quarta-feira, 23 de julho de 2025

Moraes e Bolsonaro estão ambos errados e isso reflete grave problema do Brasil, diz Transparência Internacional

A Transparência Internacional, organização internacional sem fins lucrativos que atua no combate à corrupção, disse nesta terça-feira (22/7) que "nenhum dos dois lados está certo" — em referência às medidas restritivas impostas pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Desde sexta-feira, por decisão de Moraes, Bolsonaro está sendo obrigado a usar tornozeleira eletrônica, e não pode deixar sua casa depois de determinados horários e nos finais de semana. Ele também está proibido de circular perto de embaixadas e ter contato com diplomatas estrangeiros.

Bolsonaro também está proibido de usar redes sociais — e na segunda-feira Moraes estendeu essa proibição a aparições de Bolsonaro em redes de terceiros.

Ele determinou que a defesa de Jair Bolsonaro (PL) explique em até 24h, sob pena de prisão, por que o ex-presidente apareceu em um vídeo publicado horas antes nas redes sociais do seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

Nas imagens, o ex-presidente aparece mostrando a tornozeleira eletrônica e chamando o equipamento de "símbolo da máxima humilhação".

"Esta é uma situação em que nenhum lado está certo — e isso reflete o processo de grave desinstitucionalização que o Brasil, assim como os Estados Unidos, vem enfrentando nos últimos anos", disse Bruno Brandão, diretor-executivo da Transparência Internacional - Brasil, em nota exclusiva à BBC News Brasil.

A entidade faz fortes críticas a Bolsonaro — a quem atribui o começo da crise institucional que vive o Brasil.

"Ironicamente, esse processo foi iniciado pelo próprio Jair Bolsonaro, ao corroer os mecanismos de freios e contrapesos da democracia brasileira. Um dos episódios mais emblemáticos foi a nomeação de um procurador-geral da República [Augusto Aras] completamente vassalo, que neutralizou a atuação independente do Ministério Público e garantiu impunidade ao então presidente Bolsonaro."

"Isso forçou o Supremo Tribunal Federal a assumir um papel mais proativo, muitas vezes extrapolando os limites de seu mandato constitucional e normalizando práticas que podem ser consideradas abusivas."

O diretor da Transparência Internacional no Brasil diz que "é inegável que houve uma conspiração golpista de extrema gravidade, aparentemente liderada por Bolsonaro e envolvendo membros do alto escalão de seu governo. Todos os envolvidos devem ser responsabilizados com rigor".

Mas a entidade critica também o processo legal ao qual está sendo submetido Bolsonaro. E a Transparência questiona ainda o papel de Alexandre de Moraes como relator do inquérito e também juiz no julgamento do ex-presidente — e critica suas decisões restringindo liberdades de Bolsonaro, como sua aparição em redes sociais de terceiros.

"Os processos judiciais em curso também levantam preocupações legítimas. O ministro Alexandre de Moraes, por exemplo, foi alvo de uma conspiração de assassinato e agora atua como juiz no julgamento dos supostos conspiradores — o que evidentemente compromete a percepção de imparcialidade", afirma Brandão.

"Além disso, medidas como a proibição de Bolsonaro aparecer em redes sociais de terceiros carecem de bases legais claras."

A Transparência Internacional critica também o governo americano do presidente Donald Trump, que anunciou sanções tarifárias ao Brasil e cancelamento do visto de viagem ao país de Alexandre de Moraes — em manifestação de apoio dos EUA a Bolsonaro.

"A ingerência do governo Trump, ao cancelar os vistos dos ministros do Supremo e impor tarifas ao Brasil como forma de pressão política, agrava ainda mais o cenário", diz o diretor da Transparência Internacional Brasil.

"Ainda que críticas à atuação do STF sejam legítimas, as ações dos EUA carecem de fundamentos legais e têm claro viés político, ferindo princípios básicos de soberania nacional e de independência judicial. Certamente isso não ajudará à necessária reconstrução do sistema de freios e contrapesos da democracia brasileira", completa.

Sobre a guerra comercial travada entre Brasil e EUA, a entidade expressou "preocupação com a decisão do governo dos EUA de iniciar uma investigação sob a Seção 301 contra o Brasil, apontando retrocessos na agenda anticorrupção".

Em recente comunicado, a organização criticou a "falta de transparência e de coerência nas sanções americanas" e ressaltou que os Estados Unidos "também enfrentam retrocessos importantes em matéria de integridade".

•        Bolsonaro pode ser preso por aparecer em rede social do filho?

Depois da proibição de que o ex-presidente Jair Bolsonaro use as redes sociais, ele poderia ser preso por aparecer em rede social do filho Eduardo?

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil dizem que "sim", se o entendimento for o de que Jair Bolsonaro teve uma relação direta com a decisão de postar o vídeo. Mas "não" se ficar entendido que a divulgação foi alheia à vontade dele (leia mais abaixo).

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), esclareceu na segunda-feira (21/07) que a proibição de uso das redes sociais por Bolsonaro "inclui, obviamente, as transmissões, retransmissões ou veiculação de áudios, vídeos ou transcrições de entrevistas em qualquer das plataformas das redes sociais de terceiros, não podendo o investigado se valer desses meios para burlar a medida, sob pena de imediata revogação e decretação da prisão".

O esclarecimento foi feito no âmbito da ação penal em que Bolsonaro é réu por crimes como tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

O detalhamento vem depois da adoção de uma série de medidas que, além da proibição de usar redes sociais, incluem o monitoramento com tornozeleira eletrônica, a exigência de permanecer em casa entre 19h e 6h de segunda a sexta-feira e em tempo integral nos fins de semana e feriados, entre outras.

Após o despacho de Moraes, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), filho do ex-presidente, publicou no Instagram um vídeo em que o pai mostra a tornozeleira eletrônica, que o ex-presidente chamou de "símbolo da máxima humilhação".

Jair Bolsonaro falou com jornalistas na tarde de segunda-feira na Câmara dos Deputados após se reunir com parlamentares de oposição ao governo.

No texto publicado com o vídeo, Eduardo afirma que a decisão mais recente de Moraes mostra uma "escalada autoritária" promovida pelo ministro do STF.

"Quem ousa questionar, é perseguido. Vivemos um beco sem saída, criado por quem deveria proteger a Constituição", afirmou Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos, na legenda do vídeo.

Moraes então determinou que a defesa do ex-presidente explique em até 24h, sob pena de prisão, possível descumprimento da medida cautelar que proíbe o uso direto ou indireto de redes sociais.

<><> Post em rede social de Eduardo poderia justificar prisão?

A BBC News Brasil perguntou, na manhã desta terça-feira (22/07), a advogados e professores de Direito se o ex-presidente poderia ser preso pela aparição nas redes sociais do filho.

Pierpaolo Bottini, advogado e professor de Direito Penal da USP, diz que depende se a postagem foi alheia à vontade de Bolsonaro ou se ele teve influência na publicação.

"Depende da situação concreta. Se ele sabia que o filho postaria aquele conteúdo na rede social, se ele instigou, ordenou, ou determinou, pode haver um descumprimento da decisão. Se a postagem nas redes sociais foi absolutamente alheia à vontade de Bolsonaro, fica mais difícil sustentar essa situação", afirmou.

Bottini disse, ainda, que Moraes "tem entendido que Jair Bolsonaro e seu filho usam as redes sociais como instrumento de obstrução de Justiça e coação no curso do processo, por isso, decretou a proibição de acesso e divulgação de manifestações."

A advogada Juliana Bertholdi, professora da PUC-PR, diz que o grande debate é se a postagem feita por um terceiro pode ser considerada como descumprimento de decisão.

"Na minha leitura, nesse caso concreto, sim, porque nós estamos falando do filho dele que posta um vídeo, gravado com o propósito de frustrar justamente o que a decisão busca evitar. Então, eles se utilizaram de um subterfúgio para o descumprimento, mas não me parece que esse subterfúgio seja fundamento suficiente para afastar a existência do descumprimento."

Ela considera, então, que "seria caso de decretar a prisão preventiva".

Bertholdi argumenta que as medidas cautelares diversas da prisão "são consideradas adequadas e suficientes quando cumpridas, por óbvio, e a entrevista na data de ontem, somada à publicação no perfil do filho, me parecem denotar não apenas o descumprimento, mas franco desrespeito com o judiciário", afirmou, em referência à postagem do que falou Bolsonaro na Câmara.

Ela defende que "o reiterado descumprimento da decisão demonstra a necessidade de medidas mais severas ou do decreto da preventiva", ainda que considere cabível debater "se a exigência de abster-se da rede social de terceiros é razoável ou não".

"Mas uma vez (estando) na decisão, deve ser cumprida", conclui.

O especialista em Direito Constitucional Ivar Hartmann, professor associado do Insper, critica a decisão de proibição de uso das redes sociais, diz que há "excesso" no caso, e que "não chega a ser uma novidade na linha de decisões do ministro Alexandre de Moraes no que diz respeito à liberdade de expressão".

Apesar disso, Hartmann considera o post nas redes de Eduardo uma "afronta".

"Esse post, embora tenha sido feito pelo perfil do filho do ex-presidente, é claramente é a voz do ex-presidente, no sentido figurado. O perfil do filho aqui é exclusivamente a plataforma para a veiculação, a disseminação de uma mensagem do ex-presidente. Não é uma entrevista, não é uma avaliação crítica que ele esteja fazendo do que o ex-presidente falou. É um caso fácil de identificação dessa burla à medida que havia sido determinada", disse.

Questionado sobre o fato de ter sido postado após o despacho de Moraes, Hartmann diz:

"Se esse post tivesse sido feito após a cautelar e antes do despacho esclarecendo, seria temerário. A pessoa sabe que tá pisando na linha, que tá talvez ultrapassando o limite, ao simplesmente fazer no seu perfil um post que é efetivamente do ex-presidente. Esse post feito após o despacho, aí eu considero uma afronta. É uma forma de desafiar."

E se a defesa de Bolsonaro disser que a postagem foi feita sem participação do ex-presidente?

"Se a defesa diz: 'Nós não sabíamos que esse vídeo seria postado, ele foi postado à revelia do ex-presidente, ele não foi consultado, não há nenhum tipo de coordenação para postar isso, feita entre o ex-presidente e seu filho', aí não há razão jurídica para o ministro Alexandre de Moraes dizer: 'Aqui o ex-presidente violou a medida, porque o post não foi feito pelo ex-presidente'", avalia.

Procurada pela BBC News Brasil para comentar a decisão, a defesa de Jair Bolsonaro disse apenas que se manifestará nos autos do processo nesta terça-feira.

•        Prisão iminente de Bolsonaro é consenso entre governistas e oposição

Governistas e opositores concordam: a prisão de Jair Bolsonaro (PL) pode acontecer a qualquer momento. Segundo avaliação de lideranças tanto da base do governo Lula (PT) quanto da oposição, o ex-presidente corre risco real de ser detido ainda nesta terça-feira (22) por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), informa o Metrópoles.

A tensão ganhou força após o ministro Moraes proibir Bolsonaro de participar de transmissões em redes sociais, sejam próprias ou de terceiros, inclusive entrevistas à imprensa. A decisão foi comunicada nesta segunda-feira (21), com prazo de 24 horas para que a defesa do ex-mandatário se manifestasse, sob pena de prisão imediata por descumprimento de medidas cautelares.

Até então, a expectativa era de que uma eventual prisão só ocorresse no final do ano — novembro era o mês mais citado nos bastidores. No entanto, ao falar publicamente na saída do Congresso Nacional nesta segunda, mesmo após ter cancelado uma coletiva para evitar conflitos com a decisão judicial, Bolsonaro reacendeu o alerta tanto entre aliados quanto adversários.

<><> PL pego de surpresa

A nova escalada da crise foi classificada como inesperada por dirigentes do PL, incluindo um ex-ministro com influência no partido. Sem um plano claro, a sigla colocou parlamentares em “plantão” em Brasília, preparados para agir em caso de prisão de Bolsonaro.

A maioria do partido entende que não há justificativa jurídica para uma ordem de prisão, mas enxerga a atuação de Moraes como motivada por fatores políticos — e, por isso, acredita que a detenção seja provável. Um grupo minoritário, no entanto, discorda: acredita que, se houvesse intenção real de prender o ex-presidente, o magistrado não teria concedido prazo para manifestação da defesa.

Há ainda lideranças da legenda que enxergam uma eventual prisão como uma oportunidade. Para esse grupo, principalmente parlamentares do Centrão em estados onde Bolsonaro se tornou figura impopular, a saída precoce do ex-presidente permitiria à direita se reorganizar e lançar um novo nome para disputar a Presidência em 2026.

<><> PT e governo avaliam impactos

Pelo lado do governo, ainda não há uma estratégia pronta para reagir à possível prisão de Bolsonaro. De acordo com interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ouvidos sob reserva, há duas leituras em curso: uma aposta que a saída forçada de Bolsonaro pode reduzir a polarização política, o que dificultaria o avanço da popularidade do governo; outra acredita que a direita ficará desarticulada, abrindo uma guerra interna entre as diferentes alas bolsonaristas.

Essa disputa já dá sinais de tensão. Integrantes do governo citam o recente atrito entre Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), motivado por divergências sobre o apoio do deputado a sanções americanas contra o Brasil. O conflito só foi encerrado após a intervenção do próprio Bolsonaro, o que reforça a ideia de que sua ausência pode deixar a extrema-direita sem liderança.

<><> As medidas cautelares impostas a Bolsonaro

As medidas restritivas impostas por Moraes incluem:

•        Uso de tornozeleira eletrônica

•        Recolhimento domiciliar noturno, das 19h às 6h nos dias úteis, e integral aos fins de semana e feriados

•        Proibição de acesso a embaixadas e consulados

•        Proibição de contato com embaixadores ou autoridades estrangeiras

•        Proibição de contato com Eduardo Bolsonaro e investigados ligados aos quatro núcleos da suposta tentativa de golpe

•        Proibição do uso de redes sociais, inclusive por meio de terceiros

Foi justamente essa última medida que Bolsonaro descumpriu, segundo avaliação do STF. Embora tenha evitado falar em coletiva, o ex-presidente exibiu a tornozeleira eletrônica e deu declarações a jornalistas na saída do Congresso, o que resultou em ampla circulação de vídeos em redes sociais.

O STF considera que a medida foi desrespeitada e que Bolsonaro continua usando sua imagem para impulsionar uma campanha contra as instituições democráticas e o Judiciário.

<><> Sanções de Trump e nova frente de investigação

As cautelares impostas por Moraes também têm relação com outro episódio recente: a taxação de 50% a produtos brasileiros pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciada após relatos de que Bolsonaro e Eduardo teriam incentivado sanções contra o Brasil.

De acordo com a Polícia Federal, Bolsonaro teria articulado para estimular medidas que dificultassem o andamento de ações penais contra ele, inclusive buscando apoio de Trump. A investigação aponta que, desde 7 de julho, Eduardo Bolsonaro vem trabalhando nos EUA para viabilizar retaliações da Casa Branca, sob o argumento de perseguição política ao ex-presidente.

Segundo a PF, essas ações visam criar entraves comerciais e políticos com os Estados Unidos para pressionar o Supremo e interferir diretamente nos julgamentos em curso.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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