Direita
não se emenda: Brasil Paralelo usou documento falso para atacar Maria da Penha
Investigação
sigilosa da Procuradoria-Geral de Justiça do Ceará, a que a Agência Pública
teve acesso, mostra que a produtora Brasil Paralelo usou um laudo falso em um
documentário sobre a Lei Maria da Penha, um marco na proteção das mulheres
contra a violência doméstica. A investigação apura a existência de uma
estratégia organizada para invalidar a lei e desacreditar a ativista.
Segundo
a investigação, o documentário aponta, falsamente, que teria ocorrido uma troca
de laudos periciais nos autos do processo para favorecer a condenação do
ex-marido de Maria da Penha, Marco Antonio Heredia Viveros. O filme mostra um
suposto “laudo” que estaria em posse do ex-marido e não teria sido juntado ao
processo.
Viveros
tentou assassinar Maria da Penha duas vezes em 1983. Primeiro, ele deu um tiro
em suas costas enquanto ela dormia – que a deixou paraplégica. Viveros disse à
polícia que havia sido uma tentativa de assalto, em que ele também teria ficado
machucado. Mas a versão foi posteriormente desmentida pela perícia. Quatro
meses depois, quando Maria da Penha voltou para casa, ele ainda a manteve em
cárcere privado e tentou eletrocutá-la durante o banho.
O laudo
falso mostrado pela Brasil Paralelo aponta que Viveros teria ferimentos que
corroboram a sua versão de que foi rendido por assaltantes. No entanto, a
análise pericial da Polícia Forense do Ceará mostra que o laudo é uma
“montagem”.
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Por que isso importa?
• Documentário da produtora de extrema
direita Brasil Paralelo contra a ativista Maria da Penha passou a ser
investigado por mostrar informações distorcidas para gerar descrédito sobre a
lei de proteção às mulheres;
• A Lei Maria da Penha, em vigor desde
2006, é considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no combate à
violência doméstica contra as mulheres.
A
perícia encontrou várias inconsistências: baixa qualidade de imagem, diferenças
de espaçamento entre linhas, de assinaturas e imagem de carimbos e até erro de
datilografia. “Dúvidas não há acerca da montagem do referido documento,
utilizado, igualmente, no referido documentário da plataforma BRASIL
PARALELO.”, disse o Ministério Público.
Documentário
mostra o laudo de Viveiros como o original e compara com o laudo utilizado no
processo. Investigação concluiu que documento de Viveros é falso.
Os
investigadores também tiveram acesso às mensagens de um grupo de WhatsApp
chamado “Investigação Paralela – Maria da Penha”, que foi obtido no celular de
Alexandre de Paiva, um influenciador que recebeu medida protetiva, foi afastado
das filhas e, desde então, move uma campanha para descredibilizar a lei. Ele é
um dos entrevistados do documentário.
No
grupo, um produtor da Brasil Paralelo pergunta se Viveros tem “esse documento
original”, “antes de ser adulterado”. O advogado de Viveros responde que havia
digitalizado e enviado a Paiva, que ficou de mandar para a produtora.
Após
citar essa troca de mensagens, o relatório transcreve um áudio enviado por
Henrique Zingano, diretor do documentário. “Então tem tudo aí para ser um… uma
puta resposta, assim pros caras, e… acabar com essa história de Maria da Penha
de uma vez por todas”.
Nos
trechos tornados públicos da investigação, não há menção de que os produtores
do documentário perguntaram ou tentaram checar sobre a veracidade do laudo. A
Pública pediu esclarecimentos ao Brasil Paralelo, que ainda não respondeu. O
espaço permanece aberto.
O
documentário com o laudo falso foi usado por Viveros como argumento para
reabrir a produção de provas do caso. Em março deste ano, a Advocacia-Geral da
União (AGU) ajuizou uma ação civil pública contra a Brasil Paralelo, pedindo
indenização de R$ 500 mil por danos morais coletivos por desinformação sobre o
caso Maria da Penha.
A
investigação aponta ainda que o documentário não seria “um movimento
espontâneo” de liberdade de expressão, mas sim “algo estruturado para atacar a
imagem da Sra. Maria da Penha, o julgamento realizado pelo sistema de justiça
do Ceará, na tentativa de minar a base de criação da Lei Maria da Penha e
ainda, lucrar” (negrito do original).
O
documento cita um áudio de Ricardo Ventura, outro entrevistado no documentário:
“Vamos fazer… soltar o podcast e depois monetizar dentro da gente. Porque
ganhar dinheiro não é pecado! Então é fazer a coisa certa e também monetizar da
maneira correta para que todo mundo ganhe. Porque todo mundo botou energia,
todo mundo botou tudo também. Entendeu?”, ele disse em um áudio enviado ao
grupo de WhatsApp MARIA X MARCO”, também obtido do celular de Paiva.
Extratos
bancários do influenciador mostram que ele recebeu R$ 7,6 mil em depósitos do
Google e R$ 1,6 mil do Meta. A Pública já mostrou que a Brasil Paralelo gastou
pelo menos R$ 305 mil para impulsionar 575 anúncios promovendo o documentário.
A
segunda fase da operação Echo Chamber, deflagrada na semana passada, cumpriu
mandados de busca e apreensão contra Viveros. A 9ª Vara Criminal de Fortaleza
também determinou a suspensão de todos os episódios do documentário da Brasil
Paralelo pelo prazo de 90 dias. A investigação segue.
O
documentário passou a ser investigado por mostrar informações distorcidas para
gerar descrédito sobre a lei e promover discurso de ódio.
A
investigação criminal visa elucidar possíveis crimes de perseguição e campanha
de ódio praticados contra Maria da Penha. A possibilidade de o laudo mostrado
no filme ser falso foi levantado pela influenciadora sobre direitos femininos
Caroline Sardá, que teve acesso ao original e enviou as suspeitas ao Ministério
Público.
Depois
da onda de ataques, Maria da Penha, símbolo da luta contra a violência contra a
mulher no Brasil, teve que ser incluída no Programa de Proteção a Defensores
dos Direitos Humanos.
Fonte:
Por Amanda Audi, da Agencia Pública

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