Negociar,
retaliar ou buscar novos mercados? As opções do Brasil
Especialistas
em comércio exterior e relações internacionais alertam que o Brasil precisará
adotar estratégias diplomáticas e econômicas para mitigar os impactos das
tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre
produtos brasileiros.
Os
analistas apontam que o governo deve buscar alternativas de mercado, acionar
mecanismos multilaterais e evitar escaladas que possam prejudicar ainda mais a
relação bilateral.
No dia
9 de julho, Donald Trump enviou uma carta endereçada ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) onde anunciou taxas de 50% sobre os produtos brasileiros
importados pelos Estados Unidos.
Na
carta, Trump citou Jair Bolsonaro (PL) e disse que o julgamento do
ex-presidente no Supremo Tribunal Federal era “uma vergonha internacional”.
Em
resposta, Lula tem afirmado que o Brasil não “aceitará ser tutelado por
ninguém” e chamou a carta enviada por Trump de ‘chantagem inaceitável’.
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Alternativas do Brasil ao tarifaço
Lia
Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação
Getúlio Vargas (FGV) e professora de Economia da Universidade Estadual do Rio
de janeiro (UERJ), avalia que o governo brasileiro está seguindo os caminhos
possíveis para a negociação, mas que o contato com o país americanos está
“difícil”.
“Estratégias
de negociação são isso, é você tentar. O governo está tentando pelos canais,
até os setores empresariais também que tem interesse, não só os brasileiros,
mas os setores empresariais americanos também”, afirmou a pesquisadora.
A
dificuldade de comunicação tem sido comentada até por Lula. Na última
quinta-feira (24), o presidente afirmou que Trump "não quer
conversar" sobre as tarifas e que o presidente norte-americano quiser
negociar, o Brasil está pronto para fazê-lo.
“Não
tem mais o que é possível fazer, é sentar na mesa e ver qual é o espaço que
existe. A impressão que se tem é que está parecendo que está difícil, são
difíceis esses espaços”, disse Valls.
Em
entrevista à GloboNews nesta sexta-feira (25), o ex-secretário de Comércio
Exterior do Brasil e advogado especializado em comércio internacional, Welber
Barral, disse que Trump tem usado a instabilidade como estratégia de negociação
e que o Brasil está em uma “situação muito complexa”.
“O
Trump tem usado a instabilidade como estratégia de negociação, coloca prazos
muito curtos e demandas muito altas sobre a mesa e a partir daí negocia
genericamente alguns acessos para que ele possa dizer que teve resultados muito
positivos para os Estados Unidos”, disse.
Barral
aponta ainda que a postura 'personalista' de Trump diante das negociações
dificulta antecipar os próximos passos dos Estados Unidos.
"As
esferas técnicas do Departamento de Estado e do Departamento de Comércio
Americano claramente não tem acesso à posição decisória do Trump, que é muito
personalista. Então isso dificulta muito anteciparmos os próximos passos dos
Estados Unidos para saber qual seria uma negociação possível".
O
ex-secretário também avalia que, na melhor das hipóteses, acordos genéricos
serão fechados entre Brasil e Estados Unidos, assim como aconteceu com o Japão.
Mas, para o especialista, é necessário que os negociadores tenham cuidado com
os detalhes do acordo.
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Novos mercados
Uma
possibilidade apontada é a busca por novos mercados. No entanto, a medida,
segundo Valls, não acontece “do dia para a noite”.
A
medida, no entanto, pode apresentar dificuldades. A professora destaca que
alguns dos produtos que o Brasil exporta são específicos para multinacionais
americanas, o que pode ‘complicar’ a situação brasileira.
“Se vai
cortar, se vai perder o mercado americano, você vai procurar diversificar,
agora nem todos os produtos você consegue facilmente diversificar. Tem produtos
mais nessa área de manufatura que que estão dentro das próprias cadeias de
produção das empresas multinacionais americanas é mais complicado”, disse a
pesquisadora.
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Lei da Reciprocidade
Desde o
anúncio, o governo brasileiro tem estudado medidas de como responder e formas
de negociar a diminuição das tarifas. Um dos caminhos apontados por Lula é
responder ao aumento de tarifas com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
Ao
falar sobre a possibilidade do Brasil retaliar, Lia Valls afirma que a medida
pode acabar prejudicando o Brasil.
