Marcelo
M. Nogueira: Golpismo globalizado - quando o ataque vem de dentro e de fora
Ao
longo da história republicana do Brasil, o golpismo sempre foi um recurso
recorrente das oligarquias políticas, militares e econômicas diante de
processos que ameaçavam sua hegemonia. A Proclamação da República em 1889, o
Estado Novo em 1937, o golpe civil-empresarial-militar de 1964 e o impeachment
da presidenta Dilma Rousseff em 2016 — cada um, a seu modo, representou a
suspensão ou o esvaziamento da soberania popular sob diferentes pretextos de
ordem, legalidade ou “salvação nacional”. Em um contexto global, tais fenômenos
autoritários se conectam a dinâmicas internacionais de crise do neoliberalismo,
da ascensão das extremas direitas e da erosão deliberada de instituições
democráticas. Nesse sentido, o ataque de 8 de janeiro de 2023 não é um evento isolado,
mas a continuidade de uma lógica de ruptura institucional que atravessa o
tempo, agora atualizada por meio da articulação transnacional e da guerra
informacional.
A
tentativa de golpe de Estado ocorrida naquele 8 de janeiro, quando
manifestantes bolsonaristas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em
Brasília, representa um dos mais graves ataques à ordem constitucional
brasileira desde a redemocratização. Longe de ser um episódio espontâneo, o
levante foi resultado de um processo deliberado, articulado por diferentes
esferas do poder político, militar e religioso fundamentalista, com apoio
direto de figuras públicas e financiamento ilegal de empresários. A
radicalização do bolsonarismo, sua narrativa de deslegitimação do sistema
eleitoral e os apelos explícitos à ruptura institucional não foram acidentais:
integraram um projeto autoritário que já se insinuava desde a eleição de 2018.
Investigações
conduzidas pelo Supremo Tribunal Federal e pela Polícia Federal revelaram
indícios de que a tentativa de golpe não se resumiu à ação de civis
descontentes, mas contou com apoio logístico, ideológico e estratégico de
setores ultraconservadores das Forças Armadas, havendo suspeitas de omissão
deliberada na desmobilização dos acampamentos golpistas. Figuras como o
ex-ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, e o então comandante do
Exército, general Júlio Cesar de Arruda, são investigados por possível
conivência ou tolerância diante da escalada autoritária.
Documentos
e testemunhos indicam que houve reuniões preparatórias com participação de
militares da ativa e da reserva para discutir um "estado de sítio"
forjado. A chamada minuta do golpe, apreendida na casa do ex-ministro da
Justiça Anderson Torres, revelava o grau de planejamento envolvido — com
previsão de intervenção direta no Tribunal Superior Eleitoral, prisão de
ministros do Supremo Tribunal Federal e anulação das eleições de 2022. A ideia
de um estado de sítio forjado ecoava a narrativa bolsonarista que, de forma
fraudulenta, distorcia o papel das Forças Armadas definido na Constituição
Federal, frequentemente invocando de maneira equivocada o artigo 142 da carta
constitucional. Tudo isso, de acordo com investigações, ocorreu com o
conhecimento e sob estímulo do então presidente da República, Jair Bolsonaro.
A
figura do ex-presidente é central nesse enredo. Seu silêncio diante da derrota
nas urnas, sua permanência nos Estados Unidos no período crítico da transição
de governo, e suas declarações anteriores — que reiteradamente colocavam em
dúvida a segurança das urnas eletrônicas — demonstram que o ex-presidente agiu
como instigador e, em última instância, como comandante simbólico do levante. O
vídeo divulgado por ele dias após os ataques, em que voltava a questionar a
lisura do processo eleitoral, foi interpretado como uma tentativa de acobertar
sua responsabilidade direta por meio de ambiguidade retórica.
Como
afirmam os estudiosos do autoritarismo, o silêncio calculado também é uma forma
de ação. A cientista política argentina Pilar Calveiro entende que o silêncio é
um dispositivo de poder — e, no caso brasileiro, foi usado para incitar sem se
comprometer juridicamente, para sugerir sem ordenar de forma explícita.
Trata-se de uma estratégia típica de lideranças autoritárias, que governam por
meio da ambiguidade e da ameaça latente.
Um
aspecto especialmente grave da crise institucional brasileira é sua dimensão
transnacional. O ex-mandatário e seus filhos estabeleceram laços estreitos com
a extrema-direita global, em especial com o ex-presidente norte-americano
Donald Trump. O alinhamento entre os dois líderes vai além da retórica: ambos
compartilham estratégias, aliados e uma mesma visão de mundo conspiratória e
antidemocrática. A atuação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do
ex-presidente, a partir dos Estados Unidos, como verdadeiro embaixador informal
do golpismo brasileiro, é emblemática dessa conexão.
Reportagens
recentes publicadas por veículos da mídia hegemônica revelaram que o
parlamentar manteve reuniões com parlamentares republicanos como Cory Mills e
Maria Elvira Salazar, além de influenciadores da ultradireita norte-americana.
O objetivo dessas articulações era atacar o Judiciário brasileiro,
particularmente o ministro Alexandre de Moraes, por meio da difusão de
desinformação e da tentativa alegada de aplicação da Lei Magnitsky —
dispositivo legal dos EUA destinado a sancionar violadores de direitos humanos
em outras jurisdições. A proposta foi encampada por representantes do
trumpismo, numa ofensiva geopolítica que não apenas visa enfraquecer a
democracia brasileira, mas também reverter o avanço do Brasil no cenário
global, especialmente no âmbito dos BRICS.
Essa
tentativa de ingerência externa evidencia uma nova etapa do autoritarismo: a
guerra jurídica e diplomática. Como afirma a escritora canadense Naomi Klein,
regimes autoritários modernos não precisam mais de tanques nas ruas — basta
capturar as narrativas, instrumentalizar as instituições e deslegitimar os
opositores. Nesse contexto, as plataformas digitais tornaram-se um dos
principais vetores de ataque à democracia. WhatsApp, Telegram, YouTube,
Facebook, Twitter e outras redes foram instrumentalizadas para disseminar fake
news, teorias da conspiração, convocações golpistas e discursos de ódio. A
guerra híbrida, articulada entre figuras como Trump e Bolsonaro, faz uso
estratégico da desinformação em larga escala, minando a confiança nas
instituições e mobilizando massas em nome de um suposto “patriotismo”
reacionário.
Ao
reabilitar símbolos da ditadura militar — como o AI-5, o fechamento do
Congresso e a glorificação da tortura —, o bolsonarismo atuou como vetor de uma
nostalgia autoritária perversa. Essa apologia do regime passado foi
transformada em projeto de governo, e sua continuidade pós-eleitoral assumiu
formas institucionais e paramilitares. As investigações sobre o 8 de janeiro
revelam a presença de ex-militares, agentes de segurança, membros de igrejas
evangélicas fundamentalistas e empresários da extrema-direita. Trata-se de uma
coalizão complexa e perigosa, que opera tanto na desinformação digital quanto
no financiamento ilegal da subversão.
A
socióloga argentina Elizabeth Jelin, em sua obra fundamental Los
trabajos de la memoria, sustenta que "o esquecimento é sempre
político", e que nenhuma democracia pode ser consolidada sem o
enfrentamento dos crimes do passado. No caso brasileiro, o fracasso da justiça
de transição, a anistia mal resolvida e a ausência de responsabilização de
militares e civis envolvidos na ditadura criaram o terreno fértil para a
repetição do autoritarismo sob novas roupagens. Mais do que uma ausência do
passado, trata-se de uma presença não elaborada da violência estatal em nossos
dias. O autoritarismo institucionalizado, não enfrentado após a
redemocratização, se perpetua nas práticas de segurança pública, na tutela
militar sobre a política e na cultura do silêncio conivente.
O 8 de
janeiro não foi um desvio isolado; encontrou terreno fértil numa democracia que
nunca rompeu plenamente com seus algozes e na impunidade do passado. Diante
desse cenário, a responsabilização penal, política e histórica dos envolvidos
no levante golpista é urgente. Isso inclui não apenas os executores imediatos,
mas também seus financiadores, articuladores e mentores intelectuais. Como
afirma Eugenio Raúl Zaffaroni, "a democracia não pode ser neutra diante de
sua própria destruição". Em consonância com a cientista política
estadunidense Wendy Brown, a democracia só se mantém viva quando resiste à
ascensão de seus algozes, combatendo a captura neoliberal que transforma o
espaço público em arena mercantil e esvazia a soberania popular. A
sobrevivência democrática exige barrar a hegemonia desses projetos nas
instituições.
O STF,
a Procuradoria-Geral da República e o Congresso Nacional têm diante de si uma
oportunidade histórica: impedir que a impunidade se torne mais uma vez o elo
entre passado e futuro. A punição dos golpistas deve ser firme, proporcional e
pedagógica — não como revanche, mas como reafirmação dos limites
institucionais. Como alertava a filósofa alemã, de origem judaica, Hannah
Arendt, a banalidade do mal começa quando crimes deixam de ser nomeados e
punidos.
A
justiça contra os golpistas do 8 de janeiro não representa revanchismo, mas um
compromisso ético com a democracia. O silêncio diante das violações passadas já
cobrou caro durante a transição inacabada. Agora, temos a chance de não repetir
os mesmos erros. A história mostra que a impunidade convida à repetição de
violações.
A
reconstrução de um Brasil democrático exige mais do que eleições periódicas.
Exige memória ativa, responsabilização efetiva e enfrentamento dos poderes
paralelos que desafiam a soberania do povo. O bolsonarismo não é apenas um
fenômeno político — é um projeto de dominação que articula militares,
religiosos, empresários e forças estrangeiras. Enfrentá-lo é condição para que
a democracia deixe de ser apenas uma promessa adiada.
<><>
Que se dane Trump, o trumpismo, o bolsonarismo. Por Pedro Maciel
Acabei
de ler no BRASIL 247 que interlocutores do Brasil - e não do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, como constou na matéria -, que estão nos EUA se depararam
com um fato sem precedentes: o presidente Donald Trump não autorizou o governo
norte-americano a abrir diálogo com o Brasil sobre as tarifas de 50% que entram
em vigor em agosto.
Uma
demonstração de incivilidade de Trump.
Uma
comissão de senadores vai para os EUA, com a missão de tentar abrir um canal de
negociações diretas em território americano sobre o tema, o pessoal do
Itamaraty não está confiante, em razão do poder e influência do deputado
Eduardo Bolsonaro e do blogueiro Paulo Figueiredo.
Paulo
Figueiredo não é apenas jornalista, blogueiro e neto do último ditador do
Brasil, ele seria também um salafrário que foi multado pela CVM em R$ 102
milhões devido a irregularidades em relação ao Trump Hotel no Rio de Janeiro;
pasme senhores, Paulo Figueiredo foi indiciado pela Polícia Federal por fraude
no contexto da captação de recursos para o hotel, sua defesa alega nulidades no
processo, como a falta de citação adequada e problemas com a delação premiada,
não alega que ele é inocente; o processo parece estar grau de recurso.
Vamos
em frente.
O que
Trump quer? Ele quer: (a) criar fissuras nos BRICS; quer (b) que o Brasil
mantenha as Big Techs sem regulação e sem tributação; (c) quer seguir, tanto
quanto posso, praticando Insider trading, para beneficiar seus amigos
bilionários; (d) quer acesso àquilo que se passou a chamar de “terras raras”
(um grupo de 17 elementos químicos com propriedades distintas, mas que
geralmente ocorrem juntos em depósitos minerais; sua extração e processamento
podem ser complexos e caros, além de potencialmente causarem danos ambientais),
as quais o Brasil tem de sobra; (e) querem a Petrobrás, o Banco do Brasil, a
Caixa Econômica Federal e tudo quanto seja lucrativo, ou seja, Trump, imperador
de um império em decadência fará tudo que seja possível para apropriar-se da
nossa soberania, pois, é através da subjugação da soberania que ele controlará
as riquezas , afastará o BRICS e retardará a decadência do império.
Mas e
Bolsonaro? Bolsonaro é descartável; Trump usa o ex-presidente para tentar
pressionar e constranger o Brasil.
É
cansativo escrever novamente tudo quanto já escrevi e que foi escrito por tanta
gente, mas sou um militante da palavra escrita e preciso lembrar que os EUA
representam 1,8% do PIB brasileiro, que a nossa relação comercial com eles é
deficitária e que apenas 12% da nossa exportação , ou seja, se Trump pretende
que as empresas estadunidenses paguem um imposto de 50% sobre os nossos
produtos; se isso vai causar problemas imediatos nos dois países; se Trump não
quer negociar, dane-se Trump, o trumpismo, Bolsonaro e o bolsonarismo, ao invés
de delegações de empresários e senadores irem aos EUA, onde serão humilhadores,
está na hora de olhar os cinquenta e quatro países do continente africano;
olhar os quarenta e nove países da Ásia e “deixar o império pra lá”.
O setor
de proteína animal (carne bovina e de frango), o agronegócio (soja, milho,
café, açúcar e suco de laranja), sofreram um grande impacto se a APEX continuar
atordoada e o Haddad der entrevista toscas, algo em torno de até 32 bilhões de
reais; outros setores, como aeronáutica, pesca e de armas, destinam mais da
metade de suas exportações ao mercado americano, e podem sofrer impactos no
emprego; por isso: AO TRABALHO APEX, HADDAD, ITAMARATI, CNI e demais entidades
e associações do setor produtivo.
O
presidente do Brasil disse que está à disposição para negociar, mas “o outro
lado” tem que querer.
Não
acredito que a APEX não consiga apoiar os exportadores brasileiro a buscar
novos mercados, se não conseguir que troque a presidência ou que fecha a
agência.
Cabe ao
governo apoiar os empresários nacionais (inciso IX, artigo 170 da CF), para
evitar ou mitigar prejuízos, financiar o que for necessário, comprar os
produtos perecíveis e distribuir para a população carente do Brasil e da
África.
Essas
são minhas reflexões e impressões para necessário debate.
¨
Motta critica tarifaço de Trump e denuncia
"ingerência em assuntos internos"
Durante
a abertura de uma reunião de presidentes de Parlamento em Genebra, na Suíça,
nesta terça-feira (29), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta
(Republicanos-PB), fez duras críticas às ações comerciais unilaterais adotadas
por outros países. Segundo ele, tais medidas são utilizadas “para fins
protecionistas e para ingerência em assuntos internos”.
O
aumento tarifário foi anunciado pelo presidente norte-americano, Donald Trump,
que inicia seu segundo mandato em 2025. Em carta enviada no início de julho ao
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump informou que as exportações
brasileiras seriam taxadas em até 50%, justificando a decisão com críticas à
condução do Supremo Tribunal Federal no julgamento de Jair Bolsonaro (PL), réu
por tentativa de golpe de Estado.
“No
domínio comercial, aprovamos a Lei da Reciprocidade Econômica. Com ela, o
Brasil tem ferramentas adequadas para responder a práticas discriminatórias em
relação aos produtos brasileiros. É uma resposta serena, mas firme”, afirmou
Hugo Motta.
O
deputado brasileiro reforçou que o país está comprometido com práticas
comerciais justas, mas não aceitará retaliações. “Nossa profunda preocupação é
com o uso de medidas comerciais unilaterais para fins protecionistas e para
ingerência em assuntos internos de outros países”, completou.
A nova
política tarifária dos Estados Unidos está prevista para entrar em vigor nesta
sexta-feira (1º). Com isso, diversos produtos brasileiros poderão sofrer uma
elevação substancial em seus custos ao entrarem no mercado norte-americano.
Ainda
conforme a reportagem, Motta também defendeu o diálogo internacional e a
cooperação entre países como alternativas ao confronto. Ele citou projetos em
andamento na Câmara dos Deputados, como a regulamentação da Inteligência
Artificial e o marco do hidrogênio verde, para demonstrar o comprometimento
brasileiro com o futuro e com a inovação tecnológica.
“Como
principais guardiões da democracia em nossos países, temos de ser também os
arquitetos de um futuro em que a razão deve prevalecer sobre a força, em que o
entendimento deve substituir a confrontação, em que construamos pontes e não
muros”, declarou.
COP30 e
protagonismo do Parlamento - O presidente da Câmara aproveitou a ocasião para
destacar a importância da próxima Conferência das Nações Unidas sobre as
Mudanças Climáticas (COP30), que ocorrerá em novembro na cidade de Belém, no
Pará.
O
Brasil será anfitrião do evento ao lado da ONU e Motta garantiu que o
Parlamento terá papel central na agenda de desenvolvimento sustentável. “A
COP30 será ocasião para mostrarmos ao mundo, uma vez mais, o papel central do
Parlamento brasileiro na agenda do desenvolvimento sustentável”, enfatizou.
Fonte:
Brasil 247

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