Militares
na política: a politização dos quartéis e a militarização do Estado
O
Brasil é um país civil, com um governo civil, certo? É verdade, mas é
impossível ignorar a participação do Exército no contexto político brasileiro.
Desde a Proclamação da República, quando as Forças Armadas decidiram que já
bastava de monarquia e trataram de refundar a nação, a participação dos
militares na política deixou de ser uma exceção e se tornou hábito.
Essa
mentalidade tutelar, construída ao longo de séculos, fez do militarismo um
traço da vida pública brasileira. O país conviveu com golpes, intervenções e
poderes moderadores fardados, quase sempre legitimados por um discurso
patriótico que ocultava interesses políticos mais profundos.
Da Questão Militar nos anos finais
do período imperial, passando pela tenebrosa ditadura militar e chegando ao 8
de janeiro, a participação dos militares na política foi bem maior do que
gostaríamos. Isso revela muito sobre a história do nosso país, nossos traumas e
os desafios que temos a superar para construir uma democracia realmente forte e
independente.
Afinal,
quando a farda invade o palanque e o discurso político entra no quartel, quais
são os riscos à institucionalidade democrática?
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Um país sob tutela militar
A
autopercepção das Forças Armadas como as
“guardiãs da nação” não surgiu hoje. A história é bem mais antiga. O Brasil
Imperial se orgulhava de ter um governo de caráter profundamente civil, ao
contrário de outras nações latino-americanas, que frequentemente tinham
militares em postos de governo.
No
entanto, esse controle social sobre as instituições militares começou a ruir na
segunda metade do século 19. Por volta de 1850, a tensão entre o Exército e o
governo monárquico cresceu. A Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870,
resultou no fortalecimento das Forças Armadas, que passaram a exigir maior
participação dos militares na política.
Entre
1886 e 1887, o período conhecido como Questão Militar evidenciou a politização
do Exército e a disputa pelo poder. Em 1889, a Proclamação da República concretizou a
ascensão dos militares ao poder — não à toa o primeiro presidente republicano
foi o Marechal Deodoro da Fonseca.
No
artigo “Regimes e
intervenção política dos militares no Brasil”, publicado em 2022
na Revista USP, o doutor em ciência política e professor da Fundação Getúlio
Vargas (FGV), Octavio Amorim Neto, deixa claro que a influência dos militares
na política brasileira é antiga.
“Ao
longo de 200 anos de história, os militares desempenharam papel de relevo, ou
na criação, ou no fim de todos os sete regimes políticos que o Brasil teve”,
aponta.
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Golpes, tutelas e o mito da neutralidade militar
A ideia
de que os militares “não fazem política” tem marcado presença no contexto
democrático. Mas já pudemos perceber que a história republicana do Brasil nos
prova o contrário.
O papel
dos militares na política foi determinante em momentos-chave da história: da
queda da monarquia e Proclamação da República à Revolução de 1930, que
levou Getúlio Vargas ao poder com
apoio militar; da renúncia de Vargas em 1945, pressionado pelas Forças Armadas;
ao golpe de 1964, que mergulhou o país em 21 anos de ditadura,
tortura e repressão.
Foram
os mesmos militares que, sob pressão da sociedade civil, conduziram a transição democrática,
controlando o processo e garantindo impunidade aos membros do regime. No governo Sarney,
o primeiro após o fim da ditadura, o general Leônidas Pires Gonçalves,
posteriormente apontado como torturador pela Comissão Nacional da
Verdade (CNV),
exerceu o cargo de Ministro do Exército.
Durante
o escândalo do Mensalão, em 2005, militares defenderam a manutenção do
presidente Lula no cargo, mas consideraram falar em reeleição “uma
afronta”.
Em
2012, uma carta assinada por militares da reserva, criticou a atuação da
Comissão Nacional da Verdade e se queixaram das críticas da então Ministra dos
Direitos Humanos, Maria do Rosário, aos governos militares. O documento foi
lido como uma tradução dos
sentimentos dos militares da ativa, que são proibidos de se manifestarem
publicamente.
Em
2016, após o impeachment de Dilma Rousseff, setores militares na política
ganharam maior protagonismo, ocupando cargos estratégicos e reforçando uma
presença simbólica constante no debate nacional. Em 2018, o então presidente
Michel Temer, nomeou o Joaquim Silva e Luna como Ministro da Defesa.