“Para o
Brasil é complicado fazer isso, acho que eles falam, mas ninguém tá pensando
seriamente. Primeiro que a participação do Brasil nas importações americanas é
muito pequena. Quem acabava sendo mais prejudicado seria o próprio Brasil”,
avaliou.
O
decreto que regulamenta a Lei da Reciprocidade foi publicado por Lula no dia 15
de julho. A lei foi aprovada pelo Congresso Nacional em abril deste ano. Antes
da lei, não havia um arcabouço que permitisse ao governo retaliar outro país
por medidas dessa natureza — somente recurso à Organização Mundial do Comércio
(OMC).
No
documento, foram estabelecidos procedimentos para que o Brasil possa suspender
"concessões comerciais, de investimentos e obrigações relativas a direitos
de propriedade intelectual em resposta a ações unilaterais de países ou blocos
econômicos que afetem negativamente a sua competitividade internacional".
• Interferência de Trump em temas internos
do Brasil não tem precedentes 'nem em tempos coloniais', diz Amorim
Celso
Amorim, principal assessor de política externa do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, criticou em entrevista ao jornal econômico britânico Financial Times
a ameaça do governo Donald Trump de impor uma tarifa de 50% às exportações
brasileiras aos EUA.
Amorim
disse ao jornal que a tentativa do republicano de interferir em assuntos
internos brasileiros não tem precedentes "nem em tempos coloniais".
"Nem
a União Soviética teria feito algo assim", disse, apontando que Trump está
tentando agir politicamente dentro do Brasil em favor do ex-presidente Jair
Bolsonaro, "seu amigo".
As
tarifas foram anunciadas por Trump em 9 de julho e devem passar a valer a
partir de 1º de agosto. O presidente americano citou como um motivo para a
taxação o tratamento dado a Bolsonaro pela Justiça brasileira no processo em
que o ex-mandatário e aliado do republicano é acusado de tramar um golpe de
Estado. Para Trump, trata-se de uma "caça às bruxas" contra o aliado.
Já Lula disse que a ameaça é uma "chantagem inaceitável".
Na
entrevista ao FT, Amorim reafirmou a decisão brasileira de aprofundar sua
participação no bloco dos Brics, formado por Brasil, China, Rússia, Índia e
África do Sul, apesar das pressões de Trump.
O
republicano impôs uma sobretaxa de 10% sobre países alinhados aos Brics, que
considera um grupo anti-EUA, e criticou as falas de Lula pregando um
"desdolarização" da economia mundial durante a reunião do bloco no
Rio, no começo do mês.
"O
que está acontecendo está reforçando nossas relações com os Brics, porque
queremos diversificar nossas relações e não depender de nenhum país só",
disse Amorim, ressaltando que o Brasil também pretende fortalecer vínculos com
países da Europa, Ásia e América do Sul.
Embora
a China seja o maior parceiro comercial do Brasil, com importações que chegaram
a US$ 94 bilhões em produtos principalmente agrícolas e minerais no ano
passado, o ex-chanceler negou que o Brasil queira que Pequim seja o principal
beneficiário das tarifas americanas elevadas.
Ao
mesmo tempo, Amorim rejeitou que o Brics tenha caráter ideológico, defendendo o
bloco como uma forma de apoiar a ordem multilateral global, especialmente
diante da postura unilateral e isolacionista dos EUA sob Trump.
O
conselheiro de Lula também pediu que a União Europeia ratifique rapidamente o
acordo comercial com o Mercosul, destacando que a ratificação traria não só
ganhos econômicos imediatos, mas também maior equilíbrio nas relações globais.
O
assessor internacional mencionou ainda que o Canadá demonstrou interesse em
negociar um acordo de livre comércio com o Brasil e indicou que o último ano do
governo Lula terá um foco maior na integração da América do Sul, região que
comercializa menos internamente do que qualquer outra do mundo.
Para
Amorim, Trump é um caso incomum na diplomacia: "Países não têm amigos, têm
interesses; mas Trump não tem nem amigos nem interesses, só desejos". Ele
afirmou que a abordagem do ex-presidente americano é "uma ilustração do
poder absoluto".
