Bruxo
constrói igreja da pombagira no RS: 'Não cultuamos o diabo'
Bruxo
Malagueta, 32, pai de santo do Rio Grande do Sul, fundou a chamada "Igreja
da Pombagira", espaço religioso inspirado na quimbanda. Segundo ele, a
igreja foi criada com o propósito de acolher mulheres vítimas de diferentes
formas de violência, além de promover rituais e práticas ligados à entidade
pombagira.
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O que é a Igreja da Pombagira
Inaugurada
em janeiro deste ano, a casa localizada em Porto Alegre ficou conhecida por
abrigar uma estátua de pombagira com 9 metros de altura. Ao UOL, o bruxo
Malagueta, cujo nome é Wilian Brito, explica que o termo "igreja" foi
usado para mostrar que os frequentadores "não cultuam ao diabo" ou a
"questões negativas". "As pessoas chamam de 'centro de macumba',
e por aí vai. Mas uma casa de religião [em religiões como umbanda e candomblé,
é o local em que rituais e cerimônias são realizados] não é um local de
adoração ao diabo, e pode ser chamado de igreja porque é um local de
acolhimento, onde as pessoas são protegidas e podem ir para colocar sua fé em
prática", afirma.
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A religião predominante é a quimbanda
De
matriz africana, a quimbanda segue diversos rituais tradicionais, e uma das
principais figuras cultuadas é, justamente, a pombagira, que representa a força
feminina. "Quando nós falamos em pombagira, nós falamos da ancestralidade
feminina, principalmente das mulheres empoderadas, que conquistaram seu espaço
em meio à sociedade, mulheres à frente de seu tempo", diz o bruxo.
Referência
nacional nas religiões de matriz africana, Porto Alegre abriga cerca de 65 mil
terreiros. Apesar de a quimbanda ter semelhanças com a umbanda, há diferenças
importantes entre as duas religiões.
Segundo
Brito, a Igreja surgiu a partir da junção entre a espiritualidade e o desejo de
oferecer um espaço de proteção às mulheres. "A Igreja da Pombagira não
deixa de ser um terreiro", explica. No entanto, a casa tem uma finalidade
mais específica, já que é direcionada ao público feminino.
“Essa
ideia [de fundar a Igreja] foi do mundo espiritual. Os espíritos pediram para
que essa obra fosse levantada.” - Bruxo Malagueta
Apesar
de se dirigir a um nicho particular, o bruxo afirma que não há proibição a
homens que queiram frequentar o local. "Não é uma igreja feminista, nem
que tenha preconceito com homens, ou com pessoas de qualquer gênero que
seja", diz. "A única restrição é o machismo, não pode entrar em
hipótese alguma na igreja".
Atualmente,
a casa tem os próprios fiéis. Além das pessoas que participam da organização e
da "questão da espiritualidade dentro da Igreja", o bruxo descreve a
importância dos apoiadores —ou membros da casa. "[Os membros] acertam uma
mensalidade, para que a gente consiga colocar um profissional para tomar conta,
para cuidar do espaço", explica Brito…
Segundo
o Malagueta, até o momento, o projeto da igreja já ultrapassou os R$ 500 mil.
As melhorias seguem em andamento, e Brito afirma que cabanas serão construídas
no local para acolher os frequentadores. "Os valores são bem exorbitantes
por ser um sítio, e a infraestrutura é mais complicada. Por exemplo, para fazer
o fechamento do terreno, tem empresa cobrando R$ 120 mil", diz. "São
gastos que a gente não imaginava, mas, quando é feito com amor e carinho, em
prol da espiritualidade, a gente faz".
Além da
Igreja da Pombagira, o bruxo também conduz a Casa da Pombagira, que será
reinaugurada em Canoas (RS). "Ela já existia, já era nosso terreiro.
Porém, na época das enchentes [entre abril e maio de 2024], foi um dos lugares
mais devastados [...]. Acabamos perdendo tudo dentro do imóvel. Agora, nós
estamos reformando e será mais uma unidade da Igreja da Pombagira".
Brito
conta que tem a intenção de expandir a ideia para outros locais. "Temos
interesse, sim, em abrir o espaço em outros lugares, ou pelo menos colocar essa
nomenclatura em outras casas de religião, para que as pessoas possam começar a
respeitar as casas de religião como existe o mesmo respeito com a igreja",
explica.
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Preconceito é presente no cotidiano da igreja
O
religioso afirma que seu trabalho enfrenta diferentes formas de repúdio. Brito
conta que sofre intolerância religiosa de fiéis de outras religiões e até mesmo
de pessoas que seguem a mesma religião que ele. "Infelizmente, isso
acontece muito", explica. Os "ataques", segundo ele, não
acontecem somente no ambiente digital, e ele conta que já foi abordado
pessoalmente.
“Eu
estava caminhando na rua e um pastor veio colocar a mão na minha cabeça, orar
e, segundo ele, tirar o espírito, o demônio da pombagira de dentro de mim.”
O
episódio foi publicado nas redes sociais e chegou a quase cinco milhões de
visualizações, segundo o bruxo. No entanto, o TikTok baniu a postagem.
"Disseram que eu estava praticando intolerância religiosa. Os evangélicos,
pessoas de outras religiões, denunciaram o vídeo para que ele caísse".
De
acordo com Brito, as reações do público fazem com que suas publicações sejam
excluídas com frequência. "Em diversas redes sociais eu acabo perdendo [o
perfil] porque as próprias plataformas banem a minha conta", conta.
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Igreja oferece atendimento a mulheres, mas não tem procura
Uma das
frentes da Igreja da Pomba Gira é acolher mulheres vítimas de agressão. O
serviço é voltado para quem sofreu diferentes tipos de abuso, não somente
físico. "Principalmente o [abuso] psicológico, que as pessoas acabam
entendendo que não é algo grave, mas é", explica.
Segundo
o religioso, diversos profissionais procuraram a casa para oferecerem seus
serviços, como psicólogos, advogados e assistentes sociais. No entanto, até o
momento, não houve procura presencial por atendimento.
“Foi
uma questão que me chocou muito. Eu esperava que as pessoas viessem de todos os
lados, procurando ajuda, pedindo apoio. Não foi isso que aconteceu. A gente não
sabe se é uma questão de preconceito.”
A busca
por apoio aconteceu somente à distância. "Nós tivemos pessoas de longe, de
outros estados, entrando em contato. [Nesses casos] Nós vamos encaminhando
dentro do contexto [de cada mulher]. Incentivamos a ir à Delegacia da Mulher,
registrar o boletim de ocorrência", relata Brito.
Mesmo
sem a demanda, Brito garante que os profissionais estão à disposição de
eventuais interessadas. "[A equipe] está em um grupo nas redes sociais, no
WhatsApp, justamente para quando nós iniciarmos esse acolhimento físico
[presencial] essas pessoas possam atuar dentro das suas áreas", diz.
• ‘Orun’: Entenda o que diz a crença de
Preta Gil sobre a vida após a morte
Preta
Gil era uma grande devota de Oxum, orixá cultuada na mitologia iorubá, e de
Nossa Senhora Aparecida. Em diversas entrevistas, a cantora aparecia segurando
itens de pelúcia representando essas divindades e refletia sobre o quanto se
apoiava em suas crenças, mesmo na reta final da luta contra o câncer no
intestino.
Após
sua morte, no último domingo, 20, familiares e amigos fizeram referência à fé
da artista em suas homenagens. Francisco Gil, único filho da cantora, escreveu
em seu texto de despedida que eles, por serem "do axé", sabiam que
"a morte não é um fim".
O
babalorixá Célio D'Omolu prestou homenagem à artista, afirmando que o
"Orun" ganhou uma linda estrela. “A dor me consome, mas tenho certeza
de que você descansa em um bom lugar, no colo de nossa Mãe Oxum. Com todo o meu
amor”, disse o sacerdote.
Em
entrevista ao portal Terra, o babalorixá, professor de cultura iorubá e autor
da obra Orí: A Cabeça Como Divindade, Márcio de Jagun, explicou que
"Orun" é o céu na filosofia iorubá (Yorùbá).
“'Orun'
é uma palavra comumente traduzida como 'céu'. No entanto, numa perspectiva mais
abrangente e descolonial, propomos o entendimento do Orun como espaço sideral”
explicou.
Segundo
a tradição iorubá, existem cerca de nove espaços siderais, portanto, nove Orun:
quatro acima e quatro abaixo da Terra, não necessariamente no seu interior. O
nosso planeta também é considerado um Orun, chamado de "Aiê".
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Vida e morte na visão iorubá
“O
conceito de vida e morte no sistema iorubá é muito distinto do nosso. Enquanto,
para nós, a morte representa falência, fim, perda [...] para os iorubás, ela é
apenas um portal. Nós, espíritos — personalidades, identidades,
individualidades — ocupamos espaços nesses Orun. Quando estamos aqui no Aiê,
neste Orun que é o planeta Terra, temos densidade física, temos Ará, o corpo
biológico. Em outros Orun, a constituição biológica não é necessária”, destacou
de Jagun.
Segundo
ele, o nosso Orí, entendido como identidade ou individualidade, não precisa
necessariamente de um corpo físico. “A morte, para nós, é muito mais um portal.
Afinal, os iorubás mantêm contato permanente com as individualidades que ocupam
os diversos espaços siderais”, afirmou.
“Há
essa comunicabilidade entre vivos e não-vivos, como prefiro me referir aos
'mortos', já que, para nós, nada se encerra. Esses metavivos estão em constante
contato conosco: dançam conosco, celebram conosco, comem conosco, nos orientam
por meio da consulta oracular. Essa convivência atemporal nos oferece uma outra
dimensão sobre o pós-vida ou sobre os metavivos”, concluiu.
Fonte:
UOL/Terra

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