Diário
de um intelectual de Terceiro Mundo: a Revolta do Contestado
Pesquei
no bar. Foi inevitável. Na quarta noite no Rio de Janeiro minhas pálpebras
pesavam toneladas e cheguei à conclusão que se pode morrer de Rio de Janeiro.
Aliás, tenho uma hipótese: no Rio a festa não pode parar graças às contradições
de classe que são muitas. Vive-se a festa como se estivesse a fugir da dura
realidade militarizada, racista, depreciada… a festa é antídoto.
Por
falar nisso, a Festa de Aniversário do Marx tinha sido bonita. Era a sua
primeira edição no Rio de Janeiro e, por feliz acaso do destino, pude
participar. Já era, no entanto, minha quarta atividade em quatro dias: fui à
UERJ, depois à UFF, de novo à UERJ e, finalmente, à Festa do Marx. Esgotei. Não
consegui sequer ouvir a fala do Zé Paulo Netto e, quando chegou minha vez de
falar, à minha exaustão foram acrescidas as luzes do palco, luzes que me
fizeram enxergar a plateia como espectro.
Cansado
para um caralho, não deixei, porém, de declamar o terceiro solilóquio de
Hamlet: ser ou não ser. Sim, Shakespeare inventou um sintoma chamado sujeito.
Tentaram fazer de Shakespeare uma cerveja sem álcool, mas se ouvirmos realmente
aquilo que ele expressa em suas peças veremos que seu poder de combustão numa
alma é altíssimo, como dizia Baldwin: “a sua responsabilidade, que é também o
seu júbilo e a sua força e a sua vida, é vencer quaisquer rótulos e intrincar
todos os conflitos insistindo no enigma humano”. Mas, ao fazer o solilóquio, me
sentia como uma personagem balzaquiana falando de flores a quem só está
interessado em concreto. Me senti pedante. Um pouco envergonhado. Uma vergonha
que valia a pena. Foda-se.
Meus
olhos se tornaram pesados e quando pesquei já estava noutro bar. Cian, Henrique
e Natan me censuraram. “Vai nos deixar?”, inquiriam. E, no entanto, eu só
pensava nas malas e nas roupas que tinha estendido no varal em meio a um
cansaço que me turvava até a audição. Só que ao invés de ir para a casa do
Demier, que me acolheu em mais uma estadia no Rio, fui a um último bar a
convite dele e do Mendel. Dessa vez o corpo pediu arrego. Cochilei gostoso.
Enquanto
cochilava, um único pensamento me dominava: teria que fazer as malas, tentar
dormir para no outro dia pegar um avião para São Paulo, refazer malas e, de
noite, pegar outro avião, dessa vez para Curitiba. Minha cabeça estava pesada,
mas me orgulhava ter feito tantos debates e conversado com tanta gente. Saí do
Rio contente numa temperatura de 28°C. Cheguei em Curitiba com 9°C e na manhã
seguinte atravessei 6°C.
Curitiba
foi só um detalhe. Minha escala era para União da Vitória. Então acordei no
Rio, almocei em São Paulo, dormi em Curitiba só para na manhã seguinte viajar
mais 270 km de carro. Viajei para uma cidade sobre a qual, até então, nunca
tinha ouvido falar — e logo saberia o motivo.
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O simpósio
Cheguei
em União da Vitória graças a um convite da professora Martha para realizar a
conferência de abertura intitulada A filosofia diante da identidade e os
problemas do identitarismo no III Simpósio Internacional sobre o Pensamento
Latino-Americano. A intervenção faria parte da divulgação do meu livro, O que é
identitarismo?.
Antes,
entretanto, eu teria que enfrentar a estrada, e um motorista foi enviado pela
universidade para me pegar no hotel em Curitiba. Medindo mais ou menos 1,70 de
altura, olhos espertos e ar interessado, Claudemir me recebeu dando
boas-vindas. Mais do que um motorista, porém, se revelaria uma espécie de
Virgilio explicando detalhes daquela terra em que eu poria os pés.
Eu não
conhecia nada, absolutamente nada, sobre União da Vitória, mas em pouco menos
de uma hora fiquei sabendo que ela estava encravada na região do Contestado.
