Políticas
para a radiodifusão brasileira beneficiam oligopólios midiáticos e silenciam
vozes dissonantes
Parece
que foi ontem: partidos de esquerda se somavam aos movimentos sociais para
lutar pela democratização da comunicação. Embalada pela Lei de Meios, na
Argentina, e outros marcos regulatórios para a radiodifusão na América Latina,
a militância pressionava os governos dos presidentes Lula e Dilma Rousseff (PT)
a enfrentar os oligopólios midiáticos que mantinham uma agenda elitista e a
todo o tempo buscavam desestabilizar o governo. Pouco adiantou.
Os
movimentos pelo direito à comunicação seguiram lutando pela regulamentação dos
meios de comunicação e por políticas de incentivo à comunicação pública e
mídias independentes e comunitárias. O governo Lula, seguido de Dilma,
continuou ignorando essa pauta, alimentando com concessões e verba pública os
gigantes da radiodifusão. Então, veio o golpe. Em poucos meses, Michel Temer
(MDB) desmontou o projeto de comunicação pública para o país, reverberando em
diversos estados. Também fechou as portas para “midialivristas” e iniciativas
da famigerada “mídia alternativa”.
Enquanto
isso, petistas e governistas lamentavam o papel central que a “grande mídia”
teve na promoção do golpe que tirou Dilma da presidência. O próprio Lula, por
diversas vezes, contra-atacou o grupo Globo, um dos protagonistas do golpe.
Depois de alguns anos, o ex-presidente foi eleito para um novo mandato. Sua
base de apoio avisava que o governo não poderia repetir os mesmos erros e a
pauta da democratização da comunicação, adormecida por anos, voltou à tona.
No
entanto, os primeiros anos do novo governo Lula não trouxeram nada de novo sob
o sol. Os projetos de impulsionamento da comunicação pública e de mídias
independentes ficaram no passado. E o velho modo de fazer política foi o que
perdurou no novo governo, seguindo um modelo de concentração midiática que
abafa vozes dissonantes. Mas, em meio à terra arrasada, há algo sob os
escombros?
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Nada de novo sob o sol
O
anúncio de Juscelino Filho (União Brasil) para o ministério das Comunicações já
foi um sinal evidente da falta de interesse do governo Lula pela pasta. No
artigo “Precisamos falar sobre o Ministério das Comunicações”, o jornalista
Paulo Victor Melo chama a atenção para a falta de diálogo do ministério com a
sociedade civil e a definição de políticas pautadas nos interesses do setor
empresarial e de correligionários políticos proprietários de mídias.
Anunciado
no início do governo Lula, Juscelino foi mantido no cargo até onde deu.
Investigado por desvios de emendas parlamentares, só abandonou o ministério
depois que a Procuradoria Geral da República o denunciou ao Supremo Tribunal
Federal (STF) pelo crime de corrupção, em abril de 2025. Após a queda de
Juscelino, Frederico de Siqueira Filho foi nomeado para assumir a pasta. Antes
do seu anúncio, Lula chegou a afirmar que “o União Brasil tem o direito de me
indicar um sucessor para o Juscelino”.
Enquanto
isso, no Congresso, parlamentares articulam a aprovação do PL 6.106/2023, que
flexibiliza a participação de empresas de rádio e TV em formações de cadeias e
associações. O projeto se soma à Lei 14.812, aprovada em 2024 e que ampliou o
número de outorgas para uma mesma empresa. Na prática, tais medidas ampliam a
concentração midiática nas mãos de poucos grupos, como aponta o artigo “Nova
lei articulada por elites empresariais e evangélicas aprofunda concentração”,
de autoria dos jornalistas Aline Braga e Iano Flávio.
Enquanto
o lobby empresarial faz avançar projetos no Congresso, rádios comunitárias
encontram dificuldades para incidir com suas pautas. A Associação Brasileira de
Rádios Comunitárias (Abraço Brasil), por exemplo, vem tentando chamar a atenção
do governo para alterar o Decreto 2.615/98 e viabilizar a publicidade em rádios
comunitárias, em busca de sustentabilidade. A Abraço também vem se queixando da
ausência de interlocução com o governo federal e do desprezo dado às mídias
independentes.
O
governo Lula, portanto, segue reproduzindo um modelo “tradicional” para o
sistema de radiodifusão, distante das medidas apontadas pelos movimentos para
democratizar a comunicação. Em 2024, ano em que o golpe civil-militar completou
60 anos, algumas comparações com o antigo regime foram inevitáveis. O artigo
“De golpe em golpe: o sistema de radiodifusão brasileiro e a herança da
ditadura civil-militar” destaca a estrutura montada durante a ditadura e
reproduzida até hoje, como o investimento público em benefício de algumas
empresas de comunicação, medidas de favorecimento ao oligopólio midiático e,
especialmente, a farra de concessões públicas de rádio e TV, usadas como moeda
de troca e indo parar nas mãos de aliados políticos.
Apesar
das quatro décadas de redemocratização, o sistema brasileiro de radiodifusão
segue sendo uma herança da ditadura. O resultado disso é a própria concentração
de propriedade de empresas de rádio e TV por oligarquias políticas. Nas
eleições municipais de 2024, alguns desses políticos foram identificados pela
pesquisa “Eleições 2024: mídia e violência nas disputas municipais”, realizada
pelo coletivo Intervozes. O levantamento mapeou 46 candidaturas ligadas a donos
de rádio e TV em 21 estados brasileiros.
Exemplos
de “coronéis da mídia” não faltam. Rádios e emissoras de TV seguem nas mãos da
família Magalhães (do ex-prefeito ACM Neto) na Bahia; da família Barbalho, do
governador Éder, no Pará; da família Franco, em Sergipe; dos Sarney, no
Maranhão e, até pouco tempo atrás, Collor nas Alagoas. Este, inclusive, vem
atravessando um conflituoso processo de “divórcio” com o grupo Globo, como
destaca o artigo “Após meio século, casório entre Collor e a Globo caminha para
o fim”.
O ano
de 2024 foi também o de despedida de Sílvio Santos, que faleceu aos 93 anos. Um
dos símbolos da TV brasileira, o comunicador construiu um império midiático a
partir de suas relações políticas nem sempre republicanas. Em “A pipa da TV não
sobe mais”, os jornalistas Paulo Victor Melo e Suzy dos Santos apontam a
relação de Sílvio Santos com o regime militar e o uso do entretenimento na TV
para fortalecer estereótipos e reproduzir violências LGBTfóbicas, misóginas e
racistas. Um retrato do que, por muitas décadas, foi naturalizado na televisão
brasileira e explorado em troca de lucro e audiência.
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Comunicação Pública ainda sobrevive
O breve
governo Temer atingiu em cheio a comunicação pública no Brasil, iniciando um
processo de desmonte irreversível a curto prazo. Até os mais otimistas não
apostavam que o projeto de comunicação pública para o país retornasse à mesa do
presidente Lula como uma de suas prioridades. De fato, não tem sido. A situação
nos estados também não ajuda, com poucos veículos ainda se equilibrando após a
tormenta enfrentada nos últimos anos.
No
entanto, alguns gestos do governo trazem boas expectativas. É o caso da criação
do Sistema Nacional de Participação Social na Comunicação Pública (COMEP) e a
instalação do Comitê Editorial e de Programação e do Comitê de Participação
Social, Diversidade e Inclusão (CPADI), anunciados pela Empresa Brasil de
Comunicação (EBC). A promessa do governo é de garantir a participação popular
no processo de gestão da EBC, em resposta à extinção do Conselho Curador,
medida adotada por Temer em 2016 e que sepultou a incidência da sociedade civil
nos rumos da empresa pública.
A
composição nos comitês criados pela EBC foi definida no final de 2024, após
eleição aberta. A sua instalação, porém, só ocorreu em junho de 2025. O
jornalista Iano Flávio, membro do Intervozes e representante do coletivo no
comitê avalia que a demora na convocação dá sinais de que “há um desinteresse
da EBC e do próprio governo em ouvir a sociedade civil na gestão do sistema
público de comunicação”. No entanto, Iano destaca a “diversidade e
representatividade da composição dos comitês”, capaz de estimular debates em
torno de uma “comunicação efetivamente pública e autônoma”.
Um
impasse vivido dentro da EBC é a discussão sobre o novo Plano de Cargos e
Remunerações (PCR) e a reivindicação dos trabalhadores e trabalhadoras por
isonomia salarial e respeito à jornada específica dos jornalistas. Alegando
falta de diálogo com a diretoria da empresa pública, profissionais promoveram
paralisações e greves, inclusive durante o período eleitoral de 2024, e vem se
repetindo ao longo de 2025. De acordo com os sindicatos dos Jornalistas e dos
Radialistas do Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo, a diretoria da EBC
teria informado não possuir orçamento para implementação do plano em 2025 e nem
previsão para 2026.
Nos
estados brasileiros, a comunicação pública também resiste em um contexto de
baixo financiamento. No artigo “Dívidas dos estados podem fortalecer a
comunicação pública brasileira?”, os jornalistas Pedro Vilela e Gésio Passos
sugerem a possibilidade das emissoras públicas se federalizarem em rede para
serem incluídas no Programa de Pleno Pagamento da Dívida dos Estados (Propag),
que busca renegociar dívidas dos estados devedores com o governo federal. Além
de propor alternativas econômicas para a valorização das emissoras, os
jornalistas chamam a atenção para a importância de retomar o debate sobre a
construção de um projeto de comunicação pública “com recursos, autonomia e
participação social”.
Gésio
Passos também coordenou uma pesquisa que analisou a produção de conteúdo
regional nas emissoras públicas e comerciais em onze capitais brasileiras.
Divulgada em 2025, pelo Intervozes, o levantamento apontou uma queda na
produção regional das emissoras públicas, acompanhada de um aumento nas mídias
privadas. Em 2024, o conteúdo local representava apenas 12% da programação das
emissoras públicas pesquisadas, com uma média de 20 horas semanais.
O
levantamento também ponderou o conteúdo dos programas, especialmente nas TVs
comerciais, que dedicam, em média, 27,5 horas semanais de programação local em
cada emissora. A análise apontou que 78% deste conteúdo são de programas
jornalísticos (41,2%) e policialescos (36,7%), com a ressalva de que diversos
veículos têm adotado uma estética “policialesca” em seus telejornais. De acordo
com a pesquisa, “a maior parte da programação local é dominada por programas
policiais (…), isso sem considerar a percepção de que as reportagens
‘policialescas’ têm influenciado a linguagem dos telejornais ‘tradicionais’ (…)
Esse fato amplia o espaço das narrativas com viés policial no jornalismo das
TVs abertas”.
Por
outro lado, muitas emissoras públicas têm apostado no esporte para compôr sua
grade local. Um exemplo vem do Espírito Santo, com a TV Educativa (TVE-ES)
batendo recordes na transmissão dos 59 jogos do campeonato estadual de futebol
masculino. A TV Educativa da Bahia (TVE-BA) é outra emissora pública que se
destaca na cobertura do esporte local, especialmente os torneios de futebol
masculino e feminino. No mesmo embalo, a TV Brasil passou a cobrir o campeonato
brasileiro de futebol feminino e, em 2025, comemorou o aumento de 23,8% na
audiência, em comparação ao ano anterior, quando a emissora e a Rede Nacional
de Comunicação Pública inauguraram a transmissão do torneio.
De
acordo com Iago Vernek, membro do Intervozes e coordenador do Observatório dos
Direitos de Transmissão dos Futebóis, a comunicação pública cumpre um
importante papel na cobertura esportiva, “sobretudo em relação aos campeonatos
menos valorizados pela mídia comercial hegemônica”, destaca. O Observatório vem
mapeando as transmissões de futebol masculino e feminino, com dados de 2012 a
2025. Para Iago, “os principais agentes políticos do futebol (clubes,
federações e imprensa) parecem dependentes das receitas provenientes de
contratos com os meios de comunicação privados e, portanto, pouco interessados
em valorizar a comunicação pública”.
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Nós por nós
A
manutenção de um modelo de radiodifusão que privilegia políticos aliados e
grandes empresas, somada à ausência de políticas públicas de fomento às mídias
independentes, faz crescer as desigualdades no setor e limita a pluralidade de
ideias, narrativas, olhares e expressões. O gargalo econômico sufoca as mídias
menores e a sustentabilidade se torna um dos principais desafios.
Pesquisa
divulgada pela InternetLab em 2024 revela os abismos no jornalismo brasileiro.
O relatório “Desigualdades Sociais e Sustentabilidade de Mídias no Brasil” traz
dados e depoimentos que traçam um perfil das mídias independentes no país e
sugere mecanismos para o seu financiamento. Diante da ausência de políticas
públicas, o relatório destaca a importância que a filantropia vem tendo para
contribuir com a manutenção dos veículos.
Mas, de
acordo com a pesquisa realizada pela InternetLab, “o Estado e a filantropia
ainda não conseguiram desenvolver mecanismos eficazes para garantir a
sustentabilidade das mídias negras, indígenas e periféricas/territoriais”.
Ainda segundo o relatório, a falta de políticas para esses veículos “demanda a
criação de dispositivos legais de ações afirmativas que fortaleçam as mídias
independentes”. O estudo ainda mapeou leis e projetos de lei de incentivo às
mídias nos estados brasileiros e apenas nove matérias foram encontradas. No Rio
de Janeiro, Pernambuco, São Paulo e Minas Gerais, tramitam projetos de lei de
fomento às mídias locais e comunitárias, mas paradas há anos.
Uma das
reivindicações dos movimentos pelo direito à comunicação é sobre o
direcionamento político e estratégico das verbas públicas de publicidade. Assim
como na época da ditadura, as gigantes da comunicação seguem concentrando esses
recursos. “Eu acho que o grande desafio agora é a gente poder conquistar pelo
menos uns 10% de toda a verba do governo para essas organizações”, aponta
Elaine Toledo, sócia do Alma Preta.
O
relatório também defende ações afirmativas para garantir uma melhor
distribuição dos recursos públicos; criação de um fundo filantrópico e também
público de apoio ao jornalismo; regulação das plataformas digitais, com medidas
para remunerar a produção jornalística; além da criação de uma política de
Estado para a sustentabilidade do jornalismo de interesse público.
A
diversidade e pluralidade das mídias no Brasil contrasta com a homogeneidade
dos discursos e narrativas que partem dos poucos grupos que controlam a mídia
no Brasil. Os fatos mostram de que lado da história a mídia comercial
hegemônica esteve durante a ditadura militar e o golpe de 2016. Revelam,
portanto, os interesses particulares acima do compromisso com a democracia e o
interesse público. A manutenção de um sistema de radiodifusão que segue
privilegiando o oligopólio empresarial e a concentração de mídia nas mãos de
políticos repete um filme já conhecido. Não é preciso esperar um novo golpe
para lembrar da importância de se democratizar a comunicação através de
políticas públicas que combatam o silenciamento de grande parte da sociedade e
permita que a liberdade de expressão seja um direito de toda a população e não
privilégio de alguns poucos grupos de comunicação que detém o controle das
narrativas e informações que serão produzidas e transmitidas para todo o país.
Fonte:
Por Alex Pegna Hercog, no Le Monde

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