Ludwig
von Mises era um ideólogo do livre mercado, não um intelectual
Em seu
livro de 1922, “Socialismo: Uma
Análise Econômica e Sociológica”, o famoso economista liberal clássico
austríaco Ludwig von Mises apresenta sua análise como uma crítica imparcial e
sóbria — baseada em avaliações “científicas” e “utilitárias”, em vez de
preconceito ou moralismo. Em uma parte reveladora, no entanto, Mises deixa a
máscara cair. Ele critica duramente os liberais que estão dispostos a permitir
qualquer intervenção estatal na economia para promover o bem-estar geral:
Também
não é possível chegar a um acordo, colocando parte dos meios de produção à
disposição da sociedade e deixando o restante para os indivíduos. Tais sistemas
simplesmente permanecem desconectados, lado a lado, e operam plenamente apenas
dentro do espaço que ocupam. […] O acordo é sempre apenas uma pausa momentânea
na luta entre os dois princípios, não o resultado de uma reflexão lógica sobre
o problema. Consideradas do ponto de vista de cada lado, as meias-medidas são
uma parada temporária no caminho para o sucesso completo.
Em vez
de um argumento “lógico” ou “científico”, a impressão predominante que se tem
ao ler as muitas obras de Mises é de um dogmatismo implacável, com mais do que
um toque de xenofobia e elitismo. (“Você tem a coragem de dizer às massas o que
nenhum político lhes disse: você é inferior e todas as melhorias em suas
condições, que você simplesmente considera garantidas, você deve ao esforço de
homens que são melhores do que você”, escreveu Mises a Ayn Rand em 1958, elogiando seu
tratado sobre livre mercado A Revolta de Atlas). Uma espécie de
marxista vulgar e bizarro, Mises realmente pensava que liberalismo era sinônimo
de defesa ideológica da propriedade privada.
Isso se
refletiu em sua visão hagiográfica da história do capitalismo. Segundo Mises, a
sociedade de mercado era a única responsável pelo progresso humano desde a
Idade Média. Se outras forças desempenharam um papel — sejam grupos políticos
lutando pelo sufrágio universal ou trabalhadores organizados reivindicando
melhores condições — estas foram possibilitadas pelo capitalismo (e, portanto,
de importância insignificante) ou foram, de fato, uma barreira ao avanço
benéfico do capitalismo. Da mesma forma, se o capitalismo liberal teve falhas
ou capítulos sórdidos, foi culpa das
forças igualitárias por introduzirem imperfeições anticapitalistas ou por
representarem uma ameaça tal que somente a ação repressiva (à la fascismo)
poderia combatê-las.
É um
dia e tanto para eu concordar com Milton Friedman, mas sua caracterização de Mises como
um intolerante “sem dúvida” foi certeira. Qualquer pessoa que já tenha passado
algum tempo discutindo com um fanático religioso reconhecerá imediatamente os
tediosos movimentos justificativos que povoam a obra de Mises.
Mises
sobre liberalismo, capitalismo e utilitarismo
Ludwig
von Mises nasceu em 1881 na cidade de Lemberg, Áustria-Hungria (atual Lviv,
Ucrânia). Tornou-se um dos economistas defensores do livre mercado mais
influentes do século XX, moldando dezenas de figuras de direita, incluindo
Friedrich Hayek, Murray Rothbard e (muitas vezes a contragosto) Ayn Rand.
Mises
cresceu em uma família judia rica e talentosa e estudou na Universidade da
Áustria com o economista antimarxista Eugen von Böhm-Bawerk. Após a Primeira
Guerra Mundial, Mises ocupou vários cargos de prestígio na nova República da
Áustria, incluindo o de consultor econômico do austrofascista Engelbert
Dollfuss. Na mesma época, Mises começou a publicar a série de livros que o
tornaria famoso muito além dos círculos econômicos. O enorme sucesso de “Socialismo” chegou
às bancas em 1922, e seu polêmico “Liberalismo: A Tradição Clássica” foi
lançado cinco anos depois.
Após a
invasão nazista da Áustria, Mises e sua família fugiram do continente e se
estabeleceram nos Estados Unidos. Ele acabou lecionando na Universidade de Nova
York, tornou-se ativo no pequeno, mas crescente, círculo libertário dos Estados
Unidos e, em 1949, publicou sua obra-prima, Ação Humana: Um Tratado de Economia. Ele faleceu em 1973
na cidade de Nova York.
Mises é
talvez mais conhecido por seus escritos sobre o “problema do cálculo”, que,
segundo ele, atormentaria qualquer sociedade socialista. No capitalismo,
explica Mises, o mecanismo de preços permite que empresas com fins lucrativos
determinem quais produtos os consumidores desejam e em que quantidade. É “uma
ilusão”, argumenta ele, que uma comunidade socialista em larga escala pudesse
realizar tais cálculos sem dinheiro ou um meio de troca semelhante. Na melhor
das hipóteses, uma sociedade socialista tomaria decisões sobre o que produzir e
como distribuí-los com base em “avaliações vagas” que poderiam priorizar apenas
as mercadorias “mais urgentemente necessárias”. O mercado capitalista,
argumenta Mises, sempre vence o planejador socialista.
O
problema do cálculo foi posteriormente aprimorado por
Hayek e
representa, de fato, um sério desafio para socialistas com inclinação para o
planejamento. Alguns socialistas responderam que os avanços tecnológicos
resolvem o problema do cálculo, já que os computadores hoje podem lidar com
níveis de dados muito maiores. Basta observar, dizem eles, empresas
capitalistas realmente existentes, como o Walmart, que planejam em grande
escala. Outros (inclusive eu) acreditam que o
socialismo de mercado mais a democracia no local de trabalho são o caminho a
seguir.
Mas, em
vez de reacender os debates sobre o “problema do cálculo”, gostaria de me
concentrar nas profundas falhas dos argumentos morais e políticos de Mises a
favor da propriedade privada e do capitalismo. Mises frequentemente os agrupa,
de forma a-histórica, sob o rótulo de “liberalismo”, como em seu livro Liberalismo.
O
programa do liberalismo, portanto, se condensado em uma única palavra, teria
que ser: propriedade, isto é, propriedade privada dos meios de produção […]
Todas as outras reivindicações do liberalismo decorrem dessa reivindicação
fundamental. Ao lado da palavra “propriedade”, no programa do liberalismo,
podem-se, com bastante propriedade, colocar as palavras “liberdade” e “paz”.
Mises
reconhece que sua definição não é compartilhada por muitos outros que se
autodenominam liberais, mas vai direto ao ponto. Ele critica liberais renomados
como John Stuart Mill por argumentarem que o
liberalismo pode ser separado da reverência à propriedade. Ele investe contra
os liberais dos “direitos naturais” e do “contrato social”, incluindo
defensores ferrenhos da vida, da liberdade e da propriedade, como John Locke.
Em vez
disso, Mises defende o capitalismo e a propriedade privada em bases puramente
utilitárias — tanto psicológica quanto moralmente. Ele considera a melhor
sociedade aquela que satisfaz eficientemente as necessidades humanas e insiste
que a “ciência” da economia demonstrou decisivamente que somente o capitalismo
pode fazê-lo eficientemente, incentivando as pessoas a trabalhar e a fazer a
economia crescer. O que torna o mercado singularmente poderoso para Mises é sua
crença de que, por meio da busca de cada pessoa por seu próprio interesse
individual, elas contribuem para o bem-estar geral por meio de trocas
mutuamente benéficas que, por sua vez, incentivam um maior crescimento
econômico. Às vezes, ele compara o mercado a algo próximo a uma democracia mundial,
onde cada consumidor pode votar com seu dinheiro sobre o que deve ser
produzido.
Embora
Mises reconheça que algumas pessoas têm mais dinheiro para “votar”, ele não se
incomoda com esse desequilíbrio. Ele acredita que devemos desconsiderar as
demandas moralistas por igualdade (motivadas, segundo ele, por mero
“ressentimento”) e, em vez disso, compreender que a maré alta eleva todos os
barcos. Eventualmente, ele sugere, o liberalismo e o capitalismo trarão um alto
padrão de vida e paz mundial para todos.
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Igualdade moral e felicidade para todos
Ao
analisar os argumentos de Mises sobre liberalismo, utilitarismo e propriedade,
fica claro rapidamente que há muita manipulação em curso. Pelo menos parte de
sua exasperação com figuras mais igualitárias que compartilhavam sua
perspectiva utilitarista, como Jeremy Bentham e John Stuart Mill, pode ser
atribuída à falta de compreensão ou à não aplicação consistente da doutrina.
Por exemplo, Mises frequentemente rejeita veementemente a ideia liberal
fundamental da igualdade moral humana, muitas vezes ridicularizando-a como uma
fantasia sentimental.
De
fato, seu utilitarismo às vezes resvala para o bom e velho elitismo
meritocrático. Em trechos de “A Mentalidade
Anticapitalista”,
ele elogia a sociedade capitalista por permitir que as desigualdades naturais
se expressem de forma mais vívida, abrindo caminho para que os melhores cheguem
ao topo. Na sociedade de mercado,
A
desigualdade dos homens em termos de capacidades intelectuais, força de vontade
e aplicação torna-se visível. O abismo entre o que um homem é e realiza e o que
ele pensa sobre suas próprias capacidades e realizações é impiedosamente
revelado. Os devaneios de um mundo “justo” que o trataria de acordo com seu
“verdadeiro valor” são o refúgio de todos aqueles atormentados pela falta de
autoconhecimento.
Nessa
perspectiva, a maravilha do capitalismo reside no fato de que, diferentemente
das ordens aristocráticas — onde as hierarquias são estabelecidas e alteradas
por acasos de nascimento — a competição dinâmica da sociedade de mercado eleva
os superiores e rebaixa os inferiores à sua posição adequada. Muitas vezes, a
perspectiva pouco científica de Mises é encoberta por sua romantização dos
empreendedores e pela difamação dos trabalhadores — como em “Socialismo”,
quando compara o trabalhador que pensa compreender um empreendimento complexo
ao “homem comum” que acredita que o Sol gira em torno da Terra.
O
problema é que a doutrina da igualdade moral dos indivíduos não é apenas
fundamental para o direito natural e as formas contratuais de liberalismo, mas
também para o utilitarismo — ao qual Mises ostensivamente adere. No século XIX,
os utilitaristas Bentham e Mill eram considerados radicais por suas visões
sobre democracia política e igualdade econômica. Isso decorreu logicamente dos
princípios fundamentais do utilitarismo: garantir a “maior felicidade para o
maior número de pessoas” e, como disse Mill, que “todos [devem] contar como um,
ninguém como mais de um”. Se o objetivo é alcançar o mais alto nível de
felicidade geral para uma sociedade na qual a felicidade de cada pessoa conta
igualmente, então uma distribuição de bens relativamente ou mesmo altamente
igualitária — sujeita a variações com base nas necessidades particulares de
cada indivíduo — pareceria a única distribuição sensata.
De
fato, isso representou um problema fundamental para defensores utilitaristas
mais sofisticados do mercado, como o filósofo inglês Henry Sidgwick. Em seu
famoso livro Methods of
Ethics [Métodos de Ética], de 1874 , Sidgwick destacou como
a psicologia utilitarista insistia que todos somos “hedonistas racionais”, como
sugeria a sociedade de mercado, mas sua moralidade exigia que adotássemos uma
posição de “benevolência racional” que negasse que até mesmo nossos próprios
desejos tivessem peso especial ao determinar a correção ou incorreção de nossas
ações. Afinal, se garantir a maior felicidade para o maior número de pessoas
significasse que os ricos abrissem mão do excesso de riqueza para os pobres
(que obtinham mais utilidade marginal com isso), a coisa certa a fazer
pareceria clara.
Mais
tarde, economistas defensores do livre mercado, como Mises, reformularam o
utilitarismo em linhas muito mais cruas, puramente em defesa do capitalismo: as
sociedades de mercado não apenas ofereceriam aos consumidores uma ampla gama de
bens para satisfazer suas necessidades e gostos, mas também gerariam um
crescimento econômico fantástico, promovendo maior felicidade para todos a
longo prazo. No entanto, isso tornou o argumento a favor do capitalismo
desenfreado extremamente vulnerável à falsificação empírica, uma vez que seus
proponentes precisam provar continuamente que os altos níveis de desigualdade
decorrentes de seu sistema preferido são absolutamente necessários para
promover maior felicidade a longo prazo, e que qualquer interferência fomentará
sofrimento desnecessário.
Afinal,
não se pode ser um utilitarista consistente e lançar por aí o tipo de
bombástica elitista que Mises faz — pela lógica utilitarista, cada um conta
como um, o mesmo que todos os outros. Isso é verdade até mesmo em questões como
gosto e alta cultura, que Mises estava ansioso para associar com riqueza
desigual. No final, como Bentham coloca, um utilitarista puro deve sustentar
que um “alfinete” é tão bom quanto John Milton se o primeiro rende satisfação a
mais pessoas. Mais importante ainda, em um mundo onde as democracias sociais
nórdicas desfrutam dos mais altos
padrões de vida do mundo, e onde serviços públicos como o Serviço Nacional de
Saúde do Reino Unido estão entre os mais populares em seus respectivos países, um utilitarista
sóbrio teria que concluir que uma sociedade com um forte Estado de bem-estar
social é preferível ao capitalismo de livre mercado.
Poderíamos
ir ainda mais longe e apontar que um foco verdadeiramente global na utilidade
revelaria vastas disparidades entre as diferentes regiões do mundo, com os
ricos desembolsando somas enormes em bens de baixa utilidade marginal, enquanto
os pobres não têm acesso a comida, abrigo e água. Qualquer utilitarismo
rigoroso reconheceria que não há argumento para gastar US$ 275 milhões
em um iate de luxo quando se pode vacinar milhares de
crianças contra a malária por dez dólares cada.
Liberalismo,
imperialismo e xenofobia
“Todo
o poder humano seria insuficiente para tornar os homens realmente iguais. Os
homens são e sempre permanecerão desiguais. São considerações sóbrias de
utilidade, como as que apresentamos aqui, que constituem o argumento a favor da
igualdade de todos os homens perante a lei. O liberalismo nunca visou nada além
disso, nem poderia exigir nada mais. Está além do poder humano tornar um negro
branco. Mas o negro pode receber os mesmos direitos que o homem branco e,
assim, oferecer-lhe a possibilidade de ganhar o mesmo se produzir o mesmo.” —
Ludwig von Mises, Liberalismo
Uma das
coisas mais impressionantes sobre Mises é sua compreensão de conto de fadas da
complexa história do liberalismo, que ele frequentemente combina com uma dose
de chauvinismo e preconceito. Para Mises, o liberalismo e o capitalismo liberal
seriam fundamentalmente anti-imperialistas e pró-paz. O liberalismo seria menos
uma ideologia adotada por atores políticos concretos do que uma doutrina
monolítica existente fora da realidade material. Pensar o liberalismo em termos
rarefeitos, puramente ideacionais, permite a Mises mover as balizas e se
envolver em uma ginástica verdadeiramente notável quando confrontado com o
passado, digamos, conturbado do capitalismo liberal.
E não é
difícil entender o porquê. O auge do liberalismo clássico do século XIX é frequentemente chamado de “Era
do Imperialismo”. Estados capitalistas liberais como a Grã-Bretanha e os
Estados Unidos invadiram e anexaram vastas partes do globo, ao mesmo tempo em
que proferiam sutilezas liberais. A tomada de terras dos nativos estadunidenses
era frequentemente justificada com base na linha lockeana de que os povos
indígenas não estavam usando a terra “produtivamente”; a colonização da Índia
foi legitimada, em parte, como um esforço para levar a civilização e o mercado
a uma parte supostamente atrasada do mundo.
A
resposta de Mises a esses crimes hediondos é simplesmente defini-los. Ele
condena (admiravelmente) o colonialismo dos Estados absolutistas europeus, mas
defende o imperialismo britânico com base no fato de que ele foi
direcionado
não tanto para a incorporação de novos territórios, mas para a criação de uma
área de política comercial uniforme a partir das diversas possessões sujeitas
ao Rei da Inglaterra. Isso foi resultado da situação peculiar em que a
Inglaterra se encontrava como a pátria-mãe dos assentamentos coloniais mais
extensos do mundo.
“Peculiar”
é de fato uma palavra peculiar para um processo que enviou armas e emissários
britânicos para todos os cantos da Terra, fazendo jorrar rios de sangue e
acumulando montanhas de
cadáveres em
seu rastro. Alinhado a esse projeto geopolítico, havia um projeto econômico, no
qual regiões coloniais foram transformadas em vastos centros de extração de
recursos para o bem da metrópole. Um exemplo, levantado pelo historiador
marxista Eric Hobsbawm em A Era do Capital, foi a transformação
de grande parte da América do Sul e do Caribe em imensas plantações de açúcar,
cacau e café. Essas regiões foram perpetuamente subindustrializadas, com muitas
presas até hoje nos altos e baixos de uma economia dependente de recursos.
O
projeto colonial foi um exemplo espetacular das práticas históricas reais do
liberalismo, contradizendo violentamente seus compromissos teóricos com a
liberdade e a desigualdade. A menos, é claro, que você possua a mente dogmática
de Ludwig von Mises.
Em “A
Mentalidade Anticapitalista”, publicado pela primeira vez em 1956,
enquanto muitos ao redor do mundo ainda lutavam sob o jugo do colonialismo,
Mises culpou os próprios países colonizados por esse legado, atribuindo-o, em
alguns momentos, à sua inferioridade cultural e civilizacional. Como ele mesmo
afirma, “o que torna centenas de milhões de pessoas na Ásia e na África
destituídas é que se apegam a métodos primitivos de produção e perdem os
benefícios que o emprego de ferramentas melhores e designs tecnológicos
modernos poderia lhes proporcionar […] É absurdo culpar o capitalismo e as
nações capitalistas do Ocidente pela situação difícil que os povos atrasados trouxeram sobre si
mesmos”.
Estas
são palavras ricas, considerando que “as nações capitalistas do Ocidente”
foram, por muitos anos, as próprias donas dos chamados “povos atrasados”. Mas
Mises parece disposto a ignorar a culpa pelo sofrimento deles tão rapidamente
quanto os capitalistas, munidos de doutrinas liberais, correram para
explorá-los.
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O von Mises não empírico
Apesar
de suas frequentes pretensões ao status científico, grande parte da obra de
Mises se aproxima mais do raciocínio a priori de poltrona do que de uma análise
rigorosa. Ele parte de um conjunto de premissas rígidas sobre a natureza humana
e justificativas utilitárias para o capitalismo e, em seguida, adapta dados e
fatos históricos de forma intransigente para justificar essas suposições.
Nem
sequer é um raciocínio a priori particularmente bom. Quando forçado a lidar com
questões como o ponto de partida igualitário do raciocínio utilitário, Mises
simplesmente se esquiva e então recorre ao elitismo para chegar à conclusão que
deseja. Onde o mundo real da história real questiona sua visão, ele
simplesmente a define — mesmo que isso signifique caracterizar o projeto
imperial mais expansivo da história como pouco mais do que uma união aduaneira
com um excesso de bandeiras do Reino Unido.
Não
gosto de psicologizar aqueles que critico, mas farei uma rara exceção aqui.
Mises frequentemente recorre à linguagem do ressentimento para ridicularizar o
socialismo e a esquerda, caracterizando quaisquer esforços para redistribuir
riqueza como motivados pela inveja das massas em relação aos seus superiores.
No entanto, seus ataques ignoram a distinção fundamental entre inveja e
ressentimento. Inveja é querer o que o outro tem. Ressentimento, como Friedrich Nietzsche sabia, é querer
negar a alguém o que ele tem se você não pode ter, ou querer negar a alguém o
que você tem, já que você não pode desfrutar disso se outros
também o têm.
A
primeira pode ser uma fraqueza dos movimentos de esquerda, mas a segunda é
comum na direita — por exemplo,
quando os conservadores insistem que este é o “nosso” país e que não o
compartilharemos com migrantes e refugiados. Vistos dessa perspectiva, os
escritos de Mises são o retrato do ressentimento da direita dos poderosos em
relação aos fracos, ferozmente indignados com os movimentos dos trabalhadores
por ousarem pensar que eles e seus representantes poderiam administrar as
coisas tão bem quanto os capitalistas e, consequentemente, obter os privilégios
anteriormente reservados aos titãs dos negócios. E a única maneira de
justificar a negação desse poder democrático no local de trabalho é insistindo
em sua inferioridade.
Obrigado,
mas não, obrigado.
Fonte:
Por Matt McManus – Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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