Por
que Trump mira terras raras e minerais no mundo todo - e qual o lugar do Brasil
nesse xadrez
As
tensões entre Brasil e EUA, elevadas por conta da expectativa de tarifas
americanas de 50% sobre exportações brasileiras a partir de 1° de agosto,
ganharam um novo elemento: o debate em torno de minérios que são produzidos no
Brasil.
Em
evento do governo federal em Minas Novas (MG) na quinta-feira (24/7), o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez, em tom de voz elevado, uma
defesa da soberania mineral do país.
"Temos
nosso ouro para proteger. Temos todos esses minerais ricos para proteger, e
aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro", afirmou Lula.
"A única coisa que eu peço ao governo americano é que respeite o povo
brasileiro como eu respeito o povo americano."
Foi uma
resposta ao fato de o encarregado de negócios da Embaixada americana no Brasil,
Gabriel Escobar, ter manifestado interesse dos EUA em minerais críticos e
estratégicos brasileiros, em reunião pedida por ele com o Instituto Brasileiro
de Mineração (Ibram), entidade privada que representa as empresas do setor.
O
presidente do instituto, Raul Jungmann, relatou ter respondido que negociações
nesse sentido deveriam ser conduzidas pelo governo brasileiro, e não por
empresários.
O
episódio acontece simultaneamente às negociações entre diplomatas brasileiros e
americanos em torno de qual será a dimensão do tarifaço anunciado pelo
presidente dos EUA, Donald Trump, sobre os produtos brasileiros.
Mas a
questão mineral também é parte de um xadrez bem mais amplo e complexo: a
batalha global por recursos cada vez mais estratégicos para indústrias do
presente e do futuro.
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Corrida por minérios
Lítio,
nióbio, cobre, manganês e terras-raras, entre outros minérios, estão no centro
de uma das disputas mais acirradas do século 21.
Essas
matérias-primas são essenciais para a fabricação de tecnologias que moldam o
futuro: desde carros elétricos e painéis solares até equipamentos militares de
ponta e smartphones.
São
também a base da transição energética global e, por isso, tornaram-se alvo de
uma verdadeira corrida geopolítica, movida por interesses bilionários, disputas
territoriais e estratégias de poder.
A
demanda por esses minérios deve crescer 1,5 mil por cento até 2050, segundo
relatório da Unctad, a agência de desenvolvimento da ONU. É muito acima do que
a produção global dá conta no momento.
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Terras raras
Terras
raras é o nome que se dá a um grupo de 17 elementos que não são exatamente
raros, mas sim de difícil exploração, presentes nos celulares, nas telas, nas
turbinas eólicas, nos carros elétricos, nos painéis solares e até nos mísseis
supersônicos.
A
geógrafa e pesquisadora Julie Klinger, especialista em mineração, detalhou à
BBC Reel por que esses elementos se tornaram tão cruciais:
"Eles
têm propriedades magnéticas e de condutividade fantásticas, que permitiram a
miniaturização dos nossos eletrônicos: para que nossos computadores ficassem do
tamanho de celulares e laptops, em vez de serem do tamanho de um prédio.
Permitiram também veículos mais eficientes, por simplesmente torná-los mais
leves e resistentes ao mesmo tempo", disse ela, em entrevista concedida em
março de 2025.
Outra
área em que eles têm papel crescente é na militar. A Otan, aliança militar
ocidental, recentemente listou 12 minerais críticos pra produzir caças,
tanques, submarinos e mísseis.
A
aliança diz que o abastecimento desses minérios, inclusive os terras-raras, é
"vital para manter a vantagem tecnológica e a prontidão operacional da
Otan".
E um
dos que estão de olho nesse mapa mineral é Donald Trump.
Em
março, o presidente americano assinou um decreto que ordena a ampliação da
produção de minérios críticos e terras raras.
Além
disso, seu governo já demonstrou interesse pela produção mineral de lugares
como Groenlândia, Ucrânia, Rússia, República Democrática do Congo — e agora,
Brasil.
Os
Estados Unidos ainda dependem fortemente das importações, enquanto sua maior
rival, a China, sob muitos aspectos está à frente: concentra 60% da produção
global e 90% do refinamento de terras raras, segundo a Agência Internacional de
Energia.
O caso
da Ucrânia foi especialmente emblemático. Trump exigiu acordo para exploração
de minerais e terras raras ucranianas como condição para seguir apoiando
militarmente o país, em guerra com a Rússia desde 2022.
"Como
vocês sabem, estamos constantemente procurando terras raras. Eles [ucranianos]
têm muitas delas, e fizemos um acordo para que possamos começar a cavar e fazer
o que precisamos", disse o presidente americano, sobre o pacto.
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Brasil: terras raras e nióbio
Nessa
corrida global, o Brasil também tem papel importante: o relatório U.S. Mineral
Commodity Summaries estima que o país detenha até 23% das reservas conhecidas
de terras raras no mundo.
