quarta-feira, 23 de julho de 2025

Tarifas de Trump contra o Brasil revelam lógica imperial e afronta ao Brics

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impôs um tarifaço de 50% sobre as transações comerciais com o Brasil. A medida, muito mais severa do que os 30% aplicados ao México e à Europa, não é apenas uma ação protecionista. Trata-se de uma represália clara ao papel que a nação brasileira vem desempenhando no Brics e à tentativa do Sul Global de construir uma ordem mundial mais justa e multipolar.

A Cúpula Brics+ realizada no Rio de Janeiro, com participação ampliada de países como Irã, Nigéria, Tailândia e Venezuela, foi um marco simbólico dessa articulação internacional. Ali, se discutiu a desdolarização do comércio, o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento e o fim da dependência de instituições dominadas pelos Estados Unidos. Trump não gostou.

A retaliação veio com a arrogância de quem ainda se julga dono do mundo. Não se trata apenas de proteger sua indústria, mas de tentar impedir que países como o Brasil fortaleçam sua soberania econômica. As tarifas afetam diretamente produtos fundamentais para a indústria brasileira, inclusive setores de alta tecnologia, como o aeronáutico.

Ao justificar a medida, Trump ironizou a desdolarização, dizendo que “o mundo pode tentar, mas o dólar é eterno”. Essa declaração, somada às tarifas, mostra que os Estados Unidos estão dispostos a usar todas as armas do imperialismo para manter seu poder.

Trump ainda revogou o visto do ministro Alexandre de Moraes e de outros seis membros do Judiciário brasileiro, numa tentativa de intimidar o sistema de justiça e apoiar seus aliados locais. Ele segue apoiando Jair Bolsonaro, a quem considera injustamente perseguido.

Enquanto isso, Bolsonaro enfrenta medidas cautelares impostas pelo STF: uso de tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar noturno e integral aos finais de semana, proibição de contato com embaixadas, autoridades estrangeiras e outros réus. Mesmo assim, segue articulando politicamente, o que mostra a lentidão da Justiça em conter sua atuação antidemocrática.

O tarifaço e o apoio escancarado ao bolsonarismo revelam, juntos, a verdadeira face do imperialismo estadunidense: autoritário, intervencionista e inimigo de qualquer tentativa de soberania popular.

Cabe ao Brasil e aos demais países do Sul Global seguir construindo alianças capazes de romper com esse ciclo de dependência e ameaça permanente.

¨      Atacar Brasil para enfraquecer China e Brics: o que Trump realmente busca com tarifaço?

A decisão do governo de Donald Trump de impor ao Brasil tarifas de 50% sobre as exportações enviadas aos EUA parece uma estratégia voltada mais a boicotar o comércio bilateral que os brasileiros mantêm com a China e, ao mesmo tempo, um golpe para tentar desestabilizar a pujante economia que se forma na comunidade de países dos Brics.

A relação estratégica entre brasileiros e chineses se aprofundou nos últimos anos. Prova disso é que o gigante asiático anunciou, em maio passado, uma nova onda de investimentos no Brasil que supera os 5 bilhões de dólares.

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A notícia foi divulgada após um fórum empresarial com a participação de autoridades chinesas e brasileiras, parlamentares e cerca de 200 empresários do país sul-americano, com a presença de Lula, que viajou a Pequim como parte de uma viagem internacional que incluiu uma parada prévia na Rússia.

Na ocasião, Lula declarou que, na última década, a China se tornou “o principal investidor asiático” no Brasil, “com um estoque de mais de 54 bilhões de dólares”.

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Lula afirmou ainda, em alusão aos EUA e seus aliados, que a China foi tratada “como se fosse um inimigo do comércio mundial”, quando, na realidade, se comporta “como um exemplo”, ao “fazer negócios com países que foram esquecidos durante os últimos 30 anos por muitos outros”.

Esses números podem ser os que mais alarmam Trump e justificariam, segundo o mandatário estadunidense, sua guerra tarifária com o Brasil — especialmente devido à visão de “inimigo” que Washington mantém em relação a Pequim.

<><> A posição da China

Na semana passada, a China instou os EUA a não reacenderem a tensão comercial entre os dois países, que havia alcançado uma frágil trégua acordada em Londres em junho passado, após Trump impor às mercadorias chinesas tarifas superiores a 100%.

A esse respeito, a porta-voz chinesa Mao Ning afirmou que seu país “deixou clara sua posição em mais de uma ocasião. A guerra comercial e a guerra tarifária não têm vencedores, e o protecionismo não leva a lugar nenhum”.

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Além disso, uma coluna no jornal do Partido Comunista Chinês afirmou que “o abuso de tarifas por parte dos EUA é uma prática típica de intimidação unilateral, que teve um grave impacto na ordem comercial internacional e deve ser firmemente rejeitada”.

Por essa razão, o partido chinês defendeu “uma ordem comercial internacional saudável e estável” e ressaltou que o acordo alcançado em Londres demonstra que “o diálogo e a cooperação são o caminho correto para resolver as disputas econômicas e comerciais” — não a “chantagem e a coerção”.

As declarações da China foram feitas após Trump anunciar que aplicaria tarifas mais altas a partir de 1º de agosto, depois de ter adiado sua guerra tarifária decretada em abril — exceto um aumento de 10% — para dar tempo aos países afetados de negociar com os EUA. Em particular, os asiáticos têm até 12 de agosto para chegar a um acordo.

<><> Golpe no Brics?

Em meio a essa nova ofensiva, Trump voltou a agitar os alicerces do comércio internacional ao anunciar a imposição, sem “exceções”, de uma tarifa de 10% para os países que estejam alinhados com as políticas “antiestadunidenses” que, segundo ele, são promovidas pelo Brics — grupo liderado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, ao qual recentemente se juntaram Egito, Irã e Emirados Árabes Unidos.

Diferentemente do pacote tarifário geral lançado por Trump em abril — que contempla tarifas base de 10% e ameaças de aumentá-las até 70% para países sem acordo comercial com os EUA —, essa decisão representa uma ação específica para conter a crescente influência dos Brics no cenário global.

A esse respeito, a porta-voz da Chancelaria chinesa lembrou que o Brics é “uma plataforma importante para a cooperação entre mercados emergentes e países em desenvolvimento”. “Promovem a abertura, a inclusão e a cooperação mutuamente benéficas. Não são um bloco voltado para o confronto. Nem atacam nenhum país”, afirmou.

<><> Relembre as acusações de Trump

Trump alega que os EUA mantêm com o Brasil uma “relação comercial muito injusta”, considerando que está “longe de ser recíproca” e “não tem sido boa”.

Por isso, somou o Brasil a suas “vítimas” tarifárias, uma medida que não deixa de ter cunho político devido à postura de Trump em defesa do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, acusado da tentativa de golpe de Estado em 2023.

Diante desse cenário, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, respondeu que a informação dada por Trump sobre um desequilíbrio comercial é “falsa” e, com base em números, apontou que os EUA possuem um superávit na negociação de bens e serviços com o Brasil que chega a 410 bilhões de dólares nos últimos 15 anos.

 Confira mais análises sobre as tarifas de Trump contra o Brasil.

Lula reiterou que “o Brasil é um país soberano, com instituições independentes, que não aceitará ser tutelado por ninguém” e que “qualquer medida de elevação de tarifas de forma unilateral será respondida à luz da lei brasileira de reciprocidade econômica”.

¨      Guerra tarifária de Trump: trunfo flexível ou risco global?

A preferência do presidente americano Donald Trump por tarifas em vez de sanções tem sido descrita tanto como a "pior aposta do mundo" quanto "uma poderosa e comprovada fonte de influência" para proteger os interesses nacionais dos Estados Unidos.

Desde seu retorno à Casa Branca em janeiro, as ameaças tarifárias de Trump contra dezenas de países criaram grande incerteza entre empresas americanas e parceiros comerciais globais.

As promessas de sobretaxas elevadas sobre produtos estrangeiros, seguidas de reviravoltas abruptas, parecem servir aos objetivos políticos ou econômicos mutáveis de Trump. No entanto, os mercados financeiros permanecem tensos, sem saber o que pode sair da manga do presidente.

tarifa sobre a China, maior rival econômico e militar dos EUA, atingiu níveis históricos em abril, disparando para 145% antes de ser significativamente reduzida no mês seguinte após negociações comerciais em Londres.

O aumento repentino e a posterior reversão das tarifas mostram como Trump as utiliza de forma flexível para corrigir o que considera ser um comércio injusto, com base em disputas comerciais passadas.

"O que molda a visão do presidente é a ascensão rápida do Japão nos anos 1980, e a sensação de que os japoneses estavam superando a icônica indústria automobilística americana porque os EUA foram generosos demais em seus termos comerciais", explica Jennifer Burns, professora associada de história na Universidade de Stanford.

<><> Por que Trump prefere tarifas em vez de sanções

As tarifas têm sido o principal recurso de Trump para lidar com o enorme déficit comercial dos EUA, especialmente com a China, que somou 295 bilhões de dólares (R$ 1,4 trilhão) em 2024, segundo o Censo americano. Elas também se alinham à sua agenda America First (EUA em primeiro lugar), de proteção às indústrias locais e estímulo à criação de empregos no país.

A Casa Branca defendeu a abordagem do presidente, insistindo que as tarifas podem ser rapidamente implementadas e, ao contrário das sanções, não fecham completamente os mercados estrangeiros às empresas americanas.

"[Trump] pode colocar essa pressão quando quiser e depois recuar quando os mercados começarem a entrar em pânico ou quando isso deixar de servir ao seu propósito", disse à DW Sophia Busch, diretora associada do Centro Geoeconômico do think tank Atlantic Council. "Isso é muito mais fácil com tarifas do que com sanções."

Embora amplamente criticadas por seu potencial de alimentar a inflação, as tarifas geram receita para o Tesouro americano, ao contrário das sanções. A arrecadação de tarifas nos EUA subiu 110%, chegando a 97,3 bilhões de dólares (R$ 544,7 bilhões) no primeiro semestre do ano, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Espera-se que esse valor chegue a 360 bilhões de dólares (R$ 2 trilhões) no próximo ano, segundo o Urban-Brookings Tax Policy Center, um centro de estudos sobre políticas tributárias dos EUA.

<><> Flexíveis e fáceis de implementar

As tarifas dão a Trump controle direto e unilateral, por meio de ordens executivas, sem necessidade de aprovação do Congresso americano. As sanções, por outro lado, geralmente demandam arranjos legais complexos e cooperações internacionais, como com a União Europeia.

A aposta em tarifas reflete o objetivo de Trump de obter vantagem econômica rápida e visível, mas levanta preocupações quanto aos efeitos desestabilizadores de tais políticas sobre o comércio global e a paz.

"A razão pela qual [as tarifas] têm uma reputação tão ruim é porque estão associadas a episódios de desglobalização e, no século 20, foram ligadas a conflitos armados", disse Burns. "Se tarifas baixas e mercados abertos conectam os países de maneira a evitar conflitos armados, será que estamos nos afastando disso?”

<><> Confusão entre tarifas e sanções

As decisões de Trump em seu segundo mandato sugerem o uso de tarifas para alcançar objetivos tipicamente associados a sanções, como pressionar países como Canadá, México e China em questões não comerciais, como imigração e tráfico de drogas. As tarifas anunciadas provocaram medidas retaliatórias ou ameaças, intensificando as tensões no comércio global.

De forma semelhante, a Colômbia foi ameaçada com tarifas após rejeitar voos de deportação dos EUA, enquanto tarifas contra a União Europeia foram anunciadas como resposta às regulamentações europeias sobre privacidade e clima.

No início deste mês, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre importações do Brasil – justificada, entre outros motivos, como retaliação ao que o americano chama de "perseguição" judicial contra Jair Bolsonaro, seu aliado próximo. O ex-presidente enfrenta julgamento sob a acusação de planejar um golpe para reverter sua derrota nas eleições de 2022, incluindo planos de assassinar rivais políticos.

<><> Sanções secundárias

Governos anteriores preferiram sanções em vez de tarifas como ferramenta de barganha com países considerados "fora da linha".

Desde que Moscou lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, os EUA impuseram mais de 2,5 mil sanções à Rússia, atingindo indivíduos, entidades, transporte marítimo e aeronaves. Venezuela, Irã e Coreia do Norte também foram alvos de sanções.

"Essas economias não são parceiras comerciais cruciais para os EUA", disse Busch, do Atlantic Council. Ela pontua que as tarifas de Trump sobre os principais parceiros comerciais dos EUA representam, sobretudo, "uma ameaça econômica mais doméstica".

O líder americano tem demonstrado nos últimos dias maior abertura ao uso de sanções. Referindo-se a um projeto de lei proposto pelo senador Lindsey Graham para penalidades adicionais contra Moscou caso não negocie de boa-fé um acordo de paz com Kiev, ele disse estar "considerando muito seriamente" novas sanções.

Se aprovada, a Lei de Sanções à Rússia de 2025 vai mirar autoridades e oligarcas russos, instituições financeiras e o setor de energia, com o objetivo de restringir a capacidade da Rússia de exportar petróleo e gás.

O projeto, que conta com apoio de republicanos e democratas, também propõe "tarifas secundárias" de até 500% a países e empresas estrangeiras que importarem energia russa.

Tarifas semelhantes de 25% sobre compradores de petróleo venezuelano, que entraram em vigor em março, também foram criadas para pressionar importadores de energia a se alinharem à política externa dos EUA — um intento que, em outros tempos, seria buscado por meio de sanções.

Sanções secundárias geralmente incluem bloqueio de indivíduos e entidades, congelamento de ativos e restrições bancárias. A ameaça de acusações criminais nos EUA e proibição de viagens também é comumente usada.

"As sanções têm mais a ver com punir países por violarem normas internacionais", disse Burns à DW. "Elas são uma resposta a ações específicas e, se essas ações cessarem, as sanções podem ser revertidas."

Ao observar como a incerteza em torno da política tarifária de Trump deixou empresas americanas e parceiros comerciais globais atônitos, Burns alertou que "anos de incerteza tarifária" podem causar uma "séria desaceleração econômica, à medida que empresas e investidores aguardam um cenário mais previsível".

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Rússia Today/DW Brasil

 

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