sábado, 26 de julho de 2025

Ruwaida Amer: Em Gaza, Israel constrói seu Auschwitz

Estou com muita fome.

Nunca disse essas palavras com o significado que têm agora. Elas carregam uma humilhação que não consigo descrever por completo. A todo momento, me pego desejando: Se ao menos fosse um pesadelo. Se ao menos eu pudesse acordar e tudo tivesse acabado.

Desde maio passado, depois que fui forçada a fugir de casa e me abrigar com parentes no campo de refugiados de Khan Younis, ouvi essas mesmas palavras, ditas por incontáveis pessoas ao meu redor. A fome aqui parece um ataque à nossa dignidade, uma contradição cruel num mundo que se orgulha de progresso e inovação.

Toda manhã, acordamos pensando numa única coisa: como encontrar algo para comer. Meus pensamentos vão para nossa mãe doente, que fez cirurgia na coluna há duas semanas e agora precisa nutrir-se para se recuperar. Nada podemos oferecer a ela.

E há minha sobrinha e sobrinho pequenos — Rital, 6 anos, e Adam, 4. Pedem pão o tempo todo. Nós, adultos, tentamos aguentar nossa própria fome para guardar qualquer migalha para as crianças e os idosos.

Desde que Israel impôs um bloqueio total a Gaza, no início de março (só aliviado, marginalmente, no fim de maio), não provamos carne, ovos ou peixe. Ficamos sem quase 80% da comida que costumávamos comer. Nossos corpos estão se desfazendo. Nos sentimos constantemente fracos, desatentos e desequilibrados. Ficamos irritados com facilidade; mas na maior parte do tempo, em silêncio. Falar consome energia demais.

Tentamos comprar qualquer coisa disponível nos mercados, mas os preços não permitem. Um quilo de tomate agora custa 90 shekels (mais de R$ 125). Pepinos custam 70 shekels o quilo (cerca de R$ 95). Um quilo de farinha está 150 shekels (R$ 200). Os números parecem absurdos e cruéis.

Sobrevivemos com apenas uma refeição por dia: geralmente só pão, feito com qualquer farinha que consigamos. Se tivermos sorte, o almoço pode incluir um pouco de arroz, mas mesmo isso não sacia. Tentamos separar um pouco de comida para minha mãe — talvez alguns legumes – mas nunca é suficiente. Na maioria dos dias, ela está fraca demais para ficar em pé, exausta até para fazer suas orações.

Raramente saímos de casa agora, com medo de que nossas pernas cedam. Já aconteceu com minha irmã: enquanto procurava algo nas ruas, qualquer coisa para alimentar seus filhos, desabou no chão. Seu corpo não tinha mais forças para ficar em pé.

Começamos a sentir a profundidade da fome quando o padeiro Abu Hussein, conhecido por todos no campo, reduziu suas atividades. Costumava assar pão para dezenas de famílias por dia, incluindo a nossa – que não têm mais gás de cozinha ou eletricidade para assar em casa. Seus fornos a lenha ficavam ligados de manhã até a noite.

Mas recentemente, foi obrigado a trabalhar cada vez menos dias por semana. Minha irmã chegava em casa e dizia: “O Abu Hussein fechou. Talvez, trabalhe amanhã.” Agora, conseguir massa e farinha tornou-se um sofrimento à parte.

<><> Três gerações de fome

No campo, entendi a verdadeira crueldade desse genocídio: a sufocante superlotação, a massa de refugiados expulsos de suas casas e as histórias intermináveis de fome.

Nesses dias, estou na casa da minha tia, que nos acolheu depois que fomos deslocados e nos abrigou nos últimos dois meses. Como quase todas as construções do campo, sua casa foi quase totalmente destroçada pelos ataques de Israel. Seus irmãos trabalharam dia e noite para consertar o que podiam. Conseguiram deixar um cômodo habitável.

A casa está cheia de netos, cada um em sua própria luta contra a fome. Meu primo mais velho, Mahmoud, é pai de quatro deles. Perdeu quase 40 quilos nos últimos meses. Os sinais de desnutrição são visíveis em seu rosto pálido e corpo emaciado.

Todos os dias, antes de amanhecer, Mahmoud sai para os centros de distribuição de ajuda controlados pelos EUA. Arrisca a vida a cada tentativa, para que seus filhos famintos tenham alguma comida. Desde que cheguei, me conta as mesmas histórias angustiantes dia após dia.

“Hoje rastejei de quatro em meio a uma multidão de milhares”, disse recentemente, mostrando um saco com restos de comida que conseguiu catar. “Tive que pegar o que havia caído no chão — lentilhas, arroz, grão-de-bico, macarrão, até sal. Meus ossos doem de tanto ser pisoteado, mas preciso fazer isso. Não suporto o som da fome de meus filhos.”

Um dia, Mahmoud voltou sem nada. Seu rosto estava sem cor, e ele parecia prestes a desmaiar. Disse-me que o exército israelense havia aberto fogo sem aviso. “O sangue de um jovem ao meu lado respingou em minhas roupas. Por um instante, pensei que tinha sido baleado. Congelei — tinha certeza de que a bala estava no meu corpo.”

O jovem caiu no chão bem à sua frente, mas Mahmoud não pôde parar para ajudar. “Corri mais de seis quilômetros sem olhar para trás. Meus filhos estão famintos e esperando que eu leve comida”, ele disse, com a voz embargada, “Não ficarão felizes se eu voltar para casa morto.”

Meu outro primo, Khader, tem 28 anos. Tem uma filha de 2 anos, e sua esposa está grávida. Está consumido pela preocupação com o bebê por vir, que deve nascer em dois meses. Sua esposa não pode se alimentar direito, e todos os dias ele fica sentado em silêncio, atormentado pelas mesmas perguntas: Essa fome vai prejudicá-la? A criança será saudável ou doente?

Sua filha de 2 anos, Sham, chora o dia todo de fome. Implora por pão. Um dia, um amigo de Khader deu-lhe um punhado de uvas, para ela. Khader ajoelhou-se ao lado de Sham e ofereceu as uvas, mas ela só ficou olhando, brincando com elas nas mãozinhas e não ousando comê-las. Não as reconheceu: em seus dois anos de vida em Gaza, nunca tinha visto uvas antes. Só quando seu pai colocou uma em sua boca e sorriu, ela o imitou, hesitante. Mastigou. Depois, riu.

<><> Corpos em colapso

Muitas vezes fico parada na porta de casa, observando as crianças de Khan Younis. Passam a maior parte do tempo sentadas no chão, olhando para quem passa com expressão vazia. Se peço a uma delas que me compre um cartão de internet para eu trabalhar, ou que chame minha sobrinha na casa do vizinho, respondem com vozes baixas e cansadas. Dizem que estão com fome. Que não comem pão há dias.

Tenho só 30 anos, mas não sou mais a mulher cheia de energia que um dia fui. Costumava trabalhar longas horas ensinando ou escrevendo, mas desde que a guerra começou não tive um momento de descanso. Lido com tarefas domésticas exaustivas — cuidar da minha mãe e da família — enquanto tento continuar documentando e escrevendo sobre tudo o que acontece a meu redor.

Há cerca de um mês, porém, perdi a capacidade de acompanhar as notícias. Minha concentração está falhando. Meu corpo desmorona. Sofro anemia por comer apenas lentilhas e outros legumes há meses. Nos últimos dois dias, não consegui engolir nada devido a uma inflamação grave na garganta — consequência de depender de dukkah e pimentas vermelhas picantes para tentar saciar minha fome.

Mahmoud, um fotógrafo de 28 anos que trabalha comigo em reportagens em vídeo, também está sofrendo. “Não comi nada em dois dias, exceto sopa”, ele me disse recentemente. “Não tenho energia para trabalhar.” Ninguém tem. Trabalhar durante um genocídio exige um nível de força impossível de sustentar. A fome destruiu a produtividade de todos os trabalhadores em Gaza.

Ontem, acompanhei minha mãe ao Hospital Nasser para uma sessão de fisioterapia após sua cirurgia. No caminho, vimos dezenas de pessoas que não conseguiam andar mais do que alguns metros sem precisar descansar. Minha mãe estava como elas: as pernas fracas demais para sustentá-la. Sentou-se em uma cadeira de plástico à beira da estrada, reunindo o pouco de energia que conseguia para continuar.

Enquanto continuávamos a caminhar, ouvimos gritos. Jovens corriam em nossa direção, gritando em júbilo: “Tem caminhões de farinha na rua!” Uma multidão enorme se formou. As pessoas corriam desesperadamente em direção a eles pela chance de conseguir um saco de farinha.

Era o caos. Ninguém estava escoltando os caminhões para garantir que todos pudessem receber sua parte em segurança. Vimos a multidão correr para áreas perigosas sob controle do exército israelense, tudo por farinha.

Alguns voltaram com sacos. Alguns foram mortos. Vimos corpos carregados nos ombros de homens, baleados nos mesmos lugares onde a ajuda deveria salvá-los.

<><> 18 mortes por fome em 24 horas

Após a sessão de fisioterapia, saímos do hospital e passamos por mulheres chorando sobre seus filhos famintos, morrendo diante de nossos olhos. Uma mulher, Amina Badir, gritava, agarrando sua filha de 3 anos.

