Os
estabelecimentos religiosos em comunidades e favelas
A
imprensa frequentemente compara o número de estabelecimentos religiosos ao de
escolas e unidades de saúde. Essa equivalência esconde, porém, diferenças
fundamentais
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A
literatura acadêmica sobre religião com frequência associa as periferias dos
grandes centros urbanos no Brasil a práticas religiosas, sobretudo evangélicas.
Faltava, no entanto, uma medida dessa associação.
Em
pesquisa no Observatório da Religião e Interseccionalidades usamos os dados do
Censo 2022 para dimensionar a presença de estabelecimentos religiosos em
territórios periféricos em municípios brasileiros. Aproveitamos para isso que a
edição de 2022 do Censo considerou pela primeira vez as práticas religiosas em
levantamento sobre os usos dos domicílios brasileiros.
Ao
todo, 585 dos 5.570 municípios recenseados em 2022 possuem comunidades e/ou
favelas. Em média, 12,1% dos estabelecimentos localizados dentro desses
territórios são voltados para práticas religiosas. Fora deles, a proporção de
estabelecimentos religiosos cai para 5,3% do total. Esses números indicam uma
concentração significativamente maior de estabelecimentos religiosos em áreas
vulneráveis do ponto de vista social.
Entre
as capitais, 25 das 27 apresentam uma maior razão entre o número de
estabelecimentos religiosos e a população local dentro das comunidades e
favelas, em comparação com o restante do município. Os contrastes mais
acentuados são observados em Porto Alegre (RS), onde essa razão é mais que o
dobro (116,9%) nas áreas de favela em relação às demais, e em Florianópolis
(SC), com uma diferença de 113,1%. Outras capitais com contrastes expressivos
são Palmas (TO), Curitiba (PR) e Brasília (DF), respectivamente na 3ª, 4ª e 5ª
posições. Capitais que costumam receber destaque nos estudos sobre o fenômeno
religioso urbano – como São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ) – ocupam, por sua
vez, posições mais baixas no ranking: 25ª e 18ª, respectivamente.
Ao
observarmos a distribuição por estado, os dados confirmam que a maioria das
unidades federativas apresenta um maior número de municípios com mais
estabelecimentos religiosos dentro das comunidades e favelas do que fora,
proporcionalmente à população local. No entanto, há exceções importantes:
estados como Mato Grosso do Sul, Amazonas, Pará, Ceará e Acre têm mais
municípios onde a presença religiosa é proporcionalmente maior fora desses
territórios. O fenômeno se estende às capitais Rio Branco (AC) e Campo Grande
(MS).
Outro
achado relevante da pesquisa foi obtido ao retirar do total de estabelecimentos
aqueles em reforma e/ou construção. Nesse recorte, a média municipal de
estabelecimentos religiosos em relação ao total de estabelecimentos nos
municípios brasileiros passa a ser de 3,2%, em contraste com os 5,3% que
mencionamos anteriormente; dentro de comunidades e favelas, chega a 12,0%.
A
imprensa frequentemente compara o número de estabelecimentos religiosos ao de
escolas e unidades de saúde. Essa equivalência esconde, porém, diferenças
fundamentais. Do ponto de vista censitário, a lógica dos estabelecimentos
religiosos se aproxima mais da dos estabelecimentos comerciais. Ambos respondem
a dinâmicas de instalação mais ágeis e menos dependentes do poder público, ao
contrário do que ocorre com creches, escolas, postos de saúde e hospitais, que
envolvem altos custos e forte participação estatal.
Quando
comparamos a proporção de estabelecimentos religiosos e de estabelecimentos
comerciais, temos que em Boa Vista, por exemplo, estes últimos representam 84%
do total dentro das comunidades e 92% fora. Em Brasília, essa proporção é de
87% contra 91%; em Florianópolis, 86% contra 93%; e em Vitória, 86% contra 91%.
Por
que, afinal, os estabelecimentos religiosos estão tão presentes nesses
territórios e como atuam? A literatura socioantropológica trabalha com algumas
hipóteses. Entende que fatores como a imunidade tributária de organizações
religiosas e a “lógica da informalidade”, isto é, a facilidade de abertura de
um espaço de culto não formalizado perante o Estado cumprem um papel importante
na produção do fenômeno. Também aponta que a atuação dos estabelecimentos
religiosos vai além da dimensão espiritual: são espaços a partir dos quais se
articulam redes de apoio material e emocional, de reconhecimento e
sociabilidade, em que os moradores compartilham experiências e constroem formas
de cuidado cotidiano.
