Por
que 'os deuses' atrasaram a chegada da teoria da probabilidade matemática
Em
meados do século 6, o rei Creso da Lídia estava preocupado.
Ele
governava um poderoso império na Anatólia e era tão magnificamente opulento que
seu nome era e continua sendo sinônimo de riqueza.
No
entanto, ele estava preocupado com o crescente poder da Pérsia, e decidiu
enviar mensageiros com oferendas ao único local de vidência em que confiava: o
Templo de Apolo em Delfos.
Sua
dúvida era se deveria enviar um exército contra os persas.
"A
resposta dada a Creso proclamou que, se ele enviasse um exército contra os
persas, destruiria um grande império", relata o historiador grego
Heródoto.
Ele
atacou, encorajado pela palavra divina da misteriosa sacerdotisa Pitonisa (ou
Pítia), e, de fato, um grande império foi destruído: o seu.
É uma
das profecias mais famosas, não apenas por ser engenhosa, mas porque serve como
um alerta sobre o risco de interpretar mal as mensagens e a importância da
humildade.
Mas,
para sermos justos, Creso não foi o único que errou ao interpretar as profecias
do Oráculo de Delfos, pois elas costumavam ser enigmáticas e muitas vezes
ambíguas.
Mesmo
assim, todos aqueles que podiam recorriam à Pitonisa para obter orientação
divina de Apolo em temas que iam desde assuntos de Estado até questões
pessoais.
Havia
outros deuses e oráculos disponíveis, portanto, se você quisesse saber o que
poderia acontecer no futuro para reduzir o risco de fracasso ou calamidade,
você os consultava.
Essa
ânsia de tentar prever quais eram suas chances não desapareceu quando, no
século 4 d.C., Roma recém-convertida ao cristianismo desacreditou a autoridade
do oráculo de Delfos.
Os
antigos romanos tinham seus métodos de prever o futuro, incluindo um criado
pela deusa Fortuna: os dados.
Desde
imperadores, que arriscavam suas vidas e as de seus soldados, até plebeus, que
apostavam seus bens em tavernas, os romanos acreditavam que o aleatório (do
latim alea, que significa "dado") era regido pelo destino e pela
graça dos deuses.
Assim,
"eles podiam lançar os dados e consultar uma obra de referência que dizia
o que a pontuação dos dados significava para suas chances", diz a
especialista em estudos clássicos Mary Beard.
"O
jogo não era apenas um passatempo; era também uma forma pela qual os romanos
enfrentavam o risco, os perigos e a incerteza", destaca a especialista na
série da BBC "At Your Own Peril."
No
entanto, textos antigos mostram que eles não compreendiam bem o conceito de
probabilidade e suas regras matemáticas.
"Nossa
palavra 'probabilidade' vem do latim probabilĭtas, mas muito de vez em quando
isso significava 'provável'. Com muito mais frequência, indicava
'aprovação'", explica Beard.
É
surpreendente que o surgimento de algum tipo de teoria da probabilidade e,
portanto, alguma forma de medir o risco, tenha demorado tanto.
Foi
preciso esperar até meados do século 18 para cruzar esse limiar imaginário — e
descobrir, ou talvez inventar, uma.
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Um conceito estranho
O
motivo pelo qual os antigos não se aprofundaram na ciência da probabilidade é
um mistério, especialmente quando se considera o quanto a matemática deles era
sofisticada e imaginativa.
"Até
certo ponto, eles tinham um conjunto aproximado de regras sobre o assunto, mas
não teorizavam", diz Beard.
"Acho
que é em parte porque eles tinham uma compreensão diferente da ciência e do
conhecimento cultural."
"Nós
concebemos a probabilidade como estatística e matemática", acrescenta.
"O interesse dos antigos era saber até que ponto o fenômeno estava
relacionado ao divino, até que ponto era obra de Deus e até que ponto podia ser
prevista."
Foram
necessários inúmeros passos matemáticos, muitos séculos e diversas
transformações sociais, culturais e políticas até que o salto final em direção
à probabilidade pudesse ser dado.
E não é
por acaso que seu surgimento tenha ocorrido durante o Renascimento e o
Iluminismo.
"As
pessoas têm discutido muito sobre por que demorou tanto, se teria a ver com
métodos computacionais, e se as pessoas pensavam que o acaso estava apenas nas
mãos dos deuses. Mas exigiu uma mudança revolucionária no pensamento",
observa David Spiegelhalter, professor de estatística na Universidade de
Cambridge, no Reino Unido.
"A
ideia de probabilidade teve que ser inventada, pois é um conceito muito
estranho. Não pode ser medido diretamente como se pode medir o tempo, o peso ou
a distância", ele acrescenta.
Tampouco
foi por acaso que a descoberta da probabilidade tenha ocorrido nas mesas de
jogo.
A
inspiração veio de um jogador notavelmente filosófico, o ensaísta e matemático
amador francês Antoine Gombaud, conhecido como Chevalier de Méré (o cavaleiro
de Méré).
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Um problema pontual
Em
1654, Gombaud refletia sobre o que é conhecido como o problema dos pontos ou o
problema do jogo interrompido.
Ele
havia aparecido pela primeira vez, até onde sabemos, 60 anos antes, no tratado
Summa de Arithmetica, Geometrica, Proportioni et Proportionalita, do frade
franciscano e matemático Luca Pacioli.
A
questão era: se você estivesse apostando em um jogo que seria ganho quando um
jogador acumulasse um determinado número de pontos, mas o jogo fosse
interrompido antes disso acontecer, como a aposta deveria ser dividida?
Imagine
que você e um amigo estão apostando cara ou coroa com uma moeda: o primeiro a
acertar seis vezes, ganha.
