Aldo
Fornazieri: ‘Derrotar e deslegitimar o bolsonarismo’
Com o
fim da Segunda Guerra Mundial, o nazismo e o fascismo não só foram derrotados,
mas foram também deslegitimados. A derrota foi em vários campos. A vitória das
forças aliadas ocidentais e da União Soviética no front do Leste implicou numa
derrota militar avassaladora ao Eixo constituído pela Alemanha, Japão e Itália.
A derrota foi de tal ordem que as ideologias que buscavam legitimar esses
regimes ficaram sem sustentação política e militar.
O
processo de deslegitimação foi catapultado, principalmente, pela divulgação
mundial das atrocidades que esses regimes cometeram contra inimigos externos e
também contra populações e oposições internas. O Holocausto e as atrocidades
ali praticadas foram o ponto mais alto da barbárie daqueles projetos políticos
e ideológicos.
A
condenação internacional dos crimes de guerra teve no Tribunal de Nuremberg um
repúdio em nome do Humanismo e dos valores civilizacionais. Essa condenação
estabeleceu uma interdição política, ideológica e moral ao nazismo e ao
fascismo em, praticamente, todos os países do mundo, mesmo com as suas
diferentes ideologias e diferentes sistemas e formas de governo.
Na
esteira desse processo, nas democracias ocidentais, se fortaleceu um consenso
de que era necessário garantir direitos aos trabalhadores, inclusão e
bem-estar. Esse entendimento foi sacramentado na ideia e na construção do
Estado de bem-estar social.
Com
essa deslegitimação do nazismo e do fascismo, essas ideologias não morreram,
mas submergiram por décadas, sofrendo até mesmo interdições legais. No final do
século XX, já existiam sinais de seu ressurgimento através de organizações e
agrupamentos extremistas de direita. Mas foi no início do século XXI que esses
agrupamentos se tornaram mais assumidos, mais explícitos e mais ativos em
disputas políticas, ideológicas e eleitorais. Quer dizer: buscaram
relegitimar-se em diversas partes do mundo. Se afirmaram com mais força e
ousadia nas democracias ocidentais.
Donald
Trump, Bolsonaro, Viktor Orbán, Bukele, entre outros, se tornaram expressões
públicas, partidárias e eleitorais mais conhecidas de uma série de grupos,
partidos, movimentos, formuladores e ativistas dessas ideologias que assumiram
várias formas matizadas. Hoje trabalham para construir articulações mundiais,
buscando maior coerência, unidade e eficácia. Muitos analistas e pensadores
foram surpreendidos por esse ressurgimento, pois, com a queda da União
Soviética, acreditava-se que as democracias liberais estavam garantidas
indefinidamente e que aquelas ideologias extremistas estavam mortas.
O
Brexit, a vitória de Trump, de Bolsonaro, entre outros, e o fortalecimento dos
partidos de extrema-direita em vários parlamentos são, não apenas fatos
perturbadores, mas sinais de que existe uma crise profunda e de que o mundo
está transitando de uma era política para outra, sem que esse futuro tenha
qualquer garantia de seu desenho, de seu conteúdo e de sua forma. É aquela
velha advertência de Antonio Gramsci: “o velho está morrendo e o novo ainda não
pode nascer”.
Hoje
existe uma batalha campal pelo domínio do novo período civilizacional. Ela
envolve várias frentes: valores, ideologias, tecnologias, mercados,
influências, corrida espacial, Big Techs, comida, água, rios, mares, florestas,
terras raras, ecologia, metahumanismo, genética, biopolítica etc. As forças que
estão nessa guerra campal ainda estão se alinhando, definindo seus rumos, suas
armas, suas estratégias.
No
trânsito do século XX para o século XXI não ocorreu apenas o colapso da União
Soviética e uma crise do marxismo e das esquerdas. A democracia liberal também
entrou em crise. O neoliberalismo foi uma tentativa de resposta, um epifenômeno
da crise do liberalismo. O neoliberalismo provocou uma tensão extrema da
democracia liberal, testando os seus limites.
Muitos
analistas de esquerda afirmam que a emergência da extrema-direita se deve à
crise do neoliberalismo. Mas não é só isso: é também o resultado da
incapacidade do liberalismo e das esquerdas promoverem saídas para a crise das
democracias. Incapacidade de oferecer soluções para os desafios ecológicos,
econômicos, sociais, políticos, culturais e tecnológicos. A extrema-direita
ressurgiu nas brechas, nas fendas deixadas pela ausência dessas alternativas,
dessas incapacidades de renovar a democracia, os direitos, a igualdade e a
liberdade.
Em
2022, o bolsonarismo sofreu uma derrota eleitoral, mas não política. O mesmo
ocorreu com Trump quando foi derrotado por Biden. Nem os Democratas nem o
sistema judiciário norte-americano se dispuseram a derrotar política e
ideologicamente e a punir Trump e o trumpismo, mesmo com os acontecimentos
trágicos da invasão do Capitólio.
No
Brasil, a tragédia negacionista da pandemia, o golpismo recorrente de Bolsonaro
durante seu governo e a tentativa explícita de golpe no final de 2022 e início
de 2023 não estimularam as forças democráticas e progressistas a deslegitimar o
bolsonarismo. Apenas o STF agiu com firmeza com o objetivo de derrotar o
golpismo. O preço dessa inação dos democratas e progressistas é a permanência
do bolsonarismo como força política significativa na disputa política e
eleitoral.
Mas
agora, com a traição e com a chantagem que a família Bolsonaro e os
bolsonaristas estão promovendo contra o Brasil, estimulando o tarifaço de
Trump, surge uma ocasião extraordinária para derrotar politicamente o
bolsonarismo e deslegitimá-lo moralmente. O bolsonarismo não é uma força de
direita que possa ser tratada como adversária no âmbito do jogo democrático. O
bolsonarismo precisa ser tratado como uma força inimiga, que precisa ser
derrotada e deslegitimada.
O
bolsonarismo trata as forças democráticas, progressistas e de esquerda como
inimigas. Quer destruí-las. Age na democracia para destruir a democracia. É
inimigo da ordem republicana e democrática. É inimigo do STF porque, hoje, ele
é o pilar fundamental da garantia do Estado de Direito e da Constituição. Quer
derrubar e, se possível, eliminar os ministros do STF que são os mais ativos no
combate ao golpismo.
Vivemos
numa conjuntura em que não é possível impor uma interdição legal ao
bolsonarismo e ao extremismo de direita. Mas é possível impor uma derrota
política e uma deslegitimação moral, reduzindo sua influência na sociedade e
seu espaço de manobra no meio político. É esta a ocasião que a traição e a
chantagem dos bolsonaristas, associados ao tarifaço punitivo e ilegítimo de
Trump, oferecem. A omissão nessa tarefa pode custar caro às forças
progressistas e à democracia.
• Disputas políticas não terão espaço, diz
Trad sobre missão de senadores nos EUA
Em meio
à tensão comercial com os Estados Unidos, senadores brasileiros iniciam nesta
sexta-feira, 24, uma viagem oficial a Washington para defender o setor
produtivo nacional e tentar reverter o tarifaço anunciado pelo presidente
Donald Trump. A comitiva tem compromissos marcados de 28 a 30 de julho, será
presidida por Nelsinho Trad (PSD-MS) e inclui ainda Jaques Wagner (PT-BA),
Tereza Cristina (PP-MS) e Fernando Farias (MDB-AL) como titulares. Também fazem
parte da missão, como suplentes, os senadores Marcos Pontes (PL-SP), Esperidião
Amin (PP-SC), Rogério Carvalho (PT-SE) e Carlos Viana (Podemos-MG).
A
iniciativa tem apoio do Itamaraty e do MDIC (Ministério do Desenvolvimento,
Indústria, Comércio e Serviços) e é tratada como uma resposta institucional às
medidas unilaterais do governo Trump que preveem sobretaxar todas as
importações brasileiras para os Estados Unidos. “Vamos levar estudos, buscar
convergência com o setor produtivo americano e dialogar com parlamentares que
compreendam o impacto negativo dessas tarifas para os dois países”, afirmou
Trad em entrevista ao PlatôBR.
O
presidente da comitiva reforça que a missão é suprapartidária e com foco
exclusivo na defesa de empregos e de setores estratégicos da economia
brasileira. “Qualquer tentativa de desviar o foco para disputas políticas
internas ou pautas que não dizem respeito ao comércio bilateral não terá espaço
nessa agenda”, garantiu.
