Elisabeth
Lopes: O ataque da Casa Branca e a traição interna - Brasil entre o cerco
internacional e o sabotador doméstico
O
Brasil está sob ataque de um imperialismo em crise, num mundo que já não
comporta mais o unilateralismo. Não há retorno viável ao domínio decadente dos
Estados Unidos sobre os demais países. A tentativa de minar a soberania das
potências emergentes, especialmente por meio da apropriação de reservas
estratégicas de minerais, como o nióbio, o lítio e as chamadas terras raras,
das quais o Brasil detém 25% das reservas mundiais e de enfraquecer os
mecanismos nacionais de proteção frente aos interesses das Big Techs, que
manipulam a autodeterminação das subjetividades, revela a nova face do conflito
geopolítico global. Além disso, o impacto da influência dos Brics no cenário
mundial e a crescente projeção do Brasil nessa organização desafia a hegemonia
estadunidense. Como agravante, de acordo com o jornalista Jamil Chade, do site
Vero Notícias, análises da inteligência brasileira apontam para suspeitas
crescentes de que estejam em curso ações estratégicas de desestabilização do
governo Lula, supostamente articuladas pela CIA com o aval da Casa Branca.
Trata-se, ao que tudo indica, de uma tentativa de preparar o terreno político
para a eleição de 2026, favorecendo a ascensão de um aliado fiel aos interesses
de Washington. O conjunto desses fatores estão entre as subjacentes razões das
ameaças de Trump, como símbolo da tentativa de reimpor a lógica de supremacia
americana.
Nessa
perspectiva, o desumano, inelegível e antipatriota, que agora apela, em tom de
clemência, com um choro ensaiado é apenas um instrumento da política de sanções
promovidas por quem se considera o mais temido líder global. No entanto, a
chantagem trumpista ao usar Bolsonaro como desculpa teve um efeito colateral
imprevisto: serviu para unir o povo brasileiro no repúdio à mesquinhez da
família que, ao longo dos anos, saqueou os cofres públicos com golpes que
variam do vulgar ao abjeto, culminando na tentativa de colocar em risco a
integridade soberana do próprio país.
Nesses
tempos turbulentos, o Brasil tem girado em torno de consertar os efeitos dos
problemas causados pelos desvarios cometidos por Trump e seus auxiliares:
Bolsonaros e asseclas. Esses impropérios têm sobrecarregado o Poder Judiciário
na defesa da constitucionalidade e o Poder Executivo que além de ocupar-se com
a reconstrução do que foi deliberadamente destruído durante o desgoverno de
Jair Messias, está envolvido com as negociações para evitar as consequências
nocivas à economia brasileira, caso vigore o tarifaço.
A onda
bolsonarista estimulou a eleição de parlamentares substancialmente
desqualificados, à imagem e semelhança de Bolsonaro e de seus filhos que vivem
dos cargos públicos, sem oferecer nenhuma contribuição legislativa digna. São
figuras beligerantes, despreparadas e abusivamente oportunistas em favor de
causas que os beneficiem exclusivamente. Elegem-se com discursos populistas,
mas defendem causas corporativistas do mercado, omitindo propositalmente a
realidade do país em meio à profunda desigualdade social perpetuada por um
sistema econômico concentrador de renda a partir de uma herança escravocrata e
latifundiária, de uma educação desigual marcada pela exclusão, de um modelo
tributário injusto fortalecido pela submissão do poder político ao poder econômico.
Esses
políticos da extrema direita e direita fisiologista exploram a ingenuidade de
pessoas em situação de desamparo. Em vez de oferecerem políticas públicas
concretas que possam melhorar a vida dessa população, fazem promessas vazias,
reforçando um ciclo de alienação. Instalados no Congresso, utilizam seus
mandatos para desviar recursos públicos em favor de interesses próprios.
Patrocinados pelas máfias corporativas interessadas em angariar vantagens pra
si, atuam em detrimento das demandas populares e do desenvolvimento estrutural
do país.
As
consequências do desserviço criminoso provocado pelo clã detrator da nação
junto ao governo Trump ameaçam a estabilidade econômica do país, o cerne de uma
variedade de setores produtivos e o emprego de milhares de trabalhadores estão
sob risco. O cenário é complexo pela proporção dos prejuízos que podem advir,
se a alíquota de 50% sobre os produtos brasileiros exportados para os Estados
Unidos perseverar ao que tudo indica, uma vez que, nenhuma resposta foi dada ao
governo brasileiro acerca das duas cartas de negociações enviadas ao governo
americano em 16 de maio e na semana passada, entre outras tratativas. Restam
poucos dias até a validação do tarifaço, e não há qualquer indício de recuo nas
sanções.
Essa
química deletéria entre os extremistas da direita brasileira e americana uniu o
útil ao oportunismo imperialista. De um lado um governo estrangeiro
autoritário, intervencionista e interessado em tirar vantagens inescrupulosas
por meio de chantagens descabidas, de outro um país que tem vivido sob
tensionamentos desde o impeachment da presidente Dilma, atravessado por seis
anos de governos liberais de Michel Temer e Jair Bolsonaro, e por um congresso
composto majoritariamente por parlamentares da extrema direita de perfil
fascista e de uma direita que oscila de lado conforme conveniências
utilitárias.
O
impacto potencial dessas sanções não pode ser subestimado. Os Estados Unidos
representam um destino estratégico para exportações brasileiras, e uma
interrupção brusca nesse fluxo comercial pode causar dificuldades econômicas
expressivas para o país que, apesar da alta taxa Selic de 15%, a segunda maior
do mundo, inferior apenas a da Turquia com 14,4%, vinha apresentando índices de
crescimento surpreendentes diante das previsões.
Diante
das dificuldades, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad reafirmou o
compromisso do governo brasileiro em manter-se à mesa de negociação. Segundo
ele, não há justificativas técnicas ou políticas para a imposição de sanções ao
Brasil. O governo também está construindo um plano de contingenciamento em
relação às empresas mais afetadas para que os prejuízos sejam minorados.
Soma-se a essa medida, os inúmeros encontros do vice-presidente e ministro do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Geraldo Alckmin, com setores
atingidos pelo tarifaço.
Esses
esforços têm sido massivos e envolvem também uma comitiva multipartidária
composta por oito senadores que viajarão a Washington para esclarecer os
parlamentares americanos sobre os riscos das sanções para ambos os países.
Porém, Eduardo Bolsonaro ao saber dessa iniciativa fez nova investida tentando
influenciar os parlamentares americanos a não receberem a comitiva. Mais do que
isso: declarou nas redes sociais que a iniciativa está “fadada ao fracasso” e
que “não há sequer início de discussão sem anistia ampla, geral e irrestrita”.
A postura nefasta e de traição aos interesses do Brasil dessa figura
pretenciosa e abominável passou dos limites.
Nesta
semana, com o encerramento de sua licença parlamentar, o deputado que pretende
permanecer nos Estados Unidos, solicitou ao Partido Liberal apoio para
manter-se no mandato. Entre as alternativas, os aliados aventaram a
possibilidade de Eduardo ser convidado para um cargo no Executivo estadual com
exercício no Exterior. Essa artimanha permitiria a ele renovar a licença
parlamentar para o exercício no novo cargo.
A
desfaçatez tem sido a tônica desses extremistas. Eduardo Bolsonaro dobrou a
aposta contra o ministro Alexandre de Moraes, afirmando, em uma live, que
pretende tirá-lo do Supremo Tribunal Federal. E como se não bastasse, expressou
que os presidentes das duas casas do Congresso Nacional, também estão no radar
de Trump.
Há
também, a tentativa de atribuir ao governo Lula a culpa pelas sanções impostas
por Trump com a alegação de que existe um distanciamento do governo brasileiro
em relação ao governo trumpista. A atuação, principalmente, do partido liberal
é marcada pela permanente lesão à verdade. Nas últimas semanas, o partido tem
feito investimentos pesados em produção de fake news com o fim de confundir a
opinião pública sobre a verdadeira origem das sanções.
Em 21de
julho, o líder do PL, Sóstenes Cavalcante, à revelia do recesso parlamentar,
realizou uma reunião emergencial na Câmara para planejar estratégias após a
operação da Polícia Federal contra o réu Bolsonaro. A reunião foi um fracasso,
reunindo apenas 28 deputados e dois senadores. Nesse dia, num ato de submissão
ao governo americano, ostentaram um cartaz nas dependências da Câmara de
deputados, com o slogan de Trump Make America Great Again. Apesar dessas
provocações do PL o recesso foi mantido pelo deputado Hugo Motta. Porém
resultou mais uma vez numa articulação encenada pelo réu Bolsonaro à Suprema
Corte com o fim de criar constrangimento às últimas medidas cautelares impostas
a ele. Bolsonaro continua esticando a corda ao máximo com o objetivo de mobilizar
manifestações contrárias às decisões da justiça por meio dos velhos argumentos
de perseguição política, de censura à liberdade de expressão.
Diante
do descumprimento das medidas cautelares impostas pela Primeira Turma do STF, o
ministro Alexandre de Moraes convocou a defesa de Bolsonaro. Seus advogados
alegaram que ele “não teve a intenção de desobedecer” às ordens judiciais.
Embora houvesse especulação sobre sua prisão, Moraes, com cautela e estratégia,
decidiu não decretar a prisão, por ora.
Enquanto
a extrema direita esperneia em suas tramas corrosivas, o presidente Lula segue
o caminho oposto. Participou, no Chile, do encontro “Democracia Sempre”, ao
lado dos presidentes da Colômbia, Espanha e Uruguai O evento abordou temas
centrais como a defesa da democracia e do multilateralismo; o combate às
desigualdades; e o enfrentamento à desinformação digital. Após o encontro, Lula
referiu: “Neste momento em que o extremismo tenta reeditar práticas
intervencionistas, precisamos atuar juntos. A defesa da democracia não cabe
somente aos governos. Requer participação ativa da academia, dos parlamentos,
da sociedade civil, da mídia e do setor privado”.
A
poucos dias do desfecho da ameaça da tarifa arbitrária sobre o Brasil, tomou
conta da mídia americana e internacional o escândalo envolvendo Donald Trump no
caso Jeffrey Epstein, bilionário acusado por tráfico sexual de menores,
condenado e morto em 2019. Trump está na lista de Epstein. Esse episódio está
mexendo com os nervos de Trump. Resta saber se essa fúria sobrará para mais
retaliações em tarifaços aos países na tentativa de distrair a atenção de sua
associação a Epstein.
Essas
suspeitas, somadas às revelações de possíveis ganhos financeiros indevidos por
investidores com acesso privilegiado a anúncios tarifários dá para depreender
em que terreno movediço pisam os países nas tentativas de negociações
econômicas com o país governado por essa figura grotesca, marcada por tantas
suspeitas e por atos reais de chantagem que imprime ao Brasil para liberar um
réu sobre o qual perduram provas robustas de tentativa de ruptura do Estado de
Direito. Réu que acumula outros atos infames e cruéis: contra a vida dos
brasileiros na pandemia, contra o meio ambiente, fraude nos seus registros de
vacinação contra a covid-19, ganhos com a venda de joias presenteadas ao país,
ataques ao processo eleitoral, criação da Abin paralela, do gabinete do ódio,
aparelhamento das instituições, entre outras ilegalidades.
Diante
de tantos elementos que se sobrepõem, das ameaças externas às traições
internas, da ingerência norte-americana às manobras do clã Bolsonaro, fica
evidente que o Brasil enfrenta não apenas uma crise diplomática e econômica,
mas uma grave tentativa de desestabilização política e institucional. O
tarifaço imposto por Donald Trump representa mais do que uma retaliação
comercial, é a expressão de um imperialismo que se recusa a aceitar a
emergência de um novo protagonismo internacional, especialmente de países do
Sul Global organizados em blocos como os BRICS. Enquanto isso, no plano
interno, figuras como Eduardo Bolsonaro seguem operando como elos desse projeto
imperialista, sabotando ações do governo brasileiro, traindo o próprio país em
nome de interesses pessoais. A tentativa de desqualificar as instituições
democráticas e enfraquecer a soberania nacional não é apenas um ataque político
é uma afronta ao país. Ainda assim, a resposta da sociedade brasileira tem sido
vigorosa, inclusive apoiada pelos senadores americanos opositores ao governo
Trump. A união de diferentes setores em torno da legalidade, do
multilateralismo e dos princípios democráticos indica que, há resistência. O
governo brasileiro, embora ameaçado age de modo propositivo e soberano.
¨ Maria Luiza Falcão
Silva: Trump vs. Brasil - quando as tarifas revelam a nossa colonialidade
econômica
A
ameaça de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros exportados para os Estados
Unidos (EUA), anunciada por Donald Trump em julho de 2025, consolidou-se como o
maior desafio comercial do governo Lula. O impacto manifesta-se da Indústria de
alta tecnologia ao Agronegócio
<><>
Setores em Colapso vs. Commodities Resilientes
A
Embraer, com “60% das receitas vinculadas à América do Norte”, enfrenta risco
de queda de 46% nas vendas. Autopeças e eletrônicos (como a Weg) também sofrem,
com possível "espiral de custos" por dependência de insumos
norte-americanos.
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O setor
produtor de suco de laranja, com 41,7% das exportações destinadas aos EUA,
alerta para "condição insustentável" e paralisações.
O
agronegócio bolsonarista, cafezal em Minas, gado no Mato Grosso, soja, carne
bovina se sente apunhalado pelas costas pelo amigo da família Bolsonaro, pelo
apoio dado à sua campanha para presidente dos Estados Unidos e pelas
comemorações de sua vitória com bonés ridículos estampando “MAGA” como o fez o
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.
A China
já absorve “84% das commodities brasileiras”, mas impõe redução de preços
devido ao excesso de oferta global. Não é caridade, é “business”.
<><>
A China como Ator Geopolítico
Em
resposta às tarifas, Pequim emitiu crítica formal. “Tarifas não devem ser
ferramentas de coerção. Soberania e não interferência são princípios da
ONU" se pronunciou Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações
Exteriores da China).
Apesar
do apoio retórico, a prática comercial chinesa mantém limites:
- 40%
das exportações brasileiras para China são soja; manufaturados representam
menos de 2%.
-
Pequim sinalizou absorção parcial de excedentes de petróleo, mas por
"razões geopolíticas, não econômicas".
A Bomba
Política de Trump
A
medida foi justificada como retaliação à "caça às bruxas" contra
Bolsonaro, mas gerou efeitos inesperados:
- União
nacional: críticos de Lula, como o senador Alessandro Vieira (centro),
repudiaram a "agressão à soberania".
-
Fratura na direita: Estados agrícolas (base bolsonarista) pressionam por
acordo, temendo perdas. Senadores como Vanderlan Cardoso (PP-GO) já articulam o
“PL do Perdão”, anistiar Bolsonaro para aplacar Trump.
-
Discussão sobre a minerais críticos e terras raras, objetos de ambição do
Imperador Trump, uma vez que são cruciais para a produção de alta tecnologia,
incluindo supercondutores, imãs, componentes para smartphones, turbinas eólicas
e veículos elétricos.
-
Reviravolta para Lula: Aproveitando o nacionalismo, o governo ameaça
reciprocidade ("Lei de Retaliação") e acelera negociações com o
BRICS.
<><>
Soberania ou Submissão?
A crise
expôs a vulnerabilidade do modelo brasileiro. Exportamos ferro e importamos
drones; vendemos soja e compramos algoritmos.
Enquanto
Trump usa tarifas para defender interesses domésticos e forma de vingança
("America First"), e China manipula commodities para ganhos
geopolíticos, o Brasil precisa escolher entre continuar como "supermercado
global" de recursos primários, ou usar o conflito para diversificar
parcerias e reindustrializar-se.
China e
Estados Unidos brigam por hegemonia, o Brasil chora pela Embraer desmontada;
reza para a China comprar mais minério e debate se rende-se a Trump.
Primeiro de agosto está aí. O relógio da
soberania brasileira bate em contagem regressiva.
Fonte:
Brasil 247

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