Proibido
recuar: Como a cena política mudou, em quatro semanas
O
governo Lula, até há algumas semanas, vinha pautando a sua ação política
exclusivamente no processo de negociação com o Parlamento, em uma estratégia de
“redução de danos” – preso à crença da existência de uma “correlação de forças”
desfavorável irremovível, expressa essencialmente na composição do Congresso
Nacional com folgada maioria de parlamentares de direita e extrema direita. Os
resultados obtidos com essa estratégia foram repetidas derrotas acachapantes,
inclusive com o apoio de parte de suas base (Partidos de direita e
centro-direita fisiológicos), apesar de todas as concessões feitas a deputados
e senadores, em particular ao “Centrão” com suas emendas parlamentares secretas
(com sujeitos, objetos e destinos clandestinos).
Como se
sabe, a “correlação de forças” é, de fato, uma variável essencial na análise da
conjuntura e um ponto de partida para decisões que serão tomadas pelos sujeitos
políticos. No entanto, ela não pode ser vista e interpretada como uma
fotografia; ela tem que ser observada e compreendida como um filme, um processo
dinâmico que pode reafirmá-la e sancioná-la tal como se apresenta em um
determinado momento ou, em sentido contrário, modificá-la – inaugurando-se uma
outra situação política.
Portanto,
se a “correlação de forças políticas” é desfavorável, os sujeitos fragilizados
por essa situação têm que atuar ativamente para modificá-la e não simplesmente
aceitá-la e, o que é pior ainda, transformá-la em um mantra para justificar
suas derrotas e inação política. No entanto, esse foi o comportamento do
governo Lula e das forças hegemônicas no interior do Partido dos Trabalhadores,
embasados em um equívoco que vai além de considerá-la como uma fotografia, qual
seja: para suas análises e ações políticas, a “correlação de forças” foi
observada e analisada apenas a partir da realidade institucional, restrita às
relações entre os três poderes. Mas nessa instância, fechada em si mesma, a
composição do Congresso Nacional e o comportamento de seus integrantes só se
alteram, quando se alteram, de quatro em quatro anos.
O
resultado desse equívoco não poderia ser outro: a quase inviabilidade de Lula
governar, tendo em vista o empoderamento institucional do Parlamento ocorrido a
partir do Golpe Neoliberal-Neofascista de 2016 e o início do governo Temer. O
antigo “Presidencialismo de Coalizão”, pautado em negociações entre o executivo
e o legislativo, mas com forte iniciativa do primeiro, foi substituído pelas
ações e força do segundo (com destaques para a criação do Fundo Eleitoral em
2017 e a Emenda de Relator, leia-se “orçamento secreto”, em 2019). Com isso, O
orçamento público, já desidratado pelo pagamento da dívida pública (juros) ao
capital financeiro (viabilizado pelo ajuste fiscal permanente instituído pelo
“Teto de Gastos” e, depois, pelo chamado “Novo Arcabouço Fiscal”), passou a ser
abocanhado em fatias crescentes pelo Parlamento, leia-se o Centrão e suas
adjacências. Isso ocorreu de tal forma que a ocupação de cargos no executivo,
sempre utilizada no processo de negociação para garantir a governabilidade,
perdeu importância para deputados e senadores. O que os deixou ainda mais
ousados nas suas relações com o governo.
De
derrota em derrota o governo Lula, até três semanas atrás, estava emparedado,
nas cordas, inclusive com a campanha para Presidente da República de 2026 já
antecipada, para alegria e satisfação da direita neoliberal e a extrema direita
neofascista. Situação expressa nas redes sociais e na grande mídia corporativa.
Entretanto, eis que, inesperadamente e para surpresa da grande maioria, a
conjuntura (a correlação de forças) rapidamente começou a mudar. No mundo
dominado pelas tecnologias de informação e comunicação (TICs), o tempo em
geral, e o tempo político em particular, acelerou-se; com isso, os eventos, as
mudanças e reviravoltas ocorrem muito rapidamente.
A
partir da derrota do decreto do governo que aumentava a alíquota do IOF, e da
dificuldade em encaminhar a aprovação da taxação dos ricos e da isenção do
Imposto de Renda para os que ganham até cinco mil reais por mês, o governo Lula
e seus apoiadores (dentro e fora do PT) mudaram de atitude: deslocaram suas
ações para fora do Parlamento, passando a atuar agressivamente nas redes
sociais e na sociedade, levantando bandeiras históricas das esquerdas: o
combate à desigualdade (taxação dos ricos) e a favor da redução da jornada de
trabalho (fim da escala 6/1). Isso colocou na defensiva um Congresso
majoritariamente neoliberal-neofascista, defensor da concessão de benefícios
crescentes e sistemáticos para os “ricos” e contrário a toda e qualquer
iniciativa favorável aos “pobres”. Com essa mudança de comportamento, a luta de
classes, como há tempos não se via, explicitou-se, para o desespero da “Faria
Lima”, de seus prepostos-economistas e da mídia corporativa.
Esse
novo comportamento político incomodou profundamente deputados e senadores do
Centrão, o mercado financeiro e a mídia corporativa; com esta última tentando,
sem sucesso, igualar as ações de denúncia política das esquerdas nas redes
sociais à forma de atuar da extrema direita neofascista (baseada em fake news,
baixarias de todo tipo e desconstrução de indivíduos e biografias). O Jornal
Nacional da Globo gastou quase sete minutos tentando criminalizar a
militância digital das esquerdas. Adicionalmente, quando mal tinham assimilado
essa nova situação, a direita neoliberal e a extrema direita neofascista se
viram às voltas com os ataques de Trump à economia brasileira e à soberania do
país. A primeira tem vínculos históricos com o imperialismo, não pôde defender
e justificar esses ataques; a segunda, enrolada até o pescoço com as agressões
do governo dos EUA (inclusive fomentando-os e apoiando-os abertamente), foi
nocauteada, esfacelando-se internamente com disputas acerca da proposta de
anistia e o seu vínculo com o tarifaço de 50% decretado por Trump contra os
produtos brasileiros(a vigorar a partir do mês de agosto).
A
reação do governo Lula, em sentido contrário, foi imediata, saindo em defesa da
soberania nacional e da produção e dos empregos no Brasil. E o mais importante,
as ações contra o imperialismo e a truculência de Trump (“taxei o Brasil porque
posso”) difundiram-se imediatamente pelas redes sociais e em alguns atos
públicos. O Congresso, por sua vez, veio a reboque, com os presidentes da
Câmara e do Senado, inicialmente mudos, tendo que apoiar o discurso político do
governo Lula e das esquerdas. O governador de São Paulo, supostamente um
“bolsonarista moderado” e a principal aposta da direita neoliberal e seus
prepostos para a eleição presidencial de 2026, se desmoralizou, sendo rejeitado
pelo bolsonarismo, chamado às falas pelos capitalistas (com destaque para o
agronegócio e os industriais de São Paulo) e pela mídia corporativa (vide os
diversos editoriais publicados pelos grandes jornais). A família Bolsonaro, o
bolsonarismo e, em particular, Tarcísio de Freitas foram, até aqui, os maiores
derrotados.
Mas,
não se pode perder de vista a necessidade de se responder a pergunta
fundamental da conjuntura: quais são os objetivos de Trump com a ameaça de
implementar o tarifaço e condicionar a sua retirada à suspensão da ação do STF
contra Bolsonaro? Na verdade, os seus objetivos são, ao mesmo tempo, econômicos
e políticos, conjunturais mas também estratégicos, que rementem a dimensões
estruturais e à geopolítica mundial.
Antes
de tudo, deve-se reconhecer que os EUA são uma potência em descenso, como
aconteceu com a Inglaterra na primeira metade do século passado. A sua antiga
hegemonia reduziu-se, fundamentalmente, à dimensão militar. Do ponto de vista
econômico e tecnológico a China caminha a passos largos para superá-lo e essa é
uma situação distinta da ocorrida nos anos 1970, quando Alemanha e Japão o
desafiaram mas acabaram sendo enquadrados – coisa que não poderá acontecer na
relação China-EUA. Na esfera política e moral o país está cada vez mais
desmoralizado com tudo o que Trump vem fazendo contra a “maior democracia do
mundo”, além da desconsideração de todo e qualquer tipo de fórum e instância
internacional. O apoio e financiamento do genocídio praticado por Israel em
Gaza, o comportamento errático com relação à guerra da Ucrânia com a Rússia e o
negacionismo climático são exemplos de seu isolamento político internacional.
Os EUA, hoje, são um país em guerra com o mundo, até mesmo contra seus antigos
e serviçais aliados, europeus e asiáticos. O trumpismo e sua política expressam
a decadência e, ao mesmo tempo, contribuem decisivamente para acelerá-la.
Dito
isso, a questão central para os EUA é, por um lado, a sua disputa com a China
pela hegemonia mundial, nas suas mais variadas dimensões. Isso se expressa na
rejeição e ataque aos BRICS e à crescente possibilidade de substituição do
dólar como moeda nas transações internacionais; na defesa das big techs dos EUA
e de sua total liberdade de atuação (sem regulação); nas disputas comerciais,
tecnológicas e ambientais generalizadas, e na tentativa de chantagear países
que têm negociação comercial com a Rússia – tudo isso a partir do exercício de
um unilateralismo explícito, na base da ameaça, da truculência e da violência.
É o imperialismo aberto, sem máscara, ao contrário de outros tempos, quando
o soft power desempenhava um papel importante,.
Por
outro lado, do ponto de vista político, as ações de Trump têm por objetivo
aglutinar e empoderar a extrema direita neofascista mundial em torno da
liderança dos EUA e, no caso imediato do Brasil, fragilizar as instituições
democráticas e interferir na eleição presidencial do ano que vem.
Em suma
a conjuntura política está mudando, externa e internamente. A disputa com o
Brasil deve ser observada e entendida como parte desse contexto mais geral, que
não envolve apenas o Brasil. O país, diga-se de passagem, tem déficit comercial
com os EUA há mais de uma década. Portanto, não há qualquer justificativa no
âmbito do comércio internacional que explique a tarifa de 50% que, na verdade,
é uma sanção política contra a soberania nacional. No entanto, a possibilidade
de que o governo ceda a Trump, jogando a soberania do Brasil no lixo, é zero.
As respostas imediatas do governo Lula e do STF não deixam margem a dúvidas. E
Trump e os EUA sabem disso. Aí surge a insistência do imperialismo em
vulnerabilizar a democracia brasileira, em particular o seu poder judiciário na
figura do STF, enfraquecer o governo Lula e alavancar alguma candidatura da
direita/extrema direita (Bolsonaro, Tarcísio ou qualquer outro) na disputa que
ocorrerá em 2026.
A
disputa com Trump, muito provavelmente, ainda vai longe e tende a escalar por
novas iniciativas e sanções do governo dos EUA contra o Brasil, como foi o caso
da anulação dos vistos para entrada nos EUA de oito integrantes do STF. Este,
por sua vez, vem se comportando corretamente, não se desviando um milímetro de
suas obrigações constitucionais e respondendo à altura às ameaças. O pedido da
condenação de Bolsonaro e seus asseclas pela Procuradoria Geral da República
(PGR), assim como a recente operação da Polícia Federal que culminou com a
decisão de colocar-lhe tornozeleira eletrônica, evidenciaram que as ameaças não
surtirão efeito. Ao contrário, acabaram por piorar a situação de Bolsonaro e de
sua família, além de colocarem o bolsonarismo no seu pior momento desde o
surgimento desse movimento neofascista. Adicionalmente, impulsionaram a
unificação da maioria do povo brasileiro em defesa da soberania do país.
