sábado, 26 de julho de 2025

Pastor evangélico provoca polêmica ao criticar imagem de Sant’Ana durante romaria católica no interior do Pará

Um vídeo publicado nas redes sociais no último sábado (19) gerou forte reação na comunidade de Igarapé-Miri, no nordeste do Pará. Nas imagens, um pastor da Assembleia de Deus da Vila de Maiauatá critica a veneração à imagem de Sant’Ana, padroeira do município, com declarações consideradas ofensivas à fé católica.

No vídeo gravado pelo próprio pastor, Wilckson Almeida Castro, que congrega na Assembleia de Deus da vila, critica quem participa da romaria - uma das mais tradicionais da região, realizada há mais de 300 anos.

"Estamos aqui nas ruas de Maiuatá e eu vi uma cena inusitada: eu passei agora aqui, eu vi um monte de católicos em volta de uma santa, Sant’Ana. É a fé que eles têm. Eles acreditam nela, mas não é a nossa fé", diz.

Em seu discurso, o pastor segue pontuando diferenças na crença católica e evangélica. "O que me chamou atenção foi pessoas de idade, na rua, no sol, para adorar um Deus que tem boca e não fala, tem olhos e não vê. Nós que temos a Bíblia, nós sabemos disso. Eu espero que um dia o povo chegue a esse conhecimento, a essa verdade".

Até a publicação desta reportagem, o pastor não havia se pronunciado sobre a polêmica.

<><> Polêmica

As falas repercutiram negativamente entre fiéis e lideranças religiosas. Em nota oficial, a Paróquia de Sant’Ana, vinculada à Diocese de Cametá, manifestou “profundo repúdio” à atitude do religioso, argumentando que o conteúdo do vídeo atinge diretamente a devoção da comunidade, desrespeita os símbolos sagrados do catolicismo e fere o princípio do respeito inter-religioso previsto na Constituição Federal.

A paróquia também destacou que o vídeo expõe, sem autorização, adolescentes e jovens do projeto social EMUPAS, o que infringe normas da legislação brasileira relativas à proteção de imagem de menores.

Na segunda-feira (21), a Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Pará, Subseção de Abaetetuba, também se pronunciou publicamente. Em nota, a entidade manifestou preocupação institucional e repúdio às declarações do pastor, que classificou como desrespeitosas à prática católica de veneração de imagens.

A OAB reforçou que a liberdade religiosa é um direito fundamental e que atitudes como a registrada no vídeo podem configurar crime de intolerância religiosa, conforme o artigo 20 da Lei nº 7.716/1989. A entidade ainda conclamou o Ministério Público do Estado do Pará e a Polícia Civil a apurarem o caso e tomarem as providências cabíveis.

A OAB ressaltou que a Festa de Sant’Ana constitui patrimônio cultural e religioso do povo de Igarapé-Miri, indo além da tradição católica. Para a entidade, trata-se de um símbolo da identidade social e cultural da cidade, em especial de suas comunidades ribeirinhas, cuja fé está fortemente vinculada a essa celebração centenária.

<><> Uma tradição de mais de três séculos

A festividade em honra a Sant’Ana ocorre há 311 anos e é considerada uma das mais antigas manifestações religiosas do estado do Pará. A devoção começou no início do século XVIII, quando imigrantes portugueses trouxeram a imagem da santa para a região. Em 1714, ocorreu a primeira festa em homenagem à padroeira, e em 1740 foi construída a igreja matriz, possivelmente com projeto do arquiteto italiano Antônio Landi. A tradição se consolidou como o maior evento religioso da região do Baixo Tocantins.

O Círio de Sant’Ana, realizado anualmente em julho, movimenta milhares de fiéis em procissões terrestres e fluviais. Além do aspecto religioso, a festividade envolve a economia local, especialmente o comércio informal, o turismo religioso, o transporte fluvial e a produção artesanal. Para muitas famílias, é também uma forma de reafirmar sua fé e identidade coletiva. A festa representa, para o povo igarapé-miriense, uma expressão viva de pertencimento, história e resistência cultural.

<><> Liberdade religiosa e diálogo inter-religioso

A Paróquia de Sant’Ana destacou, em sua nota, que a veneração aos santos é um elemento tradicional da fé católica, que os reconhece como modelos de vida cristã, mas não como divindades. A Igreja reserva exclusivamente a Deus a adoração. Ao atacar símbolos sagrados da fé católica, diz o comunicado, o pastor não apenas desrespeita práticas religiosas históricas da comunidade, mas também rompe com princípios de convivência pacífica entre diferentes credos.

“Lamentamos que, em pleno século XXI, ainda se recorra à intolerância como forma de evangelização”, afirma a paróquia.

A nota conclui com um apelo ao respeito mútuo entre diferentes expressões de fé e afirma que a resposta ao episódio deve ser o diálogo e a busca da paz.

A OAB, por sua vez, reafirmou seu compromisso com a liberdade religiosa, a laicidade do Estado e a dignidade da pessoa humana. Para a entidade, a convivência harmônica e o respeito entre religiões são pilares do Estado Democrático de Direito.

<><> Desdobramentos

Com a repercussão do vídeo, o caso agora pode ganhar desdobramentos jurídicos. A mobilização da OAB e da comunidade católica deve resultar na formalização de representações junto ao Ministério Público do Estado do Pará, que poderá investigar se houve incitação à intolerância religiosa ou violação de direitos fundamentais. A Delegacia de Polícia Civil também foi citada nas manifestações como responsável por averiguar o caso.

Enquanto isso, os fiéis seguem com a programação da festividade de Sant’Ana, marcada pela fé, resistência cultural e, agora, pelo desejo de que a paz religiosa se restabeleça na comunidade. Para muitos moradores, o episódio serviu de alerta sobre os desafios ainda presentes na convivência entre diferentes credos, mesmo em localidades marcadas por uma história de fé tão profunda quanto a de Igarapé-Miri.

•        Louvores no top 200: como o gospel se tornou onipresente nas paradas do streaming

Quem passa o olho na principal parada brasileira do streaming já percebeu: o gospel é um estilo onipresente. No ranking do Spotify, nove faixas do gênero aparecem entre as 200 mais ouvidas do país neste mês.

Todas são gravações ao vivo, o que reforça não só uma busca por trazer para casa dos ouvintes o mesmo clima de cerimônias religiosas. É um fenômeno que também acontece no sertanejo: o público valoriza a espontaneidade e a atmosfera de shows, com aplausos e momentos de entrega que não existem em versões de estúdio.

Não é um fenômeno novo, é claro, mas parece ser um momento de consolidação. Canções religiosas passaram a ter presença fixa em rankings dominados por pop, sertanejo e funk. Diferentemente de outros momentos, elas não só aparecem nos rankings. Agora, elas permanecem.

<><> Fhop Music

É o caso de “Tu és + Águas Purificadoras”, da fhop music, ministério ligado a uma casa de oração de Florianópolis. A faixa está há 478 dias entre as mais tocadas. O número impressiona: quase um ano e meio de audiência constante, com mais de 120 milhões de streams no total.

Fundado em 2014 por pastores que vieram da International House of Prayer nos Estados Unidos, o grupo busca criar canções “baseadas em oração, intercessão e estudo bíblico constante”.

<><> Alexsander Lucio

Outro destaque do top 200 é do cantor Alexsander Lucio, com “O Fogo Arderá”. A faixa soma 9,3 milhões de streams em 52 dias na parada. Ele canta desde criança e passou a ficar conhecido a partir de apresentações no Calçadão de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Alexsander ficou mais de cinco anos soltando a voz nesse ponto comercial e hoje é nome forte do gospel, com agenda lotada de shows e cerca de 300 mil seguidores no Instagram.

Isadora Pompeo aparece com duas faixas no top 200. Com “Ovelhinha”, a cantora gaúcha já bateu a marca de 64 milhões de reproduções. “Bênçãos Que Não Têm Fim (Counting My Blessings)” passou de 156 milhões de execuções, com 514 dias de presença no ranking.

O repertório de Isadora é voltado para o pop rock, com arranjos pulsantes e com refrões de sílabas alongadas. Fãs de Imagine Dragons, grupo americano com presença constante em festivais como Rock in Rio e Lollapalooza, têm grandes chances de curtir.

A longevidade desses sucessos é outro fator que impressiona. É comum acompanhar um crescimento mais lento de músicas gospel nas paradas. Artistas do estilo como MORADA, Gabriel Guedes e Vitor Santana são exemplos de donos de músicas que reapareceram nas paradas, após sumirem por um tempo.

Com gravações ao vivo, letras de fé e apelo emocional, o gospel se consolida cada vez mais nas paradas brasileiras. Mais do que tendência, é um reflexo de um público fiel que consome, compartilha e mantém esses sucessos com destaque no top 200.

 

Fonte: g1

 

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