Muito
além da estatura: conheça as características das displasias esqueléticas
As
displasias esqueléticas, também chamadas de osteocondrodisplasias, são
condições genéticas, crônicas, congênitas e permanentes, que se manifestam em
razão de uma desorganização celular dos ossos. Com mais de 450 tipos de
manifestações, a acondroplasia é o tipo mais comum de nanismo. Devido a uma
mutação no receptor do gene FGFR3, o crescimento desproporcional dos ossos
desencadeia a baixa estatura e, além disso, outras diversas complicações, mas
nada que afete a capacidade intelectual.
Entre
limitações físicas e desafios invisíveis, pessoas com nanismo travam uma luta
diária. No Brasil, de acordo com o último levantamento realizado pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, 14,4 milhões de
brasileiros com 2 anos ou mais vivem com algum tipo de deficiência, sem dados
específicos sobre a acondroplasia.
Pessoas
com a condição podem enfrentar problemas bucais e de respiração, devido às
alterações anatômicas da face e da caixa torácica com tamanho reduzido, além de
problemas biomecânicos por conta das desproporções dos membros, como
hiperlordose, cifose e pernas arqueadas. Dores crônicas e obesidade também são
recorrentes.
Realizado
pela Associação Nanismo Brasil (Annabra), com patrocínio da biofarmacêutica
global BioMarin, o Congresso Euroamérica de Displasias Esqueléticas, que
aconteceu na semana passada, no Rio de Janeiro, contou com autoridades e
lideranças sociais, médicos e representantes de associações de países da
América Latina e da Europa. O evento teve como objetivo principal apresentar
projetos e atuações, discutir avanços científicos, condutas terapêuticas e
direitos sociais das pessoas com nanismo.
De
acordo com Juan Llerena Jr., clínico geral e geneticista, o mais preocupante é
o risco de morte súbita desse grupo que é cinco vezes maior do que na população
geral pediátrica. "O pai ou mãe com acondroplasia tem 50% de chance de ter
filhos de estatura mediana e os outros 50% de ter filhos com a mesma condição.
Mesmo assim, em 80% dos casos, acontece por uma mutação genética na fase
germinativa, em que ambos os pais têm estatura média, sobrando apenas 20% para
casos com um dos pais acondroplásicos. O aconselhamento genético, nesses casos,
é essencial no planejamento reprodutivo", explica.
Advogada
e presidente da Annabra, Kenia Rio tem sido uma das principais vozes na
articulação política e social em defesa da população com displasias
esqueléticas a nível nacional. Sua família está na quarta geração de nanismo,
desde seu pai. Segundo ela, a troca de informação, experiência e o intercâmbio
entre pessoas de outros estados e países são os principais objetivos em eventos
como o do congresso."Muitos nunca tiveram contato com outras pessoas com
nanismo. Imagina essas crianças terem essa proximidade e ver que tem outra
igual ali.
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Identificação
O
diagnóstico precoce das displasias esqueléticas, ainda na infância, tem papel
fundamental na qualidade de vida e na redução de complicações a longo prazo.
Muitos casos são detectados logo no pré-natal, através de exames de
ultrassonografia e testes genéticos, aumentando as chances de um melhor
acompanhamento.
Segundo
Denise Cavalcanti, médica geneticista, as displasias esqueléticas estão entre
as condições mais diagnosticadas no consultório. De acordo com a especialista,
poucas são desconfiadas ainda na gestação, com a maioria se manifestando
tardiamente, ao final do primeiro e segundo ano de vida.
"A
partir de dados obtidos por cálculos e com base no último censo do IBGE de
2020, em todas as regiões do país, nascem por volta de 117 pessoas com
acondroplasia anualmente. Geralmente, o geneticista acaba sendo o último
especialista a analisar o quadro, sendo suspeitados a partir das desproporções
corporais, são observados materiais radiológicos e dados clínicos para
trabalhar com a hipótese diagnóstica", explica.
Uma das
primeiras saídas para a melhora da desproporção corporal e no ganho de estatura
foi a cirurgia de alongamento ósseo, em membros superiores e inferiores. As
desvantagens desse procedimento são as possíveis complicações e infecções após
a cirurgia e o desconforto por um longo tempo com o fixador externo. O uso do
hormônio do crescimento (GH) é outra alternativa, mas, por conta do alto custo
e de resultados pouco expressivos, não é o método mais indicado para a
acondroplasia.
"Na
endocrinologia, temos situações em que a criança não produz o hormônio de
crescimento e precisamos fazer essa reposição para ela crescer. Em qualquer
criança que use o GH, o primeiro ano de tratamento responde muito bem. Contudo,
essa resposta não se sustenta ao longo dos outros anos. É uma medicação cara,
de injeção diária utilizada até a estatura final", esclarece a
endocrinologista Ana Paula Bordalo.
Em
2021, a Vosoritida (Voxzogo) foi aprovada pela Anvisa para o tratamento de
acondroplasia, liberado a partir dos 6 meses de vida. Segundo a médica, a
resposta e adesão desse tipo de tratamento foi o mais benéfico para os
pacientes. Estudos apontam um resultado em torno de 5 a 7 centímetros a mais de
estatura em três anos de acompanhamento.
"A
nossa preocupação quando a Vosoritida entrou no mercado era que poderia
acontecer o que aconteceu com o hormônio do crescimento: o primeiro ano de
tratamento ia ter uma resposta muito boa e que essa resposta não iria se
manter. Mas não é o que acontece. De três a seis anos de acompanhamento,
conseguimos ver que a velocidade de crescimento dessas crianças continua maior
do que o grupo que não usou a medicação, tanto nos meninos quanto nas
meninas."
Relatos
sobre melhoras nas dores, no padrão de sono, respiração, mobilidade, autonomia
e autoestima são os mais recorrentes. O tratamento com a Vosoritida não é
ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), apenas de maneira particular, com
via judicial. Cada caso precisa ser avaliado individualmente, respeitando as
características clínicas e o potencial de benefício. Seja através da cirurgia,
seja do tratamento medicamentoso, a condição exige um acompanhamento
multidisciplinar.
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Representatividade
Mario
Netto, embaixador do evento, é uma criança de 9 anos com acondroplasia que
ganhou notoriedade nas redes sociais. Ao lado de sua mãe, Vanny Netto, acumulam
milhares de seguidores nas redes sociais, onde compartilham a rotina da
família, atividades e hobbies com leveza e informação. A presença de exemplos
como Mario nas redes sociais é uma ferramenta de transformação social e
representatividade.
Segundo
Vanny, o que a motivou a criar conteúdo para a internet foi o poder de informar
e propagar sobre a condição do filho. "Eu usei as redes sociais para
informar a respeito da acondroplasia. Quando Netto nasceu, não tinham tantas
informações como têm hoje. O meu objetivo maior, quando fui para as redes
sociais, era informar e conversar com outras mães para termos essa troca",
completa. Conviver com uma condição rara como o nanismo exige adaptações
constantes, especialmente durante a infância, mas, com o apoio da família,
muitas dessas barreiras podem ser enfrentadas com leveza e confiança.
"O
maior obstáculo, na verdade, é a dificuldade motora, porque o restante tiramos
de letra. Ele tem dificuldade para brincar nos brinquedos na escola, de pegar
coisas no mercado e na própria casa. O Netto é uma criança muito comunicativa.
E, nas redes sociais, querendo ou não, tem hater, mas o Netinho super se
aceita, se ama, sabe quem ele é. Então, como ele se ama do jeito que é, aceita
tranquilo e não dá muita bola para as críticas", relata a mãe.
Fonte:
Correio Braziliense

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