No que
concerne ao governo Lula e às esquerdas, não pode haver vacilo: cabe manter a
nova linha política, privilegiando as ações nas redes sociais e na sociedade,
insistindo no confronto com o Congresso Nacional quando necessário, como foi o
caso do veto ao aumento do número de deputados aprovado pela Câmara de
Deputados (amplamente desaprovado pela população). Qualquer passo atrás, no
sentido de voltar à negociação viciada anterior, fragilizará de novo o governo
e colocará em risco a possibilidade de sua reeleição. As bandeiras tradicionais
das esquerdas (contra a desigualdade e a favor da redução da jornada de
trabalho) e, agora, a defesa da soberania brasileira, devem ser a bússola
orientadora e o carro-chefe de todo esse processo.
A atual
posição defensiva do Congresso evidenciou-se na aprovação, na comissão especial
criada pela Câmara de Deputados, do Projeto de Lei do governo que isenta de
Imposto de Renda quem ganha até cinco mil reais por mês. Assim como na
desistência da Câmara de derrubar o veto de Lula ao aumento do número de
deputados. Por outro lado, a aprovação pelo Senado, na calada da noite, de uma
nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental desastrosa (para “passar a boiada”),
com forte repercussão negativa internacional, assim como a aprovação do Projeto
de Lei pela Câmara que destina à renegociação das dívidas do agronegócio parte
dos royalties do Pré-Sal (até então, direcionados
exclusivamente para educação, saúde e desenvolvimento regional e social), devem
ser sumariamente vetados com ampla divulgação popular e, se necessário, levando
a questão ao STF.
A
decisão de manter abertos os canais de negociação comercial com os EUA (sem
nenhuma concessão a Bolsonaro e ao bolsonarismo), na qual teremos todos os
argumentos técnicos contra o tarifaço; e, ao mesmo tempo, ameaçar com a
possibilidade de retaliação, na mesma proporção, é a linha de conduta acertada
anunciada pelo governo Lula. Mas o eventual efeito favorável dessa conduta tem
como condição não aceitar qualquer tipo de chantagem do imperialismo e seus
aliados internos. Uma observação: a forma de retaliar os EUA não deve,
necessariamente, copiar a forma deles, isto é, taxar, de forma generalizada e
indiscriminada, as suas exportações para o Brasil. Há de se ter por caminho
mais inteligente, identificando caso a caso os produtos com maior ou menor
importância nas cadeias produtivas brasileiras, além de focar (e isso é
fundamental) também no setor de serviços (Big Techs, Direitos de Propriedade
Intelectual e patentes).
Como
observou Maquiavel há mais de 500 anos, a “fortuna” (as circunstâncias que não
são criadas pelos sujeitos) é um cavalo que pode se mostrar passageiro, cabendo
ao Príncipe ter a virtude de entendê-la e cavalgá-la, não deixando passar a
oportunidade de direcioná-la a seu favor. Nunca é demais lembrar que, em 2006,
na virada do primeiro para o segundo governo, Lula e seus apoiadores mais
próximos tiveram a virtude de aproveitar a fortuna que então se configurou, com
a forte entrada da China no comércio internacional e o seu impacto favorável
nas contas externas brasileiras, atuando no sentido de flexibilizar o tripé
macroeconômico herdado do segundo governo FHC (metas de inflação, superávit
fiscal primário e câmbio flutuante). Essa decisão, juntamente com outras
políticas (sociais e trabalhistas), tirou o governo das cordas (do mensalão) e
encaminhou a reeleição de Lula.
Enfim,
negociação e luta, concerto e confronto, fazem parte do processo político,
cabendo aos sujeitos analisar a pertinência de um ou outro comportamento em
cada conjuntura – e isso não pode ser decidido apenas nas instâncias
institucionais, isolando-as das pressões populares. Essa é a armadilha
proposta, sobretudo, pela direita neoliberal e os seus prepostos, com o
objetivo de aprisionar as esquerdas na esfera da “pequena política”. Em sentido
contrário, as esquerdas, se querem se manter enquanto tal, devem trazer para o
debate nacional e a ação política os grandes temas – que se relacionam às
necessárias mudanças estruturais da sociedade e da economia.
Fonte: Por
Graça Druck e Luiz Filgueiras, em Outras
Palavras

Nenhum comentário:
Postar um comentário