Em
entrevista ao Programa Analisa, da TV Unicamp, a
pesquisadora e pós-doutora em Ciência Política pela Universidade Estadual de
Campinas (Unicamp), Ana Penido, comentou o histórico da participação dos
militares na política.
Se a
imagem que temos da participação militar na política é um golpe militar com
tanques na rua, corrompendo a legalidade constitucional, Penido aponta que a
Instituição, historicamente, teve sua participação na política garantida
constitucionalmente.
Segundo
ela, não apenas na Constituição de 1988, mas em quase todas as outras, “não há
brecha para a participação militar na política, há uma avenida inteira”.
Curiosamente, a única carta magna que restringe os poderes dos militares foi a
de 1937, que entrou em vigor durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio
Vargas e é conhecida pelo autoritarismo.
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O bolsonarismo e a militarização do Estado
A
ditadura militar, período sombrio da história brasileira, se encerrou
oficialmente em 1985 com a eleição indireta que alçou à Presidência da
República José Sarney, o primeiro civil a governar o país em 21 anos. Desde
1989, o país tem realizado eleições diretas regularmente.
Mas,
após a promulgação da Constituição de 1988, o Brasil nunca
estruturou mecanismos sólidos de controle civil e social sobre as Forças
Armadas. O texto constitucional determinou a subordinação dos militares ao
poder civil, mas o país preferiu
manter intactos seus códigos, sua justiça própria e seus espaços de
decisão fechados à sociedade.
O
resultado é uma democracia tutelada: formalmente civil, mas incapaz de
fiscalizar de fato quem carrega as armas em seu nome.
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Governo Bolsonaro: o mais militarizado desde a redemocratização
Entre
as estruturas que podem ser usadas para controle civil sobre as Forças Armadas
está o Ministério da Defesa. Criada em 1999,
durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Antes disso, cada uma das
Forças tinha seu próprio ministério.
Desde
sua criação até 2018, todos os Ministros da Defesa foram civis — uma ação
importante para aumentar a subordinação das Forças Armadas ao controle social.
No entanto, foi após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, que o número de
militares na pasta aumentou.
Em
2019, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar, um militar voltou a
exercer o comando do Executivo. A Presidência da República foi assumida por
Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército Brasileiro, eleito junto ao vice,
Hamilton Mourão, general da reserva.
Em
2020, o número de militares na política aumentou ainda mais. Segundo o Tribunal
de Contas da União (TCU), havia mais de 6,1 mil militares ocupando
diversos cargos no Executivo.
No
mesmo ano, durante a pandemia da Covid-19, até o Ministério da Saúde esteve sob
comando militar, chefiado pelo general Eduardo
Pazuello.
Sua passagem na pasta ficou marcada pela defesa de tratamentos sem comprovação
científica, crise no
fornecimento de oxigênio em Manaus, suspensão na divulgação de dados sobre a
pandemia e resistência à aquisição de vacinas.
Em
2022, o Ministério da Defesa, comandado pelo general Paulo Sérgio Nogueira,
propôs um teste de
integridade das urnas eletrônicas, com base em suspeitas de que o Tribunal
Superior Eleitoral estivesse interessado em interferir nos resultados. O caso
reforça, mais uma vez, a atuação dos militares na política e a visão de que
devem agir como tutores do sistema democrático brasileiro.
O
governo Bolsonaro, durante seus quatro anos de duração, foi fortemente marcado
pelo espectro do militarismo. A possibilidade de que os militares pudessem
intervir para assegurar a lei e a ordem nunca foi devidamente afastada. Após
ser derrotado nas urnas, em 2022, o então presidente chegou a ouvir de
militares próximos uma proposta para se
manter no poder,
em um plano que envolvia até mesmo o assassinato de autoridades.
O 8 de
janeiro, marcado pela tentativa de golpe de Estado e pela invasão e destruição
dos prédios dos Três Poderes em Brasília, segundo o Supremo Tribunal Federal,
foi uma consequência dessa articulação. Não por acaso, em 2025, o STF condenou
Bolsonaro e outros militares por tentativa de abolição violenta do
Estado Democrático de Direito e outros crimes.
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O crescimento da participação dos militares na política
Embora
a participação de militares na política tenha aumentado durante a gestão
Bolsonaro, a militarização do cotidiano se intensificou ainda antes. Em
entrevista ao Jornal da Unesp, o especialista em
estudos sobre defesa e professor da Universidade Estadual de São Paulo,
Alexandre Fuccille, afirmou haver uma “banalização do emprego dos militares no
front interno”, referindo-se à atuação das Forças Armadas dentro do território
brasileiro.
Entre
os exemplos apontados por ele estão as Unidades de Polícia
Pacificadora (UPPs),
projeto da Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro para policiamento
comunitário e desarticulação de quadrilhas em comunidades. As Forças Armadas
foram empregadas para possibilitar a entrada da polícia estadual nas
comunidades, com resultados questionáveis.
As
operações de Garantia de Lei e da
Ordem (GLO),
usadas diversas vezes após a redemocratização, na visão de Fuccille, também
indicam um excesso de militarização do cotidiano.
Para
ele, com exceção da Guerra do Paraguai e da atuação das tropas brasileiras
na Segunda Guerra
Mundial,
“o que temos historicamente são as forças armadas, e principalmente o Exército,
atuando como uma espécie de poder moderador, tentando regular a vida política e
social do país”.
No
cenário eleitoral, o aumento de
candidatos militares também
é uma constante. Em 2022, foram 1,7 mil oriundos das forças de segurança. Cerca
de 38 deles foram eleitos. No Rio Grande do Sul, o deputado federal e o senador
mais votados eram militares: Tenente Coronel Zucco e o general da reserva
Hamilton Mourão.
Outro
aspecto dessa militarização é o aumento das escolas
cívico-militares nos
últimos anos. Durante o governo Bolsonaro, de 2019 a 2022, o método foi
implantado em 2016 unidades. Com o novo governo Lula, a partir de 2023, o
programa foi encerrado a nível federal, mas ganhou força nas esferas estaduais.
Em 2025, o governo de São Paulo, comandado pelo ex-militar Tarcísio de Freitas,
anunciou a criação de dezenas
de escolas cívico-militares.
Em
artigo na revista Outras
Palavras,
o doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, Ronaldo Queiroz de
Morais, aponta o bolsonarismo, o aumento das escolas cívico-militares e a maior
presença do armamentismo em nossa sociedade como parte dessa militarização.
Esse
processo, segundo ele, resulta “no esgotamento da política em nome da
hierarquia e da disciplina”. A lógica de organização militar pautada pela
ordem, como já vimos anteriormente, se mostra então contrária ao
desenvolvimento e fortalecimento da democracia.
O que
está em jogo não é apenas quem ocupa o cargo, mas que tipo de poder político
está sendo legitimado: um poder que valora disciplina sobre deliberação,
comando sobre consenso.
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Quando a “neutralidade” vira fiadora da ordem
A
suposta neutralidade das Forças Armadas sempre foi um recurso retórico eficaz.
Sob um discurso supostamente imparcial, os militares conseguiram intervir,
arbitrar e até governar em nome de uma “salvação nacional” que, na prática,
respondia a interesses corporativos e políticos.
Se
apoiando na ideia de “ordem” e da “defesa da pátria”, o militarismo construiu
um imaginário de neutralidade institucional que serviu mais para proteger seus
próprios privilégios do que a democracia.
O artigo 142 da
Constituição Federal define
que as Forças Armadas são constituídas pela Marinha, Exército e Aeronáutica.
Elas se organizam com base na hierarquia e na disciplina, tendo como autoridade
suprema o Presidente da República.
Segundo
o texto, a função dos militares é a defesa da Pátria, a garantia dos poderes
constitucionais e, “por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. O
que alguns pesquisadores, como Ana Penido, pontuam é: lei nós sabemos o que é,
mas e a ordem?
Para
ela, a “democracia nasce e renasce da desordem e do conflito; de ideias, de
posições e de grupos políticos”. Ou seja, em um sistema que tem na divergência
o meio para encontrar o consenso, há espaço para que militares sejam
garantidores da ordem?
