Brasil
na mira do imperialismo de data centers
Os data
centers se tornaram uma força vital da economia digital. Com o avanço acelerado
dos serviços digitais, essas estruturas são cada vez mais demandadas, elevando
drasticamente sua participação no consumo energético. Estima-se que os data
centers e a transmissão dos dados já são responsáveis por cerca de 3% de toda a
eletricidade consumida no mundo — um fato alarmante, especialmente diante das
previsões de crescimento dessa participação nos próximos anos.
Eles
são estruturas compostas por um conjunto integrado de elementos tecnológicos
que oferecem alta capacidade de armazenamento e processamento de dados.
Justamente por isso, são extremamente valiosos para empresas que dependem de
alto desempenho tecnológico. Inicialmente desenvolvidos em ambientes locais e
altamente controlados, os data centers foram projetados para garantir
segurança, integridade de dados e proteção contra os ataques cibernéticos. No
entanto, com o aumento exponencial da demanda, especialmente por serviços como
streaming e computação em nuvem, essas estruturas se expandiram e se tornaram
fundamentais para as grandes corporações.
Dito
isso, é imperioso mencionar que data centers dependem de sistemas de
resfriamento e ar-condicionado para manter a operação segura dos servidores.
Grande parte do seu consumo de energia vem dessa necessidade. Além disso,
muitos data centers ainda utilizam servidores legados e sistemas de
armazenamento em disco, o que consome mais energia.
A
Agência Internacional de Energia (AIE) divulgou que, somente em 2022, os data
centers sozinhos consumiram quase 1,5% da eletricidade global. Se juntarmos a
eletricidade gasta com a transmissão desses dados, o consumo ligado aos data
centers chega a cerca de 3%. Segundo a Goldman Sachs Research, a expectativa é
que essa demanda cresça 160% até 2030. O Lincoln Laboratory, vinculado ao
Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, calcula que
até 2030 as centrais de dados serão responsáveis por 21% do consumo da energia
elétrica global. Isso nos leva a uma pergunta crucial: como manter essa
infraestrutura diante de seu impacto ambiental crescente?
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Crescimento em ritmo exponencial
Com o
crescimento rápido do tráfego IP global [volume de dados que transita pela
internet em todo o mundo] e a crescente capacidade de armazenamento necessária
para lidar com esse aumento de dados, a demanda de energia dos data centers
aumenta em um ritmo exponencial. Se as tendências atuais persistirem, o uso de
eletricidade pelos data centers poderá atingir, até 2026, uma dimensão entre
460 TWh a mais de 1.000 TWh. O mercado global de data centers projeta um
crescimento de USD 269,79 bilhões em 2025 para USD 584,86 bilhões até 2032, com
uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 11,7% durante o período de
previsão, claramente impulsionado pelo aumento exponencial na geração de dados
em diversos setores. Dessa maneira, à medida que os data centers continuam se
expandindo, a preocupação com reduzir o consumo de energia aumenta. Nesse
ponto, adquire centralidade uma pergunta crucial: como a intensidade de energia
dos data centers pode influenciar o consumo mundial de energia? E, na parte que
nos diz respeito especificamente, podemos agregar: e o Brasil nesse cenário?
Para
analisar a demanda energética dos data centers é importante entender sua
infraestrutura de operação. Eles são compostos por servidores, sistemas de
armazenamento, sistemas de resfriamento (climatização), rede de cabos e fontes
de alimentação, além de outros espaços voltados à segurança e ao suporte.
Dentre esses, os servidores e o sistema de climatização são os que mais
consomem energia, representando mais de 80% da demanda energética envolvida.
Os
servidores são os computadores em si. Eles processam, analisam e fornecem as
informações aos usuários. Assim, compõem o que se denomina de carga crítica de
TI (tecnologia da informação), uma das principais fontes do consumo de energia
em uma instalação. A climatização, por sua vez, tem um papel importante ao
regular a temperatura do ambiente que abriga os servidores, garantindo seu
funcionamento adequado.
A
demanda energética em um data center varia conforme o seu tipo. Data centers
locais ou individuais tendem a ser menores e, portanto, a consumir menos
energia. Por outro lado, data centers em hiperescala (ou em nuvem), utilizados
por grandes empresas fornecedoras de serviços em nuvem, como Google, Microsoft,
Amazon e IBM, são maiores e demandam maiores volumes de energia.
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A infraestrutura invisível da Era Digital
De
acordo com os dados mais recentes da AIE, os maiores consumidores de energia
voltada para data centers são os Estados Unidos, com 45% do consumo total,
seguidos pela China, com 25%, e pela Europa, com 15%.
Nesse
contexto, o advento da Inteligência Artificial (IA) tem um papel decisivo no
aumento espetacular da demanda global por data centers. Ainda segundo a AIE, um
data center típico com foco em IA consome tanta eletricidade quanto 100 mil
residências, sendo que os maiores em construção atualmente consumirão vinte
vezes mais.
