História:
Como a ditadura tentou cooptar a MPB
Censura
à criação musical foi dramática. Mas, em paralelo, regime
quis modernizar indústria fonográfica com farto incentivo fiscal.
Isso permitiu às gravadoras sofisticar sua produção, inclusive com músicos
críticos. Mas houve um preço…
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Introdução
A
produção musical brasileira nos anos 1970 se deu sob uma engrenagem em que
censura, mercado e Estado operavam em aliança. Gravadoras multinacionais, seus
corpos técnicos e executivos, produtores e artistas agiam dentro de um padrão
regulado por incentivos fiscais, critérios comerciais e vigilância ideológica.
Havia margem de ação — e ela foi usada. Nem sempre contra o regime, muitas
vezes com ele. A agência existiu, mas seu exercício estava condicionado por
interesses que intervieram na criação musical e, não raro, ditavam as regras.
A
produção musical foi financiada, aprovada e lançada dentro de parâmetros
definidos por múltiplos filtros. O que chegou ao público já carregava,
embutido, o crivo do regime e do mercado. Este texto parte da constatação de
que a censura, embora violenta, não funcionava como um bloco uniforme e
indiscriminado. Ela também foi incorporada à engrenagem produtiva como uma
variável gerenciável. Isso não torna o sistema admirável — apenas mais
complexo. A produção musical circulou porque aprendeu a conviver com a contenção
e a exceção. A indústria não se limitou a cumprir ordens; operou dentro das
margens disponíveis, às vezes estreitas, às vezes oportunas.
Ao
analisar o arranjo que viria a ser popularmente associado ao selo Disco é
Cultura (referente ao incentivo fiscal dos anos 1970), — que aqui vou denominar
Lei Disco é Cultura para facilitar — é possível perceber como esse arranjo se
consolidou. O incentivo fiscal, a reorganização empresarial do setor
fonográfico e os mecanismos de censura não se excluíam — operavam em
confluência.
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Quando um problema fiscal virou política cultural
A Lei
Disco é Cultura emergiu de um arranjo técnico-político que combinou interesses
da indústria fonográfica com as diretrizes econômicas do regime militar. Não
foi formulada como política cultural no sentido pleno, mas seus efeitos
ultrapassaram os cálculos contábeis que lhe deram origem. Em meio ao ciclo de
reformas estruturais conduzidas pelo governo militar a partir de 1964, a
indústria do disco se viu diante de um obstáculo inesperado: a mudança no
sistema tributário aumentaria consideravelmente seus custos de operação.
Em
1965, o regime substituiu o antigo Imposto sobre Vendas e Consignações (IVC)
pelo ICM (Imposto sobre Circulação de Mercadorias), e os discos passaram a ser
taxados como mercadorias comuns. O problema, para as gravadoras, era que seus
principais insumos — como direitos autorais, cachês de artistas e gastos com
promoção — não eram abatíveis, o que inflava a base de cálculo do imposto. Isso
tornava cada lançamento nacional uma operação de alto risco financeiro.
A ABPD
(Associação Brasileira dos Produtores de Discos), criada em 1958, atuou então
como agente político central. Comandada por executivos experientes e bem
articulados junto ao Ministério da Fazenda, propôs uma fórmula inédita:
permitir que os valores pagos a autores e artistas nacionais fossem deduzidos
do ICM. A proposta visava reduzir a carga tributária e, ao mesmo tempo,
estimular a produção nacional — ainda que o estímulo estivesse subordinado à
lógica do mercado e aos critérios das próprias gravadoras.
O
mecanismo, regulamentado em 1969, permitia que os custos com direitos autorais
e artísticos gerassem créditos tributários. Esses créditos podiam ser abatidos
do valor a pagar em impostos. Não era o Estado financiando diretamente a
cultura, mas abrindo mão de receita em troca de dinamismo econômico — e, de
quebra, controle simbólico. A política fiscal cumpria dois objetivos:
fortalecia uma indústria estratégica e mantinha suas engrenagens ajustadas às
exigências do regime.
