A
esquerda que sabe fazer memes e ganhar eleições
As
recentes eleições finlandesas registraram vitórias para a Aliança de Esquerda —
e derrotas para o Partido Finlandês, populista de direita. Alma Tuuva,
administradora da conta de memes de esquerda (no Instagram:
@pikakahvimemegirl), estava entre os vereadores recém-eleitos. Esses memes em
finlandês usam a estética familiar de influenciadores do Instagram e memes
políticos para abordar temas como igualdade social e econômica, financiamento
cultural e questões da população trans.
Contas
de memes de esquerda são bastante comuns. A novidade é convertê-las em moeda
política concreta, como @pikakahvimemegirl fez. Há muito tempo se argumenta que
“a esquerda não sabe fazer memes” (uma frase vinda da campanha eleitoral
estadunidense de 2016, onde o extremismo de direita atraiu jovens eleitores do
sexo masculino, enquanto a esquerda não conseguiu encontrar uma resposta).
Em uma
entrevista para a Jacobin, Mike Watson perguntou a Tuuva e sua gerente de
campanha, a artista Jenna Jauhiainen, o que elas acham que explica seu sucesso.
LEIA A
ENTREVISTA
• Existe um meme de direita bastante
difundido que basicamente diz: “A esquerda não sabe fazer memes”. Isso surgiu
no período que antecedeu a primeira eleição de Donald Trump, inspirado pelo
fato de que os memes de direita pareciam ter muito mais força do que os de
esquerda, sendo mais impactantes, simples e contundentes. Anos depois, parece
que o radicalismo dos memes de direita levou a grandes mudanças, inaugurando
uma nova era populista de direita. A esquerda não acompanhou. Por que você acha
que isso acontece? Vimos a mesma trajetória na Finlândia e nos Estados Unidos,
por exemplo?
JENNA
JAUHIAINEN - Olhando para trás, acho que o ethos da internet no início dos anos
2000 na Finlândia era muito libertário — éramos muito adeptos da liberdade de
expressão e da meritocracia baseada no anonimato em painéis de imagens, e
explorávamos a individualidade por meio das primeiras mídias sociais, como o
IRC-Galleria. Lembro-me de Ayn Rand também ser trending topic entre alguns dos
meus colegas. Portanto, não é surpresa que os memes produzidos nesse ambiente
fossem bastante direitistas, tanto na Finlândia quanto em outros lugares. Se
você pensar em memes em um sentido estrito como humor, infelizmente também é
mais fácil bater nos de baixo do que nos de cima.
Em
relação à política na Finlândia, sei que alguns memelords apoiaram e
contribuíram para a ascensão do populista Partido Finlandês de direita, mas não
no mesmo grau religioso que foi visto com os apoiadores de Trump em 2016.
Portanto, pode-se argumentar que a verdadeira “virada meme” na política
finlandesa é de esquerda, e tivemos apenas um primeiro vislumbre concreto de
seu impacto com a vitória de Alma Tuuva, também conhecida como
@pikakahvimemegirl, nas eleições locais em Helsinque.
ALMA
TUUVA - Meus memes abordam as experiências de desigualdade na vida cotidiana e
nos relacionamentos. Também falo bastante sobre anticapitalismo e comento
eventos políticos na Finlândia. O objetivo é conscientizar as pessoas sobre sua
própria posição de classe e o papel do capitalismo na produção de desigualdade.
Além disso, a conta serve como plataforma para discussão interna dentro da
esquerda e tem seu lugar na “cena” anticapitalista finlandesa.
A
maioria das minhas postagens é compreensível até mesmo para quem nunca leu
literatura de esquerda. No entanto, é muito importante que elas não subestimem
o público. Os pontos devem ser acessíveis e precisos. Ninguém quer ouvir uma
verdade evidente após a outra. A conversa de cima para baixo que ocasionalmente
aparece nos círculos de esquerda, direcionada à classe trabalhadora ou aos
desempregados, é elitista e alienante. Eu, pessoalmente, também me senti
subestimada, até mesmo excluída e intimidada, em ambientes de discussão de
esquerda no início, porque não tenho diploma universitário.
Na
verdade, mesmo agora, às vezes ouço que não sou qualificada ou confiável o
suficiente para participar, embora eu faça isso com sucesso há mais de quatro
anos, tenha construído uma comunidade ao meu redor e tenha mais de 40.000
seguidores — o que, em um país do tamanho da Finlândia (com uma população de
5,5 milhões), é bastante. Então, eu realmente entendo por que as pessoas não
participam das discussões acadêmicas. A “esquerda meme” finlandesa oferece um
ambiente que também abre espaço para contribuições não acadêmicas à conversa.
• O que você diria que é específico da
cultura dos memes finlandesa?
AT - O
cenário de memes finlandeses é amplo e diverso. Diferentes contas se
complementam e frequentemente colaboram entre si. Por exemplo, algumas contas
abordam tópicos semelhantes sob a perspectiva da política internacional, e
algumas são mais teóricas do que outras. Nosso foco é a cooperação em vez da
competição por quem é a voz política mais legítima ou confiável. Contas que
abordam a política por meio da vida cotidiana das pessoas, em vez de teorias de
esquerda, não são subordinadas àquelas com um foco mais acadêmico. Os lados
acadêmico e não acadêmico da esquerda memética se complementam.
Muitas
contas também interagem ativamente com seus seguidores, que contribuem para a
criação de conteúdo e discussão por meio de mensagens e comentários. Isso
aumenta ainda mais a diversidade de vozes.
A
comunidade finlandesa de memes também conta com uma forte representação da
diversidade de gênero e da neurodivergência. Há também contas que discutem
temas estigmatizados, como dependência química ou problemas graves de saúde
mental. Em resumo, criamos espaço na mídia para temas e perspectivas que muitas
vezes não são abordados na mídia tradicional.
JJ - O
que Alma está falando aqui é sobre a cena finlandesa de memes no Instagram, que
se tornou realmente forte nos últimos anos — eu diria, principalmente desde os
lockdowns de 2020. Esta é apenas uma plataforma, mas é muito popular na
Finlândia.
Sobre a
cultura geral de memes na Finlândia, além dessa forte vertente política de
esquerda no Instagram, não se pode ignorar a influência da cultura dos
imageboards e como alguns dos memes cultivados e modificados no Ylilauta se
espalharam para a memesfera global, como por exemplo, Spurdo Spärde ou Apu
Apustaja — personagens meméticos que se replicam e se modificam especialmente
nos diversos imageboards. Meu meme finlandês favorito de imageboard é o t., que
eu uso o tempo todo em minhas mensagens de texto — é uma abreviação de
terveisin (“atenciosamente”) e é usado para indicar quem está dizendo algo,
geralmente de forma sarcástica.
Além
disso, no YouTube, temos nossa própria memesfera esquisitices há quase vinte
anos. Dez anos atrás, fizemos uma coletânea da arte daquela cena em forma de um
histórico em vídeo — cerca de 1 hora e meia de “cocô do YouTube” em ordem
cronológica. Este ano, faremos uma recapitulação de vinte anos…
Específico
da cultura finlandesa dos memes? Absurdo. Êxtase no sentido baudrilardiano. “O
êxtase da comunicação leva à aniquilação do significado.” Hoje em dia, a
molecada chama isso de “podridão cerebral”; nós temos isso há mais de vinte
anos.
• Além de a direita acreditar que a
esquerda não consegue fazer memes, parece que a esquerda também acredita nisso.
Há uma filosofia vibrante de esquerda promovendo a leitura de textos canônicos,
mas isso não motiva politicamente as pessoas nas urnas. E a esquerda parece
resignada a isso no Reino Unido e nos Estados Unidos. O que impede a esquerda?
E como você superou isso com sua recente vitória eleitoral nas eleições
municipais finlandesas de 2025?
AT - A
campanha talvez tenha sido mais sobre arte do que apenas memes. Meus materiais
de campanha — postagens em redes sociais, panfletos e o vídeo da campanha
dirigido por Alisa Nirman — eram visualmente muito diferentes do que
normalmente se espera em um contexto político. A qualidade meme se mostrou mais
na estética enraizada na cultura da internet e na maneira como as questões
foram abordadas diretamente. Recebi muitos comentários sobre o vídeo e outros
conteúdos, com muitas pessoas dizendo que se sentiram compreendidas. A pobreza
é frequentemente discutida por meio de narrativas de vítimas ou histórias de
sobrevivência, então definitivamente há uma demanda para que ela seja abordada
de uma forma inspiradora, rápida e poderosa. As pessoas querem que as questões
de desigualdade que as afetam sejam discutidas honestamente, mas sem serem
colocadas no papel de vítimas indefesas. Acredito que isso seja algo que
transparece tanto nos meus memes quanto na minha campanha.
Meu
principal objetivo político é desafiar as normas da classe média, tanto na
política quanto na arte. Isso significa romper as barreiras à participação no
discurso político criadas pela origem de classe. As estruturas hierárquicas e
de controle dentro dos círculos de esquerda parecem paradoxais, especialmente
quando o objetivo comum supostamente é a igualdade. Essas coisas precisam
acabar — o mais rápido possível.
JJ -
Acredito que Alma recebeu tantos votos (mais do que nosso atual
primeiro-ministro, ministro das Finanças e ministro do Interior — um meme
involuntário…), em parte porque ela representa a esquerda meme, que está
evoluindo para uma força política real também offline, e em parte por causa de
sua persona pública. Sou profissional de relações públicas e, desse ponto de
vista, Alma oferece o potencial de ser uma política mais autoral do que
acadêmica, mas, ainda assim, ela é uma debatedora, uma verdadeira retórica
influenciadora — se você olhar para @pikakahvimemegirl, a personagem e a
plataforma política que ela construiu, a linguagem de seus memes se curva à
tradição de servir ao argumento vencedor (servaus em finlandês) — na prática,
isso significa que seu argumento é o mais forte, o mais inteligente, o mais
astuto. Acredito que isso ressoa com muitas pessoas. Alguns dizem que algumas
das pessoas que votam no Partido da Coalizão Nacional, de centro-direita, [o
fazem] porque querem estar no “time vencedor”. Acredito que Alma consiga captar
um pouco dessa mesma energia — sua retórica memética é “vencedora”, e as
pessoas querem se alinhar a ela. Espero que isso se traduza em novos eleitores
para a Aliança de Esquerda também nas próximas eleições parlamentares — e sim,
estamos concorrendo!
• Que conselho vocês dariam à esquerda em
outros países?
JJ -
Promova os criadores e administradores de páginas de memes de todas as maneiras
possíveis.
AT -
Novos comentaristas políticos e novas formas de discussão precisam de apoio e
validação de atores políticos estabelecidos. A esquerda meme precisa ser levada
a sério para ser benéfica para o movimento como um todo. Caso contrário,
permanecerá um fenômeno marginal. A cobertura da mídia e os convites para
debates e eventos, por exemplo, foram muito importantes nos estágios iniciais
da minha carreira política.
Fonte:
Entrevista com Alma Tuuva e Jenna Jauhiainen – Tradução Pedro Silva, em Jacobin
Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário