Lindener
Pareto: O adereço final - Bolsonaro e a tragédia brasileira
Cá
entre nós, leitoras, leitores, a História, essa senhora caprichosa e irônica,
tem um senso de humor peculiar. Ela, que adora um bom drama e uma reviravolta
inesperada, parece ter orquestrado mais um ato no grandioso e, por vezes,
circense palco da vida política brasileira. No dia 18 de julho de 2025, um novo
acessório entrou em cena, desta feita não nas glamourosas passarelas da moda,
mas no tornozelo de um dos personagens mais controversos de nossa recente e
trágica memória: a tornozeleira eletrônica de Jair Bolsonaro.
Um
artefato simples, metálico e discreto, mas que carrega consigo o peso de uma
narrativa complexa, onde o cômico e o trágico se entrelaçam em uma dança
macabra. A presença de Bolsonaro, mesmo fora da cadeira presidencial, permanece
um fenômeno polarizador, um eco persistente que ressoa nas conversas de boteco
e nos debates acadêmicos. Ele é um daqueles “fósseis” que insistem em resistir
à indignação, desafiando a linearidade de qualquer narrativa histórica
conveniente.
Esta
mais recente medida judicial não é apenas um fato jurídico, ela é, antes de
tudo, um símbolo potente. Sintetiza as dimensões da farsa e da tragédia que
marcam sua passagem pela História do Brasil. A tornozeleira, nesse sentido, não
é apenas um dispositivo de monitoramento, ela é um epitáfio em tempo real, um
lembrete físico de uma jornada política que se moveu do pódio ao pátio da
Polícia Federal, do poder ilimitado à vigilância constante.
Diante
de tal cenário, a reação de Bolsonaro foi imediata e previsível: ele se
declarou “apanhado de surpresa” e classificou a medida como uma “suprema
humilhação” (quantos nomes de filmes e livros, não?) negando qualquer plano de
fuga. Seus aliados no Congresso Nacional, por sua vez, ecoaram a indignação,
denunciando as ações como uma “perseguição política disfarçada de ação
judicial” e um atentado à oposição, argumentando a ausência de provas
conclusivas para justificar tais restrições.
Se a
tornozeleira representa o lado trágico do enredo, a “comédia bolsonarista” é um
gênero à parte, com roteiro próprio, muitas vezes improvisado e sempre
polêmico. Bolsonaro construiu sua imagem pública, em grande parte, sobre um
suposto “estilo autêntico”, permeado por declarações controversas, “piadas” de
gosto duvidoso e gafes que, para seus apoiadores, eram sinais de espontaneidade
e coragem, enquanto para críticos, revelavam preconceito e desrespeito.
Quem
não se lembra da “gripezinha” em meio a uma pandemia que ceifava vidas aos
milhares, ou do “não sou coveiro”? E as pérolas direcionadas aos próprios
ministros (tão nefastos quanto ele), como o “vai fazer um troca-troca com o
Sales?”, ou a piada de mau gosto com um homem de ascendência asiática no
aeroporto de Manaus, questionando o tamanho de seu órgão sexual? Já pensou em
um analista lacaniano diante do Jair?
O
problema é que o divã de Jair é o povo brasileiro. O fato é que tais momentos,
que variavam entre o deboche e o absurdo, tornaram-se virais, gerando audiência
e polêmica. Eles eram, em sua essência, uma forma de comunicação política que,
sob a máscara de um humor rasteiro, buscava legitimar discursos violentos e
trivializar temas sérios.
Lembremos
do “Popcorn and ice cream sellers sentenced for coup attempt in Brazil”,
proferido em inglês macarrônico, que virou meme e motivo de chacota, mas que,
no fundo, buscava descredibilizar a justiça com uma dose de humor involuntário.
Essa “comédia” não era inofensiva. Ela operava na fronteira tênue entre o
risível e o perigoso, normalizando o que antes seria inaceitável. O riso, nesse
contexto, servia como um véu, uma cortina de fumaça que disfarçava a seriedade
das intenções e o potencial destrutivo das palavras. A pseudo-ironia na
“comédia bolsonarista” tornava-se um escudo para a irresponsabilidade e um
vetor para a polarização. A palavra, a linguagem bolsonarista é orientada pela
violência brutal e pela morte como premissa.
Mas se
há comédia, há também a tragédia, e esta é a face mais sombria e dolorosa da
saga bolsonarista. As consequências de sua trajetória política vão muito além
das piadas e dos memes, deixando cicatrizes profundas na sociedade brasileira e
em suas instituições. Seu autoritarismo, os constantes ataques à imprensa, a
proliferação de notícias falsas e o ataque sistemático às instituições
democráticas representaram (representam) um risco real de “danos irreparáveis”
à sociedade brasileira.