Com o
tempo, o modelo se consolidou. O número de lançamentos cresceu, os contratos
artísticos se tornaram mais competitivos, e a sofisticação técnica das
gravações aumentou. Gravadoras multinacionais ampliaram seus catálogos e
passaram a incorporar projetos de maior risco simbólico — amparadas por um
incentivo que transformava ousadia calculada em ganho tributário. A Lei Disco é
Cultura, sem nunca ter sido apresentada como política cultural oficial,
inaugurou um modelo informal de fomento. E como todo modelo informal, era
também assimétrico, seletivo e ajustado à correlação de forças daquele tempo.
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O que se gravava quando disco virou cultura
A
reorganização tributária e a criação do incentivo fiscal não ocorreram em um
vácuo. Elas acompanharam — e em certa medida aceleraram — a transformação da
própria indústria fonográfica brasileira. Nos anos finais da década de 1960 e
início dos anos 1970, o setor apresentava uma paisagem segmentada, mas cada vez
mais racionalizada. Samba-canção, bolero e música romântica — que haviam
sustentado o mercado nos anos anteriores — ainda vendiam bem, com nomes como
Nelson Gonçalves, Ângela Maria e Agnaldo Timóteo. Mas um novo eixo de prestígio
começava a se formar.
A Jovem
Guarda já dava sinais de esgotamento, o rock nacional ainda era periférico, e o
foco das grandes gravadoras passou a se concentrar na chamada “música de
prestígio” — a nova MPB. Era esse o produto que unia retorno financeiro,
chancela estética e valor simbólico. Artistas como Chico Buarque, Caetano
Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento, Nara Leão e Gal Costa
passaram a ser tratados como investimentos estratégicos. Mesmo que nem sempre
liderassem as listas de vendas, seus discos conferiam status à gravadora,
sinalizavam sofisticação à crítica e consolidavam a identidade sonora urbana de
um novo Brasil moderno.
O
incentivo fiscal não só facilitou esses investimentos como ampliou o escopo das
apostas. Discos com orquestra, repertórios autorais, arranjos complexos e
longos períodos de estúdio passaram a ser viáveis financeiramente. A lógica do
ICM permitia ousar — desde que houvesse compensação contábil no conjunto do
catálogo. Com isso, abriu-se espaço para álbuns instrumentais, experimentações
sonoras, projetos conceituais. A produção fonográfica ganhou corpo, ambição e
complexidade. O mercado absorvia o risco, o Estado não interferia diretamente e
a gravadora operava como curadora informal do possível.
Mas
havia também uma engrenagem silenciosa em curso. As gravadoras multinacionais —
Philips/Polygram, CBS, RCA, EMI-Odeon — mantinham lançamentos internacionais
regulares, muitos deles com custo simbólico por pertencerem ao mesmo grupo
global. Esses discos, embora não gerassem benefício fiscal direto,
impulsionavam o faturamento geral das empresas e, com isso, ampliavam sua
margem de manobra. O crédito tributário gerado pelos álbuns nacionais permitia
atrair artistas disputados, bancar campanhas promocionais robustas e até
adquirir selos menores. A concorrência com gravadoras brasileiras, como
Continental e Copacabana, tornava-se desigual. O incentivo, na prática,
reforçou uma lógica de concentração: as majors cresceram,
expandiram seu domínio e passaram a centralizar as apostas estéticas do
período.
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Os arquitetos da engrenagem: técnicos, ministros, empresários
A Lei
Disco é Cultura não surgiu de uma diretriz cultural do regime, nem de uma
demanda espontânea do mercado. Ela resultou de articulações técnicas e
políticas protagonizadas por figuras estrategicamente posicionadas: burocratas,
economistas, executivos e empresários que souberam transformar um impasse
fiscal em um modelo funcional de incentivo — ajustado aos interesses das
gravadoras e às metas do governo. O que unia essas figuras era a capacidade de
operar dentro das margens do regime sem tensionar suas estruturas. Nenhuma
delas foi marginal ou rebelde. Foram operadores do sistema — e moldaram sua
engrenagem a partir de dentro.
Emílio
Vitale, diretor-executivo da ABPD, foi o arquiteto técnico da proposta.
Percebendo que o novo ICM elevaria os custos das gravadoras, formulou a dedução
dos direitos autorais pagos a artistas nacionais como compensação tributária.
Foi dele a equação que converteu imposto em crédito, e crédito em estratégia de
fomento — ainda que seletivo. Sua atuação foi precisa, silenciosa e decisiva.
Delfim
Netto, então ministro da Fazenda, ofereceu o respaldo político. Defensor de um
modelo de crescimento com forte articulação entre capital externo e coordenação
estatal, viu na proposta uma forma de estimular o consumo cultural interno sem
abrir mão do controle central. Ao aprovar a inclusão do disco no Decreto-Lei
406, selou a aliança entre o regime e o setor fonográfico.
João
Carlos Muller Chaves, também pela ABPD, operacionalizou o sistema. Criou o
“Registro da Censura”, um mecanismo informal de submissão prévia das letras,
pensado para evitar prejuízos com obras vetadas após gravadas. Tornou-se o elo
entre as gravadoras e os órgãos de controle do regime — e, nesse lugar,
redesenhou silenciosamente os limites do que podia ou não circular.
O
francês André Midani, à frente da Philips/Polygram, foi quem melhor percebeu o
potencial simbólico e comercial do arranjo. Investiu em artistas de prestígio,
estruturou o catálogo com critério estético e organizou a produção musical como
projeto empresarial. Sua visão ajudou a estabelecer o que, mais tarde, se
consagraria como “era de ouro” da MPB — sustentada por um modelo que convertia
risco artístico em segurança tributária.
Esse
modelo, no entanto, não se firmou apenas com engenharia contábil e apoio
institucional. Foi nas decisões cotidianas de produtores, arranjadores e
diretores artísticos que o incentivo ganhou forma concreta. Atores da linha de
frente da indústria — alguns comprometidos com a experimentação, outros com a
viabilidade — traduziram os limites e as possibilidades do sistema em sons,
contratos, escolhas de repertório e negociações estéticas. São eles o foco do
próximo bloco.
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Entre margens e estúdios: os bastidores da criação
Se a
engenharia fiscal e institucional da Lei Disco é Cultura definiu as condições
gerais da produção, foram os produtores musicais, diretores artísticos,
técnicos de estúdio e artistas que deram forma concreta a esse arranjo. A
política tributária criou espaço. Mas quem ocupou esse espaço — com decisões
sobre repertório, arranjo, orçamento, sonoridade e negociação estética — foram
os que lidavam diretamente com a criação e seus limites. O estúdio virou campo
tático. Ali se decidia o que era possível.
Produtores
como Marco Mazzola (Philips), Paulinho Tapajós, Rildo
Hora, Milton Miranda (Odeon) e Pelão (Eldorado) foram
personagens centrais na linha de frente do novo modelo fonográfico. Comandavam
gravações, contratavam músicos e arranjadores, definiam repertórios,
organizavam sessões. Muitos também tratavam com os censores. Eram, ao mesmo
tempo, curadores, gestores e escudos. E agora contavam com um novo tipo de
capital: o incentivo fiscal, que ampliava suas margens de decisão.
Esse
crédito permitia o que antes era exceção: sessões longas, estúdios de ponta,
orquestrações elaboradas, músicos contratados com folga orçamentária, projetos
que extrapolavam o modelo da canção radiofônica curta. O disco brasileiro dos
anos 1970 adquiriu uma sofisticação técnica notável — com texturas, silêncios,
arquiteturas sonoras que seriam impensáveis sem o suporte fiscal que dava
lastro a essas apostas. O incentivo não comprava liberdade total, mas permitia
expansão estética dentro de um perímetro controlado.
Do lado
dos artistas, essa estrutura exigia escolhas. A margem de risco cresceu, mas o
crivo continuava lá — e era preciso antecipá-lo. Alguns compunham já pensando
nos censores, outros desenvolviam táticas de ambiguidade. Chico Buarque
transformou a alegoria em método; artistas como Edu Lobo ou Ivan Lins
investiram em arranjos sofisticados que deslocavam o sentido da letra para o
plano da textura musical. Já nomes como Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal ou
Tom Jobim recorreram ao instrumental como estratégia de autonomia — sem letra,
sem veto.
Mas
mesmo esses gestos estavam no limite do sistema. Eram escolhas possíveis dentro
de uma arquitetura já condicionada. A censura além de vetar, induzia formas. E
o incentivo fiscal, ao aliviar os riscos econômicos, ajudava a disciplinar a
produção em torno do que era viável, do que era defendível diante das
diretorias e das metas de rentabilidade.
Esse
processo não deve ser lido como mera domesticação. Em muitos casos, houve
inteligência estética e precisão política no modo como produtores e artistas
operaram essas brechas. A contenção virou elemento formal. O silêncio se tornou
linguagem. A ambiguidade, tática. A beleza, ali, era menos resistência do que
gestão do possível.
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A convivência pactuada com a censura
Durante
a vigência da Lei Disco é Cultura, a censura passou a operar de modo previsível
no cotidiano da indústria fonográfica. Em vez de aparecer de forma esporádica
ou desordenada, ela foi incorporada aos procedimentos produtivos como uma etapa
a ser considerada desde o planejamento. Para as gravadoras, o veto de um disco
após a finalização representava um prejuízo significativo — sobretudo quando a
produção havia sido financiada com base nos créditos fiscais do ICM. Diante
desse cenário, estruturou-se um sistema informal que permitia o envio prévio
das letras para análise, antecipando a resposta dos órgãos de controle antes
mesmo do início das gravações.
A ABPD,
sob coordenação de João Carlos Muller Chaves, implementou um sistema informal
de envio prévio das letras à Divisão de Censura Federal. Esse procedimento,
conhecido como “Registro da Censura”, permitia que as gravadoras soubessem de
antemão o que poderia ou não ser gravado. Na prática, significava a
institucionalização da autocensura, agora com protocolo técnico. A censura
deixava de ser um fator aleatório e passava a operar como etapa burocrática —
discreta, previsível, organizável.
A
previsibilidade trazida por esse sistema permitia que a cadeia produtiva do
disco continuasse em marcha. Com os pareceres antecipados, os cronogramas de
estúdio podiam ser cumpridos, os lançamentos organizados com antecedência e os
investimentos planejados com menor risco. A censura passou a fazer parte do
fluxo de trabalho, integrada aos cálculos e à rotina das decisões. Seu impacto
não desapareceu, mas foi administrado como uma etapa adicional do processo.
O
funcionamento regular do sistema não elimina seus efeitos sobre o conteúdo. A
censura, ao se tornar previsível, passou a moldar o que podia ser gravado, o
que se evitava dizer, o que se decidia omitir. Não era só o medo que movia os
cortes, mas o cálculo. Muitos artistas escreviam já considerando o que seria
vetado. Produtores ajustavam letras, suavizavam imagens, buscavam fórmulas que
pudessem passar. A lógica era pragmática: manter a engrenagem funcionando. O
que circulou foi o que coube nesse filtro. O que não entrou nele se perdeu
antes de existir.
A
indústria, nesse ponto, não desafiou o regime. Firmou com ele um pacto tácito:
estabilidade em troca de contenção. O setor ganhou previsibilidade, os artistas
seguiram gravando, a aparência de vitalidade cultural foi mantida. Mas o custo
desse acordo foi alto. Custou dissenso, custou desvio, custou radicalidade. A
censura não interrompeu a produção musical — mas tornou-se uma de suas camadas.
Fez parte do arranjo que permitiu que a cultura circulasse sob vigilância,
comedida, editada.
