Como
nasceu o Pix, sistema de pagamentos que entrou na mira do governo Trump, a
pedido de Flávio Bolsonaro
Os novos ataques do governo dos Estados
Unidos contra
o sistema de pagamentos Pix nesta semana
reacendeu no Brasil um debate sobre quando e por quem foi criada a tecnologia.
Na
segunda-feira, o governo americano concluiu uma grande investigação comercial
iniciada contra o Brasil em julho do ano passado. O relatório tinha o Pix como
um de seus alvos.
"O
Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em
serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas
que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento.
No dia
seguinte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) apareceu com um cartaz
durante um evento em Goiás que dizia: "O Pix é do Brasil".
"Viram
que eu entrei aqui com essa faixa: 'O Pix é do Brasil'. É porque ontem, o
presidente americano, numa atitude intempestiva — porque nós estávamos
negociando depois da minha visita ao presidente [Donald] Trump — de forma
intempestiva, anunciou um aumento de taxação das coisas brasileiras para 25%,
com base numa mentira", disse Lula, que é pré-candidato na eleição
presidencial de outubro.
"Eu
falei para ele: ô, Trump, ô cara, ao invés de ter medo do Pix, coloca o Pix
para funcionar nos EUA. Faz um Pix para nós."
Um dia
depois, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) exibiu
em um evento em Minas Gerais um cartaz que dizia: "O Pix é do Brasil e do
Bolsonaro".
Ele
também postou uma foto com a mesma mensagem em seu Instagram.
Em seu
discurso, ele disse: "É mentira que o Pix está ameaçado. Não tem
absolutamente nada a ver o meio de pagamento com isso tudo. O Pix é brasileiro,
foi feito pelo [ex] presidente [Jair] Bolsonaro. O Pix não é taxado porque o
presidente Bolsonaro assim determinou que não fosse, é algo que revolucionou na
segurança, então isso não está em discussão."
Afinal,
como foi criado o Pix?
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Como nasceu o Pix?
O Pix é
um sistema de pagamento instantâneo criado por técnicos do Banco Central, que
permite transferir dinheiro entre contas em segundos, a qualquer hora e dia. É
conhecido por ser rápido e seguro e pode ser usado a partir de contas
correntes, poupança ou pré-pagas.
O
sistema se popularizou no Brasil e possui números impressionantes. Segundo o
Banco Central, mais de 170 milhões de pessoas físicas — o que equivale a 80% da
população brasileira — já fizeram uma transferência por Pix. Até outubro do ano
passado, mais de R$ 3 trilhões haviam sido movimentados por Pix.
Só em
janeiro deste ano, foram realizadas mais de 7 bilhões de transações. No dia 12
de dezembro de 2025 o sistema registrou seu recorde: foram 313 milhões de
transações em um mesmo dia.
O Pix
foi lançado em novembro de 2020 — durante o governo do ex-presidente Jair
Bolsonaro.
Segundo
um relatório de 2022 do Banco Central sobre o Pix, a primeira manifestação
sobre "soluções que permitam, a baixo custo, pagamentos de varejo em tempo
real e ininterruptos" aconteceu em 2014, durante o governo de Dilma
Rousseff, em um relatório Relatório de Vigilância do Sistema de Pagamentos
Brasileiro.
Mas o
Pix só começou a ser desenvolvido pelos técnicos do Banco Central em maio de
2018 — ainda no governo de Michel Temer. Entre a criação de um grupo de
trabalho específico e o lançamento do sistema, se passaram cerca de 31 meses.
A
portaria 97.909 de maio de 2018 do Banco Central instituiu um grupo de trabalho
com objetivo de "contribuir para a construção de um ecossistema de
pagamentos instantâneos competitivo, eficiente, seguro e inclusivo".
O nome
Pix ainda não era usado nessa ocasião. Mas algumas bases do sistema já estavam
definidas nessa portaria.
"A
infraestrutura centralizada de liquidação será operada pelo Banco Central do
Brasil e estará disponível 24 horas por dia, sete dias por semana e em todos os
dias do ano. As transações serão liquidadas uma a uma, no momento em que a
ordem de liquidação for aceita pela infraestrutura", afirma a portaria.
