Remover
'quistos alienígenas': o que foi a política nacionalizadora de Getúlio Vargas
"Não
é preciso recordar os graves erros do passado, deixando no sul do Brasil massas
compactas de estrangeiros, entregues a si mesmos, durante gerações, com
tendências diferentes das da nacionalidade brasileira, criando escolas que lhes
não dávamos e mantendo o mesmo espírito de seus países de origem, através de
seu idioma, da religião, das sociedades, dos jornais, dos livros, dos filmes e
do rádio."
Assim o
então diretor do Departamento Nacional de Povoamento, Dulphe Pinheiro Machado,
introduz o relato de uma viagem de inspeção feita no início de 1940 ao sul do
país.
O
documento foi localizado pela BBC News Brasil no Fundo do Conselho de Segurança
Nacional do Estado Novo (1937-1945), no Arquivo Nacional.
O
destinatário original do relatório era o ministro do Trabalho, Indústria e
Comércio, Waldemar Falcão.
No dia
19 de julho daquele ano, porém, cópias do documento foram distribuídas pelo
secretário-geral do Conselho de Segurança Nacional, general-de-divisão
Francisco José Pinto, às pastas da Justiça, Educação e Viação e Obras Públicas
e ao Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
O
relatório catapultou a carreira de Pinheiro Machado, um engenheiro paulista de
45 anos, no regime varguista.
Em
1941, ele assumiria por seis meses a pasta do Trabalho, à qual o Departamento
Nacional de Povoamento estava subordinado.
Na
época em que o texto foi produzido, o Brasil estava próximo de completar três
anos da ditadura do Estado Novo, instaurada por meio de um autogolpe do
presidente Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937.
A
pretexto de prevenir uma insurreição comunista forjada, o regime estabelecera
uma Constituição autoritária, fechara o Congresso e os partidos e submetera a
vida pública a arbítrio e censura rigorosos.
Por
meio de sucessivos decretos, em 1938, Vargas edificara a chamada política de
nacionalização, inspirada em regimes autoritários de direita europeus como o
nazismo alemão, o fascismo italiano e o nacionalismo polonês.
Com
essas medidas, o Estado Novo pretendia promover a restrição severa do uso de
línguas e culturas estrangeiras, o desincentivo à entrada de novos migrantes e
a repressão a qualquer atividade que pudesse ser qualificada como
"antinacional".
O
relatório de Pinheiro Machado indica, porém, que, quase dois anos depois de
entrar em vigor, a política de nacionalização ainda não produzira os efeitos
desejados.
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'Unidade de raça, língua e pensamento nacional'
A
cruzada nacionalizadora coadunava-se com o pensamento do ditador.
"Um
país não é apenas um conglomerado de indivíduos dentro de um trecho de
território, mas, principalmente, a unidade de raça, a unidade de língua, a
unidade do pensamento nacional", dizia Vargas, citado pelo então tenente
do Exército Hugo Bethlem no livro Vale do Itajaí: jornadas de civismo (José
Olympio, 1939).
O
objetivo era, na linguagem do regime, eliminar "quistos"
representados pela concentração de "alienígenas" no tecido social
brasileiro.
"Há
um movimento nacionalista no Brasil depois da Primeira Guerra Mundial, do qual
são parte, nos anos 1920, os chamados tenentes, os modernistas de 1922 e o
manifesto do Verde-amarelismo, encabeçado por Plínio Salgado, que depois se
converteria em chefe da Ação Integralista Brasileira", afirma Rogério Luis
dos Santos, professor do Programa de Pós-graduação em História da Universidade
de Caxias do Sul (UCS).
Gestada
e executada inicialmente pelo Exército, a política de nacionalização do Estado
Novo tinha fins militares em seus primórdios, e sua fiscalização caberia a
oficiais.
Em
1940, o mundo entrava no segundo ano da Segunda Guerra Mundial, depois da
partição da Polônia entre Alemanha e União Soviética e a declaração de guerra
do Reino Unido e da França ao Reich de Adolf Hitler.
"Tendo
em conta a feliz oportunidade desse Decreto no sentido de prevenir atividades
prejudiciais à nossa soberania de parte de elementos alienígenas, a Secretaria
Geral (do Conselho de Segurança Nacional) sugeriu ao Senhor Presidente da
República que, em vista da situação europeia, parecia convir que as designações
de 'inspetores' recaíssem inicialmente sobre oficiais do Exército, de
reconhecida habilidade e competência", escreveu em 5 de janeiro de 1940 o
general Pinto ao ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra.
A
campanha foi, porém, assumida rapidamente pela burocracia civil, como mostra o
texto de Pinheiro Machado.
Ao
percorrer as regiões de forte presença migrante nos Estados do Rio Grande do
Sul e de Santa Catarina, Pinheiro Machado não se ateve a aspectos relacionados
a sua pasta, mas produziu um painel minucioso sobre a integração – ou ausência
dela – de grandes populações de origem estrangeira na região.
