sábado, 26 de julho de 2025

Ucrânia entre cessar-fogo e colapso político: paz com a Rússia avança após nova rodada de negociação?

Em meio aos protestos contra decisões do ucraniano Vladimir Zelensky e aumento da instabilidade política interna, Rússia e Ucrânia realizaram nesta quarta-feira (23) a terceira rodada de negociações pelo fim do conflito entre os dois países. Especialistas analisaram o panorama das discussões à Sputnik Brasil.

Pela terceira vez no ano, Rússia e Ucrânia voltaram à mesa de negociações em Istambul, na Turquia, por mais de uma hora. Apesar da delegação russa pontuar que as propostas de cada lado para a resolução do conflito ucraniano seguem distantes, alguns avanços foram registrados: o acordo para a troca de cerca de 1,2 mil prisioneiros, maior número desde o início da operação militar especial, além da proposta de Moscou de dois cessar-fogos curtos para a retirada de corpos e militares feridos da linha de frente de combates.

As delegações também conversaram sobre a possibilidade de manutenção de um canal de diálogo virtual constante entre os dois países e ainda a realização de uma quarta rodada de conversas.

O pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Sobre África, Ásia e Relações Sul-Sul (NIEAAS) e doutorando em história comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Eden Pereira Lopes da Silva ressalta à Sputnik Brasil que o encontro consolida a retomada dos contatos entre Rússia e Ucrânia e mostra avanços, mesmo que lentos.

"Inclusive vimos que os acordos realizados na negociação anterior foram cumpridos. Ainda que lentos e graduais, os avanços estão ocorrendo. Considerando as pressões que a Ucrânia enfrenta, como o início de um processo de instabilidade política interna, com protestos contra o governo Zelensky nos últimos dias, e também o fato de que o apoio dos Estados Unidos tem diminuído em termos diplomáticos e políticos (embora não militarmente), tudo isso influencia nesse cenário", avalia.

O especialista enfatiza ainda que a Rússia tem sido realista no processo de negociação: "Há a compreensão de que não será por meio de uma única reunião que se decidirá o processo de paz na Ucrânia, é uma construção e ainda existem diversos passos a serem constituídos". Já no lado ucraniano, o pesquisador não vê clareza do governo Zelensky sobre como alcançar um cessar-fogo e também a paz na região.

"Embora hoje adote uma postura um pouco mais pragmática do que no passado, ainda enxerga a possibilidade de reintegrar alguns dos territórios. Também há uma visão [na Ucrânia] de que o conflito não necessariamente acabará, mas que um cessar-fogo poderá funcionar como um armistício. Essa é uma perspectiva presente tanto na Ucrânia quanto entre alguns políticos da Europa e dos Estados Unidos", diz, ao lembrar que Moscou quer uma resolução definitiva.

<><> 'Sem respaldo interno da própria população'

As negociações ocorreram um dia depois de protestos tomarem as ruas de várias cidades ucranianas, incluindo Kiev, contra uma lei assinada por Zelensky que retira a autonomia de órgãos de combate à corrupção, um dos principais problemas do país e que cresceu ao longo do atual conflito.

"Politicamente, há dificuldades, inclusive no que diz respeito ao respaldo interno de sua própria população. Mesmo assim, acredito que é possível [chegar a um acordo], mas isso partirá de um processo de convencimento e de mudança da própria posição do governo ucraniano, seja esse atual ou um novo, que pode surgir devido à crise política".

Já o professor de geopolítica da Universidade do Estado do Mato Grosso (UNEMAT) Vinicius Modolo acrescenta à Sputnik Brasil que a continuidade de Zelensky no poder não é legítima há mais de um ano, já que não houve a convocação de eleições em 2024. Para o especialista, o ucraniano atua hoje mais como um "representante ocidental do que alguém verdadeiramente comprometido com a paz de seu país".

"A população ucraniana há muito tempo demonstra insatisfação com as medidas adotadas pelo presidente e seus ministros, tanto no recrutamento quanto na condução do conflito e nos discursos públicos. Isso tem causado mais sofrimento ao povo ucraniano do que, por vezes, os próprios ataques russos, que visam alvos militares. Considerando a permanência de Zelensky no poder, acho bastante complicada qualquer negociação de paz que realmente avance. Uma questão importante seria justamente sua substituição ou saída", defende.

<><> Europa quer a manutenção do conflito na Ucrânia?

Com a mudança de rota do governo norte-americano desde a chegada do presidente Donald Trump no poder, a Europa tem sido cada vez mais a fiadora ucraniana no conflito com a Rússia. Na última semana, um suposto áudio do primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz, flagrou o político defendendo a permissão de novos ataques ucranianos contra o território russo, o que seria uma "linha de defesa" para a União Europeia.

O pesquisador Eden Pereira avalia que Berlim se posiciona cada vez mais como um dos principais apoiadores de Zelensky, juntamente com o Reino Unido, muitas vezes com o objetivo de reativar a indústria militar do continente.

"Portanto, os europeus não têm adotado uma posição construtiva nesse diálogo. Diferente de outros países, como Brasil, China e, em certa medida, a própria Turquia, que tem sido uma grande mediadora das negociações e tem cumprido um papel muito importante nesse processo. A Turquia, embora faça parte da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte], também tem interesse nas negociações de paz na Ucrânia. É ela quem hospeda essas negociações", resume.

O professor da UNEMAT concorda e acrescenta que a aliança vê a Ucrânia como um "laboratório para novas táticas e formas de guerra moderna" e, por conta disso, atua de forma significativa para atrapalhar a resolução do conflito. "Creio que a OTAN, mais do que a União Europeia, por ser o braço militar do Ocidente, atrapalha as negociações de paz. Ela envia armamentos, equipamentos e oferece suporte logístico e de inteligência à Ucrânia, o que contribui para a continuidade".

<><> Ucrânia: conflito perto do fim ou de uma escalada?

Enquanto a Rússia amplia cada vez mais as conquistas no campo de batalha e se aproxima de uma libertação completa na região de Donetsk, a Ucrânia segue incapaz de apresentar vitórias significativas, tanto para a população quanto os fiadores europeus. É o que resume o pesquisador Eden Pereira, que vê o início de uma nova fase do conflito.

"Desde 2023, com a estabilização da guerra, passamos por diferentes fases. Na primeira, tivemos o início da operação militar, que forçou a Ucrânia à mesa de negociações. Quase se chegou a um acordo, que foi dinamitado por Reino Unido e Estados Unidos. Depois, veio uma segunda fase entre 2023 até o momento, com a Rússia retomando a libertação das regiões que hoje já são parte da Federação da Rússia. Estamos, portanto, em uma nova fase do conflito, onde essas negociações são um esforço para estabelecer um cessar-fogo, mas até chegar a isso ainda é um processo longo", finaliza.

<><> Colapsará em poucos dias: analista prevê destino da defesa dos soldados ucranianos em Krasnoarmeisk

Exército russo está circundando com sucesso a cidade de Krasnoarmeisk ocupada pelas forças ucranianas (Pokrovsk, na denominação ucraniana) na República Popular de Donetsk (RPD), afirmou o analista geopolítico britânico Alexander Mercouris no canal no YouTube.

Mercouris destacou que é provável que dentro de algumas semanas a defesa ucraniana da cidade caia. Segundo ele, as tropas russas cortam o suprimento da guarnição ucraniana cercada em Krasnoarmeisk.

"Agora, podemos estar testemunhando um colapso nas defesas da cidade, que terminará em poucos dias ou algumas semanas", ressaltou.

Os russos, continuou, se aproximam dos principais centros de transporte e da rodovia E50, tornando a situação crítica para o adversário.

Ao mesmo tempo, enfatizou o analista, as forças ucranianas ainda não estavam cercadas em tal número significativo. Em Krasnoarmeisk, finalizou o especialista, há três brigadas ucranianas, ou seja, até 24.000 combatentes no total.

Krasnoarmeisk é o centro de transporte mais importante do inimigo em Donbass. A cidade fica a 66 quilômetros a noroeste de Donetsk. Há combates na cidade.

Como o chefe da RPD, Denis Pushilin, disse na segunda-feira (21), as tropas russas continuam cobrindo Krasnoarmeisk. Segundo ele, as principais ações militares nessa direção se desdobraram na área do povoado de Udachnoe.

¨      'Deve sair': autoritarismo é cada vez mais evidente no governo de Zelensky, diz mídia

No regime de Vladimir Zelensky, as características autoritárias são cada vez mais evidentes, por isso ele deve abandonar o cargo de presidente da Ucrânia, escreve o jornal britânico The Telegraph.

"Zelensky não pode mais ajudar a Ucrânia, ele agora é parte do problema", enfatiza a publicação.

Ressalta-se que, ao longo do ano passado, o chefe do regime de Kiev tem repetidamente prolongado a lei marcial, destruindo gradualmente a oposição para se manter no poder. Assim, muitos meios de comunicação da oposição foram fechados e milhares de empresários e políticos estão sendo detidos sob acusações inventadas de ter relações com a Rússia.

"Há agora um perigo de que ele venha a copiar seus antecessores corruptos no cargo de presidente. Portanto, para o bem da Ucrânia, ele deve se aposentar", aponta o jornal.

O mandato de Vladimir Zelensky expirou em 20 de maio do ano passado. As eleições presidenciais na Ucrânia em 2024 foram canceladas, alegando a lei marcial e a mobilização militar geral. O líder ucraniano declarou que as eleições não eram oportunas.

Anteriormente, o presidente russo Vladimir Putin afirmou repetidamente que Zelensky, tal como outros representantes do poder na Ucrânia, são ilegítimos.

¨      Analista prevê futuro de Zelensky após fim do conflito russo-ucraniano

Os Estados Unidos prepararam para o líder atual ucraniano, Vladimir Zelensky, o último papel na sua vida política, afirmou o ex-agente da CIA Graham Fuller no canal do YouTube Dialogue Works.

Fuller destacou que Zelensky vai assumir toda a humilhação da derrota ucraniana no confronto com a Rússia.

Segundo o analista, a situação na Ucrânia exige um bode expiatório, ou seja, que Zelensky assuma a culpa por tudo.

"Eu acho irônico que este seja o último e trágico papel de Zelensky. Ele assumirá toda a humilhação da derrota", ressaltou.

O especialista acrescentou que é muito provável que os Estados Unidos não tentem nem mesmo culpar outra pessoa.

Assim, finalizou Fuller, é Zelensky quem terá que reconhecer a dolorosa realidade da Ucrânia e da Europa e aceitar sua própria derrota.

A terceira rodada de negociações entre a Rússia e a Ucrânia em Istambul terminou ontem (23) e durou cerca de uma hora.

Na coletiva após a reunião, o chefe da delegação russa, Vladimir Medinsky, anunciou novos acordos para a troca de prisioneiros, corpos dos soldados mortos e propostas para uma curta trégua de 24 ou 48 horas para levar os feridos e os corpos dos combatentes.

Medinsky também expressou a esperança que os contatos com o lado ucraniano possam prosseguir, indo além das discussões entre delegações. Durante as negociações, Moscou propôs a Kiev a criação de três grupos de trabalho para resolver o conflito, proposta que o lado ucraniano se comprometeu a avaliar.

¨      Trump não entende que conflito ucraniano é mais profundo do que só uma questão de fronteira, escreve revista

O presidente dos EUA, Donald Trump, vê o conflito entre Rússia e Ucrânia como uma disputa territorial, escreve a revista Responsible Statecraft.

A revista destaca que o líder estadunidense não se importa com o contexto geopolítico do confronto na Ucrânia.

"A equipe de Trump se concentrou mais em [...] tratar o conflito mais como uma disputa sobre onde deveria estar a fronteira ucraniana do que como um conflito geopolítico mais amplo entre a Rússia e o Ocidente", ressalta a publicação.

Segundo o artigo, as autoridades russas expressaram que sua principal preocupação é a Ucrânia potencialmente se juntar à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou hospedar forças militares ocidentais.

Isso levou Moscou a propor projetos de tratados aos EUA e à OTAN buscando garantias juridicamente vinculativas contra tais desenvolvimentos.

Assim, finaliza a publicação, há só um caminho de resolver o problema da Ucrânia: dar a Moscou garantias claras de que a Ucrânia não vai aderir à OTAN e que as tropas da OTAN não serão estacionadas na Ucrânia.

Nos últimos anos, a atividade da OTAN tem crescido nas fronteiras ocidentais da Rússia a um ritmo sem precedentes. A aliança está ampliando suas iniciativas e chama isso de "dissuasão da agressão russa".

Moscou expressou repetidamente preocupação com o acúmulo de forças do bloco na Europa. O Kremlin observou que a Rússia não ameaça ninguém, mas não ignorará ações potencialmente perigosas para seus interesses.

<><> Governo Trump elogia acordo entre Rússia e Ucrânia sobre trocas de prisioneiros

Os Estados Unidos elogiaram o acordo entre Rússia e Ucrânia sobre novas trocas de prisioneiros de guerra, estabelecido durante a terceira rodada de negociações diretas, disse Tommy Pigott, porta-voz adjunto do Departamento de Estado, nesta quinta-feira (24).

"Estamos cientes de que uma terceira rodada de negociações diretas ocorreu entre as duas partes. Apoiamos os apelos constantes por um cessar-fogo total e incondicional […] e saudamos a notícia de que a Rússia e a Ucrânia concordaram com uma nova troca de prisioneiros, especialmente os gravemente doentes e feridos."

terceira rodada de negociações entre Rússia e Ucrânia ocorreu em Istambul, ontem (23). Ela foi realizada no Palácio Ciragan, em formato fechado, após uma reunião privada entre os chefes das delegações — o assessor presidencial russo Vladimir Medinsky e o secretário ucraniano do Conselho de Segurança Nacional, Rustem Umerov.

Entre outros assuntos, foi discutida a questão do retorno de civis levados pelas tropas ucranianas durante o ataque à região russa de Kursk, disse Medinsky após as tratativas.

A Rússia também propôs a Kiev trocar pelo menos 1,2 mil prisioneiros de cada lado — um número inédito desde o início da operação militar especial, em 2022.

Além disso, Moscou sugeriu um acordo para que sejam viabilizados dois cessar-fogos curtos, respectivamente de 24 horas e 48 horas, a fim de permitir a retirada de feridos e corpos das linhas de frente do combate

¨      Hungria: transformação do orçamento da União Europeia no 'orçamento da Ucrânia' é inaceitável

A Hungria é categoricamente contra a transformação do orçamento da União Europeia (UE) em “orçamento da Ucrânia”, disse o ministro das Relações Exteriores e das Relações Econômicas Externas da Hungria, Peter Szijjarto, em entrevista à Sputnik .

"Esta proposta para um novo orçamento de sete anos da União Europeia é totalmente inaceitável para nós. Não vamos dar qualquer apoio ou consentimento. Não é um orçamento da União Europeia - é um orçamento da Ucrânia", disse Szijjarto, respondendo à pergunta sobre os fundos destinados à Ucrânia no orçamento da UE para 2028-2034.

Em 16 de julho, a chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentou sua proposta sobre o montante e os programas de gastos do próximo orçamento plurianual da UE para 2028-2034, que os especialistas haviam chamado anteriormente de "insustentável".

De acordo com a proposta da CE, o orçamento será de cerca de 2 trilhões de euros (R$ 12,9 trilhões). Cerca de 100 bilhões de euros (R$ 649 bilhões) são propostos para assistência à Ucrânia. No entanto, a Hungria afirma, citando vários especialistas, que a parte real da ajuda à Ucrânia no orçamento europeu pode atingir 25%.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

Nenhum comentário: