quarta-feira, 30 de julho de 2025

Os estabelecimentos religiosos em comunidades e favelas

A imprensa frequentemente compara o número de estabelecimentos religiosos ao de escolas e unidades de saúde. Essa equivalência esconde, porém, diferenças fundamentais

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A literatura acadêmica sobre religião com frequência associa as periferias dos grandes centros urbanos no Brasil a práticas religiosas, sobretudo evangélicas. Faltava, no entanto, uma medida dessa associação.

Em pesquisa no Observatório da Religião e Interseccionalidades usamos os dados do Censo 2022 para dimensionar a presença de estabelecimentos religiosos em territórios periféricos em municípios brasileiros. Aproveitamos para isso que a edição de 2022 do Censo considerou pela primeira vez as práticas religiosas em levantamento sobre os usos dos domicílios brasileiros.

Ao todo, 585 dos 5.570 municípios recenseados em 2022 possuem comunidades e/ou favelas. Em média, 12,1% dos estabelecimentos localizados dentro desses territórios são voltados para práticas religiosas. Fora deles, a proporção de estabelecimentos religiosos cai para 5,3% do total. Esses números indicam uma concentração significativamente maior de estabelecimentos religiosos em áreas vulneráveis do ponto de vista social.

Entre as capitais, 25 das 27 apresentam uma maior razão entre o número de estabelecimentos religiosos e a população local dentro das comunidades e favelas, em comparação com o restante do município. Os contrastes mais acentuados são observados em Porto Alegre (RS), onde essa razão é mais que o dobro (116,9%) nas áreas de favela em relação às demais, e em Florianópolis (SC), com uma diferença de 113,1%. Outras capitais com contrastes expressivos são Palmas (TO), Curitiba (PR) e Brasília (DF), respectivamente na 3ª, 4ª e 5ª posições. Capitais que costumam receber destaque nos estudos sobre o fenômeno religioso urbano – como São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) – ocupam, por sua vez, posições mais baixas no ranking: 25ª e 18ª, respectivamente.

Ao observarmos a distribuição por estado, os dados confirmam que a maioria das unidades federativas apresenta um maior número de municípios com mais estabelecimentos religiosos dentro das comunidades e favelas do que fora, proporcionalmente à população local. No entanto, há exceções importantes: estados como Mato Grosso do Sul, Amazonas, Pará, Ceará e Acre têm mais municípios onde a presença religiosa é proporcionalmente maior fora desses territórios. O fenômeno se estende às capitais Rio Branco (AC) e Campo Grande (MS).

Outro achado relevante da pesquisa foi obtido ao retirar do total de estabelecimentos aqueles em reforma e/ou construção. Nesse recorte, a média municipal de estabelecimentos religiosos em relação ao total de estabelecimentos nos municípios brasileiros passa a ser de 3,2%, em contraste com os 5,3% que mencionamos anteriormente; dentro de comunidades e favelas, chega a 12,0%.

A imprensa frequentemente compara o número de estabelecimentos religiosos ao de escolas e unidades de saúde. Essa equivalência esconde, porém, diferenças fundamentais. Do ponto de vista censitário, a lógica dos estabelecimentos religiosos se aproxima mais da dos estabelecimentos comerciais. Ambos respondem a dinâmicas de instalação mais ágeis e menos dependentes do poder público, ao contrário do que ocorre com creches, escolas, postos de saúde e hospitais, que envolvem altos custos e forte participação estatal.

Quando comparamos a proporção de estabelecimentos religiosos e de estabelecimentos comerciais, temos que em Boa Vista, por exemplo, estes últimos representam 84% do total dentro das comunidades e 92% fora. Em Brasília, essa proporção é de 87% contra 91%; em Florianópolis, 86% contra 93%; e em Vitória, 86% contra 91%.

Por que, afinal, os estabelecimentos religiosos estão tão presentes nesses territórios e como atuam? A literatura socioantropológica trabalha com algumas hipóteses. Entende que fatores como a imunidade tributária de organizações religiosas e a “lógica da informalidade”, isto é, a facilidade de abertura de um espaço de culto não formalizado perante o Estado cumprem um papel importante na produção do fenômeno. Também aponta que a atuação dos estabelecimentos religiosos vai além da dimensão espiritual: são espaços a partir dos quais se articulam redes de apoio material e emocional, de reconhecimento e sociabilidade, em que os moradores compartilham experiências e constroem formas de cuidado cotidiano.