Lembremos
que o seu governo foi marcado por um negacionismo histórico delirante, com a
tentativa de redimir e, sobretudo, ostentar as brutalidades da Ditadura
Militar. Essa postura, de apologia à tortura e à violência, como sua infame
declaração de que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”, não era apenas
uma provocação, mas uma tentativa de reescrever o passado para justificar o
presente e o futuro.
No
campo das políticas públicas, o impacto foi devastador. A pandemia de covid-19
expôs a face mais trágica de sua administração, com a minimização da gravidade
da doença, o questionamento das medidas de isolamento social e a promoção de
tratamentos sem comprovação científica, como a cloroquina. Tais atitudes
geraram um ambiente de desconfiança nas instituições científicas e de saúde
pública, agravando a crise sanitária e contribuindo para a trágica marca de
mortes que assombra o país e o mundo.
A
tragédia bolsonarista, portanto, reside na erosão de qualquer consenso
democrático, na instrumentalização da desinformação para polarizar a sociedade
e na demolição de conquistas e direitos básicos. É a concretização da “maldade”
que, como na “Divina Comédia” de Dante Alighieri, se manifesta ora através da
violência, ora através da fraude, praticadas contra aqueles que nele confiaram
ou contra estranhos que dele suspeitavam. A tornozeleira, nesse contexto, não é
apenas um instrumento de controle, é um símbolo da inevitabilidade das
consequências, um lembrete físico de que, na História, a farsa pode até
entreter por um tempo, mas a tragédia sempre cobra seu preço.
Bolsonaro,
com sua tornozeleira e seu legado, não é apenas um indivíduo, ele é, em muitos
aspectos, um sintoma. Um sintoma de profundas divisões sociais, de uma
descrença na “política tradicional” e de uma busca por respostas simplistas
para problemas complexos. Sua ascensão e a persistência de seu “fenômeno”
escancaram fraturas na sociedade brasileira que antecedem sua figura e que,
provavelmente, persistirão após seu declínio. Ele foi, e ainda é, um espelho
distorcido de anseios e frustrações, um catalisador de sentimentos que já
fervilhavam.
O
desafio que se impõe à História, e a nós, seus observadores e participantes, é
o de conciliar a comédia e a tragédia que ele representa. Como registrar para
as futuras gerações a figura de um presidente que fazia piadas com a morte e,
ao mesmo tempo, presidia um governo com consequências tão graves para a
democracia e a vida de milhões? Como separar o bufão do algoz, o risível do
lamentável? A tarefa não é simples, e talvez não caiba a nós, no calor do
momento, dar a palavra final.
O que
fica claro é que o capítulo Bolsonaro, com sua tornozeleira como ponto final
(ou talvez um ponto e vírgula), é um convite à reflexão sobre a resiliência das
instituições, a fragilidade da verdade em tempos de desinformação e a
importância de uma memória histórica que não se deixe seduzir pela conveniência
ou pela simplificação. O Brasil, esse palco-mosaico de infinitas peças, segue
em frente, carregando as tristes marcas de um passado recente que, entre risos
nervosos e lágrimas amargas, nos ensina, a duras penas, que a História – essa velha mestra – pode até não ensinar a
viver, mas oferece perspectiva crítica, não perdoando a ignorância e banalidade
do mal. E a tornozeleira é apenas mais um adereço nesse espetáculo contínuo, um
lembrete de que, mesmo os maiores palhaços assassinos, um dia, precisam acertar
as contas com o picadeiro.
• Máxima humilhação: O peso que não vem do
tornozelo. Por Eliana Alves Cruz
O
ex-presidente do República Federativa do Brasil está com um dos tornozelos
ocupado por um equipamento eletrônico, usado por quem precisa ser monitorado
pela justiça. Nas palavras do Jair, o uso do acessório é o “símbolo da máxima
humilhação”. Sério mesmo, Messias? Máxima, tipo assim… topo? Nada pior que
isso?
O povo
da nação que você afirmava estar acima de tudo, abaixo apenas de Deus, tem
outras experiências para compartilhar quando o assunto é afronta, mortificação,
desonra e vexame. Vejamos.
Tivesse
o Jair alguma noção do que seja vergonha, engoliria suas palavras no meio do
caminho até a ponta da língua. Seria absurda a sua fala não fosse este um lugar
que dizimou milhões de indígenas, roubou, saqueou e ocupou suas terras,
induzindo populações inteiras a situações degradantes em pleno 2025.
Não
fosse este o chão onde pisaram mais de 5 milhões de pessoas sequestradas para
viajar em cima de excrementos e terminar escravizadas ao longo de quase 400
anos, nem assim esse homem poderia falar em humilhação, quanto mais máxima!
