Crime
na Europa 'importa' traficantes mexicanos para turbinar logística e lucro
Em
meados de maio deste ano, a Polícia Europeia (Europol) realizou uma operação na
cidade de Marselha, no sul da França, para atingir as redes de tráfico de
drogas que atuam com cada vez mais força no país.
Em um
primeiro comunicado, a Europol informou ter apreendido 216 quilos de
metanfetamina, uma das drogas sintéticas que mais tem crescido no mercado do
narcotráfico a nível mundial, junto com o fentanil.
Mas,
com o avanço das investigações, as autoridades confirmaram um fenômeno que já
vinham observando nos últimos anos: a presença direta — e cada vez maior — de
cartéis mexicanos na produção de drogas sintéticas dentro do território
europeu.
A
investigação já levou à prisão de 16 pessoas envolvidas na produção e
distribuição das drogas e, segundo um relatório divulgado em junho, expôs os
"fortes vínculos" dessas pessoas com o poderoso cartel de Sinaloa.
"Os
dois principais organizadores da rede (europeia) dependiam, em grande parte, do
apoio logístico, da experiência e da preparação dos cartéis mexicanos. Os
cartéis, por sua vez, dependiam de intermediários locais para consolidar suas
operações e aumentar sua influência", afirma o relatório.
Em pelo
menos quatro operações de desmantelamento de laboratórios de droga, realizadas
entre 2024 e 2025 na Espanha e na Polônia, houve participação de cidadãos
mexicanos.
A
diferença da operação em Marselha é que ela terminou com a prisão de cidadãos
mexicanos diretamente envolvidos na instalação de laboratórios para a produção
de drogas.
Na
Bélgica, também foram realizadas operações relacionadas a esse mesmo fenômeno.
"O
que as autoridades europeias estão vendo é um aumento do que se chama de
'método mexicano', ou seja, muitas organizações criminosas na Europa querem
aproveitar toda a experiência logística de grupos poderosos como o cartel de
Sinaloa", explica Laurent Laniel, diretor do Escritório de Crime,
Precursores e Consumo de Drogas da União Europeia (EUDA, na sigla em inglês).
De
fato, no relatório divulgado no mês passado, a Europol faz referência a um
comunicado de 2022 em que a União Europeia, junto com a Agência Antidrogas dos
Estados Unidos, a DEA, alertava para uma mudança de tendência: já não se
tratava mais do envio de drogas para a Europa, mas da construção de
laboratórios de produção de drogas sintéticas em solo europeu.
"Os
especialistas de laboratórios mexicanos que chegam à União Europeia utilizam
métodos de produção únicos e participam de etapas específicas da produção de
metanfetamina", destacou o documento.
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Velhas ameaças, novas tendências
Mas
além de controlar o mercado de drogas ilícitas nos Estados Unidos, os cartéis
mexicanos — especialmente os mais poderosos, como o de Sinaloa e o Jalisco Nova
Geração — há décadas vêm tentando diversificar seus mercados. E, claro, a
Europa ocupa o primeiro lugar dessa lista de novos territórios cobiçados.
Contudo,
durante anos, eles encontraram obstáculos para entrar de forma definitiva nos
países europeus.
Primeiro,
tentaram enviar cocaína para portos europeus, mas encontraram outros atores já
consolidados ali, como os cartéis colombianos — especialmente os de Cali — e as
máfias italianas.
"Precisamos
entender que o mercado de drogas na Europa, diferentemente dos EUA, tem mais
atores disputando o controle. E isso faz com que seja muito mais difícil entrar
nele", explica Ludmila Quirós, cientista política e especialista em
tráfico de drogas na Europa na Universidade de Roma La Sapienza, na Itália.
Ela
destaca que isso, contudo, não fez com que os cartéis desistissem de seus
objetivos. "É uma velha ameaça, com novas tendências."
"A
pandemia de Covid-19 foi um ponto de inflexão para eles. Aprenderam com os
erros do passado, e a pandemia quase os obrigou a buscar novos mercados diante
da baixa demanda interna provocada pelo confinamento daqueles anos."
Então,
o que eles aprenderam?
Basicamente,
que tinham algo que as máfias europeias não haviam conseguido desenvolver
plenamente: a produção eficaz de drogas sintéticas.
Em seu
relatório de 2022, a União Europeia menciona a prisão de vários cidadãos
mexicanos durante o desmantelamento de laboratórios de drogas sintéticas na
Bélgica e nos Países Baixos (Holanda).
O
documento destaca a novidade da descoberta: "Ao utilizar produtos químicos
específicos, eles conseguem reciclar e reduzir os resíduos gerados durante o
ciclo de produção, obtendo maiores lucros e um rendimento superior de um
produto final altamente potente."
E
acrescenta: "Esses 'cozinheiros' mexicanos são importantes para os centros
de produção de metanfetamina da União Europeia devido ao seu conhecimento único
e sua capacidade de produzir cristais de metanfetamina maiores e mais
rentáveis."
"Esse
conhecimento tem lhes permitido ganhar terreno dentro da Europa, e é por isso
que têm sido encontrados mais laboratórios controlados por cartéis mexicanos ou
pessoas vindo do México para otimizar a produção", explica Laurent Laniel.
A
crescente presença de cartéis mexicanos na produção de drogas sintéticas
começou a se tornar visível em um centro estratégico de operações: a Europa
Central.
"No
começo, víamos conexões em pontos de trânsito, como os portos da Bélgica e dos
Países Baixos. Chegou-se a falar inclusive sobre a conexão mexicano-holandesa.
Mas, nos últimos anos, foram presas pessoas na Polônia, onde hoje está a
maioria dos laboratórios de produção desse tipo de droga", analisa Ludmila
Quirós.
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Mudança de estratégia
Corroborando
com os diversos relatórios da Europol, os especialistas também apontam que os
cartéis mexicanos não contribuem apenas com experiência e conhecimento
logístico na produção de drogas, mas também em outras áreas importantes da
operação do tráfico.
"Uma
questão fundamental é o financiamento para montar um laboratório e, depois, o
que fazer com o dinheiro arrecadado com a venda das drogas. Esse conhecimento,
aperfeiçoado ao longo dos anos pelos cartéis mexicanos, tem sido parte do que
eles usam para se estabelecer na Europa", diz Laniel.
Na
operação realizada em Marselha, os investigadores também identificaram canais
de distribuição com intermediários baseados na Espanha e na Bélgica, assim como
o uso de criptomoedas para transferências de fundos.
A
Europol afirma em seu documento que "os lavadores de dinheiro que prestam
serviço aos cartéis mexicanos utilizam diversas técnicas para facilitar as
finanças ilícitas, incluindo o uso de criptomoedas, lavagem de dinheiro baseado
no comércio e sistemas bancários clandestinos."
"Tudo
isso faz parte do 'método mexicano', que basicamente mostra como otimizar todas
as ferramentas existentes para obter o máximo benefício", indica Laniel.
Mas os
tempos mudaram. Para Quirós, os cartéis mexicanos, especialmente o de Sinaloa,
enfrentam novos desafios em seu terreno mais prolífico: os Estados Unidos.
"O
governo de Trump acaba de declarar os cartéis mexicanos como organizações
terroristas, o que muda totalmente a forma como esses grupos são combatidos
tanto no México quanto nos EUA", afirma.
A isso
somam-se as mudanças pelas quais passou o cartel de Sinaloa com a prisão de
seus principais líderes.
"Isso
reforça sua estratégia de ampliar a presença na Europa, como se tem visto nos
últimos meses", acrescenta a cientista política.
Contudo,
os especialistas concordam que a participação dos cartéis mexicanos no mercado
europeu ainda não é tão significativa quando comparada a outros grupos
criminosos que atuam no continente.
Sobretudo
porque o mercado de drogas sintéticas ainda tem um volume muito menor do que o
da cocaína, que continua sendo o narcótico mais consumido.
"É
preciso deixar claro que a presença é, por enquanto, mais uma ameaça crescente.
E as autoridades europeias não querem que as epidemias causadas por drogas
sintéticas nos EUA se repitam no continente", conclui Quirós.
Fonte:
BBC News Mundo

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