Em
contextos em que o Estado é ausente ou se faz presente de forma violenta e
insuficiente, a religião cumpre funções centrais na vida pública. A polícia que
“atira primeiro” e os serviços públicos que não chegam contrastam com a
presença constante de igrejas e templos, que se tornam lugares em que a vida
comum ganha sentido, em que a cidadania é experimentada e afirmada.
Não é
possível saber, com os dados do Censo, a filiação religiosa dos
estabelecimentos recenseados. Mas estudos anteriores feitos por Fernanda De
Negri e coautores, por Victor Araújo e pelo Observatório da Religião e
Interseccionalidades/CEBRAP indicam que a maioria deles provavelmente pertence
ao campo evangélico, sobretudo às vertentes pentecostais. Em uma classificação
feita pelo Observatório, cerca de 80% das organizações religiosas com CNPJ no
Brasil são evangélicas, sendo metade delas pentecostais.
Em
síntese, o Censo 2022 fornece elementos adicionais para dimensionar algo que
pesquisadores e moradores de comunidades e favelas já sabiam por experiência: a
religião tem papel estruturante na vida social das periferias urbanas
brasileiras, um fenômeno que, agora sabemos, tem caráter geral no Brasil, indo
muito além das periferias das grandes metrópoles. Nossa hipótese, alinhada com
a literatura, é que sua presença se dá não apenas como espaço de controle, como
frequentemente se argumenta, mas também como espaço de cuidado e construção de
laços.
• O paradoxo eleitoral da mulher negra
evangélica. Por Pdro Abramovay
Uma
cena breve, mas poderosa, do documentário Apocalipse nos Trópicos, de Petra
Costa, revela um dos dilemas mais profundos da política brasileira
contemporânea. Aos 1h19min do filme, disponível na Netflix, vemos uma senhora
negra, evangélica, conversando com sua filha. A mãe declara que votará em Jair
Bolsonaro por influência da religião, mesmo reconhecendo que Lula tem propostas
boas. A filha, jovem demais para votar, diz que preferiria Lula, mas se
incomoda com “a proposta dele para os banheiros”. Essa troca rápida encapsula o
conflito central das eleições de 2022 — e, possivelmente, das de 2026.
O grupo
demográfico que mais votou em Lula foi o de mulheres negras. Já o grupo que
mais apoiou Bolsonaro foi o dos evangélicos. E os evangélicos, em sua maioria,
são mulheres negras. Esse aparente paradoxo revela uma disputa profunda entre
identidades que coexistem, mas que podem ser mobilizadas de formas distintas no
momento do voto.
Muito
se debate sobre o chamado “voto identitário”. Há quem o critique, como se fosse
uma distorção da racionalidade política. Mas essa crítica ignora um fato
básico: todos os votos são, em alguma medida, identitários. Votamos como
moradores de uma cidade, como trabalhadores de um setor, como pessoas que
compartilham valores, histórias e esperanças. O próprio Partido dos
Trabalhadores carrega essa mobilização identitária em seu nome. Nos anos 1980,
seu slogan era claro: “Trabalhador vota em trabalhador.”
No caso
das mulheres negras evangélicas, o dilema é: qual identidade será mobilizada?
Se a identidade religiosa for dominante — especialmente quando associada a
valores morais percebidos como ameaçados — o voto tende ao bolsonarismo. Mas se
a identidade de mulher negra, trabalhadora, mãe, cuidadora, for ativada por
políticas que toquem diretamente sua vida, o voto pode se voltar ao campo
progressista.
O
governo atual precisa entender esse dilema e evitar a armadilha de tentar
disputar com os líderes evangélicos suas pautas morais. Em vez disso, deve
construir uma narrativa de esperança que dialogue diretamente com essas
mulheres. Políticas de saúde, segurança, educação e, especialmente, a nova
Política Nacional de Cuidados - regulamentada pelo presidente Lula em julho,
são instrumentos poderosos para isso. Mas ainda falta ao governo uma
articulação discursiva que torne visível esse futuro em construção.
A
recente melhora na popularidade do governo, impulsionada por fatores externos
como os ataques de Trump e Eduardo Bolsonaro, aumenta as chances de reeleição
de Lula. No entanto, a campanha não pode se limitar à união contra os
retrocessos bolsonaristas. É preciso oferecer uma visão de futuro que convoque
todos os que se sentiram traídos pelo bolsonarismo a reconstruir o país com
base em valores de justiça, cuidado e dignidade.
Fonte:
Nexo Jornal/Brasil 247

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