Em contextos em que o Estado é ausente ou se faz presente de forma violenta e insuficiente, a religião cumpre funções centrais na vida pública. A polícia que “atira primeiro” e os serviços públicos que não chegam contrastam com a presença constante de igrejas e templos, que se tornam lugares em que a vida comum ganha sentido, em que a cidadania é experimentada e afirmada.

Não é possível saber, com os dados do Censo, a filiação religiosa dos estabelecimentos recenseados. Mas estudos anteriores feitos por Fernanda De Negri e coautores, por Victor Araújo e pelo Observatório da Religião e Interseccionalidades/CEBRAP indicam que a maioria deles provavelmente pertence ao campo evangélico, sobretudo às vertentes pentecostais. Em uma classificação feita pelo Observatório, cerca de 80% das organizações religiosas com CNPJ no Brasil são evangélicas, sendo metade delas pentecostais.

Em síntese, o Censo 2022 fornece elementos adicionais para dimensionar algo que pesquisadores e moradores de comunidades e favelas já sabiam por experiência: a religião tem papel estruturante na vida social das periferias urbanas brasileiras, um fenômeno que, agora sabemos, tem caráter geral no Brasil, indo muito além das periferias das grandes metrópoles. Nossa hipótese, alinhada com a literatura, é que sua presença se dá não apenas como espaço de controle, como frequentemente se argumenta, mas também como espaço de cuidado e construção de laços.

•        O paradoxo eleitoral da mulher negra evangélica. Por Pdro Abramovay

Uma cena breve, mas poderosa, do documentário Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, revela um dos dilemas mais profundos da política brasileira contemporânea. Aos 1h19min do filme, disponível na Netflix, vemos uma senhora negra, evangélica, conversando com sua filha. A mãe declara que votará em Jair Bolsonaro por influência da religião, mesmo reconhecendo que Lula tem propostas boas. A filha, jovem demais para votar, diz que preferiria Lula, mas se incomoda com “a proposta dele para os banheiros”. Essa troca rápida encapsula o conflito central das eleições de 2022 — e, possivelmente, das de 2026.

O grupo demográfico que mais votou em Lula foi o de mulheres negras. Já o grupo que mais apoiou Bolsonaro foi o dos evangélicos. E os evangélicos, em sua maioria, são mulheres negras. Esse aparente paradoxo revela uma disputa profunda entre identidades que coexistem, mas que podem ser mobilizadas de formas distintas no momento do voto.

Muito se debate sobre o chamado “voto identitário”. Há quem o critique, como se fosse uma distorção da racionalidade política. Mas essa crítica ignora um fato básico: todos os votos são, em alguma medida, identitários. Votamos como moradores de uma cidade, como trabalhadores de um setor, como pessoas que compartilham valores, histórias e esperanças. O próprio Partido dos Trabalhadores carrega essa mobilização identitária em seu nome. Nos anos 1980, seu slogan era claro: “Trabalhador vota em trabalhador.”

No caso das mulheres negras evangélicas, o dilema é: qual identidade será mobilizada? Se a identidade religiosa for dominante — especialmente quando associada a valores morais percebidos como ameaçados — o voto tende ao bolsonarismo. Mas se a identidade de mulher negra, trabalhadora, mãe, cuidadora, for ativada por políticas que toquem diretamente sua vida, o voto pode se voltar ao campo progressista.

O governo atual precisa entender esse dilema e evitar a armadilha de tentar disputar com os líderes evangélicos suas pautas morais. Em vez disso, deve construir uma narrativa de esperança que dialogue diretamente com essas mulheres. Políticas de saúde, segurança, educação e, especialmente, a nova Política Nacional de Cuidados - regulamentada pelo presidente Lula em julho, são instrumentos poderosos para isso. Mas ainda falta ao governo uma articulação discursiva que torne visível esse futuro em construção.

A recente melhora na popularidade do governo, impulsionada por fatores externos como os ataques de Trump e Eduardo Bolsonaro, aumenta as chances de reeleição de Lula. No entanto, a campanha não pode se limitar à união contra os retrocessos bolsonaristas. É preciso oferecer uma visão de futuro que convoque todos os que se sentiram traídos pelo bolsonarismo a reconstruir o país com base em valores de justiça, cuidado e dignidade.

 

Fonte: Nexo Jornal/Brasil 247

 

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