>>>
Eis os principais trechos.
• A comitiva já tem encontros confirmados
nos Estados Unidos? Quais agendas o senhor pode adiantar?
Sim. A
programação inclui reuniões com parlamentares norte-americanos, empresários dos
setores afetados pelas tarifas e especialistas em comércio internacional.
• Se questionada, qual será a postura da
comitiva em relação à imposição do Trump de suspensão dos processos contra o
ex-presidente Bolsonaro?
A
missão foi criada com um objetivo claro e suprapartidário: defender os
interesses comerciais do Brasil. Qualquer tentativa de desviar o foco para
disputas políticas internas ou pautas que não dizem respeito ao comércio
bilateral não terá espaço nessa agenda. Nossa postura será de responsabilidade
institucional e compromisso com o Brasil.
• Acredita que essa missão pode
influenciar o debate nos Estados Unidos ou é mais uma sinalização política? A
missão pode resultar na reversão da decisão de Donald Trump?
A
diplomacia parlamentar tem um papel importante na construção de pontes. Vamos
levar estudos, buscar convergência com o setor produtivo americano e dialogar
com parlamentares que compreendam o impacto negativo dessas tarifas para os
dois países. O objetivo é contribuir para um ambiente de entendimento. A
reversão de medidas unilaterais é um processo, mas toda iniciativa construtiva,
de diálogo, pode influenciar positivamente na abertura de portas para
negociação.
• A missão tem alguma articulação com
parlamentares norte-americanos? Já houve contato com senadores ou deputados dos
Estados Unidos?
Sim. A
Comissão de Relações Exteriores do Senado vem mantendo contatos com
congressistas norte-americanos. Houve sinalização positiva de abertura ao
diálogo por parte de parlamentares que compreendem a importância da relação com
o Brasil.
• Como foi a reunião de quarta-feira
passada com o chanceler Mauro Vieira sobre a missão?
A
reunião reafirmou o apoio institucional do Itamaraty e do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços à missão. No encontro, foram
detalhados ainda os esforços em curso do governo brasileiro junto ao setor
privado e autoridades dos Estados Unidos. A reunião reforçou a convergência de
propósitos entre os poderes e nela foi reforçado que o Senado cumpre seu papel
constitucional de defesa dos interesses nacionais, por meio de uma iniciativa
suprapartidária que busca preservar empregos e proteger setores estratégicos da
economia brasileira.
• Aliados veem Tarcísio fora das cordas
pós-tarifaço, mas adotam cautela
Aliados
de Tarcísio de Freitas avaliam que o governador de São Paulo teve sucesso no
primeiro ato de seu reposicionamento sobre o tarifaço de Donald Trump, depois
de um comportamento errático logo após o anúncio da sanção do presidente
americano.
Nas
palavras de um interlocutor de Tarcísio, ele “saiu das cordas” depois de
“apanhar de todos os lados” e conseguiu se antecipar ao governo Lula ao
anunciar, nessa quinta-feira, 24, medidas de apoio a exportadores paulistas.
A uma
semana do início das tarifas, no entanto, o momento ainda é tratado com extrema
cautela no entorno de Tarcísio. Espera-se que os efeitos práticos da sanção de
Donald Trump, a partir de 1º de agosto, levem a outro patamar pressões
econômicas e políticas sobre o governador de São Paulo.
• Brasil busca diálogo com EUA sobre
tarifas, sem ‘contaminação política ou ideológica’, diz ministério comandado
por Alckmin
O
governo brasileiro afirmou, por meio de nota divulgada pelo Ministério do
Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) neste domingo (27), que
mantém o diálogo com os Estados Unidos sobre as novas tarifas impostas aos
produtos nacionais, mas ressalta que as negociações não têm "qualquer
contaminação política ou ideológica", informa reportagem do Metrópoles.
O
vice-presidente Geraldo Alckmin, que também comanda o MDIC, tem conduzido as
tratativas com os norte-americanos desde abril, quando a proposta inicial era
uma tarifa de 10%. No entanto, a situação se agravou no início de julho, com a
elevação abrupta do percentual. "Desde o anúncio das medidas unilaterais
feito pelo governo norte-americano, o governo brasileiro, por orientação do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, vem buscando negociação com base em
diálogo, sem qualquer contaminação política ou ideológica", destacou a
pasta em comunicado.
