Passou
da hora de priorizar a pauta ambiental
Há 56
anos, no dia 22 de abril de 1970, 20 milhões de pessoas reuniram-se em eventos
descentralizados em todo os EUA sob o clamor da necessidade de conscientização
sobre a poluição, conservação da biodiversidade e necessidade de proteger o
meio ambiente. Ou seja, nada menos que 10% da população estadunidense
mobilizou-se nesta data: estava criado o Dia da Terra (Earth Day), celebrado
mundialmente. A sempre demorada ONU reconheceu a data somente na sua Assembleia
Geral de 21 de dezembro de 2009, com o nome de “Dia Internacional da Mãe
Terra”.
A data,
em 1970, foi precedida por um conjunto forte de desastres ecológicos de muita
visibilidade e pela crescente conscientização ambiental da população. Entre os
desastres ambientais dos EUA destacam-se: 1) 1969: Explosão de uma plataforma
de petróleo em Santa Bárbara, Califórnia, espalhando 15 milhões de óleo no
Pacífico ao longo de 161 km, causando a morte de milhares animais marinhos; 2)
1969: Imagine água pegando fogo pelo excesso de resíduos industriais; foi o que
aconteceu em Ohio no Rio Cuyahoga; 3) 1962: a obra de Rachel Carson, “Primavera
Silenciosa”, demonstrou os enormes prejuízos na cadeia alimentar e em todo o
meio ambiente com o uso dos agrotóxicos; 4) Especialmente nos EUA, a partir dos
anos 40, a poluição era saudada como sinal de progresso; a partir do final dos
anos 60, a poluição das águas e mistura de intensa poluição aérea, que ficava
retida principalmente com a neblina, tornaram-se insuportáveis para a saúde das
pessoas, especialmente em Nova York e Los Angeles.
O 22 de
abril de 1970 teve como principal idealizador e mobilizador o Senador Democrata
de Wisconsin, Gaylord Nelson. A mobilização popular teve inúmeras consequências
imediatas, como a criação das Leis de Água Limpa e Ar Limpo, além da criação de
uma Agência de Proteção Ambiental (EPA – Environmental Protection Agency).
Bons
tempos da luta ambientalista nos EUA, apesar do seu imperialismo: hoje temos lá
muito menos militantes ambientais, que tentam segurar, com resistência
científica e judicial, o desmonte regulatório, que promove um gigante aumento
de ataque ao planeta, liderado pelo negacionista e líder do neofascismo Donald
Trump.
Citamos
o exemplo dos EUA para mostrar como e quando foi criado o dia da Terra, exemplo
realmente extraordinário por todas as dimensões.
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Movimentos ambientalistas cresciam no mundo
Pelo
mundo, igualmente ocorreram, nesta época, movimentos ambientais significativos
com a criação de ONGs e reconhecimentos oficiais. Citamos alguns exemplos: em
1969, em São Francisco (EUA), foi fundada a organização Friends of the Earth,
com atuação internacional como Amigos da Terra. A partir de 1970
intensificaram-se os movimentos contra os testes nucleares e contra o
militarismo. Em 1971, em Vancouver (Canadá), foi criado o Greenpeace, que
realizaria ações impactantes diretas e presenciais pelo mundo. Sua primeira
expedição, vitoriosa, foi contra a realização de testes nucleares no Alaska
pelos EUA. Em 1972, em Estocolmo, a ONU realizou a primeira Conferência das
Nações Unidas sobre o Meio Ambiente. Ainda em 1972, o Clube de Roma fez alertas
sobre o crescimento exponencial da economia e da população.
No
Brasil, em plena ditadura militar, o movimento ambientalista também cresceu.
Na
década de 70, também no Brasil, no contexto da luta contra a ditadura militar,
a luta ambientalista passa a desenvolver-se com destaque. Em 1971 foi criada a
pioneira AGAPAN – Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural –, sob a
liderança de José Lutzenberger. Desde esta época houve a criação de mais ONGs e
a mobilização de milhares de mais ativistas; destacamos alguns como Henrique
Luis Roessler, Giselda Castro, Magda Renner, Augusto Carneiro, Caio Lustosa e
muitos outros. A Amazônia trouxe os grandes debates nacionais e internacionais,
principalmente contra o desmatamento e a sua vil exploração; devemos destacar a
atuação do sindicalista Chico Mendes, assassinado, assim como muitos(as)
outros(as).
O
exemplo, a profunda dedicação, as denúncias e os alertas dos inúmeros
militantes ambientalistas é essencial e deve ser ampliada para garantir a
sobrevivência da Terra, com a qualidade necessária.
Mas
hoje é necessário muito mais: todos(as) precisamos conversar sobre isto,
permanentemente, tanto quanto futebol e outros temas do cotidiano.
Não há
um só dia sem que ocorram distúrbios climáticos de vários portes em algumas
regiões do mundo. E o pior: as emissões dos gases de efeito estufa – GEEs -,
que causam o sobreaquecimento da Terra e geram os desastres, continuam a
crescer no mundo. Em 2024 bateram recorde, com a temperatura subindo a 1,55ºC
acima do limite estabelecido no Acordo de Paris. As principais causas continuam
sendo a queima de combustíveis fósseis e o uso inadequado do solo na
agropecuária.
No
Brasil, as emissões de GEEs reduziram 12%, graças à diminuição das queimadas,
principalmente na Amazônia. Porém, esta é a causa, juntamente aos
desmatamentos, que continua sendo nosso principal problema ambiental.
Mais do
que nunca e de forma urgente precisamos reequilibrar a natureza de nossa Terra.
Assim
como é fundamental uma melhor distribuição da riqueza, para que imensos
contingentes, especialmente da África e regiões da Ásia, tenham possibilidade
de vida. Em torno de 10% da população mundial concentra aproximadamente 75% de
toda a riqueza.
Será
que os muito ricos precisam de tantos recursos para terem tudo o que desejam e
serem felizes? Será tão difícil entender a importância e a necessidade de um
melhor equilíbrio da Terra? Cabe lembrar que a maioria dos ricos concentra-se
no norte do Planeta, EUA, Canadá e Europa, região que também produz a maioria
dos GEEs.
A
riqueza vai além dos recursos financeiros, engloba as propriedades, o acesso
aos serviços públicos básicos, possibilidades de aprendizagem, oportunidades de
trabalho e tudo mais que envolve a qualidade de vida.
Pelos
dados mais recentes, 8,2% da polução mundial continua enfrentando fome e
aproximadamente 30% está sujeita à insegurança alimentar moderada ou grave. É
muita gente!
No
Brasil avançamos: saímos novamente no mapa da fome, porém, há muito caminho a
percorrer para sairmos da condição de um dos países com a pior distribuição de
renda.
Na
Terra tudo está interligado, o seu desequilíbrio, além dos desastres
climáticos, também aumenta as doenças e cria novos vírus como a Covid. Gera o
aumento da violência, como temos assistido em todo o mundo, em especial os
ataques às mulheres e aos negros.
A nossa
casa comum, como o Papa Francisco chamou, é de 510 milhões de km² e 71% de sua
superfície é água; o restante é a Terra onde habitam (ou tentam habitar) 8,3
bilhões de pessoas.
Alguém
ainda duvida que a nossa Terra está em risco? Portanto, precisamos todos(as)
conversar muito sobre isto. Se as mudanças climáticas hoje são reconhecidamente
o maior problema do planeta, o tema precisa estar na pauta de todos(as), com
maior intensidade de todos os gestores públicos e privados.
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No descobrimento (ocupação) do Brasil, destruímos os povos originários e sua
vida sustentável; agora precisamos urgente recompor a natureza
Eu não
esqueci: também foi num 22 de abril que 13 embarcações portuguesas, lideradas
por Pedro Alvares Cabral, atracaram em Porto Seguro, data da descoberta (melhor
seria dizer do início da ocupação) do Brasil.
Aqui
havia uma cultura dos povos originários em equilíbrio com a natureza, com
muitos saberes e capacidades.
Começamos
mal: atacamos os indígenas e destruímos suas riquezas para fazer a ocupação
branca.
Hoje,
para reequilibrar a Terra, precisamos recompor parte da natureza e estabelecer
modos sustentáveis de produção e de vida. A prioridade de nossa economia deve
ser preparar melhor a Terra diante dos desastres climáticos e reconquistar o
seu equilíbrio.
No
Brasil, a maior parte da geração dos GEEs vem pelos desmatamentos e queimadas
da Amazônia e dos demais biomas. Temos avanços, mas devíamos acelerar o fim
destas práticas, talvez transformando o tema em caso de proteção nacional.
A
segunda maior emissão de GEEs vem dos modos de produção agropastoril. O Brasil,
em 2015, no Encontro de Paris, apresentou uma solução, de reconhecida
eficiência, para produzir mais e melhor, o Plano ABC – Agricultura de Baixo
Carbono -. Precisa adentrar os campos e as lavouras.
A
terceira maior emissão de GEEs são os combustíveis de petróleo, que podem
representar dois terços da poluição nas regiões urbanizadas. Aqui cabe sugerir
que também as indústrias avancem para a condição de “indústria de resíduo
zero”, tudo o que entra é transformado.
Somos
campeões mundiais em produção de energia elétrica com recursos renováveis; é
hora dos veículos elétricos, que possuem emissões zero, baixarem de preço e
termos mais pontos de recarga. Serão um marco de nossa época.
A única
política pública que ao mesmo tempo melhora a saúde, educação, segurança e
renda e gera empregos e renda é o saneamento básico – água, esgotos, resíduos
sólidos, drenagem urbana e proteção contra inundações. Precisamos estabelecer
pactos nacionais e estaduais com os municípios (legalmente os responsáveis)
para garantir a universalidade destes serviços estabelecida no Marco Legal do
Saneamento.
Precisamos
nos estruturar mais rápida e efetivamente contra os excessos e as faltas de
água. Aqui no RS, apenas uma parcela dos prejuízos causados pelas inundações e
secas seriam suficientes para implantar as proteções contra cheias, bem como os
reservatórios e recalques de água nas secas.
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Árvores, muitas árvores, matos nas cidades!
E
precisamos de árvores, muitas árvores, que são verdadeiras máquinas ambientais!
Medellín
(Colômbia) encravada entre as montanhas da Cordilheira dos Andes perdeu 1971
vidas em 2016 devido à poluição e ao calor.
A
solução foi implantar corredores verdes, principalmente com semeaduras de
árvores locais, incluindo frutíferas, em todas as avenidas, águas correntes e
paradas e amplos parques. Arborização massiva, mato, capaz de fazer frente à
poluição e altas temperaturas.
Hoje
Medellín é premiada internacionalmente como a “Cidade da Eterna Primavera”. O
exemplo extraordinário começa a ser seguido por outras cidades na Colômbia e
pelo Mundo. São Paulo avalia a adoção do modelo, como seria bom! No RS, várias
cidades também estão avaliando e uma delas decidiu pela implantação do exemplo.
Os
desequilíbrios da natureza e os consequentes desastres integram o lamentável
período neofascista que o mundo hoje enfrenta, negacionista e agressor do meio
ambiente. Para a efetivação de medidas recuperadoras da Terra, precisamos
superar este período.
Todos(as)
desejamos a Terra, nossa casa comum, saudável, justa e sustentável. Passou da
hora de intensificar as ações.
Fonte:
Por Vicente Rauber, no Correio da Cidadania

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