O
professor Sidney Ribeiro, do Instituto de Química da Unesp (Universidade
Estadual Paulista), explica à BBC News Brasil que o país acumula décadas de
pesquisas acadêmicas sobre esses minérios e já faz a mineração de terras raras
em Estados como Minas Gerais e Goiás.
Ainda
assim, responde por menos de 1% da produção, porque muitas das reservas
inexploradas estão em áreas como a Amazônia. Então é enorme o desafio de
aproveitar o potencial mineral brasileiro e ao mesmo tempo manter de pé uma
floresta já muito degradada.
Além
das terras raras, o Brasil tem reservas de outros minérios cobiçados, como o
nióbio — usado em ligas metálicas de alta resistência, fundamentais para
siderurgia, construção civil, turbinas, trens de alta velocidade, baterias e
equipamentos aeroespaciais e militares, como mísseis hipersônicos.
O país
concentra cerca de 92% da produção do metal, que é leve e resistente a altas
temperaturas e ganhou popularidade na última década, depois de ter sido
reiteradamente defendido por Jair Bolsonaro como recurso estratégico para o
país.
O maior
mercado consumidor do nióbio brasileiro é a Ásia (em particular a China), mas
os Estados Unidos têm posição de destaque como quarto maior importador.
O
Brasil respondeu por cerca de 66% do que foi comprado pelos EUA entre 2020 e
2023, segundo o mais recente relatório sobre minerais críticos do Serviço
Geológico dos EUA (U.S. Geological Survey - USGS), fornecendo 83% do óxido de
nióbio que desembarcou no país nesse período e 66% do ferronióbio.
O
volume de nióbio importado pelos americanos cresceu de cerca de 7,1 mil
toneladas em 2020 para 10,1 mil em 2023.
Por
conta da concentração das jazidas no Brasil — ou seja, a quantidade limitada de
fornecedores — o nióbio foi considerado pelo USGS como o segundo recurso
mineral mais crítico para o país quando se leva em consideração os riscos
potenciais da cadeia de suprimentos - ou seja, se o envio brasileiro falhar por
algum motivo, é difícil substitui-lo.
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Disputa de potências e 'neocolonialismo'
E
enquanto os EUA tentam abocanhar novas fontes de suprimento, outras duas
grandes potências — Rússia e China — também avançam.
Moscou
afirmou ter planos de ampliar a produção de terras raras pra diminuir em 15% a
importação de minérios até 2030.
E
Vladimir Putin também cobiça projetos minerais em países aliados, por exemplo
na África.
A
Rússia tem uma presença forte no Sahel, região de países vulneráveis no norte
da África que concentra grandes reservas de urânio e ouro, por exemplo.
A
China, por sua vez, também já investe em projetos de mineração e infraestrutura
no continente africano — e quer avançar na região.
Mas
muitos analistas acham que as investidas de todas essas potências mundiais têm
o que chamam de um caráter neocolonialista: ou seja, de explorar as riquezas de
países ou territórios em situação frágil sem de fato levar desenvolvimento
econômico e social pra essas regiões.
O
relatório da Unctad mencionado no início da reportagem alerta que a dependência
da exportação de commodities – ou seja, matérias-primas como minérios — é um
grande desafio para países em desenvolvimento e pode criar armadilhas
socioeconômicas parecidas às sofridas por países dependentes da exportação de
petróleo.
"Essa
dependência impede o desenvolvimento econômico e perpetua desigualdades e
vulnerabilidades pela África Subsaariana, a América do Sul, o Pacífico e o
Oriente Médio", diz o relatório.
Globalmente,
a ONU estima que o mundo precisará investir até US$ 450 bilhões em minérios
críticos até 2030 pra dar conta da demanda.
Alguns
especialistas afirmam que será preciso otimizar práticas de mineração já
existentes.
"Muitas
vezes, elementos de terras raras estão presentes nos resíduos de outros tipos
de mineração, em especial minas de fosfato e prata", afirmou Julie Klinger
à BBC Reel.
"Devemos
trabalhar pra reimaginar esses processos, como uma fonte potencialmente
abundante de terras raras, pra atender às preocupações e à escassez da cadeia
de suprimentos sem ter que abrir novos buracos na terra."
Outra
possibilidade, diz Sidney Ribeiro, é reciclar as muitas toneladas de lixo
eletrônico que são jogados fora todos os dias.
"Hoje
se fala muito no que a gente chama de mineração urbana, você já usar lixo
eletrônico pra recuperar a terra rara que já está ali para essas
aplicações", afirma o professor da Unesp, citando como exemplo projetos
para purificar os elementos de terra-rara de lâmpadas luminescentes.
De
qualquer modo, a disputa por esses elementos minerais só tende a crescer —
dentro e fora de fronteiras.
Cálculos
da ONU apontam que, de todos os conflitos intra-Estados registrados nas últimas
décadas, 40% eram relacionados a recursos naturais — inclusive ao acesso a
minérios.
Fonte:
BBC News Brasil

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