“Contestado?”, pensei comigo, “Significante interessante!”. E de fato era.
Claudemir
me explicou que cem anos atrás aquela região assistiu a uma “guerra” iniciada
pela ânsia oligarca, pelos interesses de um Estado corrupto e uma transnacional
atrás de negócios rentáveis que expulsaria milhares de caboclos de suas terras,
dando início à maior guerra civil camponesa do Brasil. Uma luta que foi apagada
da história. Logo me dei conta, portanto, de que pisava uma terra cheia de
fantasmas, mistérios, crimes de Estado, pobreza, mas muita… muita luta e
esperança.
À
medida que avançávamos rumo a União da Vitória, Claudemir ia me dando detalhes
do levante, do messianismo em torno da figura de São José Maria, das esperanças
ainda não apagadas e das veias ainda abertas no Contestado. Surpreso pelo peso
histórico diante dos meus olhos, agradeci aos céus por ter tido a oportunidade
de conhecer mais um lugar no Brasil e me desprovincianizar de São Paulo e das
grandes capitais do sudeste.
Não
podemos esquecer que as cidades modernas, construídas como suporte da
mercadoria, foram projetadas também como lugares de esquecimento, e é só saindo
delas para saber que a argamassa que cobre o tijolo, cobre também a memória. À
medida que a estrada era atravessada, mais se desnudava para mim uma realidade
histórica invisibilizada pelas mesmas elites de sempre.
Minha
hipótese de que a chamada identidade nacional tinha sido construída em cima do
sangue de Canudos ganhava novos contornos, agora numa outra luta camponesa e
messiânica só que ocorrida no sul do país. Quando finalmente pus os pés em
União da Vitória, Claudemir fez questão de que passássemos próximos aos trilhos
ferroviários que dividiram Porto União da Vitória em dois municípios — Porto
União, pertencente a Santa Catarina, e União da Vitória, no Paraná.
A
Universidade Estadual do Paraná (Unespar) me recebeu de modo tão afável que
fiquei desconcertado e, assim, ao chegar para falar de identidade, saí pensando
na violência que é constitutiva a qualquer identidade, a qualquer fronteira.
Isso ficou evidente, e a história do Contestado me revelaria tudo. Aqueles
mesmos trilhos que dividiam a cidade ao meio, que me tinham sido apresentados
por Claudemir, também foram os responsáveis pelo genocídio que se abateu sobre
os caboclos um século antes. É deles que passo a falar agora, sem me esquecer
de dizer que o simpósio estava lotado.
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As lutas revolucionárias e messiânicas no Contestado
Numa
madrugada friorenta, como muitas daquela região, um jovem ouvira uma voz num
sonho dizendo-lhe que o único capaz de curar a ferida que trazia na perna seria
um tal de João Maria: um eremita andarilho que se tornara famoso por suas
práticas benzedoras. Quando aquele moço o encontrou, o curandeiro, ouvindo suas
lamentações, se concentrou no ferimento, pegou um pedaço de cipó chamado “mil
homem”, amassou num pouco de água e o atou à ferida borbulhenta, que cicatrizou
em poucos dias. O feito foi considerado milagre.
Quem
conta essa história é o cronista local Craque Kiko num livro chamado Cães sem
dono, uma obra que ilustra como a vida no sertão da região sul também foi
atravessada pelos mesmos pálidos tropeços de uma república excludente, racista
e fundamentalmente classista. Com o Contestado podemos afirmar que o
messianismo foi, nos séculos XIX e XX, uma resposta às promessas infiéis da
modernidade e do progresso. Se o futuro era aquele, o passado se afigurava como
algo muito melhor para milhões de pessoas destituídas de terras e de direitos.
O santo
José Maria pregava contra esse tal progresso. Nos pocinhos de água, reunia
sertanejos expulsos de sua terra para dizer que a ganância do homem levaria a
muito sofrimento; secas seriam sucedidas por grandes enchentes e a fome tomaria
conta das cidades serpenteadas pelo rio Iguaçu.
