quinta-feira, 24 de julho de 2025

Aliados de Israel veem cada vez mais evidências de crime de guerra em Gaza

Dois anos atrás, o Hamas estava dando os últimos retoques em seu plano para atacar Israel. Em Israel, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, acreditava que os palestinos eram um problema a ser administrado. A verdadeira ameaça, ele insistia, era o Irã.

A retórica de Netanyahu contra o Hamas permanecia inabalável, mas ele também havia dado permissão para o Catar enviar dinheiro para Gaza. Isso abria espaço para suas verdadeiras prioridades na área de política externa — confrontar o Irã e encontrar uma maneira de normalizar as relações com a Arábia Saudita.

Em Washington, o então presidente Joe Biden e seu governo acreditavam que estavam próximos de fechar um acordo entre os sauditas e os israelenses.

Tudo não passou de uma série de ilusões.

Netanyahu se recusou a abrir um inquérito para investigar os erros que cometeu, junto ao seu Exército e chefes de segurança, que deram ao Hamas a oportunidade de atacar seu território com um efeito tão mortal em 7 de outubro de 2023.

conflito de um século entre judeus e árabes pelo controle da terra entre o Rio Jordão e o Mediterrâneo estava sem resolução, se agravando e prestes a explodir em uma guerra que parece ser tão significativa quanto seus outros marcos, em 1948 e 1967.

Oriente Médio se transformou desde aquele 7 de outubro e, quase dois anos após o início da guerra, o conflito em Gaza se encontra em outro ponto de inflexão.

Essa tem sido uma guerra difícil de ser coberta pelos jornalistas.

Eles foram pegos de surpresa no dia 7 de outubro, quando o Hamas atacou e, desde então, Israel proibiu jornalistas internacionais de fazer reportagens livremente em Gaza. Os jornalistas palestinos dentro da Faixa de Gaza fizeram um trabalho extraordinário, e quase 200 foram mortos no exercício de suas funções.

Mas os principais fatos são claros. O Hamas cometeu uma série de crimes de guerra nos ataques que lançou em 7 de outubro, matando 1,2 mil pessoas, sobretudo civis israelenses. O Hamas fez 251 reféns, dos quais acredita-se que talvez 20 ainda estejam vivos em Gaza.

E há evidências claras de que Israel cometeu uma série de crimes de guerra desde então.

A lista de Israel inclui a fome dos civis de Gaza, a falha em protegê-los durante as operações militares nas quais as forças israelenses mataram dezenas de milhares de inocentes, e a destruição indiscriminada de cidades inteiras de uma maneira que não é proporcional ao risco militar que Israel enfrenta.

Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa são alvo de mandados de prisão por crimes de guerra emitidos pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Eles insistem em sua inocência.

Israel também condena um processo na Corte Internacional de Justiça (CIJ) que alega que o país está cometendo genocídio contra os palestinos. Israel nega as acusações e compara o processo a um "libelo de sangue" — uma falsa alegação de que judeus assassinaram cristãos para usar o seu sangue em rituais antigos — antissemita.

Israel está ficando sem amigos. Os aliados que se uniram após os ataques do Hamas em 7 de outubro perderam a paciência diante da conduta de Israel em Gaza.

Até mesmo o aliado mais importante de Israel, Donald Trump, estaria perdendo a paciência com Netanyahu depois de ter sido pego de surpresa quando o líder israelense ordenou o bombardeio de Damasco — atacando o novo regime da Síria, que Trump reconheceu e encorajou.

Outros aliados ocidentais de Israel perderam a paciência meses atrás.

Outra declaração conjunta, condenando as ações de Israel, foi assinada em 21 de julho pelos ministros das Relações Exteriores do Reino Unido, de grande parte da União Europeia, do Canadá, da Austrália, da Nova Zelândia e do Japão. Eles usaram palavras fortes para descrever o sofrimento dos civis em Gaza e o sistema de distribuição de ajuda humanitária falho e mortal administrado pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF, na sigla em inglês), que Israel introduziu para substituir os métodos testados e confiáveis usados pela ONU e pelos principais grupos de ajuda humanitária a nível global.

"O sofrimento dos civis em Gaza atingiu novos patamares", diz o comunicado.

"O modelo de fornecimento de ajuda do governo israelense é perigoso, alimenta a instabilidade e priva os habitantes de Gaza da dignidade humana. Condenamos o fornecimento de ajuda a conta gotas, e a morte desumana de civis, incluindo crianças, que buscam atender às suas necessidades mais básicas de água e comida. É aterrorizante que mais de 800 palestinos tenham sido mortos enquanto buscavam ajuda."

"A negação da ajuda humanitária essencial à população civil por parte do governo israelense é inaceitável. Israel precisa cumprir suas obrigações de acordo com o direito humanitário internacional."

David Lammy, secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, fez um discurso, após a divulgação da declaração conjunta, usando uma linguagem semelhante, no parlamento do Reino Unido.

Isso não foi suficiente para os parlamentares do Partido Trabalhista (governista), que querem que palavras fortes sejam acompanhadas por ações fortes. Um deles me disse que havia "fúria" diante da relutância do governo em agir de forma mais decisiva. No topo da agenda deles, está o reconhecimento de um Estado palestino, o que já foi feito pela maioria dos membros das Nações Unidas. O Reino Unido e a França discutiram a possibilidade de fazer isso em conjunto, mas até agora parecem acreditar que não é o momento certo.

O parlamento de Israel, conhecido como Knesset, está a poucos dias do seu recesso de verão, que vai durar até outubro. Isso significa que Benjamin Netanyahu vai ter uma folga da ameaça de um voto de desconfiança dos nacionalistas extremistas em sua coalizão que se opõem a um cessar-fogo em Gaza. A relutância de Netanyahu em negociar uma trégua é resultado das ameaças deles de deixar seu governo. Se Netanyahu perdesse o poder em uma eleição, o dia do acerto de contas pelos erros cometidos em 7 de outubro — assim como o fim de seu longo julgamento por corrupção — se aproximaria rapidamente.

Um cessar-fogo parece mais possível, uma chance de sobrevivência para os civis de Gaza e para os reféns israelenses que são prisioneiros do Hamas há tanto tempo.

Nada disso significa que o conflito vai terminar. A guerra o levou a novos patamares. Mas se houver um cessar-fogo, haverá outra chance de trocar a matança pela diplomacia.

¨      Israel reedita práticas nazistas em Gaza; silêncio torna União Europeia cúmplice

Em Gaza, a morte já não é uma notícia que causa espanto. O sangue que escorre diariamente sob o cerco e os bombardeios já não é apenas um episódio efêmero, mas transformou-se em parte da rotina da vida. Contudo, o que acontece hoje em Gaza não pode ser tratado como números abstratos ou cenas passageiras nos noticiários: é uma repetição grosseira e aterradora dos capítulos mais horrendos da história humana, com métodos assustadoramente semelhantes aos usados nas câmaras de gás nazistas.

Nos campos de concentração nazistas, as vítimas eram solicitadas a tirar as roupas sob o pretexto de banho, recebiam sabão e toalha, e eram conduzidas às câmaras de gás para serem sufocadas até a morte, sem resistência. Hoje, a mesma cena se repete, porém, com a linguagem e ferramentas modernas: em Gaza, os famintos são direcionados para locais supostamente destinados à “ajuda humanitária”, mas tão logo chegam, são recebidos com tiros de metralhadoras pesadas, enquanto drones sobrevoam para abater aqueles que tentam escapar do buraco da morte.

Será isso mera coincidência? Essas práticas podem ser consideradas inconscientes? Ou o que acontece ultrapassa o ato militar, representando um ódio sádico organizado, que visa aterrorizar todo um povo, quebrar sua vontade e destruir sua estrutura social e humana?

O que ocorre em Gaza não é uma guerra convencional, mas um projeto de extermínio sistemático sob o disfarce de “operações de segurança”, onde a fome é usada como arma, o engano como roteiro e as balas como método para eliminar as vítimas em seus momentos mais vulneráveis. Como podemos descrever uma cena na qual os famintos são convocados para receber alimentos e, em seguida, são exterminados coletivamente a tiros? Não é essa a mesma mentalidade nazista que o mundo tentou apagar para sempre?

<><> O sadismo israelense não conhece limites

A questão ética aqui não se limita a quem dispara as armas, mas estende-se também a quem justifica, quem se cala e quem é cúmplice pelo silêncio e pelas posições ambíguas. Israel, que se promove como “a única democracia no Oriente Médio”, hoje pratica exatamente o oposto de tudo o que representa a democracia, expandindo seus instrumentos criminosos para além das fronteiras de Gaza, assassinando assim a consciência do mundo livre.

Se o silêncio dos regimes cúmplices é esperado, o maior choque está na postura da União Europeia, que sempre exaltou seus valores humanitários e cláusulas legais baseadas no respeito aos direitos humanos. Entretanto, esses valores se evaporam quando o assunto é Israel. Nem mesmo a cláusula explícita no acordo de parceria comercial Europa-Israel, que exige o respeito aos direitos humanos, foi suficiente para suspender o acordo diante dos massacres e crimes cometidos contra civis desarmados.

<><> União Europeia: parceira pelo silêncio

Com essa postura, a União Europeia deixa de ser apenas uma observadora impotente e se torna uma parceira cúmplice. O silêncio aqui não é neutralidade, mas um apoio implícito ao criminoso, oferecendo uma cobertura política para que o exército de ocupação continue sua agressão sem responsabilização.

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O crime da fome deliberada, o crime dos ataques durante a distribuição de ajuda humanitária, o crime de assassinatos em massa com uso de drones… todos estão documentados com áudio e imagem. Ainda assim, a consciência deste mundo “civilizado” só se manifesta quando se trata de condenar e demonizar a vítima.

O que ocorre hoje em Gaza não é apenas um extermínio físico, mas também uma tentativa de apagar a memória humana e reescrever a história através da força e do racismo. Porém, este povo, que já enfrentou catástrofes, massacres e deslocamentos, não pode ser vencido pela fome ou pelo engano. Por mais prolongado que seja o silêncio mundial, a verdade continuará batendo às portas e a máscara do sadismo cairá, mesmo que tarde.

¨      Cresce a indignação global sobre a matança de civis famintos em Gaza por Israel

Israel está enfrentando uma condenação internacional cada vez maior por matar civis palestinos famintos em Gaza e por seus ataques aos esforços humanitários, já que o secretário-geral da ONU, António Guterres, disse que "as últimas linhas de vida que mantêm as pessoas vivas [na faixa] estão entrando em colapso".

Um coro furioso de figuras importantes, entre elas o secretário de Relações Exteriores do Reino Unido, David Lammy , e um alto clérigo católico, expressaram na terça-feira um crescente sentimento de horror global sobre as ações de Israel.

“Falei novamente com [o ministro das Relações Exteriores de Israel] Gideon Saar para relembrar nosso entendimento sobre o fluxo de ajuda e deixei claro que as IDF [Forças de Defesa de Israel] devem parar de matar pessoas em pontos de distribuição”, escreveu a chefe de política externa da UE, Kaja Kallas, no X. “A morte de civis que buscam ajuda em Gaza é indefensável.”

Ela disse que “todas as opções estavam sobre a mesa” caso Israel não cumprisse as promessas de ajuda, mas não disse quais eram essas opções.

De acordo com autoridades da ONU na terça-feira, mais de 1.000 palestinos desesperados foram mortos pelas forças israelenses desde o final de maio tentando chegar às distribuições de alimentos administradas pela controversa Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiada pelos EUA e Israel, em meio a condições crescentes de fome no território palestino.

Os comentários foram feitos enquanto forças israelenses atacavam armazéns e acomodações de funcionários em Deir al-Balah, o principal centro de ajuda humanitária de Gaza, pertencente à Organização Mundial da Saúde .

Os ataques israelenses às instalações da OMS ocorreram depois que Israel cancelou o visto de trabalho de Jonathan Whittall, chefe do Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) em Gaza e o mais alto funcionário de ajuda humanitária da ONU na faixa costeira.

Falando ao Conselho de Segurança da ONU na terça-feira, Guterres descreveu a situação em Gaza como um "espetáculo de horrores", condenando os ataques israelenses aos escritórios da ONU.

“A desnutrição está aumentando e a fome bate a todas as portas em Gaza”, disse Guterres. “E agora estamos testemunhando o último suspiro de um sistema humanitário construído com base em princípios humanitários. A esse sistema estão sendo negadas as condições para funcionar. Negado o espaço para realizar entregas. Negado a segurança para salvar vidas.”

Os comentários de Guterres foram feitos horas depois de uma declaração conjunta contundente feita na segunda-feira por 27 países ocidentais, incluindo Reino Unido, França, Austrália e Canadá, criticando duramente as restrições de Israel à ajuda humanitária e pedindo o fim imediato da guerra.

Guterres disse que "lamentava os crescentes relatos de crianças e adultos sofrendo de desnutrição", enquanto autoridades de saúde em Gaza relataram mais 33 mortes, incluindo 12 crianças, nas últimas 48 horas.

Lammy amplificou essa mensagem em uma entrevista à BBC na terça-feira, descrevendo-se como "horrorizado [e] enojado" com o que estava acontecendo em Gaza.

“Estas não são palavras normalmente usadas por um secretário de Relações Exteriores que está tentando ser diplomático”, disse Lammy.

“Mas quando vemos crianças inocentes estendendo a mão para pedir comida e as vemos baleadas e mortas da maneira que vimos nos últimos dias, é claro que a Grã-Bretanha deve denunciar isso.”

Thameen Al-Kheetan, porta-voz do escritório de direitos humanos da ONU, disse: “Mais de 1.000 palestinos foram mortos pelos militares israelenses enquanto tentavam obter comida em Gaza desde que a Fundação Humanitária de Gaza começou a operar.

“Até 21 de julho, registramos 1.054 pessoas mortas em Gaza enquanto tentavam obter alimentos; 766 delas foram mortas nas proximidades dos locais do GHF e 288 perto de comboios de ajuda da ONU e de outras organizações humanitárias.”

O chefe da principal agência da ONU para os palestinos, a UNRWA, descreveu Gaza na terça-feira como um "inferno na Terra".

Philippe Lazzarini disse que a própria equipe da Unrwa, assim como médicos e trabalhadores humanitários, estavam desmaiando em serviço devido à fome e exaustão, já que Israel limitava o acesso à ajuda humanitária vital, e que muitos estavam sobrevivendo com uma única pequena refeição por dia.

“Cuidadores, incluindo colegas da UNRWA em Gaza, também precisam de cuidados agora – médicos, enfermeiros, jornalistas, humanitários, entre eles funcionários da UNRWA, estão com fome. Muitos estão desmaiando de fome e exaustão enquanto desempenham suas funções”, disse ele em um comunicado em uma coletiva de imprensa em Genebra.

O Programa Mundial de Alimentos da ONU disse na segunda-feira que suas avaliações mostraram que um quarto da população de Gaza estava enfrentando condições "semelhantes à fome" e quase 100.000 mulheres e crianças estavam sofrendo de desnutrição aguda grave.

A avaliação mais recente da fome em Gaza feita pela Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), um grupo que inclui o Programa Mundial de Alimentos e a OMS, disse que cerca de 10% da população do território — 244.000 pessoas — enfrentavam níveis catastróficos de fome e 93% estavam passando por altos níveis de insegurança alimentar aguda.

Separadamente, o clérigo mais antigo da Igreja Católica Romana na Terra Santa disse que a situação humanitária em Gaza era "moralmente inaceitável", após visitar o território palestino devastado pela guerra.

“Vimos homens se expondo ao sol por horas na esperança de uma refeição simples”, disse Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, em uma coletiva de imprensa. “É moralmente inaceitável e injustificado.”

O premiê irlandês, Micheál Martin, também pediu o fim da guerra em Gaza, descrevendo as imagens de crianças famintas como "horríveis". Martin pediu que um aumento na ajuda humanitária fosse permitido em Gaza.

Em uma publicação nas redes sociais, ele disse: "A situação em Gaza é horrível. O sofrimento de civis e a morte de crianças inocentes são intoleráveis.

“Repito o apelo dos ministros das Relações Exteriores de 28 países pela libertação de todos os reféns e por um aumento na ajuda humanitária. Esta guerra precisa acabar, e precisa acabar agora.”

Apesar das críticas de alto nível nos últimos dias, agências de ajuda humanitária criticaram a falta de ações significativas dos governos que assinaram a declaração conjunta, incluindo o Reino Unido, contra Israel.

Kristyan Benedict, da Anistia Internacional do Reino Unido, disse que a "falha do governo britânico em tomar medidas firmes para prevenir o genocídio não é acidental", acrescentando que "como um estado parte da convenção sobre genocídio, o Reino Unido tem o dever legal de prevenir e punir o genocídio — um dever que está falhando miseravelmente em cumprir".

O crescente furor internacional ocorreu quando tropas israelenses invadiram a cidade de Deir al-Balah, no centro de Gaza, onde diversas organizações internacionais de ajuda estão sediadas, no que pareceu ser o mais recente esforço para dividir o território palestino com corredores militares.

Deir al-Balah é a única cidade na Faixa de Gaza que não passou por grandes operações terrestres nem sofreu devastação generalizada em 21 meses de guerra, levando à especulação de que o grupo militante Hamas mantém um grande número de reféns lá.

¨      Chefe da OMS diz que fome em massa é "causada pelo homem" em Gaza

O chefe da Organização Mundial da Saúde afirmou que uma grande parte da população de Gaza está passando fome. "Não sei como chamar isso, a não ser fome em massa — e é uma causa humana", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Enquanto isso, organizações humanitárias pediram a Israel que aliviasse o bloqueio de ajuda, já que mais palestinos morriam de fome.

Pelo menos 10 pessoas morreram de fome nas últimas 24 horas, elevando o número de vítimas da fome para 111, incluindo 80 crianças, informou a autoridade de saúde de Gaza na quarta-feira.

Mais de 100 agências de ajuda humanitária já haviam emitido um alerta de que a fome em massa estava se espalhando por Gaza e instaram Israel a permitir que ajuda humanitária entrasse na faixa sitiada para aliviar a crescente crise de fome causada pelo homem.

Uma carta assinada por 109 agências, incluindo Médicos Sem Fronteiras, Oxfam Internacional e Anistia Internacional, diz que o governo israelense está impedindo organizações humanitárias de distribuir efetivamente ajuda vital.

“Nos arredores de Gaza, em armazéns – e até mesmo dentro da própria Gaza – toneladas de alimentos, água potável, suprimentos médicos, itens de abrigo e combustível permanecem intocados, com organizações humanitárias impedidas de acessá-los ou entregá-los”, escreveram as agências. “As restrições, os atrasos e a fragmentação impostas pelo governo de Israel sob seu cerco total geraram caos, fome e morte.”

A declaração citou um trabalhador humanitário em Gaza que disse: “As crianças dizem aos pais que querem ir para o céu, porque pelo menos o céu tem comida”.

A carta chega em um momento em que um número crescente de pessoas em Gaza começa a morrer por falta de alimentos, resultado de uma crise de fome que grupos humanitários alertavam há meses como iminente. Relatos de pessoas desmaiando de fome na longa caminhada em direção aos poucos pontos de distribuição de ajuda e imagens de cadáveres com costelas para fora tornaram-se comuns.

A distribuição diária de ajuda humanitária equivale, em média, a cerca de 28 caminhões de suprimentos humanitários. Antes da guerra, cerca de 500 caminhões de ajuda humanitária entravam em Gaza para alimentar seus mais de 2 milhões de habitantes.

Com o aumento da fome, os assassinatos de civis por Israel aumentaram. Uma pessoa foi morta por Israel a cada 12 minutos em julho, tornando-se um dos meses mais mortais da guerra de Gaza, revelou uma análise de dados da ONU .

Na quarta-feira, ataques israelenses mataram pelo menos 21 pessoas, mais da metade delas mulheres e crianças, segundo autoridades de saúde palestinas. O exército israelense afirmou que os ataques estavam "aprofundando" a atividade na Cidade de Gaza e no norte de Gaza.

Entre os mortos estavam dois jornalistas palestinos, Tamer al-Za'anin e Walaa al-Jabari, que estava grávida, elevando o número de profissionais da mídia mortos no território para 229 desde o início da guerra.

Israel prorrogou a detenção do Dr. Marwan al-Hams, diretor interino dos hospitais de campanha de Gaza, até o final do mês, informou a Associated Press. Hams foi preso no início desta semana e tem um ferimento de bala na perna, que teria sofrido durante sua detenção.

Alimentos em Israel agora são distribuídos pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF), apoiada pelos EUA e por Israel , cujos locais foram descritos por funcionários da ONU como " armadilhas mortais ". Reportagens anteriores do Guardian relataram os perigos enfrentados pelos palestinos que buscam alimentos nos locais da GHF.

O GHF alega que impede o grupo palestino Hamas de roubar alimentos por meio de seus pontos de distribuição, um ponto ecoado por Israel. Humanitários têm condenado amplamente a organização pelo que consideram uma violação dos princípios da ajuda humanitária e potencial cumplicidade no crime de guerra de transformar a fome em arma.

Autoridades da ONU relatam que o exército israelense matou mais de 1.000 palestinos que tentavam chegar a locais de distribuição de alimentos desde o final de maio.

Israel matou pelo menos 72 palestinos nas últimas 24 horas , segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Israel também atacou instalações da Organização Mundial da Saúde em Deir al-Balah e cancelou o visto do mais alto funcionário humanitário da ONU em Gaza.

À medida que a atividade militar israelense em Gaza se intensificava, o ímpeto por um cessar-fogo parecia crescer. O enviado dos EUA para o Oriente Médio, Steve Witkoff, viajava para Roma na quarta-feira, onde se encontraria com o principal conselheiro israelense, Ron Dermer, e negociadores palestinos.

Se houver progresso no acordo, Witkoff viajará para Doha, onde negociações indiretas estão ocorrendo entre as duas partes.

Ao longo da última semana, as divergências entre o Hamas e Israel sobre o acordo de cessar-fogo foram gradualmente superadas, embora ainda persistam sérios obstáculos. Uma fonte israelense disse que Israel ainda aguarda uma resposta do Hamas, que deve ser divulgada no próximo dia.

Em 21 de julho, 28 países, incluindo o Reino Unido e outros aliados israelenses, emitiram uma declaração pedindo o fim da guerra em Gaza e classificando a "negação de assistência humanitária essencial" por Israel como "inaceitável". A declaração também se manifestou contra a violência dos colonos israelenses na Cisjordânia, bem como contra os planos israelenses de transferir palestinos para uma " cidade humanitária ", descrita por um ex-primeiro-ministro israelense como um "campo de concentração" e equivalente a uma limpeza étnica.

A declaração, embora fortemente formulada, não ameaçou impor sanções nem mencionou quaisquer medidas políticas concretas que seriam tomadas contra o governo israelense se ele não mudasse de rumo.

A carta de quarta-feira das organizações humanitárias pede ação direta. “Acordos fragmentados e gestos simbólicos, como lançamentos aéreos ou acordos de ajuda falhos, servem como cortina de fumaça para a inação. Não podem substituir as obrigações legais e morais dos Estados de proteger os civis palestinos e garantir acesso significativo em larga escala”, afirma.

O exército israelense disse que “considera a transferência de ajuda humanitária para Gaza uma questão de extrema importância” e trabalha para facilitar sua entrada em coordenação com a comunidade internacional.

O grupo negou as acusações de que estaria impedindo que ajuda chegasse a Gaza e acusou o Hamas de roubar alimentos, o que o Hamas nega.

Mais de 59.000 pessoas foram mortas em Gaza pela campanha militar de Israel, que começou após o ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas.

 

Fonte: BBC News/Diálogos do Sul Global/The Guardian

 

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