sábado, 26 de julho de 2025

A esquerda que sabe fazer memes e ganhar eleições

As recentes eleições finlandesas registraram vitórias para a Aliança de Esquerda — e derrotas para o Partido Finlandês, populista de direita. Alma Tuuva, administradora da conta de memes de esquerda (no Instagram: @pikakahvimemegirl), estava entre os vereadores recém-eleitos. Esses memes em finlandês usam a estética familiar de influenciadores do Instagram e memes políticos para abordar temas como igualdade social e econômica, financiamento cultural e questões da população trans.

Contas de memes de esquerda são bastante comuns. A novidade é convertê-las em moeda política concreta, como @pikakahvimemegirl fez. Há muito tempo se argumenta que “a esquerda não sabe fazer memes” (uma frase vinda da campanha eleitoral estadunidense de 2016, onde o extremismo de direita atraiu jovens eleitores do sexo masculino, enquanto a esquerda não conseguiu encontrar uma resposta).

Em uma entrevista para a Jacobin, Mike Watson perguntou a Tuuva e sua gerente de campanha, a artista Jenna Jauhiainen, o que elas acham que explica seu sucesso.

LEIA A ENTREVISTA

•        Existe um meme de direita bastante difundido que basicamente diz: “A esquerda não sabe fazer memes”. Isso surgiu no período que antecedeu a primeira eleição de Donald Trump, inspirado pelo fato de que os memes de direita pareciam ter muito mais força do que os de esquerda, sendo mais impactantes, simples e contundentes. Anos depois, parece que o radicalismo dos memes de direita levou a grandes mudanças, inaugurando uma nova era populista de direita. A esquerda não acompanhou. Por que você acha que isso acontece? Vimos a mesma trajetória na Finlândia e nos Estados Unidos, por exemplo?

JENNA JAUHIAINEN - Olhando para trás, acho que o ethos da internet no início dos anos 2000 na Finlândia era muito libertário — éramos muito adeptos da liberdade de expressão e da meritocracia baseada no anonimato em painéis de imagens, e explorávamos a individualidade por meio das primeiras mídias sociais, como o IRC-Galleria. Lembro-me de Ayn Rand também ser trending topic entre alguns dos meus colegas. Portanto, não é surpresa que os memes produzidos nesse ambiente fossem bastante direitistas, tanto na Finlândia quanto em outros lugares. Se você pensar em memes em um sentido estrito como humor, infelizmente também é mais fácil bater nos de baixo do que nos de cima.

Em relação à política na Finlândia, sei que alguns memelords apoiaram e contribuíram para a ascensão do populista Partido Finlandês de direita, mas não no mesmo grau religioso que foi visto com os apoiadores de Trump em 2016. Portanto, pode-se argumentar que a verdadeira “virada meme” na política finlandesa é de esquerda, e tivemos apenas um primeiro vislumbre concreto de seu impacto com a vitória de Alma Tuuva, também conhecida como @pikakahvimemegirl, nas eleições locais em Helsinque.

ALMA TUUVA - Meus memes abordam as experiências de desigualdade na vida cotidiana e nos relacionamentos. Também falo bastante sobre anticapitalismo e comento eventos políticos na Finlândia. O objetivo é conscientizar as pessoas sobre sua própria posição de classe e o papel do capitalismo na produção de desigualdade. Além disso, a conta serve como plataforma para discussão interna dentro da esquerda e tem seu lugar na “cena” anticapitalista finlandesa.

A maioria das minhas postagens é compreensível até mesmo para quem nunca leu literatura de esquerda. No entanto, é muito importante que elas não subestimem o público. Os pontos devem ser acessíveis e precisos. Ninguém quer ouvir uma verdade evidente após a outra. A conversa de cima para baixo que ocasionalmente aparece nos círculos de esquerda, direcionada à classe trabalhadora ou aos desempregados, é elitista e alienante. Eu, pessoalmente, também me senti subestimada, até mesmo excluída e intimidada, em ambientes de discussão de esquerda no início, porque não tenho diploma universitário.

Na verdade, mesmo agora, às vezes ouço que não sou qualificada ou confiável o suficiente para participar, embora eu faça isso com sucesso há mais de quatro anos, tenha construído uma comunidade ao meu redor e tenha mais de 40.000 seguidores — o que, em um país do tamanho da Finlândia (com uma população de 5,5 milhões), é bastante. Então, eu realmente entendo por que as pessoas não participam das discussões acadêmicas. A “esquerda meme” finlandesa oferece um ambiente que também abre espaço para contribuições não acadêmicas à conversa.

•        O que você diria que é específico da cultura dos memes finlandesa?

AT - O cenário de memes finlandeses é amplo e diverso. Diferentes contas se complementam e frequentemente colaboram entre si. Por exemplo, algumas contas abordam tópicos semelhantes sob a perspectiva da política internacional, e algumas são mais teóricas do que outras. Nosso foco é a cooperação em vez da competição por quem é a voz política mais legítima ou confiável. Contas que abordam a política por meio da vida cotidiana das pessoas, em vez de teorias de esquerda, não são subordinadas àquelas com um foco mais acadêmico. Os lados acadêmico e não acadêmico da esquerda memética se complementam.

Muitas contas também interagem ativamente com seus seguidores, que contribuem para a criação de conteúdo e discussão por meio de mensagens e comentários. Isso aumenta ainda mais a diversidade de vozes.

A comunidade finlandesa de memes também conta com uma forte representação da diversidade de gênero e da neurodivergência. Há também contas que discutem temas estigmatizados, como dependência química ou problemas graves de saúde mental. Em resumo, criamos espaço na mídia para temas e perspectivas que muitas vezes não são abordados na mídia tradicional.

JJ - O que Alma está falando aqui é sobre a cena finlandesa de memes no Instagram, que se tornou realmente forte nos últimos anos — eu diria, principalmente desde os lockdowns de 2020. Esta é apenas uma plataforma, mas é muito popular na Finlândia.

Sobre a cultura geral de memes na Finlândia, além dessa forte vertente política de esquerda no Instagram, não se pode ignorar a influência da cultura dos imageboards e como alguns dos memes cultivados e modificados no Ylilauta se espalharam para a memesfera global, como por exemplo, Spurdo Spärde ou Apu Apustaja — personagens meméticos que se replicam e se modificam especialmente nos diversos imageboards. Meu meme finlandês favorito de imageboard é o t., que eu uso o tempo todo em minhas mensagens de texto — é uma abreviação de terveisin (“atenciosamente”) e é usado para indicar quem está dizendo algo, geralmente de forma sarcástica.

Além disso, no YouTube, temos nossa própria memesfera esquisitices há quase vinte anos. Dez anos atrás, fizemos uma coletânea da arte daquela cena em forma de um histórico em vídeo — cerca de 1 hora e meia de “cocô do YouTube” em ordem cronológica. Este ano, faremos uma recapitulação de vinte anos…

Específico da cultura finlandesa dos memes? Absurdo. Êxtase no sentido baudrilardiano. “O êxtase da comunicação leva à aniquilação do significado.” Hoje em dia, a molecada chama isso de “podridão cerebral”; nós temos isso há mais de vinte anos.

•        Além de a direita acreditar que a esquerda não consegue fazer memes, parece que a esquerda também acredita nisso. Há uma filosofia vibrante de esquerda promovendo a leitura de textos canônicos, mas isso não motiva politicamente as pessoas nas urnas. E a esquerda parece resignada a isso no Reino Unido e nos Estados Unidos. O que impede a esquerda? E como você superou isso com sua recente vitória eleitoral nas eleições municipais finlandesas de 2025?

AT - A campanha talvez tenha sido mais sobre arte do que apenas memes. Meus materiais de campanha — postagens em redes sociais, panfletos e o vídeo da campanha dirigido por Alisa Nirman — eram visualmente muito diferentes do que normalmente se espera em um contexto político. A qualidade meme se mostrou mais na estética enraizada na cultura da internet e na maneira como as questões foram abordadas diretamente. Recebi muitos comentários sobre o vídeo e outros conteúdos, com muitas pessoas dizendo que se sentiram compreendidas. A pobreza é frequentemente discutida por meio de narrativas de vítimas ou histórias de sobrevivência, então definitivamente há uma demanda para que ela seja abordada de uma forma inspiradora, rápida e poderosa. As pessoas querem que as questões de desigualdade que as afetam sejam discutidas honestamente, mas sem serem colocadas no papel de vítimas indefesas. Acredito que isso seja algo que transparece tanto nos meus memes quanto na minha campanha.

Meu principal objetivo político é desafiar as normas da classe média, tanto na política quanto na arte. Isso significa romper as barreiras à participação no discurso político criadas pela origem de classe. As estruturas hierárquicas e de controle dentro dos círculos de esquerda parecem paradoxais, especialmente quando o objetivo comum supostamente é a igualdade. Essas coisas precisam acabar — o mais rápido possível.

JJ - Acredito que Alma recebeu tantos votos (mais do que nosso atual primeiro-ministro, ministro das Finanças e ministro do Interior — um meme involuntário…), em parte porque ela representa a esquerda meme, que está evoluindo para uma força política real também offline, e em parte por causa de sua persona pública. Sou profissional de relações públicas e, desse ponto de vista, Alma oferece o potencial de ser uma política mais autoral do que acadêmica, mas, ainda assim, ela é uma debatedora, uma verdadeira retórica influenciadora — se você olhar para @pikakahvimemegirl, a personagem e a plataforma política que ela construiu, a linguagem de seus memes se curva à tradição de servir ao argumento vencedor (servaus em finlandês) — na prática, isso significa que seu argumento é o mais forte, o mais inteligente, o mais astuto. Acredito que isso ressoa com muitas pessoas. Alguns dizem que algumas das pessoas que votam no Partido da Coalizão Nacional, de centro-direita, [o fazem] porque querem estar no “time vencedor”. Acredito que Alma consiga captar um pouco dessa mesma energia — sua retórica memética é “vencedora”, e as pessoas querem se alinhar a ela. Espero que isso se traduza em novos eleitores para a Aliança de Esquerda também nas próximas eleições parlamentares — e sim, estamos concorrendo!

•        Que conselho vocês dariam à esquerda em outros países?

JJ - Promova os criadores e administradores de páginas de memes de todas as maneiras possíveis.

AT - Novos comentaristas políticos e novas formas de discussão precisam de apoio e validação de atores políticos estabelecidos. A esquerda meme precisa ser levada a sério para ser benéfica para o movimento como um todo. Caso contrário, permanecerá um fenômeno marginal. A cobertura da mídia e os convites para debates e eventos, por exemplo, foram muito importantes nos estágios iniciais da minha carreira política.

 

Fonte: Entrevista com Alma Tuuva e Jenna Jauhiainen – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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