O grupo
de trabalho para pagamentos instantâneos (GT-PI) de maio de 2018 foi, segundo o
Banco Central, "a primeira etapa para o desenvolvimento dos pagamentos
instantâneos no Brasil". Esse grupo esteve aberto a qualquer parte
interessada no tema, e recebeu contribuições de mais de 130 participantes.
Em
dezembro de 2018, o último mês do governo Temer, o Banco Central divulgou o
comunicado 32.927 no qual estabeleceu requisitos fundamentais do Pix que foram
aprovados pela diretoria colegiada da instituição. Nesse comunicado, o BC se
posicionou oficialmente como líder do processo de desenvolvimento e
implementação do Pix.
A
partir de outubro de 2019, já no governo Bolsonaro, a infraestrutura
tecnológica começou a ser desenvolvida.
A marca
Pix foi lançada em fevereiro de 2020. Segundo o Banco Central, a marca "é
baseada em tecnologia, transação e pixel, e representa a transposição dos
limites do sistema financeiro, a comunicação entre os agentes de mercado e a
solidez do pixel".
Um ano
após o começo do desenvolvimento da infraestrutura tecnológica, em outubro de
2020, foi iniciado o cadastramento de chaves por usuários iniciais. Em 3 de
novembro, o sistema começou a funcionar de forma restrita — e em 16 de novembro
ele passou a operar de forma plena.
Em
outubro de 2020, um mês antes do lançamento oficial do sistema, o então presidente Jair Bolsonaro manifestou desconhecer o
meio de pagamento quando
foi parabenizado por um apoiador na saída do Palácio da Alvorada.
Na
ocasião, Bolsonaro se confundiu e achou que se tratava de algo relacionado à
desburocratização na aviação civil. Ao ouvir a explicação do apoiador de que o
Pix era um novo meio de pagamento criado pelo Banco Central, respondeu:
"Não tomei conhecimento, vou conversar essa semana com o [então presidente
do BC] Roberto Campos".
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Impacto
No
Brasil, a forma como o Pix foi estruturado beneficiou empresas nacionais,
especialmente bancos digitais e fintechs. "Alavancando o modelo do
Pix", elas desenvolveram inovação e cresceram, expandindo-se inclusive
para outros mercados.
Isso
acabou fazendo do país uma referência internacional, inspirando outros países,
como a Colômbia.
"O
Brasil é bem conhecido hoje por seus 'neobancos' [bancos digitais] e pelo seu
ecossistema doméstico de inovação financeira", disse a pesquisadora Polina Kempinsky à BBC News
Brasil.
O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman
elogiou o Pix por
ser quase instantâneo e por ter custos de transação baixos e sugeriu que o
Brasil pode ter inventado o futuro do dinheiro com esse sistema.
"Outras
nações podem aprender com o sucesso do Brasil no desenvolvimento de um sistema
de pagamento digital", escreveu Krugman.
E disse
que o sistema brasileiro de pagamentos está "conseguindo de fato o que os
defensores de criptomoedas alegaram, falsamente, ser capaz de se alcançar por
meio do blockchain — baixos custos de transação e inclusão financeira."
"Compare
os 93% de brasileiros que usam o Pix com os 2%, isso mesmo, 2% de americanos
que usaram criptomoedas para comprar algo ou fazer um pagamento em 2024",
disse o economista em 2025.
"Ah,
e usar o Pix não cria incentivo para sequestrar pessoas e torturá-las até que
entreguem suas chaves de criptografia. Então, teremos um sistema semelhante ao
Pix nos Estados Unidos? Não. Ou pelo menos não por muito tempo."
Especialistas também disseram à BBC
News Brasil que
o Pix incomodou algumas das big techs americanas.
"Estamos
falando aqui de uma competição tecnológica, onde os EUA visam tirar qualquer
tipo de tecnologia que possa oferecer algum tipo de inovação e que não esteja
sendo gerida dentro do próprio país ou que não esteja sob controle dos
EUA", diz Bruna Martins dos Santos, gerente de políticas e advocacy da
Witness, organização internacional sem fins lucrativos focada em tecnologia e
direitos humanos, em entrevista em julho de 2025.
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O que os EUA dizem sobre o Pix
Na
conclusão apresentada esta semana da investigação com base na chamada Seção 301
da Lei de Comércio de 1974 — um instrumento legal que permite a Washington
apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra
empresas e produtos americanos — o governo dos EUA acusa o Pix de prejudicar
"injustamente as empresas americanas".
A
investigação diz que o Banco Central brasileiro exerce papel duplo — "como
regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um "conflito de
interesses, na ausência de salvaguardas processuais adequadas".
"O
banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de
pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central
exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e
requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições
participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de
pagamento ou transferência."
Além
disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado
sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades
brasileiras obrigam empresas americanas a promover o competidor brasileiro
(Pix) sem compensações às instituições americanas.
"Os
atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial
dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os
concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e
limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de
pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão
nacional do Brasil."
Como
resultado da investigação, que inclui outras críticas a práticas comerciais do
Brasil, os EUA propõem tarifas de 25% a produtos brasileiros. Essas propostas
ainda serão negociadas entre os governos até o dia 15 de julho.
A
Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o Pix das críticas do
governo americano. Em nota, a entidade disse que as conclusões da investigação
foram baseadas em "informações incompletas" sobre os objetivos e o
funcionamento do sistema.
"O
Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece
a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos", disse a
Febraban.
A
entidade diz que o Pix contribui para a inclusão financeira ao reduzir custos e
ampliar o acesso aos meios digitais de pagamento.
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Ainda
não está claro se intervenções de Trump vão ajudar ou atrapalhar Flávio
Bolsonaro, diz New York Times
O
jornal The New York Times publicou na quarta-feira (03/06) uma reportagem sobre
os novos movimentos do presidente americano Donald Trump em relação
ao Brasil e sua relação
com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O texto
conclui que ainda não está claro se as possíveis intervenções do republicano
contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) podem ajudar ou prejudicar a
candidatura do primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições marcadas para
outubro.
O
periódico, um dos mais tradicionais dos Estados Unidos, reconta tudo o que
aconteceu em maio na relação entre Washington e Brasília, com as visitas que
Trump recebeu tanto de Lula, no início do mês, quanto de Flávio, já às vésperas de
junho.
Dias
após a reunião com Flávio, o republicano anunciou que classificará o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro
Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas internacionais.
A
medida entra em vigor na sexta-feira (05/06), mas ainda é incerto quais impactos ela terá sobre o
Brasil.
Professores de relações internacionais ouvidos pela BBC News Brasil apontam que
ela abre possibilidades que vão desde intervenções militares, algo que
consideram improvável, até sanções financeiras a bancos brasileiros, o que veem
como algo mais possível.
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Governo Trump parece dividido em relação ao Brasil, diz jornal
O texto
do New York Times afirma que o encontro de Flávio com Trump "durou apenas
alguns minutos, mas foi suficiente para demolir meses de esforços feitos para
remendar os laços entre o Brasil e os Estados Unidos".
Segundo
a reportagem, esses esforços partiram de ambos os lados, o que, na avaliação de
um especialista ouvido pelo jornal, sugere que o governo republicano está
dividido sobre como deve conduzir sua relação com o Brasil.
Uma ala
da administração americana "considera o Brasil um parceiro fundamental nos
esforços dos EUA para conter a influência econômica da China no Hemisfério
Ocidental, mas há outro grupo que acredita que a ideologia deve ser a
prioridade".
A
análise é atribuída a Oliver Stuenkel, especialista em relações internacionais
e professor associado da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Diante
da possibilidade de um novo tarifaço
contra o Brasil,
após os Estados Unidos concluírem uma investigação comercial e apontarem
práticas que consideram desleais, a reportagem observa que as tarifas impostas
no ano passado sobre produtos brasileiros não foram suficientes para evitar
a prisão do ex-presidente Jair
Bolsonaro —
e podem tanto beneficiar quanto prejudicar seu filho em uma futura disputa
eleitoral.
"Desta
vez, é igualmente incerto se novas intervenções dos Estados Unidos poderão, em
última análise, ajudar ou prejudicar a candidatura de Flávio. No entanto, a
possibilidade de novas tarifas americanas pode trazer custos políticos para
ele", diz trecho da reportagem.
Fonte:
BBC News Brasil

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