A
história do Brasil nos mostra que, muitas vezes, o Exército atuou para garantir uma
determinada ordem: a pacificação nacional. Mas também nos revela que essa
“ordem” veio acompanhada de uma convergência de ideias, sem espaço para o
diferente, para o debate e para o jogo democrático.
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Quando a tutela militar ameaça o poder civil
O
discurso militar sobre “ordem e progresso” pode soar patriótico, mas,
historicamente, serviu para restringir a própria política. Quando a farda passa
a disputar o espaço do voto e da deliberação pública, o risco é duplo: o Estado
perde sua natureza civil e a democracia perde sua essência plural.
A
militarização da política cria uma lógica de obediência onde deveria haver
debate. Isso se manifesta em governos que priorizam hierarquia em vez de
negociação, sigilo em vez de transparência e força em vez de diálogo. É um
modelo de poder incompatível com a ideia de cidadania — e perigoso quando se
normaliza.
A
pesquisadora Ana Penido, em entrevista à TV Unicamp, aponta que essa
concentração de poder nas mãos de militares reflete também uma falha da esfera
civil. Ela afirma que “as pessoas gostam das forças armadas, não pelo que elas
têm que fazer, mas porque, de certa medida, elas usurpam as instituições civis
e cumprem”.
Ou
seja, o Estado frequentemente oferece soluções militares para problemas que são
estritamente civis. Por exemplo, pesquisadores já
alertavam para a possibilidade de enchentes no Rio Grande do Sul resultarem em
uma tragédia,
mas o poder civil não agiu preventivamente e, após a catástrofe, precisou
empregar as Forças Armadas — fundamentais nas operações de resgate e
salvamento.
O mesmo
se reflete também nas ações de pulverização de inseticidas para combate à
dengue, entrega de cestas básicas ou de água a moradores do Semiárido. Para
Penido, “na história brasileira, a gente dá respostas militares para problemas
que não são militares”.
E, em
todas às vezes em que o Estado opta por essas ações, ele atribui ainda mais
poder às Forças Armadas.
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O trauma nacional e a difícil desmilitarização da política e da sociedade
Mesmo
quatro décadas após o fim da ditadura, o Brasil ainda não elaborou
completamente seu trauma autoritário. O país avançou em eleições, instituições
e cidadania, mas manteve intacta a cultura de tutela e o medo de enfrentar os
quartéis.
A
transição democrática foi pactuada sem rupturas, sem justiça de transição
efetiva e sem revisão profunda do papel das Forças Armadas. O resultado é um
país em que ex-presidentes militares são homenageados, torturadores são
defendidos em público e generais seguem com influência direta sobre políticas
de Estado.
Não é
aceitável que, em uma nação democrática e sob controle civil, o Exército
tenha autoridade para se recusar a alterar o nome de um quartel intitulado
“Brigada 31 de março”, em referência à data do golpe militar de 1964. Ou que um
general diga a seus subordinados que a vitória eleitoral de
um presidente foi “indesejada”.
Em
artigo publicado no ICL Notícias, o
jornalista Cleber Lourenço apontou também a incompatibilidade da Justiça
Militar com uma sociedade democrática. Para ele, uma república que se pretende
plena não pode aceitar a “existência de um tribunal paralelo, em que militares
julgam militares”.
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Um país em disputa: entre a impunidade e o futuro democrático
O
Brasil convive há séculos com uma ferida aberta: o poder militar raramente foi
responsabilizado por suas ações. Da corrupção e das violações de direitos
humanos durante a ditadura à letalidade
policial e
às omissões de hoje, a impunidade é o elo que atravessa diferentes regimes.
Esse
histórico reforça uma cultura política em que o poder armado se sente
autorizado a arbitrar o destino do país, enquanto o poder civil hesita em
exercer autoridade sobre quem deveria apenas servir à Constituição.
Mas o
caminho para romper esse ciclo não está nos quartéis, e sim na sociedade. A
reconstrução democrática passa pelo fortalecimento das instituições civis, pela
educação política e por uma cultura de participação que reafirme, sem medo, que
o poder emana do povo — e não das armas.
Ainda
há tempo para reverter essa lógica tutelar. O futuro de um Brasil
verdadeiramente democrático depende da coragem de exercer controle sobre as
Forças Armadas, e não de ser controlado por elas.

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