Ricardo
Queiroz Pinheiro: ‘O complexo de vira-lata como projeto político’
A ideia
de que o brasileiro sofre de uma baixa autoestima natural — um defeito cultural
que nos faria olhar sempre para baixo e pra fora — é uma meia verdade que
encobre o essencial. Viralatismo é o nome. Esse sentimento vem da tutela, é
promovido, cultivado, reforçado e usado como ferramenta política. A classe
média tá repleta de viralatas orgânicos. É um projeto que atravessa séculos e
serve a interesses muito claros.
Desde o
Império, e com mais força ao longo do século XX, as elites brasileiras venderam
a imagem de que o país só funciona quando copia modelos estrangeiros. O
progresso, nos seus discursos, sempre vem de fora: do capital estrangeiro, da
gestão importada, da “modernização” que exige abrir mão do que é nosso. Essa
lógica modulou políticas econômicas, culturais e educacionais, criando uma
mentalidade que associa desenvolvimento à subordinação.
O
resultado é um país que duvida de si mesmo. A mídia e o sistema de ensino
repetem que somos incapazes de gerir nossas riquezas, que nossa cultura precisa
ser validada em Paris ou Nova York ou
Miami para ter valor, que nossa política só será eficiente quando for
“profissionalizada” segundo padrões externos. Assim, cada privatização, cada
acordo desigual, cada corte em nome da “responsabilidade” aparece como
sacrifício inevitável para nos tornarmos “civilizados”. Nelson Rodrigues, um
conservador lúcido, captou isso ao falar do “complexo de vira-lata” como um
traço humilhante, mas não inevitável. Muito antes, Manoel Bomfim, em América
Latina: Males de Origem, já expunha o mecanismo: “Todo o pensamento político se
resume em conservar as coisas como estão, em manter a presa. Para isto,
fecham-se as colônias completamente, absolutamente, ao resto do mundo; toda a
sua produção tem de passar pela metrópole, que deve tirar a sua parte.” A
lógica colonial sobrevive, apenas trocando de roupagem.
Esse
complexo de vira-lata serve como blindagem para o entreguismo. Ele transforma a
entrega do patrimônio público e dos recursos naturais em ato de bom senso.
Converte o país em fornecedor dócil de commodities, em mercado aberto para
produtos e capitais alheios, e em consumidor da ideia de que autonomia é
sinônimo de atraso. Nossa capacidade de gerar riquezas é sempre alinhada ao
entreguismo. Um povo que se vê como incapaz não disputa poder; apenas agradece
pelo que sobra.
Os
exemplos são abundantes e escandalosos. Vão de campanhas publicitárias que
tratam o Brasil como “atrasado por natureza” — para justificar reformas que
retiram direitos — até governos que vendem estatais lucrativas a preço de
banana sob o pretexto de “modernizar”. A cabeça baixa e a vassalagem para os
EUA. Incluem ainda políticas que celebram cada “investimento estrangeiro” que
desmonta a indústria nacional e a dependência tecnológica, a obsessão por selos
de validação de agências e fundos internacionais, e a mania de transformar
produtos, artistas e saberes brasileiros em algo “aceitável” só quando passam
por chancela estrangeira. Em todos os casos, a mensagem é a mesma: sozinhos,
somos um erro; com tutela, talvez valhamos algo.
Essa
construção também atua no plano simbólico. Não se limita à economia. Ela molda
a forma como o brasileiro é ensinado a enxergar a si mesmo: como massa passiva,
incapaz de governar ou criar, sempre à espera de tutores. É essa visão que
sustenta tanto o cinismo das elites quanto o conformismo popular, naturalizando
a desigualdade e enfraquecendo qualquer projeto de transformação real.
Desarmar
esse mecanismo exige expor o que ele é: não uma questão de psicologia coletiva,
mas uma peça central de um projeto político. Politizar e dar voz e espaços à
discursos e práticas que contrariem deveria ser prioridade. Enquanto o complexo
de vira-lata continuar sendo tratado como traço cultural, seguirá operando como
uma das armas mais eficazes para manter o Brasil ajoelhado.
A
propósito: viva Manoel Bomfim!
• A vassalagem tem nome, sobrenome e até
apelido. Por Oliveiros Marques
É
impressionante como alguns políticos conseguem cometer erros em seus cálculos
eleitorais. Em nome de algo que jamais terão, permitem-se ficar de joelhos
diante de alguém que não representa nada além de sua própria família. Pagar pau
para uma figura que só conquistou os mandatos que teve graças ao sobrenome que
carrega — e, claro, por algumas otras cositas más.
É isso
que se percebe na postura de Tarcísio, Zema e Ratinho. Tarcísio arrisca o
próprio nome, inclusive pensando no futuro político em São Paulo, ao aceitar
que Eduardo Bolsonaro o trate como se fosse seu senhor. Zema, que já carrega um
sobrenome malvisto lá pelas bandas de Minas Gerais e, por isso mesmo, lançará
sua pré-candidatura à Presidência em São Paulo, corre o risco de ver sua imagem
ainda mais manchada pela lama que agora rompe barragens diretamente dos Estados
Unidos. Ratinho, por sua vez, expõe seu apelido ao risco de encolher ainda mais
no diminutivo. E Caiado… aguarde: logo, logo tu também virarás alvo.
Imagino
que a estratégia desses governadores — todos eles sonhando com a Presidência da
República — seja evitar o confronto com as bases do bolsonarismo. E aqui está o
erro. A família não vai largar o osso. Esse movimento extremista e golpista —
patrocinado e estimulado inclusive por partidos de centro aos quais esses
governadores se filiam — é o que garante os mandatos dos filhos do agora
inelegível. Ou seja: jamais a família dará a bênção a alguém que não traga
Bolsonaro no sobrenome. Está provado em sua breve história: eles não confiam em
nada que não seja espelho.
E aqui
reside, talvez, o erro de cálculo fatal. Se esses atores políticos não
colocarem agora em dúvida a suposta liderança de Eduardo, perderão a maior
oportunidade de se posicionarem no tabuleiro eleitoral. Assistir calados ao
esculacho público — transmitido em rede mundial — do principal responsável pela
articulação do tarifaço trumpista contra o Brasil é, além de uma demonstração
de fraqueza e servilismo, um sinal claro para seus eleitores (atuais e
potenciais) de que não têm preparo para conduzir uma nação. Deixa claro o que,
para mim, já é evidente — e, para o eleitor médio, é apenas uma questão de
tempo.
Enquanto
isso, cabe ao governo e à base social de Lula a tarefa de colar esses atores à
trama golpista de ontem — e à ofensiva tarifária de hoje. Denunciá-los,
responsabilizá-los. Porque, de fato, no mínimo cúmplices são da investida da
família Bolsonaro contra a soberania e as instituições brasileiras. E a postura
de vassalos adotada por eles até aqui só reforça essa verdade.
• A gincana dos políticos para capitalizar
eleitoralmente em cima do tarifaço
Enquanto
o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não reage às negociações feitas
por meio dos canais diplomáticos nem às pressões de empresários contra a
prometida sobretaxa de 50% sobre as importações de produtos brasileiros, o
chamado tarifaço virou motivo de uma acirrada disputa entre políticos de todas
as vertentes partidárias. De olho em 2026, eles correm para anunciar
providências destinadas a amenizar os possíveis efeitos da medida – ou,
prometem alguns, até para revertê-la ou adiá-la.
Nesta
quinta-feira, 24, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas
(Republicanos), aproveitou o temor criado entre exportadores para anunciar a
liberação de R$ 1 bilhão em créditos de ICMS e uma linha de crédito de R$ 200
milhões com juros subsidiados para empresas que podem ser afetadas pelo
tarifaço. “Agimos rápido para proteger quem trabalha, quem produz e quem gera
emprego em São Paulo. De olho nos possíveis desafios que estão por vir,
anunciamos um conjunto de medidas para preservar a operação de cada empresa”,
afirmou o governador, que logo após o anúncio feito por Trump chegou a defender
publicamente os argumentos apresentados pelo presidente norte-americano como
pano de fundo para a medida.
Além de
Tarcísio, outros governadores entraram na arena das providências contra o
tarifaço. Um dos nomes da direita cotados como possíveis candidatos ao
Planalto, assim como o próprio colega de São Paulo, o goiano Ronaldo Caiado
(União Brasil) aproveitou uma visita ao Japão para também anunciar a criação de
uma linha de crédito com taxas abaixo de 10% ao ano, lastreada em recursos de
ICMS, para os exportadores de seu estado. A medida exige, como contrapartida,
que as empresas beneficiadas não demitam funcionários.
O
governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), outro que teve o nome cogitado como
presidenciável, determinou que a Secretaria da Fazenda do Paraná comece a
atender demandas de setores sensíveis às taxações de Trump em seu estado.
Em
Brasília, o ministro Fernando Haddad (Fazenda) disse que o governo federal
apresentará um plano de contingência para socorrer empresários caso as tarifas
entrem mesmo em vigor a partir de 1º de agosto. Ele prometeu levar as propostas
ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima semana. O ministro não deu
detalhes, mas antecipou que o plano incluirá linhas de crédito para apoiar os
setores mais afetados. “Tem medidas para todo gosto”, disse.
Lula,
que tem recebido críticas por não ter buscado conversar com Donald Trump,
afirmou nesta quinta que o presidente norte-americano é que não quer conversa.
“Ele não quer conversa. Se quisesse conversar pegava o telefone e me ligava”,
disse, para em seguida comparar a estratégia de silêncio de Trump a um jogo de
baralho. “Eu não sou mineiro, mas sou bom de truco. Se ele estiver trucando,
ele vai tomar um 6″, emendou, insinuando a possibilidade de o republicano estar
blefando.
Encarregado
de liderar as tentativas de negociação, o vice-presidente Geraldo Alckmin,
também ministro da Indústria e Comércio, disse nesta quinta que há avanços. A
jornalistas, garantiu que os governos do Brasil e dos Estados Unidos mantiveram
“conversas reservadas” nos últimos dias e negociaram caminhos para evitar que o
tarifaço entre em vigor em 1º de agosto, data anunciada por Trump.
Alckmin
falou com o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick. A
conversa ocorreu no sábado, 19, por meio de uma videoconferência. “Foi uma
conversa longa, de aproximadamente 50 minutos. Destaquei que o presidente Lula
tem orientado a negociação, sem contaminação política nem ideológica”, disse o
vice.
• Caravana de senadores rumo a Washington
Nesta
sexta-feira, 25, os membros da Comissão de Relações Exteriores do Senado
embarcarão para os Estados Unidos para tentar articular com parlamentares e
empresários um diálogo com o governo de Donald Trump sobre o tarifaço. Há
previsão de reuniões com deputados republicanos e democratas entre os dias 28 e
30 de julho.
O grupo
de senadores é diverso. Tem integrantes de vários partidos. A missão terá os
senadores Nelsinho Trad (PSD-MS), que vai coordenar o trabalho, Jaques Wagner
(PT-BA), líder do governo no Senado, Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da
Agricultura no governo de Jair Bolsonaro, Marcos Pontes (PL-SP), ex-ministro de
Ciência e Tecnologia de Bolsonaro, Rogério Carvalho (PT-SE), líder do PT no
Senado, Esperidião Amin (PP-SC), Fernando Farias (MDB-AL) e Carlos Viana
(Podemos-MG). Ao PlatôBR, Trad garantiu que a ideia é passar ao largo dos
embates políticos sobre o tema e tentar resolver o problema. “Qualquer
tentativa de desviar o foco para disputas políticas internas ou pautas que não
dizem respeito ao comércio bilateral não terá espaço nessa agenda”, afirmou
(leia aqui).
Ao
menos publicamente, o grupo tem feito segredo com os detalhes da pré-agenda. O
motivo: os senadores não querem alertar e possibilitar uma contraofensiva do
deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) no sentido de minar os encontros com
autoridades norte-americanas. Na agenda divulgada pela comissão, a parte de
reunião com deputados diz apenas que na terça-feira, 29, “a agenda do dia
envolve compromissos estratégicos com autoridades norte-americanas” e informa
que “a cobertura será realizada exclusivamente pela assessoria de imprensa
oficial da missão, com divulgação de fotos, vídeos e conteúdos informativos
após a conclusão das atividades”.
A
intenção do deputado Eduardo Bolsonaro de atrapalhar o resultado da viagem é
real de acordo com um senador de direita ouvido sob reserva pelo PlatôBR. O
próprio filho do ex-presidente, em vídeo divulgado nas redes sociais nesta
quinta-feira, 24, disse que “ainda há senador que acha que vai vir aos Estados
Unidos e vai resolver essa questão só tendo uma boa conversa”. “Nada mais
ingênuo”, ironizou.
Fonte:
Brasil 247/IstoÉ

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