A
chantagem de Trump evidencia que precisamos de soberania digital
Trump
afirma que regular empresas americanas é inaceitável — mesmo quando essas
empresas atuam em território brasileiro, utilizam dados da população local e
influenciam diretamente nossa democracia. Essa lógica evidencia a assimetria no
debate sobre regulação digital. Se já elaboramos planos decenais para áreas
como educação e infraestrutura, por que não desenvolver também um plano
nacional de soberania digital, que proteja nossos interesses e garanta
autonomia frente a essas plataformas?
No
início de julho de 2025, o presidente dos Estados Unidos da América, Donald
Trump, tensionou os limites da diplomacia convencional e declarou uma nova
guerra tarifária contra o Brasil. Ameaçou aplicar 50% de sobretaxa sobre
produtos brasileiros, cancelar vistos de autoridades do
Supremo Tribunal Federal e enfrentar supostas “centenas de ordens de censura
SECRETAS e ILEGAIS a plataformas de mídia social dos EUA”. Mas o trecho mais
revelador da carta não fala de impostos nem de exportações: ele dedica um
parágrafo inteiro à defesa das Big Techs. Não à toa, poucos dias
após o julgamento da constitucionalidade
parcial do
artigo 19 do Marco Civil da Internet e poucas horas após o encerramento
da cúpula dos BRICS, que avança em
movimento de desdolarização global. Trump deixa claro que proteger empresas
como Google, Meta, Microsoft e Amazon é proteger o interesse nacional dos EUA.
E reagir aos modelos de negócio dessas empresas, ainda que com base em
soberania, proteção de dados ou regulação democrática, é motivo suficiente para
ele punir o Brasil inteiro.
A
tecnologia se tornou chantagem. A infraestrutura digital virou moeda de
barganha diplomática. E, diante disso, o Brasil aparece como um caso exemplar
de dependência digital. Basta uma crise política ou um litígio comercial para
que sistemas essenciais, plataformas críticas e dados sensíveis passem a fazer
parte do arsenal de pressão internacional. É o chamado soft power na
sua mais plena forma. Não estamos falando de teoria. Estamos falando de uma
carta oficial assinada pelo presidente dos Estados Unidos da América usando a
dependência digital do Brasil como elemento de coerção geopolítica.
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Dependência digital em meio à geopolítica
O que
antes era visto como simples integração digital, o uso de softwares estrangeiros,
a contratação de serviços em nuvem, a adesão a plataformas internacionais,
agora se mostra como um impasse geopolítico. Os sistemas que usamos não são
neutros ou desvinculados de alguma nação com agenda própria. Eles estão
inseridos em cadeias de comando globais, operam sob legislação estrangeira e
respondem a interesses que muitas vezes conflitam com a soberania dos países em
que operam.
A
ofensiva diplomática de Trump deixou isso evidente. Ao ameaçar nominalmente o
Pix, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e as tentativas brasileiras de
regular as chamadas Big Techs, ele não está apenas protegendo o não
tão livre mercado, como apontam as pesquisadoras Isabela Rocha e Laura
Ludovico ao refletirem sobre o Meta-Trumpismo. Ele está dizendo
que regular empresas americanas é inaceitável, mesmo quando essas empresas
operam em solo brasileiro, usam dados de brasileiros e impactam diretamente a
democracia brasileira.
Não
bastasse isso, políticos da oposição chegaram a ventilar a narrativa de que
Trump estaria planejando bloquear o GPS no Brasil, além de limitar o acesso a
satélites. Ao que tudo indica, sem uma declaração pública do presidente dos EUA
até o momento de publicação deste texto, a notícia era falsa. Mas enquanto
aguardamos as cenas dos próximos capítulos de sanções de Trump ao Brasil, o
simples fato de ter sido ventilada como elemento de coerção pela oposição
política revela o tamanho da nossa fragilidade. E isso diz muito sobre como
construímos, ou deixamos de construir, a nossa soberania digital e
tecnológica.
Esse
cenário se agrava quando vamos aos recém-publicados dados do estudo que pude
coordenar em parceria com grupos de pesquisa da Universidade de São Paulo (USP)
e da Universidade de Brasília (UnB). Ao mapearmos dezenas de milhares de
contratos e milhões de unidades contratadas por prefeituras, estados e União ao
longo dos últimos anos, descobrimos que o Brasil já desembolsou, pelo menos,
R$ 23 bilhões a fornecedores de tecnologias de empresas como Microsoft, Oracle
e Google, por licenças de software, nuvem e aplicações de
segurança, sendo R$ 10,35 bilhões apenas entre
junho de 2024 e junho de 2025. Esse valor é a ponta do iceberg,
pois muitos contratos são mascarados. Mais do que isso, trata-se de um valor
nominal, sem considerar a inflação dos últimos anos. Então a conta é muito
maior. Mas o que são R$ 23 bilhões para um país com teto de despesas de R$ 2,2
trilhões apenas para 2025?
Apenas
para mensurar, com os R$ 23 bilhões investidos com tecnologias de fornecedores
estrangeiros nos últimos anos, seria possível construir 86 data centers
5MW Tier 3 de alto padrão no Brasil, aumentando em 50% o montante
atual que é exclusivamente privado. Com o valor de R$ 10 bilhões (de 2024 a
2025), seria o suficiente para financiar bolsas de pós-graduação para todos os
350 mil mestrandos e doutorandos do país durante um ano, não apenas os atuais
bolsistas, mas todos os pós-graduandos do país; ou para manter uma universidade
com o porte da Universidade de Brasília por pelo menos quatro anos e
meio.
Em vez
disso, o Brasil financiou a dependência. Comprou licenças que não pode auditar.
Armazenou dados sob jurisdição estrangeira, incluindo o CLOUD Act. Construiu uma
estrutura digital pública sobre fundações que não controla, tal como a migração dos dados do SUS
para data centers da Amazon. E cedeu expertise
para a infiltração de tais companhias no Estado: evidenciado com o caso de
Jacson Barros, então diretor do DATASUS, responsável pela migração de dados do
Ministério da Saúde para a nuvem Amazon em 2020, mas que desde 2021 atua como gerente de
negócios na Amazon.
E agora pagamos o preço, pois cada tentativa de soberania é rebatida com
ameaças comerciais, chantagem diplomática ou campanhas de desinformação.
A
dependência digital é, de fato, um fenômeno global. Mas países com maior
soberania digital conseguem impor contrapesos, proteger infraestruturas
críticas e evitar que decisões políticas externas interrompam seus serviços
essenciais. Na prática, incontáveis políticas públicas no Brasil hoje dependem
da boa-fé de equipamentos sediados nos EUA continuarem operando, sem qualquer
retaliação com base em movimentação geopolítica. Nem reuniões online o Estado
brasileiro consegue fazer sem autorização do Vale do Silício, pois utiliza
predominantemente a plataforma Microsoft Teams, por exemplo. Universidades
públicas inteiras hoje dependem do armazenamento do Google Drive e já sofrem
cortes de acordo anteriores, limitando a atuação de pesquisadores
ao voluntarismo de companhias estrangeiras. Sem contar emissões de documentos,
atendimentos cidadãos e várias outras aplicações que foram pouco a pouco sendo
absorvidas por softwares proprietários de fornecedores
estrangeiros.
O
Brasil, hoje, sequer possui inventário consolidado de suas dependências, o que
o coloca em uma posição ainda mais vulnerável. E não é só discurso. A cada
contrato fechado com empresas como Microsoft, Oracle, Google ou Amazon, o setor
público brasileiro transfere mais um pedaço da sua infraestrutura crítica para
fornecedores que podem ser mobilizados diplomaticamente em mais um capítulo da
disputa geopolítica.
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Alternativas viáveis em um mundo multipolar
Não se
trata de defender o isolacionismo digital. Tampouco se trata de tecnofobia.
Nenhuma democracia contemporânea consegue funcionar sem interação com
tecnologias globais. O problema não é usar ferramentas estrangeiras. O problema
é depender exclusivamente delas, sem sequer plano B, sem soberania, sem backup em
território nacional, sem alternativas nacionais minimamente viáveis para lidar
sequer em momentos de crise.
Mais do
que isso, não estamos falando de fábricas de carros, ou qualquer outra
indústria tradicional, estamos falando de tecnologias sensíveis à manipulação e
influência política. Portanto, também não se trata de uma cruzada ideológica
contra qualquer uso de tecnologia estrangeira, mas de reconhecer que a
dependência digital, como construída hoje, é desequilibrada, opaca e sem
salvaguardas institucionais robustas. É um modelo que pode e deve ser
negociado, diversificado e progressivamente nacionalizado onde for
estratégico.
Outros
países já entenderam isso. Na dimensão dos satélites, a União Europeia criou
o sistema Galileo como
alternativa ao GPS, justamente para não depender de uma infraestrutura
controlada pelo Departamento de Defesa dos EUA. Lá, não há oposição política
que possa ameaçar bloquear o GPS para forçar o país a atender a alguma vontade
do presidente estadunidense. Pelo contrário, o Galileo entrou
em operação parcial em 2016 e alcançou cobertura global em 2023, com 24
satélites em órbita e serviços integrados em setores como aviação, transporte
terrestre, agricultura e segurança civil. Além da União Europeia, a Índia opera
seu sistema NavIC.
A China, o BeiDou. A Rússia,
o GLONASS. O Japão, o QZSS. Até a Coreia do Sul
está investindo em um sistema próprio, o KPS.
Em
outra frente, a União Europeia lançou também o programa “Go
European”,
uma iniciativa estratégica que promove a adoção de soluções digitais abertas,
auditáveis e sustentáveis, como alternativa à dependência de softwares proprietários
das Big Techs estadunidenses. Com apelo patriótico embutido na
própria marca, a plataforma ecoa como contraponto ao domínio tecnológico dos
EUA e funciona quase como um “Go European, not American”. O programa tem
três eixos principais: incentivar o uso de software livre e de
código aberto em administrações públicas; fomentar o desenvolvimento de
plataformas digitais interoperáveis com soberania europeia; e apoiar pequenas e
médias empresas tecnológicas do continente frente ao domínio das grandes
corporações globais. Mais do que uma política técnica, o Go European é
uma afirmação de soberania digital: uma escolha consciente por infraestruturas
que respeitem direitos fundamentais, garanta autonomia institucional e reduzam
vulnerabilidades políticas no uso da tecnologia.
E o
Brasil? O Brasil segue terceirizando as suas soluções. Em vez de investir em
servidores públicos, compra serviço de nuvem estrangeira. Em vez de
fomentar software nacional com suporte local, renova contratos
bilionários com empresas que não têm qualquer compromisso com o desenvolvimento
do país. Em vez de exigir transparência, aceita contratos opacos. Em vez de
impor condições, adota acriticamente os termos impostos por fornecedores
estrangeiros.
No
início dos anos 2000, o Brasil já ensaiou caminhos próprios, como o estímulo
ao software livre. Mas faltaram continuidade, suporte e
arranjos institucionais duradouros. A descontinuidade dessas tentativas não
desqualifica o objetivo da soberania digital, apenas reforça que ela não pode
ser improvisada, e sim construída com política de Estado, orçamento robusto e
marcos regulatórios estáveis.
Temos
universidades com excelência reconhecida internacionalmente. Temos redes de
pesquisadores altamente qualificados. Temos experiência acumulada em governo
digital, em dados abertos, em participação cidadã. Temos o Centro
de Computação Científica e Software Livre (C3SL), da Universidade
Federal do Paraná (UFPR), que é um exemplo real e que há mais de 20 anos
desenvolve soluções robustas em software livre e ciência de
dados com infraestrutura própria e equipe altamente qualificada. Vimos
inclusive, com o estudo que publicamos, que temos também
dinheiro para investir em tecnologia. O que falta não é competência técnica. É
decisão estratégica. É vontade política de transformar essa competência em
infraestrutura, essa infraestrutura em soberania e essa soberania em proteção
institucional.
O
primeiro passo é político: reconhecer que a dependência digital atual
compromete a democracia, a economia e a soberania nacional. O segundo é
institucional: criar marcos regulatórios que exijam transferência de
tecnologia, interoperabilidade, auditabilidade e proteção de dados sob
legislação brasileira. O terceiro é orçamentário: destinar recursos
estruturantes para redes de nuvem pública, centros de dados federais, software de
interesse coletivo e formação técnica em larga escala. Soberania digital não é
um luxo. É uma condição básica para existirmos sem sermos reféns enquanto nação
em um mundo cada vez mais multipolar.
Devemos
reconhecer que soberania digital exige continuidade institucional. Portanto, da
mesma forma que temos planos decenais para educação ou infraestrutura, por que
não termos um plano brasileiro de soberania digital? Visando a transição
tecnológica para áreas estratégicas da administração pública, com metas, marcos
regulatórios e financiamento adequado.
Se
soberania é a capacidade de tomar decisões autônomas em momentos críticos,
então dependência digital é sua antítese. Dependência digital é ficar refém de
um agente externo desligar a luz caso não aceite suas vontades políticas. E a
guerra tarifária de Trump contra o Brasil evidencia isso como nunca antes.
Reconhecer isso não é nostalgia desenvolvimentista, é cálculo estratégico. Pois
cada real gasto sem exigência de transferência de tecnologia, auditabilidade ou
interoperabilidade é um voto contra a autonomia do Brasil no século XXI.
Por
fim, fica a sincera questão: Se nem mesmo uma guerra tarifária com ameaças
explícitas de bloqueio tecnológico é suficiente para nos alertar que
dependência digital é o novo soft power de um mundo
multipolar, o que mais será preciso?
Fonte:
Por Ergon Cugler, no Le Monde

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