sábado, 26 de julho de 2025

Trump é acusado por senadores democratas de 'claro abuso de poder' por tarifas ao Brasil

Senadores democratas enviaram uma carta ao presidente dos Estados UnidosDonald Trump, contestando as tarifas de 50% impostas às importações do Brasil, nesta quinta-feira (24).

Os 11 parlamentares de oposição que assinam o documento encaminhado à Casa Branca acusam o republicano de "claro abuso de poder" e afirmam que ele está usando "a economia americana para interferir em favor de um amigo", referindo-se ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

"Escrevemos para expressar sérias preocupações sobre o claro abuso de poder presente em sua recente ameaça de iniciar uma guerra comercial com o Brasil. (...) Interferir no sistema legal de uma nação soberana estabelece um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca cidadãos e empresas americanas em risco de retaliação", apontam.

Os democratas, que são minoria no Senado americano, também argumentam que uma retaliação do Brasil aumentaria os custos de vários produtos para famílias e empresas americanas.

Destaca que o país importa mais de US$ 40 bilhões por ano do Brasil - sendo US$ 2 bi só de café - e que o comércio bilateral sustenta cerca de 130 mil empregos nos EUA.

Além disso, a aproximação crescente do Brasil e outros países com a China também é citada como uma grande preocupação:

"Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder, enfraquece a influência dos EUA no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região. (...) Uma guerra comercial com o Brasil também aproximaria o país da República Popular da China (RPC) em um momento em que os EUA precisam combater agressivamente a influência chinesa na América Latina".

Nesta sexta-feira (25), uma comissão de senadores brasileiros embarca para os Estados Unidos, em busca de abrir um canal de negociações no território americano sobre o "tarifaço".

No entanto, segundo o jornalista Valdo Cruz, a equipe do presidente Lula ouviu que Trump não autorizou o diálogo da Casa Branca com o Brasil.

Um dia antes, nesta quinta-feira, um novo ponto de polêmica foi adicionado aos embates entre os dois países. O encarregado de negócios da embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, manifestou o interesse do governo norte-americano nos minerais críticos e estratégicos do Brasil.

Em discurso, Lula defendeu a soberania do Brasil sobre suas riquezas naturais e afirmou:

“Temos todo o nosso petróleo para proteger. Temos todo o nosso ouro para proteger. Temos todos os minerais ricos que vocês querem para proteger. E aqui ninguém põe a mão. Este país é do povo brasileiro”, disse o presidente.

Leia a íntegra da carta abaixo:

"Prezado Presidente Trump,

Escrevemos para expressar sérias preocupações sobre o claro abuso de poder presente em sua recente ameaça de iniciar uma guerra comercial com o Brasil. Os Estados Unidos e o Brasil têm questões comerciais legítimas que devem ser discutidas e negociadas. No entanto, a ameaça de tarifas feita por sua administração claramente não se refere a isso. Tampouco se trata de um déficit comercial bilateral, já que os EUA tiveram um superávit de US$ 7,4 bilhões em bens com o Brasil em 2024 e não registram déficit comercial com o país desde 2007.

Na verdade — como o senhor afirma explicitamente em sua carta ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva — a ameaça de impor tarifas de 50% sobre todas as importações do Brasil e a ordem para que o Representante de Comércio dos EUA inicie uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 têm como principal objetivo forçar o sistema judiciário independente do Brasil a interromper a acusação contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Interferir no sistema legal de uma nação soberana estabelece um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca cidadãos e empresas americanas em risco de retaliação. O Sr. Bolsonaro é um cidadão brasileiro sendo processado nos tribunais brasileiros por ações alegadamente cometidas sob jurisdição nacional. Ele é acusado de tentar minar os resultados de uma eleição democrática no Brasil e de planejar um golpe de Estado.

Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder, enfraquece a influência dos EUA no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região. O anúncio de sua administração em 18 de julho de 2025, de sanções de visto contra autoridades judiciais brasileiras envolvidas no caso do Sr. Bolsonaro, indica — mais uma vez — a disposição de sua administração em priorizar sua agenda pessoal em detrimento dos interesses do povo americano.

Suas ações aumentariam os custos para famílias e empresas americanas. Os americanos importam mais de US$ 40 bilhões por ano do Brasil, incluindo quase US$ 2 bilhões em café. O comércio entre EUA e Brasil sustenta cerca de 130 mil empregos nos Estados Unidos, que estão em risco diante da ameaça de tarifas elevadas. O Brasil também prometeu retaliar, e o senhor prometeu retaliar em resposta — o que significa que os exportadores americanos sofrerão e os impostos sobre importações para os americanos aumentarão além do nível de 50% que o senhor ameaçou.

Uma guerra comercial com o Brasil também aproximaria o país da República Popular da China (RPC) em um momento em que os EUA precisam combater agressivamente a influência chinesa na América Latina. Empresas estatais e ligadas ao Estado chinês estão investindo fortemente no Brasil, incluindo vários projetos portuários em andamento. Recentemente, o China State Railway Group assinou um Memorando de Entendimento para estudar um projeto ferroviário transcontinental.

Essas considerações não são exclusivas do Brasil. Em toda a América Latina, a RPC está trabalhando para ampliar sua influência por meio da Iniciativa do Cinturão e Rota. Estamos preocupados que suas ações para minar um sistema judicial independente apenas aumentem o ceticismo em relação à influência americana na região e deem mais credibilidade à agenda de autoridades e empresas estatais chinesas. A mesma tendência também está ocorrendo no Leste e Sudeste Asiático.

Os objetivos principais dos EUA na América Latina devem ser o fortalecimento de relações econômicas mutuamente benéficas, a promoção de eleições democráticas livres e justas e o combate à influência da RPC. Instamos o senhor a reconsiderar suas ações e a priorizar os interesses econômicos dos americanos, que desejam previsibilidade — não outra guerra comercial".

Atenciosamente,

Tim Kaine, Senador dos Estados Unidos
Jeanne Shaheen, Senadora dos Estados Unidos
Adam B. Schiff, Senador dos Estados Unidos
Richard J. Durbin, Senador dos Estados Unidos
Peter Welch, Senador dos Estados Unidos
Kirsten Gillibrand, Senadora dos Estados Unidos
Mark R. Warner, Senador dos Estados Unidos
Catherine Cortez Masto, Senadora dos Estados Unidos
Michael F. Bennet, Senador dos Estados Unidos
Jacky Rosen, Senadora dos Estados Unidos
Raphael Warnock, Senador dos Estados Unidos

¨      EUA se preparam para declarar estado de emergência para justificar tarifas sobre o Brasil, diz mídia

Segundo a Bloomberg, planos para uma declaração de estado de emergência foram anunciados em reuniões com congressistas, mas a decisão ainda não é final.

Os EUA estão preparando um documento para declarar estado de emergência com o objetivo de justificar a imposição de tarifas ao Brasil prevista para entrar em vigor em 1º de agosto. A informação foi veiculada nesta sexta-feira (25) pela Bloomberg, que citou fontes próximas ao tema.

Na quinta-feira (24), em evento em Minas Gerais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o presidente dos EUA, Donald Trump, "não quer falar" com ele sobre as tarifas anunciadas, de 50% sobre as importações brasileiras.

"O governo do presidente Donald Trump está preparando uma nova declaração de emergência que serviria de base para a imposição de tarifas ao Brasil", disse a publicação.

De acordo com um dos interlocutores da agência, os planos para uma "declaração separada de estado de emergência" foram anunciados nesta semana, durante reuniões com congressistas no Escritório do Representante Comercial dos EUA. Como observa a publicação, a decisão ainda não é final.

Em 9 de julho, Trump publicou uma carta na rede social Truth Social afirmando que os EUA imporiam uma taxa de importação de 50% a todos os produtos do Brasil a partir de 1º de agosto.

A situação do Brasil, no entanto, é diferente da de outros países mirados pelas chamadas tarifas recíprocas de Trump. Isso porque, diferentemente deles, o Brasil não acumula saldo, mas sim déficit no comércio com os EUA.

Anteriormente, Trump afirmou que qualquer Estado que apoiasse a política "antiamericana" do BRICS estaria sujeito a uma tarifa adicional de 10%. No caso do Brasil, Trump acrescentou às justificativas para a imposição de tarifas o processo que corre no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, réu por tentativa de golpe de Estado e aliado do presidente norte-americano.

¨      'Brasil está pronto para dialogar com os Estados Unidos', diz senador Jaques Wagner

Uma delegação de senadores do Brasil viajará aos Estados Unidos no fim desta semana para negociações sobre as tarifas de importação de 50% impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, disse que não interessa ao país "brigar" com Washington.

"O Brasil está pronto para dialogar com os Estados Unidos, defendendo ao mesmo tempo sua soberania. Essa é justamente a missão que um grupo de oito senadores, incluindo eu, pretende cumprir durante a visita aos Estados Unidos no fim desta semana. Confiamos no sucesso dessas negociações, pois as relações diplomáticas entre os dois países já duram 206 anos", declarou nas redes sociais.

Contudo, o senador não especificou quais temas serão discutidos nas reuniões com representantes norte-americanos. Além do petista, a delegação será composta pelos senadores Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), Carlos Viana (Podemos-MG), Esperidião Amin (PP-SC), Fernando Farias (MDB-AL), Nelsinho Trad (PSD-MS), Rogério Carvalho (PT-SE) e Tereza Cristina (PP-MS).

Horas após a divulgação pelo Congresso que o grupo de parlamentares estará nos Estados Unidos, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) afirmou que a viagem está "fadada ao fracasso".

"Trata-se de um gesto de desrespeito à clareza da carta do presidente Trump, que foi explícito ao apontar os caminhos que o Brasil deve percorrer internamente para restaurar a normalidade democrática. Buscar interlocução sem que o país tenha feito sequer o gesto mínimo de retomar suas liberdades fundamentais, como garantir liberdade de expressão e cessar perseguições políticas, é vazio de legitimidade", disse.

A expectativa é que as tarifas de importação de 50% sobre todos os produtos brasileiros entre em vigor a partir de 1º de agosto, caso o governo Trump não recue.

¨      'Agarrados nas botas' dos EUA, dispara Lula sobre opositores que buscam apoio norte-americano

Durante evento em Osasco (SP) nesta sexta-feira (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o ex-presidente Jair Bolsonaro e apoiadores por atuarem contra os interesses do país.

Ao falar do presidente dos EUA, Donald Trump, Lula denunciou pressões e ameaças, como a imposição de tarifas de 50%. Ele afirmou que regulamentará as chamadas Big Techs e que Bolsonaro não está sendo perseguido, apenas sendo julgado pela Justiça.

"O Bolsonaro está sendo julgado com todo direito de defesa. Ele tentou dar um golpe nesse país [...] chegou a montar uma equipe para matar o Lula, matar o [vice-presidente Geraldo] Alckmin e o [então] presidente do TSE [Tribunal Superior Eleitoral], Alexandre de Moraes. Isso está provado por delações deles mesmos. E deveria ter explicado isso ao presidente Trump."

"Se o Trump morasse no Brasil e ele tivesse feito aqui o que ele fez no Capitólio dos EUA, ele estaria sendo julgado. Porque nesse país, quem manda nele é o povo brasileiro", cravou.

As declarações ocorreram durante o lançamento do programa Periferia Viva, parte do Novo PAC Seleções 2025. O plano prevê R$ 4,67 bilhões em investimentos para urbanizar favelas em 32 municípios de 12 estados.

<><> Tarifaço

Donald Trump anunciou em 9 de julho que produtos brasileiros seriam submetidos a uma sobretaxa de 50%, com vigência a partir de 1º de agosto.

Durante a divulgação, o americano associou a decisão ao tratamento dispensado a Bolsonaro, atualmente réu no Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito do processo relacionado à tentativa de golpe após as eleições de 2022.

"Acho que isso é uma caça às bruxas, e acho que é muito lamentável, e ninguém está feliz com o que o Brasil está fazendo, porque Bolsonaro foi um presidente respeitado", disse Trump a jornalistas.

Já o presidente Lula, em pronunciamento feito na última quinta-feira (17) em cadeia nacional de rádio e TV, classificou a tarifa extra como uma "chantagem inaceitável".

Cerca de uma semana após o tarifaço de Trump e manifestações da família Bolsonaro e do próprio chefe da Casa Branca, Jair foi alvo de uma operação da Polícia Federal, na última sexta-feira (18). Como resultado, ele foi obrigado a usar tornozeleira eletrônica.

As ações foram determinadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, no âmbito de um processo que corre em sigilo e que foi protocolado no gabinete do magistrado em 11 de julho — dois dias após o anúncio da tarifa de 50%.

 

Fonte: g1/Sputnik Brasil

 

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