terça-feira, 29 de julho de 2025

Janethe Fontes: O “quarto de despejo” do pobre de direita

Analisar o contexto histórico e as subjetividades brasileiras que legitimam formas de dominação simbólica, que forjaram essa figura emblemática denominada de “pobre de direita”, não é uma missão nada fácil. Assim, as reflexões contidas neste ensaio procuram ancorar-se em autores como Florestan Fernandes, Pierre Bourdieu, Paulo Freire, Milton Santos e, sobretudo, Jessé Souza, aliando esse último pensador a trechos do icônico livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus e à letra da música Construção, de Chico Buarque, para entendimento da importância da crítica e da resistência cultural.

Essas reflexões passam, ainda, pela necessidade de compreender que o autoritarismo brasileiro não se restringe apenas ao domínio institucional. Ele estrutura, desde de tempos mais remotos, práticas cotidianas, hábitos, valores culturais e formas de percepção de mundo.

Ou seja, trata-se de um fenômeno que atravessa séculos, amparado por um ethos patrimonialista e por uma cultura de naturalização da desigualdade. Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e Roberto DaMatta identificam na cordialidade, no patrimonialismo e no personalismo, traços permanentes de um Brasil que não rompeu totalmente com suas raízes coloniais.

É desse intricado contexto histórico que emerge a figura do “pobre de direita”, um sujeito invariavelmente subalternizado que, de forma paradoxal, adere ao discurso das elites, algo que desafia interpretações simples e reducionistas. Sendo assim, para entender esse sujeito, se faz necessária uma análise mais ampliada da cultura política brasileira, para a qual contribuíram, de forma seminal, Holanda, Faoro e DaMatta.

O conceito de “homem cordial”, estabelecido por Holanda (1995) em Raízes do Brasil, não remete à gentileza, mas sim à personalização das relações de poder: “A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, a ternura, são manifestações espontâneas do homem cordial. Mas essa cordialidade não significa, como parece à primeira vista, boas maneiras ou civilidade. (…) A contribuição brasileira à civilização será, talvez, a do homem cordial” (Holanda, 1995, p.146).

A cordialidade brasileira, definida por Sérgio Buarque de Holanda, mascara a violência simbólica e física exercida pelo Estado e pelas elites, criando uma sociedade onde o público se confunde com o privado e onde os vínculos pessoais excedem os princípios impessoais da democracia moderna. Isso ajuda a explicar por que, mesmo em contextos democráticos, práticas autoritárias persistem com legitimidade popular.

Faoro (2001), em Os Donos do Poder, aprofunda essa análise, ao investigar o patrimonialismo herdado da colonização portuguesa. Para ele, a burocracia estatal brasileira se estrutura como um instrumento de manutenção dos privilégios de uma elite que monopoliza o Estado em benefício próprio. O autoritarismo, portanto, não é um desvio, mas um traço constitutivo da formação social brasileira.

DaMatta (1997), com sua análise antropológica da cultura brasileira em Carnavais, Malandros e Heróis, mostra como o brasileiro transita entre dois mundos: o da regra e o da exceção. “O jeitinho é, pois, a maneira que o brasileiro encontrou para conciliar a norma impessoal com as exigências da pessoa concreta” (DaMatta, 1997, p. 197). Com DaMatta, as hierarquias são naturalizadas e a ideia de igualdade é relativizada. Isso contribui para a formação de uma mentalidade que, mesmo entre os mais pobres, aceita a autoridade como algo inevitável e, muitas vezes, deseja exercê-la contra aqueles que julga “abaixo” na escala social.

Já Fernandes (2008) denuncia a permanência do racismo sob nova roupagem, na ordem capitalista brasileira. Freire (2019) assinala para o processo de desumanização como base do autoritarismo educacional e Santos (2006) ratifica a desigualdade territorial como forma de segregação urbana esquematizada.

Jessé Souza amplia ainda mais todo esse debate, sobretudo em seu livro: A elite do atraso. Segundo ele, a adesão de parcelas pobres da população ao pensamento de direita é resultado de uma identidade construída sob bases de humilhação e exclusão. Para isso, usa da lógica da dominação simbólica de Pierre Bourdieu (1998), a qual torna possível que os sobrepujados contribuam com a própria dominação.

Assim, o “pobre de direita” internaliza o discurso da meritocracia, do empreendedorismo individual e da criminalização da pobreza, mesmo quando sua realidade desmente tais narrativas. Essa figura é, em última análise, um produto da cultura autoritária brasileira, marcada pela negação da solidariedade de classe e pela valorização do individualismo. “Trata-se de fazer com que os explorados acreditem que são culpados pela própria exploração e, ao mesmo tempo, se identifiquem com o explorador”(Souza, 2017, p. 183).

Contudo, o “pobre de direita” não é apenas um arquétipo do alheamento ideológico, ele é, sobretudo, resultado da internalização dos valores autoritários e hierárquicos de uma sociedade que nunca universalizou plenamente os direitos civis, políticos e sociais.

É o sujeito que, por identificação simbólica com o poder e pela promessa de ascensão individual, aceita — e até defende contundentemente — políticas excludentes e repressivas. É o trabalhador que, ao invés de se reconhecer como parte de uma classe explorada e oprimida, se enxerga como um “empreendedor de si mesmo” ou como alguém que precisa “se impor” para “vencer”.

A letra da música Construção, de autoria de Chico Buarque, descreve a desumanização do trabalhador sob o capitalismo autoritário e nos revela a apatia do trabalhador como peça descartável da máquina urbana, na qual o “pobre de direita” ignora que é, também, vítima.

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público…

Essa alienação, longe de ser acidental, estrutura as relações sociais e molda subjetividades diversas. O “pobre de direita” é uma das expressões mais concretas dessa herança: uma figura que encarna a contradição de um país onde a dominação se reproduz sob o disfarce da ordem e do progresso.

O autoritarismo brasileiro é fruto de um processo histórico-cultural que combina dominação simbólica, exclusão material e apagamento de saberes populares. A figura do pobre de direita é expressão de um sujeito colonizado, que reflete o discurso da elite por necessidade de pertencimento e valorização. Romper com esse ciclo exige uma pedagogia da libertação, uma política de memória e a valorização da arte como instrumento de desnaturalização da violência. A música e a literatura tornam-se, assim, espaços vitais de resistência.

Em seu livro Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus expõe a favela como território da exclusão extrema. Suas anotações denunciam a fome, a precariedade e a negligência do Estado. A favela como o quarto de despejo de uma cidade é metáfora que sintetiza a marginalização da população pobre e negra. Sua escrita é resistência e memória.

Em conclusão, é necessário ressaltar que não é possível abordar, em tão poucas linhas, a importância da análise crítica de Jessé de Souza sobre o Brasil atual e o chamado “pobre direita”. Porém, para finalizar, deixo aqui outra frase de Carolina Maria de Jesus: “Eu queria ser rica. Só para andar bonita, comer bem e ter cama macia”.

•        Sob Lula, Brasil deixa o Mapa da Fome pela segunda vez

O Brasil está oficialmente fora do Mapa da Fome das Nações Unidas. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (28) pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares (UNFSS+4), em Adis Abeba, na Etiópia. A informação foi divulgada no Relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 (SOFI 2025), que se baseia em médias trienais — neste caso, de 2022 a 2024. Segundo a FAO, o Brasil reduziu para menos de 2,5% o percentual de sua população em risco de subnutrição.

A conquista foi alcançada em tempo recorde. Em 2022, o Brasil enfrentava um cenário crítico de insegurança alimentar. Ainda assim, em apenas dois anos de governo, o país conseguiu reverter esse quadro, graças a uma combinação de políticas sociais, incentivo ao trabalho e valorização da agricultura familiar.

Play Video

“Sair do Mapa da Fome era o objetivo primeiro do presidente Lula ao iniciar o seu mandato em janeiro de 2023. A meta era fazer isso até o fim de 2026”, relembrou o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias. “Mostramos que, com o Plano Brasil Sem Fome, muito trabalho duro e políticas públicas robustas, foi possível alcançar esse objetivo em apenas dois anos. Não há soberania sem justiça alimentar. E não há justiça social sem democracia.”

<><> Avanços no combate à pobreza

Segundo dados do IBGE e do Ministério do Desenvolvimento Social, entre 2022 e 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros saíram da insegurança alimentar grave. Em paralelo, a pobreza extrema foi reduzida a 4,4% em 2023, o menor índice da série histórica, tirando quase 10 milhões de pessoas dessa condição desde 2021.

O bom desempenho econômico também contribuiu para os resultados. Em 2024, o Brasil alcançou a menor taxa de desemprego desde 2012 (6,6%) e bateu recordes de renda domiciliar per capita, que chegou a R$ 2.020. A desigualdade também recuou: o índice de Gini caiu para 0,506, impulsionado pelo crescimento de 10,7% na renda do trabalho dos 10% mais pobres — um ritmo 50% superior ao dos mais ricos.

Boa parte dessa transformação tem origem no fortalecimento dos programas sociais. Segundo o Caged, 98,8% das 1,7 milhão de vagas com carteira assinada criadas em 2024 foram ocupadas por pessoas registradas no Cadastro Único, sendo que 1,27 milhão eram beneficiárias do Bolsa Família. Com o aumento da renda, cerca de um milhão de famílias deixaram de receber o benefício em julho de 2025.

De acordo com Wellington Dias, o sucesso do combate à fome está diretamente ligado à articulação de políticas complementares: “Essa vitória é fruto de políticas públicas eficazes, como o Plano Brasil Sem Fome, que engloba o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Cozinha Solidária, a valorização do salário mínimo, o crédito para a agricultura familiar, o incentivo à qualificação profissional, ao emprego e ao empreendedorismo, além do fortalecimento da alimentação escolar.”

O feito de 2025 marca a segunda vez que o Brasil sai do Mapa da Fome sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva — a primeira foi em 2014. O retorno ao mapa ocorreu a partir do triênio 2018-2020, após o desmonte de diversas políticas sociais.

<><> Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza

Durante sua presidência no G20 em 2024, o Brasil propôs a criação da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que já reúne mais de 100 países, além de fundações, organizações e instituições financeiras internacionais. A meta da Aliança é contribuir para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030, especialmente os que tratam da erradicação da fome e da pobreza.

“O exemplo brasileiro pode ser adaptado em muitos países ao redor do globo. No Brasil, sair do Mapa da Fome é só o começo. Queremos justiça alimentar, soberania e bem-estar para todos”, afirmou Wellington Dias.

O ministro também destacou que, ao unir políticas públicas eficazes com esforços internacionais, o Brasil reafirma seu compromisso com a Agenda 2030 da ONU, buscando a construção de um mundo mais justo, igualitário e livre da fome.

•        "Não há soberania sem justiça alimentar", diz Wellington Dias

O Brasil foi oficialmente retirado do Mapa da Fome pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), conforme anunciado nesta segunda-feira (28), em Adis Abeba, Etiópia, durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU. Segundo o relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 (SOFI 2025), o país conseguiu reduzir para menos de 2,5% a parcela da população em situação de subnutrição entre os anos de 2022 e 2024.

A conquista representa um marco histórico para o Brasil e evidencia a retomada de políticas públicas eficazes, como o Plano Brasil Sem Fome. “Sair do Mapa da Fome era o objetivo primeiro do presidente Lula ao iniciar o seu mandato em janeiro de 2023. A meta era fazer isso até o fim de 2026. Mostramos que, com o Plano Brasil Sem Fome, muito trabalho duro e políticas públicas robustas, foi possível alcançar esse objetivo em apenas dois anos”, afirmou o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias. E completou: “Não há soberania sem justiça alimentar. E não há justiça social sem democracia”.

Play Video

<><> Caminho reverso: do retrocesso à recuperação

O Brasil já havia deixado o Mapa da Fome em 2014, após mais de uma década de ações sociais estruturantes. No entanto, entre 2018 e 2020, com o desmonte de políticas públicas voltadas à segurança alimentar, o país voltou a figurar entre as nações com altos índices de subnutrição. A situação se agravou em 2022, considerado um dos períodos mais críticos em relação à fome.

O retorno à rota de combate à fome se deu com o novo ciclo de políticas sociais implementadas a partir de 2023, que incluíram não apenas transferência de renda, mas também fomento à agricultura familiar, geração de emprego, fortalecimento da alimentação escolar e valorização do salário mínimo.

<><> Redução da pobreza e da desigualdade

Além de superar a fome grave, o Brasil também registrou indicadores sociais inéditos. Em 2023, a taxa de pobreza extrema foi reduzida a 4,4%, menor patamar já registrado, com cerca de 10 milhões de pessoas deixando essa condição desde 2021. Até o fim de 2023, aproximadamente 24 milhões de brasileiros foram retirados da insegurança alimentar grave, segundo dados do IBGE com base na Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA).

Em 2024, a taxa de desemprego caiu para 6,6%, a mais baixa desde 2012, enquanto a renda domiciliar per capita atingiu R$ 2.020, um recorde histórico. A desigualdade social também recuou, com o índice de Gini chegando a 0,506 — menor nível desde o início da série.

Outro dado emblemático está no perfil das contratações formais: de 1,7 milhão de novos empregos com carteira assinada em 2024, 98,8% foram ocupados por pessoas registradas no Cadastro Único. Desse total, 75,5% eram beneficiários do Bolsa Família. Com o aumento da renda e da formalização, cerca de um milhão de famílias superaram a linha da pobreza e deixaram de receber o benefício em julho de 2025.

<><> Políticas públicas integradas e resultados concretos

Segundo Wellington Dias, a conquista do Brasil foi possível graças à articulação entre diversos programas sociais. “Essa vitória é fruto de políticas públicas eficazes, como o Plano Brasil Sem Fome que engloba o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Cozinha Solidária, a valorização do salário mínimo, crédito para a produção de alimentos pela agricultura familiar (PRONAF), incentivo à qualificação profissional, ao emprego e ao empreendedorismo, além do incremento da alimentação escolar”, listou o ministro.

Ele destacou que todas essas ações funcionam como uma engrenagem coordenada para garantir a soberania alimentar e o desenvolvimento social do país. “Todas as políticas sociais trabalhando juntas para ter um Brasil sem fome e soberano”, enfatizou.

<><> Cooperação internacional: Brasil lidera Aliança Global

O exemplo brasileiro agora serve de inspiração para o mundo. Em 2024, durante sua presidência do G20, o país lançou a Aliança Global Contra a Fome e a Pobreza. A iniciativa busca mobilizar governos, organizações internacionais e instituições financeiras para acelerar o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente o de erradicação da fome até 2030. Atualmente, a Aliança já conta com 101 países e dezenas de instituições.

“O exemplo brasileiro pode ser adaptado em muitos países ao redor do globo. No Brasil, sair do Mapa da Fome é só o começo. Queremos justiça alimentar, soberania e bem-estar para todos”, declarou Wellington Dias.

•        "Nossa guerra sempre foi contra a fome", diz Jorge Messias, da AGU

O advogado-geral da União, Jorge Messias, comemorou nesta segunda-feira (28) o anúncio da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO/ONU) de que o Brasil está, mais uma vez, fora do Mapa da Fome. Em publicação nas redes sociais, Messias atribuiu o feito ao empenho do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em combater a fome e promover justiça social.

"Nada resiste ao trabalho. Não é mera coincidência. Com um governo comprometido em cuidar da população, o Brasil volta a sair do Mapa da Fome. A nossa guerra sempre foi contra a fome! Mais uma conquista do governo do presidente Lula”, escreveu o titular da AGU.

A manifestação se soma à ampla repercussão positiva entre autoridades e lideranças políticas, após a divulgação do relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo 2025 (SOFI), que aponta que o país reduziu a proporção de pessoas em situação de subnutrição para menos de 2,5% da população. O dado considera a média trienal entre 2022 e 2024 e foi anunciado durante a 2ª Cúpula de Sistemas Alimentares da ONU, realizada em Adis Abeba, Etiópia.

<><> Reconstrução e prioridade social

A fala de Jorge Messias destaca não apenas a conquista concreta, mas também o simbolismo da superação de um dos períodos mais críticos da história recente do país. O Brasil havia deixado o Mapa da Fome pela primeira vez em 2014, durante os governos petistas, mas voltou a figurar na lista da ONU a partir de 2018, como consequência do desmonte de políticas públicas e do agravamento das desigualdades sociais.

Desde 2023, com o início do terceiro mandato de Lula, o país retomou a trajetória de combate à fome e à miséria por meio de ações integradas como o Plano Brasil Sem Fome, que articula o Bolsa Família, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o apoio à agricultura familiar, o fortalecimento da alimentação escolar e a valorização do salário mínimo.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Brasi 247

 

Nenhum comentário: