Hugo
Albuquerque: Bolsonaro, Trump e a traição à pátria como pornochanchada
William
Shakespeare imortalizou o general romano Coriolano na peça de mesmo nome. Nela,
Coriolano trai Roma e se alia à nação rival dos volscos, uma vez que se
enfureceu com os crescentes direitos da plebe e as concessões da elite da qual
fazia parte. O recente episódio de Bolsonaro e o tarifaço de Trump, guardadas
as incontornáveis características brasileiras, relembra o tema geral da peça.
Por
ironia, talvez tenhamos inventado uma terceira “repetição” histórica, além da
farsa aventada por Marx, no sempre recorrente 18 de Brumário: a pornochanchada.
Nas últimas semanas, o descarado complô da família Bolsonaro com Donald Trump
para livrar Bolsonaro pai do cárcere, passou de uma eventual tragicomédia para
alcançar outra dimensão, pornográfica e cômica ao mesmo tempo.
A
pornochanchada, gênero consagrado no cinema brasileiro, trazia o humor
popularesco com um soft porn tropical – no entanto, ainda que a nudez ou o sexo
explicitado sejam a forma de expressão recorrente da pornografia, ela
certamente não se limita a isso: o pornográfico, antes de tudo, se baseia na
explicitação do que, por pudor ou hipocrisia, se deve manter em reservado. E a
pornochanchada nos faz rir desse despudor.
A
História do Brasil, ora pois, vem da colonização portuguesa e segue sob
constante intervenção anglo-americana, no contexto de um sistema dependente.
Mas isso manteve os ritos da decência por meio de conspirações razoavelmente
escondidas, tramoias subterrâneas e uma diplomacia de alcova, exaltando um
inexistente respeito mútuo – como é a praxe de casamentos arranjados e sem
amor.
Eis que
dessa vez Trump avança na sua política de chantagem tarifária, mostrando que
quer mesmo é que sua vontade seja cumprida pelo sistema brasileiro, enquanto
Bolsonaro se utiliza disso para se safar da justiça de seu país. Por ora, ambos
perderam o primeiro round, e Lula recupera sua popularidade enquanto mesmo
parte da base eleitoral bolsonarista rejeita o complô. Mas essa luta ainda não
acabou.
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Trump e o imperialismo além da alcova
Novamente
na presidência, após derrotar um governo impopular como o de Biden, Trump se
beneficiou de um raciocínio muito simples do eleitorado: se nos tempos do seu
primeiro governo a economia seguia melhor, então seria de bom tom trazê-lo de
volta. Que não se subestime as perdas dos trabalhadores americanos durante o
governo Biden, seja com a inflação ou endividamento, ao contrário do que se
dizia.
Só que
hoje a administração Trump perde cada vez mais a popularidade, enquanto sua
atuação em políticas específicas – como a gestão da economia, o controle do
custo de vida e a imigração – estão piores que a média da própria
administração. Quase sem lua de mel com o eleitorado, Trump bateu na lona em
relação ao tarifaço de abril, se recuperou um pouco, mas agora volta a cair,
enquanto o escândalo Epstein volta à tona.
Ainda
pior do que a avaliação de Trump nos Estados Unidos é sua percepção atual no
Brasil, onde é vendido pela extrema direita como patrono e modelo. O tarifaço
interventivo no Brasil, por sinal, além de ofender os pudores patrióticos da
massa, atingiu o bolso de setores tradicionais da oligarquia. A supremacia
americana sobre o Brasil, antes devidamente exercida na alcova, ganhou a praça
pública.
Se
Trump consegue entreter a massa como estrela de televisão que é, mantendo os
olhos fixos de todos na tela, por outro lado, ele se desgasta. Isso já lhe
custou a derrota de 2020. Trump, é claro, não é um pobre volsco como na peça de
Shakespeare, mas um bilionário herdeiro e forjado em meio a negócios escusos em
Nova Iorque – servindo agora a interesses piores e muito maiores no Império.
Bolsonaro,
por outro lado, é menos que um protagonista aristocrata e elitista, mas uma
versão pornográfica e cômica, cuja patente o liga aos velhos capitães do mato
da colônia. Sua aposta desesperada, entretanto, produz um desgaste mesmo na sua
âncora. Uma vez que a natureza das relações americano-brasileiras se torna
pública, e pornograficamente se escancara, como esse domínio pode se sustentar?
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Um tarifaço “totalmente insano”
Com
alguma razão, foi assim que o ex-vice-presidente americano Al Gore descreveu o
tarifaço contra o Brasil. O comércio entre os países é amplamente favorável a
Washington, que tem superávit comercial e ainda importa produtos como laranja,
café e carne, que são essenciais na dieta cotidiana dos americanos – com a
industrialização deles quase toda feita nos Estados Unidos.
O
Brasil já era o “país modelo” do delírio trumpista de como deveria ser o
comércio global – e que não é precisamente porque incorporar o chão de fábrica
do mundo nos Estados Unidos não parece ser sequer fisicamente possível. Nesse
sentido, Trump quer mais, determinando quem será o presidente, e quer a
garantia das terras raras brasileiras, isto é, controlar o mercado de mineração
do país.
Não há
limites para o presidente americano e, nesse sentido, Bolsonaro é perfeito para
o papel de “presidente”: um típico capitão de exército colonial, ainda disposto
a figurar como títere e assim obter suas vantagens econômicas e políticas como
uma tirania qualquer. Bolsonaro é um Coriolano na sua versão colonial, e de
pornochanchada, que não terá sua esposa para lhe servir como consciência
externa.
Enquanto
isso, o senso comum liberal do Brasil, que alimenta o imaginário progressista,
entra em colapso como Roma, mas não a salva pelo arrependimento tardio de
Coriolano. Os liberais fracassam com os neofascistas como os senadores romanos
com os bárbaros – e os que se aviltam, tratando com eles, terminam como o
filósofo Boécio, executado a mando de Teodorico, o segundo rei bárbaro de Roma.
Talvez
sem o sagrado e o segredo, o poder não persevera, mas os bárbaros que tomaram o
Império Romano do Ocidente, assim como os fascistas – dos anos 1920 e de agora
– almejaram quebrar esse tabu, tornando a política um exercício pornográfico da
força. Em certa medida, eles fracassaram, mas não o suficiente para que seus
herdeiros voltassem a atacar. Por isso, Lula terá de ouvir menos, ou nada, seus
liberais.
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Cappelli: aliança Eduardo Bolsonaro-Trump contra o Brasil
isola extrema-direita e reconstrói frente ampla de Lula
O
presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Ricardo
Cappelli, vê a aliança do deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP)
com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um erro político que
pode beneficiar a coalizão que reelegeu Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022.
Segundo a coluna Painel, da Folha de S.
Paulo, Cappelli argumenta que a imposição de tarifas de 50% sobre os produtos
brasileiros é motivada por interesses ideológicos e que a atuação de Bolsonaro
"03" contribui para o isolamento da extrema-direita no Brasil.
“Do
ponto de vista da negociação, o que ele [Trump] coloca naquela carta? Não tem
nada comercial. Eles botaram na mesa uma questão político-ideológica”, afirmou
Cappelli, que foi interventor federal no Distrito Federal após os ataques
golpistas de 8 de janeiro de 2023. Filiado ao PSB, ele se prepara para disputar
o governo do Distrito Federal em 2026.
Cappelli
vê a postura de Eduardo Bolsonaro como parte de um projeto familiar de poder
que agride a institucionalidade e os interesses nacionais. “Eu sempre digo,
pode ser de direita, pode ser de centro, pode ser de esquerda, mas ninguém
minimamente razoável concorda com esse absurdo que está acontecendo. É tudo uma
conspiração da família”, disse.