Mas
vocês têm que suspender o jogo quando seu amigo estiver a 3 pontos de ganhar, e
você a 2.
"Havia
um sentimento de que, de alguma forma, a aposta deveria ser dividida para que a
pessoa com maior probabilidade de ganhar, recebesse mais", conta
Spiegelhalter.
"O
desafio era essencialmente determinar como dividir a aposta."
Gombaud
recorreu a uma das mentes mais brilhantes da história: o matemático, físico,
filósofo e teólogo francês Blaise Pascal.
Pascal
havia começado a jogar jogos de azar quando seus médicos o aconselharam a
evitar esforço mental em prol da sua saúde, mas ele não resistiu à tentação.
Intrigado,
ele percebeu que a solução teria que refletir as chances de vitória de cada
jogador, considerando o placar no momento em que o jogo foi interrompido.
Isso
significava inventar um novo método de análise, então ele envolveu outra das
mentes mais brilhantes da história, o matemático francês Pierre de Fermat.
Em uma
lendária troca de cartas que durou várias semanas, eles lançaram as bases para
a teoria da probabilidade moderna.
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Você e seu amigo
Se você
ficou curioso para saber como seria dividido o prêmio da aposta no jogo
suspenso com seu amigo, não se preocupe.
Pascal
descobriu uma maneira simples de calcular essa divisão. O segredo está no que
hoje é conhecido como triângulo de Pascal.
O
triângulo é construído a partir de 1 e, em seguida, os números são colocados
abaixo dele em uma forma triangular, sendo que cada número no triângulo é a
soma dos dois números imediatamente acima dele.
Por
exemplo: o 4 que você vê na quinta linha é a soma de 1 + 3 acima dele, e assim
por diante.
No caso
do jogo interrompido, em você estava a 2 pontos da vitória, e seu amigo a 3,
você soma o 2 e o 3 para obter 5.
Isso
indica que você deve usar a quinta linha do triângulo.
Em
seguida, você soma os três primeiros números (1 + 4 + 6 = 11) e os dois últimos
(4 + 1 = 5), e a aposta é dividida de acordo com essa proporção.
Assim,
você vai receber 11/16 da aposta, e seu amigo, 5/16.
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A aposta de Pascal
Com a
solução do problema de pontos, ocorreu uma revolução no pensamento humano.
Descobrimos
que, observando eventos passados, podíamos começar a prever resultados futuros.
O risco
podia ser calculado.
Podíamos
escolher o caminho a seguir, pois o destino já não estava apenas nas mãos dos
deuses.
Ironicamente,
Pascal era profundamente religioso e, após uma experiência mística, renunciou à
matemática.
Em uma
carta a Fermat em 1660, ele escreveu: "Considero o mais belo ofício do
mundo; mas nada mais do que um ofício [...]. Entrei nesse negócio por uma razão
singular; uma vez satisfeita, talvez nunca mais volte a pensar nela."
Ele
morreu dois anos depois, mas, em uma reviravolta curiosa, em uma obra publicada
postumamente intitulada Pensées ("Pensamentos"), ele deixou uma das
apostas mais famosas de todos os tempos.
No que
é conhecido como Aposta de Pascal, a alma eterna estava em jogo.
A
questão é que, no âmbito da fé, o ser humano se vê obrigado a apostar porque
não têm a capacidade de saber se Deus existe ou não.
"A
razão não pode decidir nada neste caso", escreveu.
Portanto,
não resta outra alternativa a não ser analisar as consequências práticas de
cada probabilidade.
Se
alguém escolhe não acreditar que Deus existe e acaba estando certo, não ganha
nem perde nada; mas se estiver errado, não vai para o céu.
Em
outras palavras, quem escolhe acreditar que existe, "se ganhar, ganha
tudo; se perder, não perde nada".
Por
isso, ele aconselhou: "Aposte que existe sem hesitar".
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Melhor que o oráculo de Delfos?
As
conquistas de Pascal e Fermat abriram caminho para o desenvolvimento da teoria
da probabilidade, que demonstrou como eventos futuros poderiam ser previstos
com um certo grau de precisão.
O
conhecimento foi se acumulando até que se percebeu que a probabilidade e a
estatística poderiam convergir para formar uma ciência bem definida e
solidamente fundamentada, com aplicações e possibilidades aparentemente
ilimitadas.
Hoje,
ela permeia quase tudo, desde decisões políticas, o mercado de ações e
diagnósticos médicos, até o funcionamento de sinais de trânsito, esportes e
compras online.
No
entanto, o que a teoria da probabilidade produz são modelos e previsões, não
reflexos da realidade.
Embora
seja uma ferramenta matemática poderosa, não é uma ciência exata, pois lida com
a incerteza e a probabilidade de eventos, não com a certeza absoluta.
O que
ela nos oferece, após analisar fenômenos aleatórios, é um leque de futuros
possíveis e a possibilidade de que se realizem.
Tudo
com base no conhecimento.
Seria
interessante saber que resposta o rei Creso, da Lídia, receberia hoje em
relação às suas chances de vitória contra Ciro 2° da Pérsia.
O
poderoso governante da Lídia conseguia reunir forças impressionantes,
supostamente mais de 100 mil homens, em comparação com os 50 mil dos persas;
sua cavalaria era a melhor do mundo na época; e ele era aliado dos espartanos.
Portanto,
é possível que um especialista moderno desse a ele mais (talvez muito mais) do
que 50% de chance de vitória.
O que é
certo é que ele dificilmente receberia uma resposta tão precisa quanto a do
oráculo de Delfos.
Não
importa o que acontecesse, sempre estaria 100% correta.
Fonte:
BBC News Mundo

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