sábado, 26 de julho de 2025

Terras raras: EUA precisam do Brasil; e agora?

Representantes do governo americano demonstraram interesse nos minerais estratégicos do Brasil como moeda de negociação diante da recente decisão de Washington de aplicar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. A sinalização aponta para um movimento geoeconômico cada vez mais evidente: os Estados Unidos estão mobilizando sua política comercial na tentativa de garantir acesso a insumos minerais cruciais para setores considerados estratégicos, como a transição energética e a inteligência artificial.

Mas o que são, afinal, os chamados minerais estratégicos? Qual a sua importância na atual ordem global — e por que o Brasil passou a ocupar posição relevante nesse tabuleiro?

<><> O que são minerais estratégicos e por que importam tanto

Embora o conceito varie conforme instituições e contextos, a Agência Internacional para as Energias Renováveis define como minerais estratégicos — também conhecidos como minerais críticos — aqueles considerados essenciais para tecnologias fundamentais da transição energética (ou tecnologias de ponta), que apresentam uma ou mais das seguintes características: produção concentrada em poucos países, dificuldades técnicas ou ambientais para extração, ou declínio na qualidade e disponibilidade das reservas.

A lista pode variar conforme o período e a metodologia de análise, mas geralmente inclui elementos como cobalto, níquel, cobre, lítio e os metais de terras raras. Esses recursos são indispensáveis à produção de baterias, painéis solares, turbinas eólicas, veículos elétricos, semicondutores, equipamentos médicos, sistemas de defesa, satélites e infraestrutura digital de alto desempenho — componentes centrais tanto da economia digital quanto da transição energética global.

<><> Energia renovável: o novo motor da demanda mineral

O crescimento da demanda por energia renovável tem sido exponencial. Segundo o Energy Institute, todas as principais fontes globais de energia bateram recordes em 2024, impulsionadas por um aumento expressivo no consumo mundial. Entre 2013 e 2022, a energia solar e a eólica atraíram investimentos de US$ 1,63 trilhão e US$ 1,31 trilhão, respectivamente, resultando em expansões de capacidade de 1.817,6% e 362,3% no período.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos enfrentam a crescente liderança da China nesse setor. Atualmente, o país asiático gera cerca de 4,4 vezes mais energia solar e 3 vezes mais energia eólica do que os EUA. Essa disparidade acende um alerta geopolítico: além do domínio tecnológico, a China também controla boa parte da cadeia de suprimentos dos minerais necessários para essas tecnologias.

Ademais, as fontes renováveis apresentam características – como menor densidade energética, vida útil reduzida em comparação às fontes tradicionais e limitações nos processos de reciclagem – que ampliam a dependência por minerais. Segundo a Agência Internacional de Energia, uma turbina eólica terrestre pode demandar até nove vezes mais minerais do que uma usina a gás natural de mesma capacidade. Em projetos eólicos offshore, essa relação pode chegar a quinze vezes mais. Veículos elétricos requerem até seis vezes mais minerais estratégicos que os automóveis convencionais, principalmente em razão das baterias de grande porte.

Os painéis solares também são intensivos em minerais. Para se ter uma dimensão da escala, estima-se que os Estados Unidos já possuam 5 milhões de instalações solares, podendo atingir 10 milhões em 2030 e 15 milhões em 2034. Embora a maioria seja de pequeno porte e uso residencial, há inúmeros projetos industriais que, individualmente, ultrapassam 1 milhão de painéis. Todos esses sistemas precisarão ser substituídos ao fim de sua vida útil, que pode variar entre 20 e 30 anos — o que evidencia a magnitude da demanda mineral associada.

A cadeia mineral por trás da inteligência artificial

Outro eixo central dessa disputa é a Inteligência Artificial (IA). Considerada uma das tecnologias mais transformadoras da atualidade, a IA já movimenta cerca de US$ 250 bilhões por ano e deve atingir US$ 830 bilhões anuais até 2030. Logo após reassumir a presidência, Donald Trump anunciou um pacote de reformas e investimentos de US$ 500 bilhões destinados à infraestrutura do setor, em articulação com líderes das principais empresas de IA.

Contudo, embora frequentemente associada ao universo digital, a IA depende de uma infraestrutura física massiva. São necessários milhares de data centers — instalações com alto consumo energético que concentram servidores, equipamentos ópticos e sistemas de refrigeração, todos fabricados com metais e minerais altamente especializados, em sua maioria extraídos em diferentes regiões do Sul Global.

Atualmente, os Estados Unidos abrigam cerca de 5,4 mil dos 12 mil data centers em operação no mundo, o que reforça a importância do acesso contínuo a insumos minerais.

<><> O xadrez mineral global

O domínio da China sobre a cadeia de suprimentos de minerais críticos representa uma crescente preocupação para os Estados Unidos. O exemplo mais emblemático é o das terras raras — grupo de 17 elementos utilizados em aplicações de ponta, como superímãs, sensores, sistemas ópticos, componentes eletrônicos e ligas metálicas. Em 2023, 68% da produção global das terras raras estava sob controle chinês, enquanto os EUA respondiam por apenas 12%.

Esse desequilíbrio motivou uma série de iniciativas norte-americanas para diversificar o acesso a esses recursos. Em maio de 2025, Trump propôs à Ucrânia um acordo que previa acesso preferencial a contratos de fornecimento de minerais críticos, em troca de apoio na guerra contra a Rússia. No mês seguinte, firmou um controverso pacto com a China, condicionando a emissão de vistos para estudantes chineses à exportação de terras raras.

<><> Brasil na disputa

Estudos recentes indicam que o Brasil pode abrigar a segunda maior reserva de terras raras do mundo — exatamente um dos principais recursos que tem mobilizado ofensivas diplomáticas e comerciais por parte dos Estados Unidos.

O crescente interesse norte-americano nos minerais estratégicos brasileiros insere o país de forma direta nas disputas geopolíticas. Em um cenário no qual a supremacia econômica e tecnológica está cada vez mais ancorada em infraestruturas físicas — como fontes de energia renovável, veículos elétricos e data centers —, o subsolo brasileiro adquire um valor geoeconômico ainda maior.

Entretanto, abundância não é sinônimo de soberania. A simples presença de recursos naturais estratégicos não assegura desenvolvimento, justiça social ou protagonismo internacional. A possibilidade de utilizar esses minerais como moeda de troca nas relações exteriores impõe ao Brasil uma encruzilhada estratégica: atuar como fornecedor passivo de matéria-prima ou como agente ativo, capaz de agregar valor, proteger seus interesses e condicionar acordos a contrapartidas tecnológicas, ambientais e sociais.

¨      Brasil tem 2ª maior reserva de terras raras do mundo, mas ainda engatinha na exploração

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. É uma riqueza estratégica, com potencial de impulsionar a transição energética e a indústria de alta tecnologia — e que, não por acaso, despertou o interesse do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Mesmo com essa vantagem geológica, o Brasil ainda está longe de explorar plenamente seu potencial. Boa parte das terras raras extraídas no país continua sendo exportada em estado bruto, sem processamento ou agregação de valor.

Enquanto isso, a China domina o refino dos minerais e os EUA pressionam por acesso a fontes alternativas, mirando o subsolo brasileiro.

O alerta mais recente veio na última semana, quando o encarregado de negócios da embaixada americana, Gabriel Escobar, reafirmou em reunião com empresários o interesse direto do governo Trump nos minerais críticos e estratégicos brasileiros — como as terras raras, o lítio, o nióbio e o cobre.

O recado foi interpretado como mais uma peça no tabuleiro da tensão geopolítica, acirrada após o anúncio do tarifaço de 50% contra produtos brasileiros, que entra em vigor em 1º de agosto.

<><> Brasil tem o subsolo, mas ainda não tem a indústria

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras — o que o coloca como o 2º maior detentor global, atrás apenas da China, que além de ter reservas, domina a tecnologia de beneficiamento e refino.

“A China tomou uma decisão estratégica há décadas: dominar toda a cadeia produtiva das terras raras. É isso que falta ao Brasil”, diz Fernando Landgraf, professor da Escola Politécnica da USP.

Hoje, o Brasil exporta principalmente matéria-prima bruta. Sem tecnologia de refino instalada em escala industrial, o país perde valor ao longo da cadeia e se mantém como fornecedor periférico, mesmo diante da crescente demanda global.

<><> 'Janela de oportunidade'

O Ministério de Minas e Energia reconhece o desafio, mas vê uma chance histórica. Em nota ao g1, a pasta afirmou que o Brasil tem “uma janela de oportunidade para desenvolver uma robusta indústria de processamento de terras raras”, aproveitando energia limpa e competitiva, estabilidade territorial e conhecimento acumulado.

Uallace Moreira, secretário de Desenvolvimento Industrial do Ministério do Desenvolvimento, também aponta os obstáculos:

“É melhor produzir o processado, claro. Mas há desafios tecnológicos, de escala de produção e de competitividade.”

<><> O que o Brasil está fazendo

O governo federal e entidades do setor mineral têm articulado iniciativas para desenvolver tecnologia nacional, atrair investimentos e montar uma cadeia produtiva no país. Veja algumas delas:

🔬 Projeto MagBras, liderado pelo SENAI, para desenvolver uma cadeia nacional de produção de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), com uso em carros elétricos e energia limpa;

💰 Fundo de R$ 1 bilhão para financiar projetos de pesquisa mineral, com foco em empresas juniores;

📜 Debêntures incentivadas, autorizadas por decreto de 2023, para projetos de minerais estratégicos;

💵 Chamada pública de R$ 5 bilhões, lançada por BNDES, FINEP e MME, para apoiar a industrialização mineral e implantar plantas industriais no país;

🗺️ Mapeamentos em andamento pelo Serviço Geológico Brasileiro (SGB), que incluem áreas como a Bacia do Parnaíba, no Piauí, e rejeitos de mineração com potencial para reaproveitamento.

<><> Corrida global pelos minérios

O interesse dos Estados Unidos nos minerais brasileiros não ocorre em um vácuo. Desde abril, o governo Trump vem reestruturando acordos comerciais estratégicos, como a parceria firmada com a Ucrânia para explorar terras raras em regiões afetadas pela guerra, e o recente acordo comercial com a China, que liberou temporariamente a exportação de minérios raros e ímãs permanentes.

Segundo o Wall Street Journal, a liberação negociada com os chineses vale por apenas seis meses — o que reforça o movimento americano de diversificar fornecedores, com o Brasil no radar.

“A China está usando os minerais como ativo geopolítico para barganha. O Brasil precisa ter a mesma inteligência estratégica”, diz Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG).

<><> Oportunidade ou repetição do erro?

Além das terras raras, o Brasil tem grandes reservas de lítio, grafite, nióbio, cobre, manganês, urânio e cobalto — todos estratégicos para a transição energética e o avanço tecnológico global.

Se conseguir integrar ciência, indústria, diplomacia e investimento, o país pode deixar de ser apenas um exportador de commodities para se tornar um protagonista da nova economia global.

Caso contrário, a abundância seguirá o destino de sempre: ser extraída aqui, processada lá fora — e importada de volta, com valor multiplicado.

¨      Onde ficam no Brasil as terras raras cobiçadas por Trump? 

 As chamadas terras raras são um grupo de 17 elementos químicos encontrados em abundância em vários países. A maior parte desses minerais está concentrada em dois pontos: na China e no Brasil. Eles são imprescindíveis para a indústria. Agora, a reserva brasileira é alvo do imbróglio com Trump.

O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME). Isso representa 25% do território existente.

Em meio ao impasse das tarifas impostas por Trump, o governo foi informado de que os Estados Unidos querem acesso aos minerais estratégicos.

O encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, recebeu na quarta-feira (23) os representantes do Instituto Brasileiro de Mineração. Segundo o instituto, os Estados Unidos estão interessados em realizar acordos com o Brasil para a aquisição de minerais considerados estratégicos.

A posição de especialistas é de que isso pode mudar o rumo da negociação sobre as taxas. O governo Lula, no entanto, fez críticas. Em um evento, Lula disse que “aqui ninguém põe a mão”.

Abaixo, o g1 te explica o que elas são, o motivo do interesse por elas, o impasse com a China e o papel do Brasil.

<><> O que elas são?

As terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos essenciais para o funcionamento de diversos produtos modernos — de smartphones e televisores a câmeras digitais e LEDs. Apesar de usados em pequenas quantidades, eles são insubstituíveis.

O uso mais importante dessas substâncias está na fabricação de ímãs permanentes. Potentes e duráveis, esses ímãs mantêm suas propriedades magnéticas por décadas. Com eles, é possível produzir peças menores e mais leves, algo essencial por exemplo, para tecnologias, turbinas eólicas e veículos elétricos.

Esses elementos também são fundamentais para a indústria de defesa. Estão presentes em aviões de caça, submarinos e equipamentos com telêmetro a laser. Justamente por essa relevância estratégica, o valor comercial é elevado.

O quilo de neodímio e praseodímio — os mais usados na produção de ímãs — custa cerca de 55 euros (R$ 353). Já o de térbio pode ultrapassar 850 euros (R$ 5.460). Para comparação, o minério de ferro custa cerca de R$ 0,60 o quilo.

Praticamente todas as grandes inovações da atualidade dependem de minerais críticos. É justamente por isso que as maiores potências do mundo têm se movido para garantir acesso.

<><> Por que são chamadas de raras?

Apesar do nome, as terras raras não são exatamente raras. Estão espalhadas por todo o mundo, mas em concentrações muito pequenas. O desafio é encontrar depósitos onde a extração seja economicamente viável.

Hoje, 70% da produção global vem da China, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). A principal mina é Bayan Obo, no norte do país. Ela reúne enormes quantidades de todos os elementos usados em ímãs permanentes e supera em larga escala depósitos como Monte Weld, na Austrália, e Kvanefjeld, na Groenlândia.

<><> O poder da China

A maior concentração desses territórios está na China, o que faz do país um monopólio. Esse cenário tem preocupado Trump.

E a China não detém só o território, mas também o refino. Depois de extraídos, os elementos passam por processos complexos de separação e refino até se tornarem utilizáveis. Essa etapa também é dominada pelo país, que lidera a produção mundial de ímãs.

O controle é ainda maior em relação a certos elementos. Os mais leves — com exceção de neodímio e praseodímio — são mais abundantes e fáceis de extrair. Por exemplo: a União Europeia importa de 80% a 100% desse grupo da China. Para os elementos mais pesados, a dependência chega a 100%.

O domínio chinês acendeu alertas no Ocidente. Nos últimos anos, EUA e UE começaram a formar reservas estratégicas de terras raras e outros materiais críticos.

<><> Onde elas estão no Brasil?

O país possui vastas reservas de recursos considerados cruciais para o futuro da economia global — entre eles, o nióbio, o lítio, o grafite, o cobre, o cobalto, o urânio e os chamados elementos terras raras. Esses minerais estão no centro das transformações tecnológicas e energéticas do século 21.

O país ainda tem outro trunfo: além das grandes reservas naturais, o país tem vantagens comparativas importantes, como matriz energética limpa, território estável, tradição mineradora e conhecimento técnico.

  • Locais

Estudos apontaram indícios de reserva estratégica de minerais na Bacia do Parnaíba, que abrange áreas dos estados do Maranhão, Piauí e Ceará.

Além disso, o Brasil reivindica uma ilha submersa do tamanho da Espanha, localizada a cerca de 1.200 km da costa do Rio Grande do Sul. Trata-se da Elevação do Rio Grande (ERG), uma formação geológica que o país quer reconhecer como parte do seu território junto à Organização das Nações Unidas (ONU).

Análises geológicas indicam que essa formação submersa é uma continuação natural do território continental brasileiro. Pesquisas da USP mostram que o solo da região é geologicamente semelhante ao do interior de São Paulo. Além disso, a área é rica em minerais estratégicos, como as chamadas “terras raras”, essenciais para a transição energética e a indústria de alta tecnologia.

Há também Minaçu, em Goiás, que tem depósito de terras raras em argila iônica. A região é a única a produzir minerais estratégicos em escala comercial fora da Ásia. Além de registros no Amazonas, Minas Gerais e Bahia.

 

Fonte: The Conversation/g1

 

Nenhum comentário: