terça-feira, 29 de julho de 2025

Aldo Fornazieri: ‘Derrotar e deslegitimar o bolsonarismo’

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o nazismo e o fascismo não só foram derrotados, mas foram também deslegitimados. A derrota foi em vários campos. A vitória das forças aliadas ocidentais e da União Soviética no front do Leste implicou numa derrota militar avassaladora ao Eixo constituído pela Alemanha, Japão e Itália. A derrota foi de tal ordem que as ideologias que buscavam legitimar esses regimes ficaram sem sustentação política e militar.

O processo de deslegitimação foi catapultado, principalmente, pela divulgação mundial das atrocidades que esses regimes cometeram contra inimigos externos e também contra populações e oposições internas. O Holocausto e as atrocidades ali praticadas foram o ponto mais alto da barbárie daqueles projetos políticos e ideológicos.

A condenação internacional dos crimes de guerra teve no Tribunal de Nuremberg um repúdio em nome do Humanismo e dos valores civilizacionais. Essa condenação estabeleceu uma interdição política, ideológica e moral ao nazismo e ao fascismo em, praticamente, todos os países do mundo, mesmo com as suas diferentes ideologias e diferentes sistemas e formas de governo.

Na esteira desse processo, nas democracias ocidentais, se fortaleceu um consenso de que era necessário garantir direitos aos trabalhadores, inclusão e bem-estar. Esse entendimento foi sacramentado na ideia e na construção do Estado de bem-estar social.

Com essa deslegitimação do nazismo e do fascismo, essas ideologias não morreram, mas submergiram por décadas, sofrendo até mesmo interdições legais. No final do século XX, já existiam sinais de seu ressurgimento através de organizações e agrupamentos extremistas de direita. Mas foi no início do século XXI que esses agrupamentos se tornaram mais assumidos, mais explícitos e mais ativos em disputas políticas, ideológicas e eleitorais. Quer dizer: buscaram relegitimar-se em diversas partes do mundo. Se afirmaram com mais força e ousadia nas democracias ocidentais.

Donald Trump, Bolsonaro, Viktor Orbán, Bukele, entre outros, se tornaram expressões públicas, partidárias e eleitorais mais conhecidas de uma série de grupos, partidos, movimentos, formuladores e ativistas dessas ideologias que assumiram várias formas matizadas. Hoje trabalham para construir articulações mundiais, buscando maior coerência, unidade e eficácia. Muitos analistas e pensadores foram surpreendidos por esse ressurgimento, pois, com a queda da União Soviética, acreditava-se que as democracias liberais estavam garantidas indefinidamente e que aquelas ideologias extremistas estavam mortas.

O Brexit, a vitória de Trump, de Bolsonaro, entre outros, e o fortalecimento dos partidos de extrema-direita em vários parlamentos são, não apenas fatos perturbadores, mas sinais de que existe uma crise profunda e de que o mundo está transitando de uma era política para outra, sem que esse futuro tenha qualquer garantia de seu desenho, de seu conteúdo e de sua forma. É aquela velha advertência de Antonio Gramsci: “o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer”.

Hoje existe uma batalha campal pelo domínio do novo período civilizacional. Ela envolve várias frentes: valores, ideologias, tecnologias, mercados, influências, corrida espacial, Big Techs, comida, água, rios, mares, florestas, terras raras, ecologia, metahumanismo, genética, biopolítica etc. As forças que estão nessa guerra campal ainda estão se alinhando, definindo seus rumos, suas armas, suas estratégias.

No trânsito do século XX para o século XXI não ocorreu apenas o colapso da União Soviética e uma crise do marxismo e das esquerdas. A democracia liberal também entrou em crise. O neoliberalismo foi uma tentativa de resposta, um epifenômeno da crise do liberalismo. O neoliberalismo provocou uma tensão extrema da democracia liberal, testando os seus limites.

Muitos analistas de esquerda afirmam que a emergência da extrema-direita se deve à crise do neoliberalismo. Mas não é só isso: é também o resultado da incapacidade do liberalismo e das esquerdas promoverem saídas para a crise das democracias. Incapacidade de oferecer soluções para os desafios ecológicos, econômicos, sociais, políticos, culturais e tecnológicos. A extrema-direita ressurgiu nas brechas, nas fendas deixadas pela ausência dessas alternativas, dessas incapacidades de renovar a democracia, os direitos, a igualdade e a liberdade.

Em 2022, o bolsonarismo sofreu uma derrota eleitoral, mas não política. O mesmo ocorreu com Trump quando foi derrotado por Biden. Nem os Democratas nem o sistema judiciário norte-americano se dispuseram a derrotar política e ideologicamente e a punir Trump e o trumpismo, mesmo com os acontecimentos trágicos da invasão do Capitólio.

No Brasil, a tragédia negacionista da pandemia, o golpismo recorrente de Bolsonaro durante seu governo e a tentativa explícita de golpe no final de 2022 e início de 2023 não estimularam as forças democráticas e progressistas a deslegitimar o bolsonarismo. Apenas o STF agiu com firmeza com o objetivo de derrotar o golpismo. O preço dessa inação dos democratas e progressistas é a permanência do bolsonarismo como força política significativa na disputa política e eleitoral.

Mas agora, com a traição e com a chantagem que a família Bolsonaro e os bolsonaristas estão promovendo contra o Brasil, estimulando o tarifaço de Trump, surge uma ocasião extraordinária para derrotar politicamente o bolsonarismo e deslegitimá-lo moralmente. O bolsonarismo não é uma força de direita que possa ser tratada como adversária no âmbito do jogo democrático. O bolsonarismo precisa ser tratado como uma força inimiga, que precisa ser derrotada e deslegitimada.

O bolsonarismo trata as forças democráticas, progressistas e de esquerda como inimigas. Quer destruí-las. Age na democracia para destruir a democracia. É inimigo da ordem republicana e democrática. É inimigo do STF porque, hoje, ele é o pilar fundamental da garantia do Estado de Direito e da Constituição. Quer derrubar e, se possível, eliminar os ministros do STF que são os mais ativos no combate ao golpismo.

Vivemos numa conjuntura em que não é possível impor uma interdição legal ao bolsonarismo e ao extremismo de direita. Mas é possível impor uma derrota política e uma deslegitimação moral, reduzindo sua influência na sociedade e seu espaço de manobra no meio político. É esta a ocasião que a traição e a chantagem dos bolsonaristas, associados ao tarifaço punitivo e ilegítimo de Trump, oferecem. A omissão nessa tarefa pode custar caro às forças progressistas e à democracia.

•        Disputas políticas não terão espaço, diz Trad sobre missão de senadores nos EUA

Em meio à tensão comercial com os Estados Unidos, senadores brasileiros iniciam nesta sexta-feira, 24, uma viagem oficial a Washington para defender o setor produtivo nacional e tentar reverter o tarifaço anunciado pelo presidente Donald Trump. A comitiva tem compromissos marcados de 28 a 30 de julho, será presidida por Nelsinho Trad (PSD-MS) e inclui ainda Jaques Wagner (PT-BA), Tereza Cristina (PP-MS) e Fernando Farias (MDB-AL) como titulares. Também fazem parte da missão, como suplentes, os senadores Marcos Pontes (PL-SP), Esperidião Amin (PP-SC), Rogério Carvalho (PT-SE) e Carlos Viana (Podemos-MG).

A iniciativa tem apoio do Itamaraty e do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e é tratada como uma resposta institucional às medidas unilaterais do governo Trump que preveem sobretaxar todas as importações brasileiras para os Estados Unidos. “Vamos levar estudos, buscar convergência com o setor produtivo americano e dialogar com parlamentares que compreendam o impacto negativo dessas tarifas para os dois países”, afirmou Trad em entrevista ao PlatôBR.

O presidente da comitiva reforça que a missão é suprapartidária e com foco exclusivo na defesa de empregos e de setores estratégicos da economia brasileira. “Qualquer tentativa de desviar o foco para disputas políticas internas ou pautas que não dizem respeito ao comércio bilateral não terá espaço nessa agenda”, garantiu.

>>> Eis os principais trechos.

•        A comitiva já tem encontros confirmados nos Estados Unidos? Quais agendas o senhor pode adiantar?

Sim. A programação inclui reuniões com parlamentares norte-americanos, empresários dos setores afetados pelas tarifas e especialistas em comércio internacional.

•        Se questionada, qual será a postura da comitiva em relação à imposição do Trump de suspensão dos processos contra o ex-presidente Bolsonaro?

A missão foi criada com um objetivo claro e suprapartidário: defender os interesses comerciais do Brasil. Qualquer tentativa de desviar o foco para disputas políticas internas ou pautas que não dizem respeito ao comércio bilateral não terá espaço nessa agenda. Nossa postura será de responsabilidade institucional e compromisso com o Brasil.

•        Acredita que essa missão pode influenciar o debate nos Estados Unidos ou é mais uma sinalização política? A missão pode resultar na reversão da decisão de Donald Trump?

A diplomacia parlamentar tem um papel importante na construção de pontes. Vamos levar estudos, buscar convergência com o setor produtivo americano e dialogar com parlamentares que compreendam o impacto negativo dessas tarifas para os dois países. O objetivo é contribuir para um ambiente de entendimento. A reversão de medidas unilaterais é um processo, mas toda iniciativa construtiva, de diálogo, pode influenciar positivamente na abertura de portas para negociação.

•        A missão tem alguma articulação com parlamentares norte-americanos? Já houve contato com senadores ou deputados dos Estados Unidos?

Sim. A Comissão de Relações Exteriores do Senado vem mantendo contatos com congressistas norte-americanos. Houve sinalização positiva de abertura ao diálogo por parte de parlamentares que compreendem a importância da relação com o Brasil.

•        Como foi a reunião de quarta-feira passada com o chanceler Mauro Vieira sobre a missão?

A reunião reafirmou o apoio institucional do Itamaraty e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços à missão. No encontro, foram detalhados ainda os esforços em curso do governo brasileiro junto ao setor privado e autoridades dos Estados Unidos. A reunião reforçou a convergência de propósitos entre os poderes e nela foi reforçado que o Senado cumpre seu papel constitucional de defesa dos interesses nacionais, por meio de uma iniciativa suprapartidária que busca preservar empregos e proteger setores estratégicos da economia brasileira.

•        Aliados veem Tarcísio fora das cordas pós-tarifaço, mas adotam cautela

Aliados de Tarcísio de Freitas avaliam que o governador de São Paulo teve sucesso no primeiro ato de seu reposicionamento sobre o tarifaço de Donald Trump, depois de um comportamento errático logo após o anúncio da sanção do presidente americano.

Nas palavras de um interlocutor de Tarcísio, ele “saiu das cordas” depois de “apanhar de todos os lados” e conseguiu se antecipar ao governo Lula ao anunciar, nessa quinta-feira, 24, medidas de apoio a exportadores paulistas.

A uma semana do início das tarifas, no entanto, o momento ainda é tratado com extrema cautela no entorno de Tarcísio. Espera-se que os efeitos práticos da sanção de Donald Trump, a partir de 1º de agosto, levem a outro patamar pressões econômicas e políticas sobre o governador de São Paulo.

•        Brasil busca diálogo com EUA sobre tarifas, sem ‘contaminação política ou ideológica’, diz ministério comandado por Alckmin

O governo brasileiro afirmou, por meio de nota divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) neste domingo (27), que mantém o diálogo com os Estados Unidos sobre as novas tarifas impostas aos produtos nacionais, mas ressalta que as negociações não têm "qualquer contaminação política ou ideológica", informa reportagem do Metrópoles.

O vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o MDIC, tem conduzido as tratativas com os norte-americanos desde abril, quando a proposta inicial era uma tarifa de 10%. No entanto, a situação se agravou no início de julho, com a elevação abrupta do percentual. "Desde o anúncio das medidas unilaterais feito pelo governo norte-americano, o governo brasileiro, por orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vem buscando negociação com base em diálogo, sem qualquer contaminação política ou ideológica", destacou a pasta em comunicado.

<><> Soberania e reciprocidade

Lula tem defendido publicamente a soberania do Brasil e criticado a interferência de outros países em assuntos internos. O presidente adiantou que, se as tarifas não forem revistas, o Planalto recorrerá à Lei da Reciprocidade Econômica, que permite ao país adotar medidas comerciais em resposta a ações unilaterais de nações estrangeiras. "Reiteramos que a soberania do Brasil e o estado democrático de direito são inegociáveis. No entanto, o governo brasileiro continua e seguirá aberto ao debate das questões comerciais", reforçou o MDIC.

Apesar dos esforços, Alckmin enfrenta obstáculos nas negociações. Até o momento, não houve avanços concretos para adiar ou reduzir as tarifas. O governo brasileiro, contudo, enfatiza a importância da relação bilateral, que completa 200 anos. "Esse histórico deve ser preservado", pontuou a nota.

Enquanto as tratativas seguem, setores empresariais e econômicos monitoram com preocupação os desdobramentos, temendo impactos no comércio exterior. A Câmara de Comércio dos EUA já havia alertado que a medida pode criar um precedente negativo para as relações entre os dois países.

•        China fala em "promover" comércio com o Brasil diante de tarifaço dos EUA

Diante da possibilidade de os Estados Unidos imporem uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros já nesta sexta-feira (1º), a China sinalizou interesse em reforçar laços comerciais com o Brasil e outros países do Brics. A posição foi expressa nesta segunda-feira (28) pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, durante entrevista coletiva em Pequim. As informações são da Folha de S. Paulo.

Em resposta direta à ameaça tarifária, Guo afirmou que “a China está disposta a trabalhar junto com os países da América Latina e do Brics, incluindo o Brasil, para defender conjuntamente o sistema multilateral de comércio, centrado na OMC (Organização Mundial de Comércio) e proteger a justiça e a equidade internacional”.

Questionado sobre a possibilidade de a China abrir mais seu mercado a produtos brasileiros que hoje são vendidos aos EUA — como os aviões da Embraer —, o porta-voz destacou que Pequim pretende ampliar a cooperação com o Brasil no setor. “A China valoriza a cooperação pragmática com o Brasil na área de aviação e outros campos e está disposta a promovê-la com base em princípios de mercado”, afirmou.

O posicionamento do governo chinês também reflete as negociações comerciais que ocorrem até esta terça-feira (29) com os Estados Unidos, em Estocolmo. O tom adotado por Guo foi semelhante ao usado ao tratar do Brasil. “Com base na igualdade, respeito e reciprocidade, por meio do diálogo, aprimoraremos o consenso e reduziremos mal-entendidos”, declarou.

Ao ser questionado se a China aceitaria um acordo semelhante ao firmado entre os EUA e a União Europeia — que estabeleceu uma tarifa de 15% e desagradou líderes europeus —, Guo reiterou a defesa da solução pacífica para disputas comerciais. “A China sempre defendeu que todas as partes resolvam as diferenças econômicas e comerciais por meio do diálogo e da consulta em igualdade de condições”, disse.

Grande parte da coletiva desta segunda-feira foi dedicada a temas econômicos. Guo foi questionado ainda sobre uma possível suspensão, por parte da China, de medidas de controle de exportação para facilitar um eventual acordo com os EUA — como antecipado pelo Financial Times em Washington. O porta-voz não confirmou se Pequim adotou a mesma postura de Washington, que teria interrompido a adoção de novas restrições.

“Sempre tivemos esperança de que os EUA e a China trabalhem juntos para implementar o importante consenso alcançado durante a ligação entre os dois chefes de Estado”, afirmou, referindo-se ao telefonema realizado no início de junho entre o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Donald Trump.

 

Fonte: Brasil 247/IstoÉ

 

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