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Disputas simbólicas e o selo ‘Disco é Cultura’
Se, por
um lado, a engrenagem da Lei Disco é Cultura permitiu o florescimento de uma
produção musical sofisticada, por outro ela também promoveu disputas simbólicas
sobre o sentido do termo “cultura”. Um dos pontos mais visíveis desse embate
foi o uso — e o abuso — do selo “Disco é Cultura”, que passou a estampar capas
de álbuns dos mais variados estilos e procedências. Criado como exigência
técnica para viabilizar o benefício fiscal, o selo se tornou, rapidamente, uma
ferramenta de marketing. Sua aplicação, muitas vezes automática, atravessava
fronteiras estéticas e funcionava como chancela simbólica da indústria.
Foi
nesse ponto que a crítica especializada reagiu. Jornalistas como José Ramos
Tinhorão, Ana Maria Baiana e Roberto Moura chamaram a atenção para a
banalização do selo. Tinhorão, ancorado em sua crítica histórica e nacionalista
da música brasileira, via com ironia sua presença em discos comerciais ou de
matriz estrangeira. Defendia seu uso em projetos de resgate da cultura popular
e denunciava sua aplicação mercadológica. Moura e Baiana, com abordagens
distintas, também apontavam o risco de que o selo servisse apenas para
disfarçar a lógica do lucro com uma aparência de legitimidade institucional.
Era a cultura sendo vendida como carimbo — uma embalagem simbólica para
produtos que nem sempre sustentavam o título.
Mas é
preciso cuidado aqui: essas críticas, embora pertinentes, nem sempre escapavam
de uma hierarquização implícita da produção musical. Havia, em muitos discursos
da época, certo desconforto com formas mais populares ou comerciais de
expressão — não apenas por sua inserção no mercado, mas pelo tipo de
sensibilidade que carregavam. O embate não era simplesmente entre “alta” e
“baixa” cultura, mas entre o que era aceito como expressão cultural legítima e
o que era tratado como derivativo, imitativo, “popularesco”. A crítica, mesmo a
mais sofisticada, também operava distinções simbólicas.
O selo,
assim, tornou-se campo de disputa. Para as gravadoras, era uma formalidade
contábil transformada em marketing. Para a crítica, um signo esvaziado,
cooptado pelo mercado. Para o Estado, um dispositivo que legitimava sua
política de incentivo e, de quebra, produzia valor simbólico alinhado aos seus
interesses. E para o público, um enigma: “cultura”, afinal, era o quê? Estava
no conteúdo do disco, na chancela oficial, no prestígio da gravadora, na
intenção do artista ou no jogo de aparências que envolvia tudo isso?
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Entre o grito e o silêncio: estética, contenção e tática
A
produção musical dos anos 1970 continuou, mas carregava as marcas do ambiente
em que foi feita. O que chegou ao público passou por filtros, por negociações,
por escolhas feitas com base no que seria possível lançar. A criação não
desapareceu, mas precisou se ajustar. Houve contenção, e ela entrou na forma. O
modo de compor, de arranjar, de escrever — tudo passou a levar em conta o
limite. E esse limite muitas vezes fez disso um traço formal.
Com o
tempo, a adaptação à censura passou a interferir diretamente nas escolhas
formais. Letras foram escritas já considerando o que poderia ser vetado.
Arranjos ganharam peso como forma de deslocar o sentido das composições. As
pausas, os silêncios e os elementos instrumentais passaram a ter função tática.
Não se tratava de embelezar, mas de garantir que a música chegasse ao disco sem
ser barrada. A estética do período incorporou esse cálculo. O que parecia
invenção era, muitas vezes, resultado de restrição. O processo criativo foi
moldado por antecipações, revisões e decisões tomadas sob vigilância.
A
censura, convertida em variável previsível, exigia tática. Alguns enfrentaram:
testaram os limites, bateram de frente, perderam canções. Outros contornaram:
escreveram com duplo sentido, investiram no arranjo, deslocaram o foco. Não há
uma única forma de reagir. Mas há um traço comum: a criação foi feita sob
vigilância — e isso a marcou.
É
importante reconhecer que, mesmo nesse ambiente hostil, surgiram obras
potentes, complexas, afetivas. Mas isso não legitima a censura. A censura não é
musa, nem preceptora. O que ela impõe é sempre uma subtração, um veto. Mesmo
quando não impede, distorce. Mesmo quando não cala, intervém. E o que não foi
dito, o que não foi gravado, o que sequer chegou a existir — esse saldo
negativo é irrecuperável.
Mais do
que o registro de uma época, a música brasileira dos anos 1970 carrega em si a
tensão entre liberdade e vigilância. Carrega os arranjos feitos para passar, os
versos escritos para escapar, os discos produzidos para não serem vetados.
Entre o grito rasgado de Carcará e os silêncios estruturais de Egberto
Gismonti, construiu-se uma estética permeada por escolhas condicionadas. Nem
heroicas, nem submissas — apenas possíveis.
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Considerações finais
A Lei
Disco é Cultura não foi apenas um dispositivo fiscal saído da cabeça de um
tecnocrata. Foi uma engrenagem que articulou cultura, mercado e regime. A
censura, o incentivo e a estrutura empresarial se combinaram para gerar um
modelo de produção musical sofisticado, condicionado e desigual. O que foi
gravado, promovido e consumido nesse período foi fruto de uma engenharia
simbólica em que nada era exatamente espontâneo — e quase tudo passava por
algum tipo de filtro.
Não se
trata de afirmar que tudo estava controlado. Havia margens. Havia negociação.
Produtores, diretores artísticos e músicos desenvolveram estratégias para criar
dentro do regime — algumas de enfrentamento, outras de adaptação. Mas é
necessário reconhecer que essas margens foram possíveis porque houve um pacto.
A indústria cultural brasileira, ao invés de romper com a censura, aprendeu a
conviver com ela. Era assim que o setor funcionava. As escolhas se davam dentro
do que a estrutura institucional tornava viável. Havia margem para criar, desde
que os limites fossem conhecidos e respeitados. E quem operava ali sabia disso.
Esse
pacto teve resultados estéticos relevantes, mas também custos históricos. Vozes
foram silenciadas, riscos foram evitados, dissensos foram contidos. O mercado
foi reorganizado em torno da previsibilidade, e a crítica foi absorvida dentro
de um jogo de distinções simbólicas. A censura não bloqueou a circulação da
música brasileira — mas a redesenhou, moldando seus contornos possíveis.
Talvez
o mais revelador seja o fato de que esse arranjo não desapareceu completamente
com o fim da ditadura. O modelo informal de conciliação entre controle e
criação, Estado e mercado, prestígio e viabilidade continuou operando em outras
formas — inclusive nas democracias. Em diferentes contextos, outras censuras
surgiram: mais discretas, menos ostensivas, mas igualmente eficazes. A lógica
de incentivo, o veto simbólico, a filtragem estética e a domesticação do risco
sobreviveram. O neoliberalismo, enquanto fase atual do capitalismo, mimetizou
essa técnica: o controle agora é gerenciado via algoritmos, patrocínios,
editais, métricas — e não mais por carimbos oficiais.
Esse
texto, no entanto, não tem a pretensão de encerrar a análise. O que se quis foi
compreender como, sob o nome de cultura, se organizou um sistema de fomento e
vigilância. Como a música foi produzida sob regras que combinavam criação e
contenção. E como a memória dessa produção ainda repercute na forma como
compreendemos o que é possível dizer, gravar, escutar.
Esse
foi mais um capítulo da história da nossa música — composto dentro de limites
impostos por uma engrenagem que combinava mercado, Estado e controle
ideológico. O que se ouviu foi o que pôde ser produzido sem atrito
insustentável, o que passou pelas malhas da censura e do cálculo empresarial. A
forma final de muitos discos não expressa apenas uma escolha estética, mas uma
adaptação às condições de produção. A memória que carregamos desses anos é
inseparável das estruturas que permitiram sua existência — e que moldaram, até
hoje, a maneira como concebemos o que deve ou não ser apoiado, promovido,
legitimado enquanto política cultural.
Fonte:
Por Ricardo Queiroz Pinheiro, em Outras Palavras

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