<><>
Soberania e reciprocidade
Lula
tem defendido publicamente a soberania do Brasil e criticado a interferência de
outros países em assuntos internos. O presidente adiantou que, se as tarifas
não forem revistas, o Planalto recorrerá à Lei da Reciprocidade Econômica, que
permite ao país adotar medidas comerciais em resposta a ações unilaterais de
nações estrangeiras. "Reiteramos que a soberania do Brasil e o estado
democrático de direito são inegociáveis. No entanto, o governo brasileiro
continua e seguirá aberto ao debate das questões comerciais", reforçou o
MDIC.
Apesar
dos esforços, Alckmin enfrenta obstáculos nas negociações. Até o momento, não
houve avanços concretos para adiar ou reduzir as tarifas. O governo brasileiro,
contudo, enfatiza a importância da relação bilateral, que completa 200 anos.
"Esse histórico deve ser preservado", pontuou a nota.
Enquanto
as tratativas seguem, setores empresariais e econômicos monitoram com
preocupação os desdobramentos, temendo impactos no comércio exterior. A Câmara
de Comércio dos EUA já havia alertado que a medida pode criar um precedente
negativo para as relações entre os dois países.
• China fala em "promover"
comércio com o Brasil diante de tarifaço dos EUA
Diante
da possibilidade de os Estados Unidos imporem uma tarifa de 50% sobre produtos
brasileiros já nesta sexta-feira (1º), a China sinalizou interesse em reforçar
laços comerciais com o Brasil e outros países do Brics. A posição foi expressa
nesta segunda-feira (28) pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores
chinês, Guo Jiakun, durante entrevista coletiva em Pequim. As informações são
da Folha de S. Paulo.
Em
resposta direta à ameaça tarifária, Guo afirmou que “a China está disposta a
trabalhar junto com os países da América Latina e do Brics, incluindo o Brasil,
para defender conjuntamente o sistema multilateral de comércio, centrado na OMC
(Organização Mundial de Comércio) e proteger a justiça e a equidade
internacional”.
Questionado
sobre a possibilidade de a China abrir mais seu mercado a produtos brasileiros
que hoje são vendidos aos EUA — como os aviões da Embraer —, o porta-voz
destacou que Pequim pretende ampliar a cooperação com o Brasil no setor. “A
China valoriza a cooperação pragmática com o Brasil na área de aviação e outros
campos e está disposta a promovê-la com base em princípios de mercado”,
afirmou.
O
posicionamento do governo chinês também reflete as negociações comerciais que
ocorrem até esta terça-feira (29) com os Estados Unidos, em Estocolmo. O tom
adotado por Guo foi semelhante ao usado ao tratar do Brasil. “Com base na
igualdade, respeito e reciprocidade, por meio do diálogo, aprimoraremos o
consenso e reduziremos mal-entendidos”, declarou.
Ao ser
questionado se a China aceitaria um acordo semelhante ao firmado entre os EUA e
a União Europeia — que estabeleceu uma tarifa de 15% e desagradou líderes
europeus —, Guo reiterou a defesa da solução pacífica para disputas comerciais.
“A China sempre defendeu que todas as partes resolvam as diferenças econômicas
e comerciais por meio do diálogo e da consulta em igualdade de condições”,
disse.
Grande
parte da coletiva desta segunda-feira foi dedicada a temas econômicos. Guo foi
questionado ainda sobre uma possível suspensão, por parte da China, de medidas
de controle de exportação para facilitar um eventual acordo com os EUA — como
antecipado pelo Financial Times em Washington. O porta-voz não confirmou se
Pequim adotou a mesma postura de Washington, que teria interrompido a adoção de
novas restrições.
“Sempre
tivemos esperança de que os EUA e a China trabalhem juntos para implementar o
importante consenso alcançado durante a ligação entre os dois chefes de
Estado”, afirmou, referindo-se ao telefonema realizado no início de junho entre
o presidente chinês, Xi Jinping, e o presidente dos EUA, Donald Trump.
Fonte:
Brasil 247/IstoÉ

Nenhum comentário:
Postar um comentário