Atados
à sua fala, milagres iam se sucedendo. Numa madrugada desesperançada, o coronel
Francisco de Almeida, cansado pela doença incurável de sua esposa, pediu ao
monge que rezasse por ela. São José Maria a benzeu e em poucos dias a doença
desapareceu. Agradecido de coração, o coronel habituado à lei da troca quis dar
terra e ouro ao velho monge, que prontamente recusou a oferta. Mas para
entender as profecias e a figura desse velho monge é preciso voltar ainda
algumas décadas antes.
Faltavam
poucos dias para o golpe da Proclamação da República ocorrer quando o então
Imperador, D. Pedro II, deu carta livre à construção de uma estrada de ferro
que tinha por objetivo ligar o Rio Grande do Sul a São Paulo. Estávamos em 1889
quando a concessão foi obtida, porém, o primeiro trecho da ferrovia só ficaria
pronto 16 anos depois, ligando Itararé a Porto União da Vitória, e o projeto,
pela inépcia dos governantes, seria interrompido. E é aqui que a história dessa
terra devassada em nome do progresso cruza com a história de São José Maria.
Em
1908, Percival Faquhar, vindo dos EUA, negociou o direito de controle da
Companhia Ferroviária conseguindo uma concessão vista hoje como escandalosa:
por onde a estrada de ferro passasse, ele tomaria posse de quinze quilômetros à
esquerda e quinze à direita dos terrenos. É isso mesmo: 15km de terra para cada
lado da linha seriam do americano. Isso desconsiderava totalmente que a área já
era povoada pela população cabocla que ali estava havia séculos, e ignorava
completamente o impacto ambiental que teria curso. Assim, densas florestas com
árvores centenárias se tornariam o palco de uma das maiores guerras civis da
América Latina.
Em
1909, após poucos meses de negociação, Farquhar, membro do Brazil Railway
Company, fundou a Southern Brazil Lumber Colonization Company — nome sugestivo,
a propósito — com o objetivo de explorar as madeiras das árvores numa área
imensa cedida pela República. Milhares de centenárias araucárias se viram então
na mira da maior serraria da América Latina que usando a colonização de um
vastíssimo território exportava madeiras de lei obtendo lucros astronômicos às
custas do empobrecimentos do solo e dos habitantes locais.
Quando
a madeireira entrou em sua ação predatória, os caboclos, que pouco se
preocupavam com títulos de posse, se viram expulsos de maneira violenta das
terras que ocupavam há várias gerações. Centenas de mulheres, crianças e
idosos, maltratados pelos jagunços contratados pela Lumber, vagaram ao léu até
encontrar o pouco refúgio que lhes cabia nas palavras de José Maria. E foi
desse modo que o destino daqueles condenados, o anseio por lucro do capital
estrangeiro e a modernização predatória do Brazil se encontraram com o monge.
A
violência dirigida contra os caboclos engrossava a fileira de fieis no
ajuntamento de José Maria. As expulsões organizadas pelas companhias com o aval
do governo eram em inúmeros casos mortais. Sabendo da possibilidade de
resistência, os jagunços se concentravam no extermínio dos homens por meio de
tocaias e invasões surpresa às casas, que tinham como premissa assassinar seu
dono. O estupro e as chacinas, durante o período anterior à revolta, eram uma
norma.
São
José Maria, portanto, pregava a resistência aos desmandos da República, que
desrespeitava o povo dando suas terras aos capitalistas estrangeiros que
reduziam toda a riqueza natural aos cifrões do lucro. A República era, para
ele, “lei do diabo”. E assim, em 1912, já seguido por centenas de desamparados,
firmou acampamento num vilarejo chamado Taquaruçu para uma festa religiosa.
Uma
festa que não se findou: 300 camponeses, cantando e rezando, decidiram
permanecer no local. A notícia se espalhou pelo sertão e aquelas centenas de
seguidores se tornaram rapidamente milhares, pois a cada dia novo contingente
de desvalidos em torno de José Maria chegava, aumentando também a preocupação
das autoridades. Para o prefeito de Curitiba à época, a conspiração estava a
caminho e, por isso, transmitiu um telegrama a Florianópolis conclamando as
forças policiais à luta contra os “fanáticos que haviam proclamado a
monarquia”.
A
polícia, no seu trabalho centenário de esbulhar e humilhar os pobres, logo
atendeu ao chamado, tentando cercar o local. Alguns camponeses fugiram,
enquanto outros seguiram José Maria até a Vila Irani. Ao saber do novo
ajuntamento em torno do velho monge, o governo do Paraná enviou outro
destacamento com 64 homens para arrastar, amarrados, os “fanáticos” até
Curitiba. O que as tropas não esperavam é que dessa vez os caboclos tinham se
antecipado e decidido resistir.
José
Maria enfatizou que a luta na mata seria mais oportuna aos caboclos, e enviando
espias para observar o movimento das tropas do governo orientou que, no clarear
do dia 22 de outubro de 1912, fizessem o ataque surpresa. As armas de que
dispunham eram facões e porretes, então o ataque seria no corpo a corpo. E,
assim, munidos precariamente, os caboclos avançaram sobre as tropas que,
surpreendidas se fizeram desarmadas à reação. Aos gritos de guerra, os caboclos
desferiram golpes e cutiladas que deixaram no chão 10 soldados da milícia
paranaense.
De seu
lado, porém, o monge tinha caído morto junto com o capitão do governo e mais 11
caboclos. Os soldados desgovernados e temerosos abandonaram seus fuzis e
mosquetes, deixando aos sobreviventes armas suficientes para resistirem a uma
nova investida. Ali, porém, na barreira, jazia o corpo de José Maria, que dois
meses antes tinha prenunciado sua própria morte e sua posterior ressureição. Os
caboclos deram vivas ante o corpo do santo, afinal, tinham escorraçado a
polícia da lei do diabo e resistido em nome da Nova Jerusalém: uma comunidade
em que “quem tem, mói; quem não tem, mói também; e no fim todos ficam iguais”.
E foi
assim que a chamada Guerra do Contestado teve início. Uma história desconhecida
à imensa maioria dos brasileiros, marcada pelo sangue da gente cabocla e pela
tentativa de defesa da dignidade e de suas terras tomadas pelo capital
estrangeiro. Essa história teve um impacto no meu fígado. À medida que ia me
aprofundando, tinha o pressentimento de que minha hipótese afinal se
confirmava: a identidade brasileira é fundada sob a criação de um inimigo
interno, racializado e pobre.
O
problema da desigualdade no Brasil incide de maneira radical na monopolização
da terra, que organizou oligopólios latifundiários e expropriação predatória do
solo. O preço disso será alto se não conseguirmos transformar essa realidade,
porque as riquezas naturais são finitas e se finalizam em todo o território.
Então, minha hipótese de que o vagido da nação foi organizada pela construção
do criminoso fanático, cujos tons de pele não eram os mesmos que os dos
colonizadores, estava sendo confirmada.
As
lutas camponesas no Contestado duraram quatro anos (1912-1916), outras
lideranças populares tomaram o lugar de José Maria, causando prejuízos enormes
aos domínios coloniais com a chancela da República. O saldo foi de milhares de
mortos — estima-se que entre 10 e 30 mil pessoas tenham morrido durante as
lutas —, e o apagamento dessa história marca com chumbo a formação do Brasil
moderno.
Eu saí
de União da Vitória, depois de ter visitado o sítio do Santo e ter trazido
comigo uma pequena imagem dele talhada em madeira. Saí sentindo a importância
daquele terreno que durante três dias visitei, e me sentindo profundamente
ligado àquela história cabocla. Saí agradecido por ter tido a oportunidade de
conhecer mais um lugar de luta e memória.
Agradeço
de maneira especial a Martha Coletto Costa e Paulo Borges, que tornaram
possível minha ida até a cidade; a Thiago Stadler, que desenvolve um projeto de
leitura fanoniana no sistema prisional; a Naiara Krachenski, Daniel Santos da
Silva, Giselle Moura Schnorr e Fidelainy Sousa Silva. A formação intelectual
nunca é solitária. Muito obrigado!
Fonte:
Por Douglas Barros, no Blog da Boitempo

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