"Acho
que eles estão cometendo um erro grave ao querer transformar o Brasil em refém
dos anseios políticos, das ambições políticas da família. É muito fora de
padrão, né?", ressaltou em referência às exigências de Bolsonaro e seus
aliados por uma anistia aos golpistas, incluindo ele próprio.
Ao
comentar o estilo beligerante do parlamentar, o presidente da ABDI foi ainda
mais incisivo ao afirmar que “ele lembra aqueles terroristas, sequestradores,
que ficam falando coisas de bandido.” O presidente da ABDI também dirigiu
críticas ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por
seu alinhamento automático com o bolsonarismo, mesmo diante de medidas que
ameaçam diretamente o setor industrial paulista.“Ele tem que lembrar que é
governador do principal estado do Brasil que concentra a maior parte das
indústrias brasileiras. Quer dizer, ele não pode se comportar como assessor de
luxo da família”, declarou.
Sobre
os impactos do tarifaço anunciado por Trump, Cappelli defende prudência e
aguarda o início oficial da medida, previsto para a próxima sexta-feira (1º).
Ele lembra que o mandatário estadunidense costuma agir com imposições duras
para depois recuar em negociações.
Ainda
conforme a reportagem, Cappelli antecipou que o conselho de administração da
ABDI se reunirá em agosto e que a agência está pronta para se adaptar ao novo
cenário. “A agência é um instrumento da política industrial brasileira. Então,
à luz do que acontecer, se for necessário rever todo o plano da agência, nós
estamos aqui inteiramente abertos e dispostos a ajudar a indústria nacional e o
governo.”
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Eduardo Bolsonaro escala crise, se isola da direita e
cria novos desafetos. Por Rachel Vargas
O
deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) parece não querer
entender que suas ideias, falas, gestos e provocações o têm distanciado cada
vez mais do objetivo de anistiar o ex-presidente Jair Bolsonaro e o isolado da
direita. Os recentes episódios o envolvendo demonstram que, ao contrário do que
prega a família Bolsonaro, a grande e principal preocupação do clã é salvar,
única e exclusivamente, a pele do ex-presidente – e isso está claro para quem
quiser ver. Tanto é que a única moeda de troca na negociação pela redução das
tarifas seria livrar Jair Bolsonaro da condenação pela trama golpista.
Para
além disso, Eduardo tem sinalizado que não se importa com as consequências
sobre o restante do país, que vai pagar, com taxação e desemprego, a fatura da
irresponsável atuação do deputado junto ao governo dos Estados Unidos. Nesta
segunda-feira, ele chegou a declarar ao SBT News que fará o possível para que a
comitiva de senadores enviada aos Estados Unidos não encontre diálogo. Ou seja,
Eduardo está claramente operando contra os interesses do Brasil e a soberania
nacional.
Além
disso, o deputado tem entrado em rota de colisão com as principais figuras da
direita, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e Nikolas
Ferreira (PL-MG), deputado federal mais votado nas últimas eleições. Dessa
forma, ele demonstra não só ao eleitorado, mas também à política, que fica cada
vez mais difícil acreditar num projeto de poder que carregue o sobrenome da
família. Integrantes da centro-direita lamentam a postura do parlamentar, que
tem atrapalhado os planos de uma candidatura unificada para 2026.
• Lula pede negociação 'civilizada' a
Trump e critica traição do clã Bolsonaro: 'falta de vergonha, de caráter e de
patriotismo'
Durante
discurso nesta segunda-feira (28), na inauguração da Usina Termelétrica GNA II,
no Porto do Açu, em São João da Barra (RJ), o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) fez duras críticas a Jair Bolsonaro (PL) e a seu filho, o deputado
federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por atuarem para prejudicar a
economia brasileira com apoio do governo norte-americano. Segundo Lula, a ação
do parlamentar nos Estados Unidos, ao pedir sanções contra o Brasil para tentar
livrar Bolsonaro de condenações, configura uma “traição ao povo brasileiro”.
“O que
fez o filho do ‘coisa’? O filho do ‘coisa’, que é deputado federal, de forma
sem vergonha, deixou a Câmara dos Deputados e foi para os Estados Unidos pedir
para o Trump fazer uma taxação no Brasil para não deixar o pai dele ir preso.
Vocês acham que é correto?”, questionou o presidente. Lula comparou a atitude a
episódios históricos de traição, mencionando Silvério dos Reis, delator de
Tiradentes no período colonial.
Lula
destacou que o Brasil mantém há mais de dois séculos uma relação diplomática
sólida com os Estados Unidos e afirmou esperar que o presidente norte-americano
Donald Trump atue com maturidade diante das pressões bolsonaristas. “Espero que
o presidente dos Estados Unidos reflita sobre a importância do Brasil e resolva
fazer aquilo que no mundo civilizado a gente faz: tem divergência? Tem. Senta
em uma mesa, coloca a divergência de lado e vamos tentar resolver”, declarou.
O
presidente criticou com veemência qualquer medida unilateral de retaliação
econômica, como a possível imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos
brasileiros. Para Lula, a tentativa de interferência externa patrocinada por
aliados de Bolsonaro revela profundo desrespeito à soberania nacional. “É o
filho do ‘coisa’ e o ‘coisa’ que estão pedindo para fazer. Ou seja, o cara que
fazia campanha embrulhado na bandeira nacional, ‘Brasil acima de tudo’, e agora
‘Brasil acima de tudo, mas primeiro os Estados Unidos’. É uma falta de
vergonha, de caráter, de patriotismo”, disparou.
Lula
também aproveitou o discurso para reforçar que seu governo está comprometido
com o diálogo e a ampliação de parcerias comerciais ao redor do mundo. Ele
afirmou que, desde o início de seu mandato, o Brasil conseguiu abrir 398 novos
mercados para produtos nacionais, ampliando a presença internacional da
economia brasileira.
“Tenho
dito o seguinte: com muita tranquilidade, o Brasil quer negociar. Não temos
contencioso com ninguém. A gente quer negociar, a gente quer fazer comércio”,
afirmou, em contraste com a postura beligerante e personalista da
extrema-direita.
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Gleisi cobra cassação de Eduardo Bolsonaro: "não tem
direito de continuar omo deputado"
A
ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, defendeu
publicamente nesta terça-feira (29) a cassação do mandato do deputado federal
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que atualmente vive nos Estados Unidos. A declaração
foi feita durante entrevista à imprensa no Palácio do Itamaraty, em meio a
tensões diplomáticas envolvendo o governo brasileiro e o presidente
norte-americano Donald Trump. As informações são do g1.
O
parlamentar, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é apontado como articulador
de conversas com autoridades americanas que culminaram na ameaça de sobretaxa
de 50% às exportações brasileiras. Trump condicionou a não aplicação do
tarifaço a um recuo nas investigações contra Bolsonaro, prestes a ser condenado
por tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
Para
Gleisi, a atuação de Eduardo fere diretamente os interesses nacionais. “Esse é
um traíra. Ele, Eduardo Bolsonaro, comete crime de lesa-pátria. Não tem o
direito de continuar deputado pelo Brasil. Com certeza, eu espero que o
Congresso Nacional, a Câmara dos Deputados tomem medidas para que esse traíra
não possa representar mais nenhuma instituição brasileira”, afirmou.
Desde
fevereiro, Eduardo Bolsonaro está radicado nos Estados Unidos. No período,
ampliou sua interlocução com políticos ligados à ala trumpista, intensificando
o discurso contra o governo brasileiro e reforçando a narrativa de perseguição
política a seu pai, investigado por tentativa de golpe de Estado e outros
crimes.
O
deputado passou a ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por
tentar influenciar decisões econômicas da administração Trump com o objetivo de
prejudicar o Brasil.
Fonte:
Opera Mundi/Brasil 247

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