia elétrica com recursos renováveis; é hora dos veículos elétricos, que possuem emissões zero, baixarem de preço e termos mais pontos de recarga. Serão um marco de nossa época.

A única política pública que ao mesmo tempo melhora a saúde, educação, segurança e renda e gera empregos e renda é o saneamento básico – água, esgotos, resíduos sólidos, drenagem urbana e proteção contra inundações. Precisamos estabelecer pactos nacionais e estaduais com os municípios (legalmente os responsáveis) para garantir a universalidade destes serviços estabelecida no Marco Legal do Saneamento.

Precisamos nos estruturar mais rápida e efetivamente contra os excessos e as faltas de água. Aqui no RS, apenas uma parcela dos prejuízos causados pelas inundações e secas seriam suficientes para implantar as proteções contra cheias, bem como os reservatórios e recalques de água nas secas.

<><> Árvores, muitas árvores, matos nas cidades!

E precisamos de árvores, muitas árvores, que são verdadeiras máquinas ambientais!

Medellín (Colômbia) encravada entre as montanhas da Cordilheira dos Andes perdeu 1971 vidas em 2016 devido à poluição e ao calor.

A solução foi implantar corredores verdes, principalmente com semeaduras de árvores locais, incluindo frutíferas, em todas as avenidas, águas correntes e paradas e amplos parques. Arborização massiva, mato, capaz de fazer frente à poluição e altas temperaturas.

Hoje Medellín é premiada internacionalmente como a “Cidade da Eterna Primavera”. O exemplo extraordinário começa a ser seguido por outras cidades na Colômbia e pelo Mundo. São Paulo avalia a adoção do modelo, como seria bom! No RS, várias cidades também estão avaliando e uma delas decidiu pela implantação do exemplo.

Os desequilíbrios da natureza e os consequentes desastres integram o lamentável período neofascista que o mundo hoje enfrenta, negacionista e agressor do meio ambiente. Para a efetivação de medidas recuperadoras da Terra, precisamos superar este período.

Todos(as) desejamos a Terra, nossa casa comum, saudável, justa e sustentável. Passou da hora de intensificar as ações. 

 

Fonte: Por Vicente Rauber, no Correio da Cidadania

 

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