sexta-feira, 25 de julho de 2025

Dinheiro de produtora contratada pelo PL vai parar em reduto eleitoral de Valdemar da Costa Neto

Na semana passada, Cartas Marcadas revelou que o sócio de Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro público via fundo partidário (relembre abaixo). Como vocês gostaram, decidi continuar cavando no mesmo buraco. Posso garantir: o PL tem muito a esconder.

Só neste ano, mais de R$ 1 bilhão passará pelas mãos da legenda comandada por Valdemar da Costa Neto. Na prestação de contas do partido, encontrei um caso que me chamou atenção.

Se na edição anterior mostramos como o dinheiro público pode alimentar estratégias ideológicas e internacionais, agora é hora de olhar para dentro: há verbas que simplesmente voltam para onde tudo começou. Venha comigo até Mogi das Cruzes, a terra de Valdemar.

O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, desembolsou ao menos R$ 364 mil para a produtora audiovisual Caqui Filmes Para Publicidade Ltda nos últimos dois anos. Os pagamentos foram feitos com recursos do fundo partidário – ou seja, com dinheiro público.

Os desembolsos chamaram minha atenção porque a Caqui Filmes não tem site oficial ou perfil em redes sociais – e porque, em maio deste ano, a empresa recebeu uma transferência bancária de R$ 184 mil em um único pagamento do Diretório Nacional do PL.

Fui atrás e, segundo os dados da Receita Federal, a empresa tem sede no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Mas documentos obtidos por Cartas Marcadas revelam ligações da firma com Mogi das Cruzes, reduto eleitoral de Valdemar da Costa Neto. 

Comprovantes de pagamentos extraídos pela reportagem direto do DivulgaSPCA, plataforma de transparência da Justiça Eleitoral, revelam que os valores desembolsados pelo partido foram parar em uma agência bancária mogiana – ainda que a sede da empresa seja na capital.

O destino do dinheiro não é o único indício dos laços da Caqui Filmes com a terra de Valdemar. Certidões registradas na Junta Comercial de São Paulo, a Jucesp, são reveladoras sobre a trajetória da empresa até ser alçada a uma das principais fornecedoras do PL.

De acordo com os documentos, a Caqui Filmes foi fundada em 5 de julho de 2017, quando foi registrada como empresa individual em nome da profissional de gestão patrimonial Bruna Moreira Gomes, com sede no centro de… Mogi das Cruzes. O capital inicial declarado era de R$ 35 mil. 

Em 2019, no entanto, a produtora passou por uma reformulação: Bruna deixou a sociedade, e o controle foi assumido pela comunicadora Marília Padija de Oliveira, que transferiu a sede para São Paulo, onde a empresa está registrada hoje, com capital social de R$ 100 mil.

Apesar de ter deixado formalmente a Caqui Filmes, Bruna segue no quadro societário de outras duas empresas sediadas em Mogi das Cruzes. Na primeira delas, a Azimute Gestão Patrimonial, com capital social de mais de R$ 10 milhões, divide as cotas com a advogada Lidiane Mancio, filha de um ex-vereador de Mogi das Cruzes.
A segunda empresa trata-se do Grupo São Paulo de Comunicação, com capital de R$ 100 mil, que tem como sócio justamente a Azimute Gestão Patrimonial.
Bruna alega que as empresas fazem parte da carteira de clientes que ela atende na área administrativa.

Marília Padija, hoje sócia única da Caqui Filmes, também acumula laços com a cidade de Valdemar. Formada em Rádio e TV na Universidade de Mogi das Cruzes, a UMC, ela já trabalhou na RP Propaganda, uma agência mogiana que funcionou no município até 2019.

O pagamento mais alto feito à Caqui Filmes – R$ 184 mil, em maio de 2025 – também é o mais opaco. A transferência foi realizada pelo diretório nacional do PL, que ainda não especificou, nos registros públicos, qual serviço foi prestado em troca do valor.

Não há nota fiscal associada à transação nas bases consultadas pela reportagem, tampouco detalhamento da peça audiovisual eventualmente produzida. Em nota, a produtora disse que “presta serviços esporádicos [ao PL] e todos aprovados pelo Tribunal de Contas da União (TCU)”.

Os documentos relativos aos pagamentos de 2023 registram que o objetivo da prestação de serviços foi a produção de três mini-documentários com exemplos de histórias reais de mulheres que “fazem acontecer” no PL, um vídeo para exibição no evento Agrishow 2023 e outro voltado ao público jovem.

Busquei no canal do YouTube e só encontrei dois dos cinco vídeos encomendados há dois anos. As duas peças, que custaram R$ 38 mil cada uma, têm menos de 3 minutos de duração. Por e-mail, representantes da produtora disseram que “os vídeos de propaganda política partidária produzidos para o PL já foram veiculados em TV aberta. Os filmes para promover as bandeiras partidárias também foram veiculados nos estados e em canais internos do partido”.

Cartas Marcadas solicitou ao PL o envio dos links onde estão hospedados os vídeos contratados por meio de cada um dos pagamentos, mas não obteve respostas. Já a produtora enviou uma pasta com nove arquivos de vídeos – sendo três deles do PL Mulher, dois com Jair Bolsonaro, dois com Valdemar da Costa Neto, um gravado durante o Agrishow e um sobre filiação de jovens ao PL. Contudo, não especificou à qual contrato se refere cada entrega.

Em relação à agência bancária permanecer na cidade de Mogi das Cruzes, a produtora informou que “a conta foi aberta na cidade e lá permanece, devido ao bom relacionamento da empresa com a agência bancária local”. Também disse que não tem nenhuma ligação com o Grupo São Paulo Comunicação.

O presidente do PL também foi procurado. Até a publicação deste texto, não houve resposta.

<><> Quem é Valdemar?

Para responder a essa pergunta, é essencial ler essa reportagem da revista Piauí publicada em 2024. O perfil revela como Valdemar transformou o PL em uma das máquinas mais eficientes da política nacional — gerindo um orçamento oriundo do Fundo Partidário que é superior ao de 98% dos municípios brasileiros.

O texto mostra também como Bolsonaro virou um ativo do partido: tem salário, assessores, advogados e até alimentação pagos pelo PL. Entre os deputados, o grupo mais próximo de Valdemar já é chamado de “PL do V”, expressão que sintetiza o poder pessoal que ele exerce sobre a legenda.

<><> O boy de Mogi das Cruzes

O perfil assinado por Lauro Jardim em O Globo resgata a origem do apelido “Boy de Mogi das Cruzes”, herdado ainda jovem, quando iniciou a carreira política ao lado do pai, ex-prefeito da cidade. A reportagem relembra que Valdemar passou por cargos municipais, virou deputado federal e se tornou um dos principais articuladores do Centrão.

O trabalho ainda mostrou como, apesar dos escândalos, ele nunca perdeu o controle do PL — partido que usou para abrigar Lula em 2002 e Bolsonaro desde 2021.

>>>> RELEMBRANDO

¨      PL usa fundo partidário para pagar sócio de Eduardo Bolsonaro e organizador do CPAC no Brasil

O Partido Liberal, sigla de Jair Bolsonaro, utilizou R$ 160 mil de seu fundo partidário para pagar um sócio de Eduardo Bolsonaro, deputado federal do PL de São Paulo. 

O beneficiário do desembolso foi o advogado Sérgio Sant’Ana, diretor do Instituto Conservador-Liberal, organização criada em sociedade com o filho do ex-presidente — e que tem como principal missão a organização das edições brasileiras da Conferência de Ação Política Conservadora, o CPAC.

De acordo com a prestação de contas do PL ao Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, o pagamento foi efetuado em 24 de janeiro de 2024, sob a justificativa de serviços genéricos de “consultoria jurídica”. O documento fiscal que poderia fornecer mais detalhes dos serviços prestados ainda não está disponível – o prazo é só no final do ano. Por enquanto, o extrato financeiro do PL confirma apenas a data e o valor do desembolso. 

Sant’Ana é advogado de vários integrantes do PL, como os deputados federais Adilson Barros, de São Paulo, e Gustavo Gayer, de Goiás, e o ex-deputado André Porciúncula, da Bahia, mas os processos não têm ligação com a vida partidária. O TSE proíbe a utilização do fundo para pagamento de honorários advocatícios. Não foram localizados casos em que Sant’Ana defende o PL.

O pagamento do PL ao sócio de Eduardo Bolsonaro na organização do CPAC chama a atenção porque, no ano passado, o partido utilizou sua Fundação Álvaro Valle para bancar todos os ingressos do evento. A Fundação é mantida, em parte, com recursos do fundo.

Na ocasião, foi o próprio Sant’Ana que explicou o apoio da fundação ao evento. “É uma questão de sinergia. A missão da fundação do PL é trabalhar pela difusão dos valores conservadores no Brasil, e o CPAC é o maior evento conservador do país. Essa parceria, portanto, faz todo sentido”, disse. 

Na edição de 2023, o investimento do PL no CPAC superou os R$ 150 mil, de acordo com levantamento publicado no ICL Notícias. O valor considera R$ 122 mil aplicados pela Fundação Álvaro Valle e a verba somada de R$34,6 mil gasta por deputados bolsonaristas com diárias e passagens da Câmara dos Deputados para irem ao evento.

Procurados, Sant’Ana e o PL não responderam aos questionamentos feitos pelo Intercept sobre a natureza dos serviços prestados pela advogado. Eduardo Bolsonaro e o Instituto Conservador-Liberal também foram procurados. Não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.

<><> Do governo Bolsonaro para o CPAC

O CPAC é um evento criado originalmente nos EUA que reúne líderes e simpatizantes do movimento conservador. No Brasil, a conferência ocorre desde 2019, quando foi realizada em São Paulo. Já passou por Brasília e Minas Gerais e, desde 2021, é organizada pelo Instituto Conservador-Liberal.

A sociedade individual de advocacia de Sérgio Sant’Ana, beneficiária do pagamento, foi criada em janeiro de 2022. Os dados da empresa são praticamente os mesmos do Instituto Conservador-Liberal. 

A começar pelo número de telefone registrado, que é quase idêntico ao número cadastrado na Receita Federal pelo ICL, dirigido por Eduardo Bolsonaro e Sant’Ana desde sua fundação, em dezembro de 2019.

Além disso, os domínios CPAC Br e iclbr.com.br listam Sant’Ana como proprietário. Antes, a URL do ICL estava em nome do irmão de Sant’Ana, Hélio Cabral Sant’Ana, ex-diretor de tecnologia da informação na Secretaria-Geral da Presidência da República do governo Jair Bolsonaro.

Sérgio Sant’Ana, assim como o irmão, também passou por cargo comissionado no governo Bolsonaro. Ele foi assessor especial do Ministério da Educação na gestão de Abraham Weintraub e chegou até a ser cogitado para o cargo de ministro de estado. 

Depois do governo, os irmãos Sant’Ana têm se dedicado a articulações internacionais. Enquanto Sérgio se debruça na produção do CPAC, Hélio trabalha para uma empresa israelense de cibersegurança que tem conexões com o Exército Brasileiro.

<><> CPAC 2024: oito confirmados, sete do PL

Nas redes sociais, a ONG de Sérgio Sant’Ana e Eduardo Bolsonaro se dedica quase que exclusivamente a publicações promocionais da próxima edição do CPAC, que vai acontecer em julho, em Balneário Camboriú, em Santa Catarina. 

Até o momento, segundo o site do evento, foram confirmados oito palestrantes. Entre eles, sete são deputados federais do PL. Em boa parte das publicações anunciando os nomes dos convidados, quem aparece como garoto-propaganda é Sant’Ana.

Na primeira delas, em 26 de abril deste ano, o sócio de Eduardo Bolsonaro gravou um vídeo ao lado de Guilherme Derrite, secretário de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas, atualmente do Republicanos – mas em negociação para ingressar no PL. Derrite escreve artigos para o site do ICL.

Derrite, deputado federal licenciado para ocupar o cargo de secretário, foi o primeiro convidado confirmado para o CPAC 2024 a ter uma peça de divulgação nas redes sociais. Em 1° de maio, Sant’Ana gravou vídeo confirmando a presença de outra figura proeminente no PL paulista: o  ex-ministro Ricardo Salles.

Além de Salles, Derrite e, claro, Eduardo Bolsonaro, estão confirmadas as presenças de outros integrantes da bancada do PL no Congresso Nacional no CPAC 2024: Nikolas Ferreira, de Minas Gerais; e Júlia Zanatta, Caroline de Toni e Ana Campagnolo, de Santa Catarina.

O único palestrante confirmado que não integra as fileiras do partido é um estrangeiro, o ator e diretor mexicano Eduardo Verástegui, autor do filme “Sound of Freedom”. A obra caiu nas graças da extrema direita ao retratar a história de um ex-agente do Departamento de Segurança Interna do governo dos EUA que larga o posto para “fazer justiça com as próprias mãos” e tentar acabar com o tráfico sexual de pessoas.

 

Fonte: Por Paulo Motoryn, em The Intercept

 

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