As
declarações do assessor de Lula ao Financial Times acontecem em um momento que
o governo brasileiro parece considerar inevitável a entrada em vigor do
tarifaço de Trump na próxima sexta-feira.
Autoridades
brasileiras e o próprio Lula tem reclamado publicamente de não ter canais de
negociação com a Casa Branca.
Na
última sexta-feira (25), o mandatário brasileiro disse que o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, foi induzido a acreditar "em uma
mentira", de que o ex-presidente Jair Bolsonaro está sofrendo uma
perseguição.
"O
Bolsonaro não é um problema meu, é um problema da Justiça brasileira",
disse o presidente durante evento em Osasco (SP).
"Se
o presidente Trump tivesse ligado para mim, eu certamente explicaria para ele o
que está acontecendo com o ex-presidente", afirmou.
Lula se
colocou à disposição para negociar a taxação de 50% às exportações brasileiras
e disse ter escalado um "exímio negociador" para a tarefa, o
vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin.
Já
governadores de oposição, como Tarcísio de Freitas (São Paulo), Ronaldo Caiado
(Goiás) e Ratinho Jr. (Paraná) criticaram a estratégia do governo federal em um
evento de investidores em São Paulo.
Ratinho
Jr. (PSD) chamou de "falta de inteligência" a fala de Lula sobre
desdolarização do comércio. "O Bolsonaro não é mais importante que essa
relação comercial entre os Estados Unidos e o Brasil", disse. Nenhum dos
governadores citou a exigência de Trump sobre Bolsonaro.
• Trump anuncia acordo com União Europeia,
com tarifas de 15%: 'O maior já feito'
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que fechou um acordo
comercial com a União Europeia e que passará a cobrar 15% de tarifas sobre as
exportações feitas pelo bloco europeu, e não mais 30% como havia anunciado,
após seu encontro com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen,
neste domingo (27).
Em
conversa conjunta com os jornalistas após a reunião, que ocorreu na Escócia, os
dois deram alguns detalhes do que foi discutido. O presidente norte-americano
afirmou que a UE irá fazer um investimento de US$ 600 bilhões nos EUA, sendo
US$ 150 bi em energia, além de uma parte em equipamentos militares.
"O
acordo com a União Europeia é o maior já feito", comemorou Trump.
A
presidente da Comissão Europeia ressaltou que o acordo vale para todos os
setores, e que ele ajudará a reequilibrar o comércio entre os dois países:
"Trará estabilidade".
Comissário
europeu diz que tarifa de 30% impossibilita comércio com União Europeia
Os
termos do acordo agora deverão ser validados pelos 27 Estados-membro da União
Europeia, e seus representantes têm uma reunião prevista para este domingo.
Segundo
informações da agência de notícias France Press, a relação comercial entre EUA
e União Europeia chega a US$ 1,9 trilhão anuais - o equivalente a R$ 10,5
trilhões - em bens e serviços.
Antes
do encontro, Trump e von der Leyen afirmaram que havia "50% de
chance" de um acordo entre as duas partes.
Entre
os pontos de discórdia, o presidente dos EUA citou as barreiras às exportações
americanas de automóveis e produtos agrícolas, e declarou que o mercado europeu
é "muito fechado".
Von der
Leyen garantiu que qualquer acordo seria baseado "na justiça e em um
reequilíbrio" e descreveu o presidente dos EUA como um "negociador
duro".
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Outros países
Também
antes do encontro, Trump afirmou que os EUA estão perto de um acordo com a
China. De acordo com o jornal chinês "South China Morning Post", a
expectativa é que os dois países estendam sua trégua tarifária por mais 90
dias.
O
presidente norte-americano também confirmou uma declaração dada mais cedo pelo
secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, e garantiu que as
tarifas que ainda não foram negociadas entrarão em vigor no dia 1º de agosto.
O
secretário de Trump afirmou que não haverá "prorrogações":
"Sem
mais períodos de carência — em 1º de agosto, as tarifas serão definidas. Elas
entrarão em vigor. A Alfândega começará a arrecadar o dinheiro", garantiu.
Fonte:
g1/BBC News Brasil

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