“Digam como salvar minha filha Rahaf da morte”, ela chorou. “Há uma semana ela não come nada além de uma colher de lentilhas por dia. Sofre de desnutrição. Não há tratamento, não há leite no hospital. Tiraram dela o direito de viver. Vejo a morte em seus olhos.”

Segundo o ministério da Saúde em Gaza, o número de mortos por fome e desnutrição subiu para 86 pessoas, 76 das quais crianças. Ontem, anunciou-se que 18 pessoas morreram de fome apenas nas últimas 24 horas. Profissionais de saúde fizeram protesto no Hospital Nasser para pedir intervenção internacional antes que mais pessoas morram de fome.

Não consegui encontrar um táxi para nos levar para casa. Minha mãe esperou no portão do hospital enquanto eu procurava transporte, mas o combustível é escasso e os táxis praticamente não existem. Passei uma hora tentando.

Quando voltei, estava tonta e fraca. Desmaiei. Tentei me manter forte por minha mãe, mas não havia mais ninguém conosco. Ao meu redor, vi mais pessoas desmaiando. Um homem me disse: “Se houvesse comida adequada, sua mãe não teria ficado tão doente.”

Estamos todos tentando confortar uns aos outros, nessa fome sem fim. No Facebook, as pessoas desabafam sua raiva, escrevendo post após post sobre a política de fome que colocou Gaza de joelhos. Não conseguimos mais fazer as coisas mais básicas que pessoas em todo o mundo fazem todos os dias. A fome nos tirou tudo.

¨      Há uma desconexão perigosa: em Gaza, a política já não fala pelo povo. Por Gaby Hinsliff

Era para ser uma conversa aconchegante sobre culinária e maternidade.

Mas o programa Woman's Hour, da BBC Radio 4, tomou um rumo inesperadamente sombrio na manhã de quinta-feira, quando a chef Yasmin Khan de repente chorou no meio da promoção de seu novo livro de receitas, dizendo que não conseguia falar sobre suas próprias dificuldades para amamentar sem mencionar as mães em Gaza que não conseguiam sustentar seus bebês literalmente famintos.

Foi uma ilustração impressionante de quão longe esse horror medieval se espalhou, sangrando na vida cotidiana até mesmo de pessoas que normalmente não acompanham política. Você não precisa saber nada sobre o Oriente Médio para entender o que significam aquelas fotos de jornal de crianças emaciadas, com seus rostinhos desenhados e costelas dolorosamente visíveis. É assim que a fome se parece, até o retorno de Bob Geldof , implorando ao mundo para agir como ele fez há 40 anos no Live Aid. Só que desta vez não é um desastre natural, mas o que a Organização Mundial da Saúde chama de fome em massa provocada pelo homem : a consequência assustadoramente evitável de um sistema de ajuda que força as pessoas a escolher entre arriscar suas vidas por um saco de farinha ou morrer por falta de um.

Mais de 1.000 pessoas foram mortas pelas forças israelenses enquanto buscavam comida em Gaza desde maio, de acordo com a ONU . Médicos Sem Fronteiras diz que até mesmo seus funcionários, sortudos o suficiente para ainda estarem ganhando salários, estão passando fome : não há quase nada para comprar nos mercados. A agência de notícias Agence France-Presse falou sobre assistir impotente enquanto seus freelancers palestinos, que arriscaram tudo para obter notícias de Gaza quando jornalistas estrangeiros não conseguem entrar, ficam fracos demais para trabalhar. Enquanto isso, na Grã-Bretanha, as pessoas que querem ver prisões por crimes de guerra leem, em vez disso, sobre repressões contra ativistas pró-Palestina . O fato de os ministros terem sido rápidos em empatizar com as frustrações de uma multidão muito diferente protestando contra a acomodação de requerentes de asilo em hotéis apenas adiciona sal às feridas.

Os parlamentares trabalhistas estão abertamente desesperados para que seu governo faça algo mais do que emitir ameaças dramáticas de ações futuras que nunca se materializam. Até mesmo ministros do gabinete estão fazendo lobby publicamente pelo reconhecimento formal do Estado palestino, enquanto ( nas palavras de Wes Streeting , que poderia facilmente perder sua cadeira marginal em Ilford North por causa desta guerra) ainda resta uma Palestina.

O reconhecimento seria um ato de solidariedade em grande parte simbólico, que por si só pouco faria para saciar a fome em Gaza. Mas o problema dos ministros é que parece haver cada vez menos motivos para não fazê-lo agora: o argumento de longa data de que este prêmio deveria ser guardado para o momento certo, para ajudar a desbloquear o progresso rumo a uma solução de dois Estados, fazia mais sentido quando o sonho de dois Estados não estava sendo ativamente esmagado diante de nós. Mas talvez o verdadeiro apelo aqui seja para que Keir Starmer reconheça o país que ele realmente lidera.

Após os horrores do massacre de 7 de outubro de 2023, houve ampla aceitação de que não se podia esperar que Israel simplesmente se acomodasse e não fizesse nada. Mesmo um ano depois do que já era uma guerra altamente divisiva, a YouGov descobriu que mais da metade dos britânicos ainda sentia que Israel tinha justificativa para entrar em Gaza. Mas, criticamente, apenas 14% consideraram o uso da força ali proporcional. A simpatia se esvaiu à medida que a guerra de autodefesa de Israel começou a se assemelhar primeiro a uma guerra de vingança e depois a algo mais sombrio. Em uma linguagem que nenhum ex-primeiro-ministro israelense usa levianamente, Ehud Olmert descreveu uma proposta para encurralar palestinos em um assentamento nas ruínas de Rafah e impedi-los de sair como, na prática, um "campo de concentração" .

Mais da metade dos britânicos agora são a favor de sanções financeiras como as impostas a russos proeminentes por causa da Ucrânia, ou da suspensão da venda de armas. Esses argumentos agora são comuns, transpartidários – os veteranos deputados conservadores Kit Malthouse e Edward Leigh defenderam veementemente o reconhecimento da Palestina no Parlamento esta semana – e são movidos não pelo tipo de antissemitismo crescente que Starmer tinha toda a razão em enfrentar em seu próprio partido, mas pelo que as pessoas veem todas as manhãs, ao navegar em seus celulares.

A retórica de David Lammy já é tão forte quanto a de um secretário de Relações Exteriores pode ser – esta semana, ele condenou o novo sistema de ajuda "desumano" e "perigoso" de Israel e o que chamou de "terrorismo de colonos" na Cisjordânia – e muitos parlamentares trabalhistas suspeitam que ele, em particular, gostaria de ir além das sanções e restrições à venda de armas que listou. Mas Downing Street estaria cautelosa em se antecipar a Donald Trump em um estágio crucial das negociações de cessar-fogo (com o parlamento israelense entrando em recesso de verão, aliviando um pouco a pressão sobre o governo minoritário de seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, espera-se que haja uma janela para um acordo). O Reino Unido sempre argumentou que nossa influência sobre Israel é melhor ampliada pela sincronização de esforços com os EUA, e embora o caos desta Casa Branca torne isso mais difícil, a de Trump ainda é a única voz que Netanyahu realmente ouve.

No entanto, enquanto todos rezam para que o acordo de cessar-fogo seja fechado, uma perigosa lacuna está se abrindo na Grã-Bretanha entre o parlamento e o povo.

Um ano no poder, Starmer está cada vez mais hábil em política externa, mas muito menos em lidar com a reação emotiva interna dela. Sem ver os relatórios de inteligência cruzando a mesa da ministra do Interior, Yvette Cooper, eu não questionaria sua decisão de proscrever a Palestine Action como um grupo terrorista. Uma violação de segurança na RAF Brize Norton nunca seria levada de ânimo leve. Mas, inevitavelmente, o processo de policiais tentando descobrir em tempo real o que vigários idosos podem ou não podem dizer em público sobre a Palestina causou sua cota de farsa e fúria. Depois que um professor aposentado foi preso por supostamente segurar uma placa com uma charge do Private Eye sobre a proscrição , a polícia de West Yorkshire emitiu uma declaração incomum dizendo que lamentava se ele estava "insatisfeito com as circunstâncias" de sua prisão.

Assim como aconteceu com o outro barril de pólvora em potencial deste verão, os protestos que se acumulam em frente a algumas acomodações para requerentes de asilo, sem dúvida todos estão aprendendo à medida que avançam. No entanto, a polícia só pode fazer o que for necessário para resolver o que são, na verdade, conflitos políticos, nascidos, em ambos os casos, da frustração com o que ambos os grupos de manifestantes (cada um à sua maneira) veem como uma falha política de ação.

Manter unidas todas essas partes voláteis e mutuamente hostis de uma sociedade fragmentada durante um verão quente e furioso será extremamente complicado, uma tarefa assustadora até mesmo para um governo experiente. No entanto, essa é a natureza do cargo para o qual Starmer se candidatou em julho passado. Um ano depois, todos nós devemos torcer para que ele esteja à altura.

 

Fonte:  972mag | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras/The Guardian

 

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