Jair
Messias se dizer envergonhado seria aviltante mesmo que não fosse este o
território sempre no topo das listas dos que mais matam mulheres, pessoas
LGBTQIAPN+ e jovens negros na terceira década do século 21. Violências que ele
sempre fez questão de ignorar.
No
entanto, como o Brasil foi e é o palco destes atos tenebroso no teatro da
história da humanidade e ele não faz a menor ideia do que possa ser nada disso,
grita aos quatro ventos que sabe o que é ser pisado. Não pensa meia vez em
afirmar que estão querendo humilhá-lo, como não hesitou em imitar gente
morrendo asfixiada na crueldade da pandemia, massacrando a dignidade humana
centenas de milhares de doentes e suas famílias.
Como há
décadas é pago pelo povo brasileiro exercendo cargos públicos, ele também não
tem a menor ideia da indignidade que a fome obriga e fechou os olhos para a
barriga vazia de seus compatriotas, que reviravam lixo e comiam ossos, fazendo
o país figurar outra vez num mapa do qual já havia saído.
O homem
que agora olha as câmeras com ares de grande injustiçado, propositalmente
esqueceu que construiu a carreira com a argamassa da ofensa e o cimento da
calúnia, humilhando toda e qualquer pessoa que ousasse se opor ao seu jeito de
tripudiar de quem foi ou teve familiares desaparecidos, torturados e mortos no
período de chumbo da ditadura.
E nem
falamos nos motivos objetivos que o levaram a ficar, como dizem no nordeste,
com o “mocotó grosso”, ou seja, as tentativas antidemocráticas para se
perpetuar no poder.
Os
índices de desemprego e subemprego, as negligências com a saúde e a educação, o
escárnio com os trabalhadores e trabalhadoras da cultura nacional, as violações
incontáveis aos direitos humanos, as ofensas diárias em rede nacional a
cidadãos e cidadãs que mereciam ter ao menos o olhar respeitoso de quem ocupava
a cadeira da presidência da república de um país tão vasto, diverso e
importante… nada disso, para o Jair é sinônimo de humilhação.
O que é
humilhante para Jair Messias Bolsonaro, o que massacra sua vaidade, é estar em
casa, arrastando uma trava feita de borracha, fibras óticas e outros materiais
que somados pesam entre 100 e 200 gramas, cercado de aduladores profissionais e
com a conta recheada de contribuições milionárias enviadas por pix. Isto sim
para o senhor Jair é humilhante.
Imagine
se alguém dissesse que ele, como bovinos e outros animais irracionais, precisa
ser pesado em arrobas?
Não
fosse todo o resto, ainda teve isso.
• Moraes é 'coração' da 'censura' contra
Bolsonaro, afirma subsecretário do governo Trump
Darren
Beattie, subsecretário de Diplomacia Pública dos Estados Unidos, afirmou nesta
quinta-feira (24/07) que Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), é o "coração pulsante" da "perseguição" e da
"censura" ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A
mensagem, postada na rede social X, foi republicada pela Embaixada dos Estados
Unidos no Brasil.
Beattie
exaltou que o governo Trump estaria respondendo à situação.
"O
Juiz Moraes é o coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra
Jair Bolsonaro, que por sua vez cerceou a liberdade de expressão nos Estados
Unidos. Graças à liderança do Presidente Trump e do Secretário Rubio, estamos
atentos e tomando medidas", escreveu o subsecretário, subordinado a Marco
Rubio, secretário de Estado americano.
Alexandre
de Moraes é relator de investigações e de uma ação penal que afetam Bolsonaro,
seus filhos, aliados e apoiadores.
Na ação
penal, Bolsonaro é réu por acusações de liderar organização criminosa armada;
tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito; golpe de
Estado; dano contra patrimônio da União; e deterioração de patrimônio tombado.
Por
decisão de Moraes, o ex-presidente foi submetido a medidas cautelares como o
uso tornozeleira eletrônica; recolhimento domiciliar noturno, em fins de
semanas e feriados; e a proibição de aparição e publicação nas redes sociais,
suas e de terceiros.
Por
conta de um vídeo postado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP),
Moraes exigiu na segunda-feira (21) explicações da defesa de Bolsonaro no prazo
de 24h, sob pena de prisão.
No
vídeo, Jair Bolsonaro aparecia mostrando a tornozeleira eletrônica e chamando o
equipamento de "símbolo da máxima humilhação".
Após
receber esclarecimentos da defesa, Moraes afirmou nesta quinta-feira que a
postagem do vídeo na conta de Eduardo foi uma "irregularidade
isolada", insuficiente para decretar a prisão preventiva de Jair.
Fonte:
ICL Noticias/BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário