Um
ídolo de concreto e um legado de barbárie: o caso do Borba Gato
Em 24
de julho de 2021, a estátua do bandeirante Borba Gato, um monumento localizado
no distrito de Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo, era incendiada por
membros do coletivo Revolução Periférica.
O
incêndio do Borba Gato visava contestar a pertinência de monumentos que
glorificam figuras históricas vinculadas à escravização, massacre e genocídio
dos povos originários e quilombolas.
A ação
reacendeu os debates sobre a memória histórica, o papel dos bandeirantes na
formação do Brasil e a legitimidade dos protestos contra símbolos da violência
colonial.
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Borba Gato e as bandeiras
A
estátua de Borba Gato é um dos vários monumentos em homenagem aos bandeirantes
espalhados por São Paulo. Os bandeirantes eram sertanistas do Período Colonial,
ativos entre os séculos 16 e 18, responsáveis por organizar as “bandeiras” —
expedições militares que adentravam nos interiores inexplorados da colônia para
buscar metais e pedras preciosas e capturar indígenas para uso como mão de obra
escrava.
Conhecidos
pela crueldade e brutalidade, os bandeirantes protagonizaram inúmeros m
assacres,
estupros e atos de selvageria contra nativos, sendo responsáveis pelo
extermínio de centenas de milhares de indígenas. Também integravam milícias
contratadas para destruir quilombos e capturar negros escravizados que fugiam
das fazendas e engenhos.
São
abundantes os registros historiográficos coevos apontando a brutalidade dos
bandeirantes, sobretudo aqueles produzidos por missionários das reduções
jesuíticas. Apesar disso, os bandeirantes gozavam de muito prestígio no Período
Colonial — reflexo do poderio econômico e militar que amealharam com suas
atividades exploratórias e com o comércio de escravizados e pedras preciosas.
Manuel
de Borba Gato (1649-1734) é um dos muitos bandeirantes que ascenderam ao posto
de membros influentes da elite colonial. Genro de Fernão Dias Pais, alcunhado
“Caçador de Esmeraldas”, ele participou da expedição rumo a Minas Gerais que
procurava pelas pedras preciosas na mítica “Serra do Sabarabuçu”.
Após
emboscar e assassinar um administrador da coroa portuguesa, Borba Gato se
refugiou nas terras do Rio Doce. Mais tarde, ele negociaria a concessão de
perdão do perdão real em troca da localização das minas de ouro. Liderou as
expedições pelos territórios dos rios Grande e Sapucaí e tornou-se o primeiro
povoador e descobridor de ouro na região do Rio das Velhas.
Em
1701, Borba Gato ganhou do governo paulista a posse das terras entre o Rio das
Velhas e o Rio Paraopeba e das chapadas das serranias de Itatiaia. Em 1711, ele
recebeu uma sesmaria em Caeté (Tombadouro).
Borba
Gato foi nomeado Superintendente das Minas de Sabará, onde também ocupou o
cargo de juiz ordinário. Aproveitou-se do cargo para roubar as terras dos
indígenas na região do Sumidouro, ao mesmo tempo em que submetia africanos
escravizados à exploração inclemente nas minas e às tarefas da administração
colonial.
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A heroicização dos bandeirantes
Excetuando-se
algumas pequenas elegias esporádicas, a memória do bandeirismo foi relegada ao
ostracismo após o Ciclo do Ouro.
No fim
do século 19, entretanto, no contexto da Proclamação da República, a elite de
São Paulo deu início a um processo de valorização da figura dos bandeirantes,
como parte de um movimento de afirmação da identidade paulista, em consonância
com seu projeto político.
Os
bandeirantes passaram a ser retratados como heróis audaciosos, destemidos e
virtuosos, responsáveis por expandir as fronteiras do Brasil e consolidar o
avanço da “civilização”.
A elite
paulista, herdeira e descendente dos bandeirantes, seria então o grupo apto a
liderar politicamente o Brasil e traçar os rumos da nação — a “locomotiva” que
arrasta todos os outros vagões —, justificando assim a hegemonia das
oligarquias do estado, imposta através da política do café com leite.
Os
acadêmicos e genealogistas do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo
(IHGSP) foram os pioneiros da glorificação do passado paulista.
O
principal responsável pela construção da mitologia heróica dos bandeirantes,
entretanto, foi o historiador Afonso d’Escragnolle Taunay, diretor do Museu
Paulista e autor da “História Geral das Bandeiras Paulistas” — obra monumental
em 11 tomos que foi por muito tempo referência basilar sobre os bandeirantes.
Taunay
também foi responsável por encomendar todas as representações iconográficas dos
bandeirantes que adornam os interiores do Museu Paulista. Nas mãos de artistas
como Benedito Calixto, Oscar Pereira da Silva, Henrique Bernardelli e Luigi
Brizzolara, os bandeirantes ganharam características aristocráticas.
A
despeito de sua origem majoritariamente mestiça, os bandeirantes passaram a ser
representados com traços europeus e a pele branca. Os farrapos maltrapilhos
foram substituídos por trajes de fidalgo, com chapéus de aba larga, botas de
cano alto e capas majestosas.
As
poses altivas evocavam a tradição retratística dos monarcas europeus, ao passo
que a brutalidade, os atos bárbaros, massacres e estupros cometidos contra
indígenas e negros foram totalmente omitidos das representações artísticas.
Essa
imagem mítica dos bandeirantes foi incorporada ao imaginário popular por ação
dos aparelhos ideológicos da elite de São Paulo, sendo retomada sempre que a
afirmação da identidade paulista se fazia necessária em algum contexto
histórico.
Foi o
que ocorreu durante o Movimento Constitucionalista de 1932, quando as tropas
que se sublevaram contra o governo de Getúlio Vargas reavivaram a propaganda
baseada no mito bandeirista, ao mesmo tempo em que as oligarquias paulistas
cunhavam o termo “quatrocentão”, em referência à sua ancestralidade
supostamente originada no bandeirismo.
Mesmo
derrotada na guerra civil, a elite paulista seguiu cultuando o mito dos
bandeirantes, homenageando os sertanistas com uma profusão de monumentos e com
nomes de avenidas, ruas, praças e até mesmo do Palácio do Governo.
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O monumento
Um novo
ciclo de valorização do mito bandeirista ocorreu por ocasião das celebrações do
Quarto Centenário da Cidade de São Paulo, em 1954. O “revival” prolongou-se até
a década seguinte, quando se celebrou igualmente o aniversário de 400 anos da
antiga cidade de Santo Amaro — incorporada como um distrito da capital paulista
em 1935.
Para
celebrar o evento, o escultor Júlio Guerra concebeu a estátua de Borba Gato,
localizada em uma praça na confluência das avenidas Santo Amaro e Adolfo
Pinheiro. A obra levou sete anos para ser concluída. Possui dez metros de
altura (treze metros considerando-se o pedestal) e pesa 20 toneladas.
Sua
estrutura interna é mantida por trilhos de bonde reaproveitados e a superfície
consiste num mosaico de pedras coloridas de basalto e mármore aplicadas sobre
argamassa.
O
monumento foi inaugurado em 27 de janeiro de 1963, com uma procissão de
romeiros vindos de Pirapora, apresentação de carros de boi e populares
fantasiados de bandeirantes, indígenas e damas antigas.
A
enorme estátua se tornou um marco urbano do bairro de Santo Amaro, mas divide
opiniões desde sua inauguração. A princípio, as reclamações eram enfocadas nas
suas características estéticas. Alguns consideram a obra visualmente
desagradável, inexpressiva e demasiado rígida. Outros manifestam insatisfação
com o aspecto “kitsch” sugerido pelo mosaico de pedras coloridas da sua
superfície, que tornariam a obra “brega”.
Críticas
mais pertinentes, entretanto, têm surgido nas últimas décadas, abordando a
própria temática do monumento. Esses questionamentos se apoiam nos movimentos
de valorização da cultura afro-brasileira e indígena e na crescente oposição ao
ufanismo historiográfico que glorifica e exalta figuras controversas da
história brasileira.
Ecoam
ainda iniciativas similares dos movimentos antirracistas e anticoloniais, que
se ergueram em todo mundo nos últimos anos, exigindo o fim da glorificação de
personalidades ligadas à opressão racista e ao genocídio indígena.
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O incêndio
Em
2008, um grupo de moradores de São Paulo questionou a pertinência da homenagem
e propôs um projeto de lei para remover o monumento, mas não obteve sucesso.
Nos anos seguintes, a estátua foi alvo de manifestações e intervenções que
visavam evocar a reflexão sobre o tema.
Em
2016, o Borba Gato ganhou as manchetes após ser submetido a um banho de tinta
vermelha simbolizando sangue. Voltou a ser pichado em 2020 e foi adornado com
representações de caveiras.
A ação
de 2021, entretanto, foi de longe a mais assertiva. Apoiando-se em pneus,
manifestantes de um grupo identificado como “Coletivo Revolução Periférica”
escalaram o monumento e atearam fogo na estrutura, fazendo com que as chamas
engolissem a parte inferior da estátua.
O
incêndio foi debelado pelo Corpo de Bombeiros por volta das 14h, tempo
suficiente para que obra fosse chamuscada. A estrutura do monumento não sofreu
danos.
A ação
gerou indignação nos veículos da grande imprensa, que reduziram o protesto à
categoria de vandalismo gratuito. Alguns colunistas chegaram a retratar a ação
como um “ato de terrorismo”. Deputados de direita fizeram discursos inflamados
exigindo punição severa aos responsáveis. E até mesmo algumas figuras ligadas à
esquerda ecoaram críticas relacionadas à necessidade de preservação do
patrimônio histórico.
As
reações conservadoras são um tanto cínicas. Para a direita, destruir monumentos
nunca foi um problema. O Monumento Eldorado Memória, projetado por Oscar
Niemeyer para homenagear os 21 sem-terra mortos durante o Massacre de Eldorado
do Carajás, foi destruído apenas duas semanas depois de sua inauguração. Nunca
foi reerguido.
O
Memorial 9 de Novembro, também de Oscar Niemeyer, construído em memória de três
trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional assassinados pelo Exército
Brasileiro durante a Greve dos Operários de 1988, foi destruído no dia seguinte
à sua inauguração.
A
indignação é seletiva. Somente se manifesta quando os alvos dos protestos são
os símbolos que glorificam a elite. A destruição dos raros monumentos erguidos
em memória da classe trabalhadora nunca suscitou indignação ou falsas
preocupações com a “preservação da história” — e muito menos punição aos
responsáveis pelos atos.
Já no
caso do Borba Gato, a punição foi severa. Paulo Galo, militante do movimento
dos trabalhadores de aplicativos, foi preso, processado e condenado a três anos
de prisão, convertidos em serviços comunitários. Sua esposa, Géssica de Paula,
também foi detida.
A
diferença de tratamento mostra uma dinâmica mais complexa do que o simples
debate sobre a questão patrimonial. Não é por acaso que um ataque a uma estátua
de concreto gerou mais indignação nos setores conservadores e obteve mais
destaque na grande imprensa do que os assassinatos de indígenas e jovens negros
reportados no mesmo período.
A
questão de fundo é o incômodo gerado pela contestação da hegemonia absoluta de
uma elite que escraviza, tortura e mata e depois manipula a história a seu bel
prazer, financiando e erguendo monumentos que refletem exclusivamente a sua
versão dos fatos, transformando genocidas em heróis e a barbaridade em valores
morais. Para a elite brasileira, Borba Gato segue sendo um espelho.
Fonte:
Por Estevam Silva, no Opera Mundi

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