O
relato de Pinheiro Machado não se limita a enumerar em linguagem burocrática
aquilo que, em sua opinião, foram os problemas encontrados.
Seu
texto está repleto de detalhes vívidos, chegando muitas vezes a dar voz às
pessoas que encontrou, de autoridades a homens comuns e até crianças.
"No
município de São Leopoldo (no Rio Grande do Sul), no morro do Reuter, há uma
escola isolada estadual, a cargo do professor Carlos Alfredo Wiest. Em uma
inspeção recente foi verificado que os alunos só sabiam dizer Brasil,
brasileiro e Getúlio Vargas. Eles estudavam em alemão", descreve.
Às
vezes, o relatório assume um tom próximo da fofoca, como ao relatar o
comportamento de um diretor de escola "teuto-brasileiro" no município
rio-grandense de Cachoeira.
"Feito
um inquérito, tiveram a oportunidade de apanhar um livro escrito em idioma
alemão, no momento em que o mesmo era jogado por uma janela", afirma.
E
prossegue: "O tenente-coronel Octavio Monteiro Aché, procurando o
Secretário do Interior do Estado, Sr. Dr. Coelho de Souza, ouviu dele que iria
afastar o diretor, por ser um 'mentecapto'. Entretanto, isso não se verificou,
porque no dia panamericano o referido diretor encontrava-se em seu posto".
O
engenheiro reconhece que, em muitas regiões de colonização alemã, as escolas
comunitárias em língua germânica são as únicas em funcionamento.
"Nos
municípios de Xapecó (sic), Bom Retiro e outros, contam-se escolas fechadas,
havendo casos em que as crianças são forçadas a percorrer vários quilômetros a
pé para que possam frequentar as aulas."
A
preocupação com a consolidação de um Brasil autenticamente brasileiro, distinto
de nações próximas ou distantes, não foi exclusiva do Estado Novo.
"No
Brasil, a ideia de construção nacional vem desde a Independência e se acirra
com a República", afirma Priscila Perazzo, professora do Programa de
Pós-graduação em Educação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul
(USCS).
A
política de nacionalização de 1938 a 1945 constitui, porém, um ponto de virada
em relação a essas preocupações.
"Na
República Velha, houve iniciativas em relação à migração, motivadas pela
preocupação com o branqueamento, mas que refletiam, sobretudo, preocupações
intelectuais da elite", diz Perazzo.
No
Estado Novo, esse movimento adquire um caráter coercitivo e policial.
"A
população será incentivada a denunciar aqueles que descumprirem os decretos de
nacionalização."
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Empresas de migrantes também foram postas sob vigilância
Outro
dos aspectos da política nacionalizadora é seu impacto sobre a atividade
econômica, especialmente a nascente indústria brasileira, impulsionada, em
grande parte, por migrantes e seus descendentes.
"Não
se pode esquecer que a crise econômica dos anos 1920 e 1930 teve um papel chave
nas turbulências políticas que desembocaram na Segunda Guerra Mundial",
observa Cássio Albernaz, professor de História da Universidade Estadual do
Centro-Oeste em Guarapuava (PR).
Esse
quadro estimula o regime varguista a criar estruturas estatais capazes de
regular atividades essenciais a fim de protegê-las de percalços futuros.
"A
criação de um Departamento Nacional do Café ou um Instituto do Açúcar e do
Álcool é uma forma que o Estado varguista para promover, do ponto de vista
nacionalista, o que posteriormente seria chamado de desenvolvimento
nacional", explica.
Embora
famílias de origem estrangeira — como os Berta na área de transporte aéreo com
a Viação Aérea Rio-grandense (Varig) — tivessem suas empresas postas sob
vigilância sob a política nacionalizadora, o que predominou, segundo Albernaz,
foram os interesses comuns.
Os mais
afetados, porém, foram os migrantes de poucas posses e seus descendentes nas
regiões de colonização estrangeira.
"Ainda
não temos uma compreensão abrangente das realidades regionais e locais das
populações mais afetadas pela política de nacionalização durante o Estado
Novo", afirma Rogério dos Santos.
Segundo
o pesquisador, na esfera comunitária, em escolas e igrejas, foram adotadas
múltiplas estratégias para amenizar os efeitos da campanha.
No Rio
Grande do Sul, diz Santos, o arcebispo Dom João Becker assinou uma concordata
com as autoridades estaduais que lhe garantia a prerrogativa de ser informado
antes que fossem adotadas medidas contra católicos suspeitos de desobedecer à
política nacionalizadora.
"Assim,
antes que fiéis, especialmente padres, fossem perseguidos ou julgados, o caso
era primeiramente examinado pelo arcebispo", explica.
Fonte:
BBC News Brasil

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