Tendo
em vista o impacto dos data centers na demanda por energia, a preocupação com o
meio ambiente tem aumentado e o conceito de data center verde surgiu para
designar instalações mais sustentáveis. Através da redução do consumo
energético, da utilização de energias renováveis e até do uso de materiais
ecológicos em sua construção, o impacto dessas instalações sobre o meio
ambiente pode ser reduzido.
O
aumento da eficiência energética de um data center é uma das formas de
torná-los mais sustentáveis. Uma climatização adequada, a alocação eficiente
dos servidores no espaço físico e a implementação de dispositivos como as
Unidades de Distribuição de Energia (PDUs, em inglês) são maneiras de reduzir o
consumo de energia. A virtualização e o uso de armazenamento de energia também
são fatores que tornam os data centers mais eficientes.
Uma
questão-chave para entender o impacto dos data centers sobre o meio ambiente é
pensar na fonte de energia que eles utilizam, que podem variar de acordo com a
região em que estão localizados. Segundo o relatório da AIE, ainda que cerca de
metade do crescimento global na demanda por data centers seja atendida pelas
energias renováveis, as energias fósseis ainda predominam no cenário atual, com
o carvão sendo a principal fonte utilizada na China e o gás natural nos Estados
Unidos.
Vale
destacar que as energias renováveis são as que mais têm crescimento previsto
para os próximos anos, alcançando uma média anual de 22% entre 2024 e 2030. As
fontes mais utilizadas atualmente são a biomassa, a energia hidrelétrica e,
principalmente, as energias eólica e solar.
Além
disso, novas tecnologias também estão sendo desenvolvidas para a utilização da
energia nuclear como fonte de energia limpa. Esta tem ganhado destaque
recentemente entre as big techs, sobretudo a Google e a Amazon, que financiam
projetos voltados ao desenvolvimento de Pequenos Reatores Nucleares (SMR, em
inglês), que se apresentam como uma solução para a demanda energética dos data
centers. Segundo as empresas que desenvolvem essa tecnologia, os SMRs seriam
uma alternativa às grandes usinas nucleares, com uma capacidade média de 300MW,
ideais para data centers únicos. Além de ocuparem menos espaço, outras
vantagens seriam o fato de não utilizarem água para resfriamento e não
precisarem da zona de planejamento de emergência no raio de 16 quilômetros de que
as usinas nucleares tradicionais precisam.
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Soberania digital
Com o
crescimento acelerado da economia digital, os data centers tornaram-se ativos
estratégicos na geopolítica global. Controlar a infraestrutura de armazenamento
e processamento de dados significa exercer poder sobre fluxos digitais que
sustentam setores econômicos, militares e políticos. Os Estados Unidos lideram
com folga o número de data centers no mundo, com cerca de 4 mil instalações.
Essa supremacia se deve, em grande parte, à presença das maiores operadoras
globais de data centers, todas estadunidenses — como Amazon Web Services (AWS),
Microsoft Azure, Google Cloud e Meta —, que impulsionam a expansão dessa
infraestrutura em escala mundial. Em seguida vem a Alemanha (457 instalações),
o Reino Unido (445) e a China (362). Também se observa crescimento expressivo
em países do Sul Global, como Índia (265), Brasil (185) e Rússia (176),
revelando-se uma possível tendência à descentralização dessa infraestrutura
estratégica.
Esse
avanço levanta debates sobre soberania e segurança de dados. Diversos países
têm reformulado suas legislações para garantir maior controle sobre informações
sensíveis. Os EUA, embora não possuam uma lei federal unificada sobre proteção
de dados, adotam um mosaico de normas estaduais e setoriais. A CLOUD Act (2018)
permite ao governo estadunidense acessar dados de empresas nacionais mesmo se
hospedadas no exterior, gerando tensões diplomáticas. Já a União Europeia adota
uma abordagem mais restritiva, com o Regulamento Geral de Proteção de Dados
(GDPR), que se aplica a qualquer entidade que processe dados de cidadãos
europeus. A China regula o setor por meio de um conjunto de leis — como a Lei
de Proteção de Informações Pessoais e a Lei de Segurança Cibernética — que
reforçam o controle estatal sobre os dados. O Brasil instituiu em 2020 a Lei
Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), buscando garantir maior soberania
digital e segurança jurídica no tratamento de dados pessoais dentro e fora do
território nacional.
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Powershoring e a estratégia brasileira
A
crescente demanda energética dos data centers globais transformou a
disponibilidade de energia limpa em ativo geopolítico estratégico. O Brasil,
com matriz elétrica superior a 90% em fontes renováveis e excedente de 8 a 10
GW no sistema nacional de eletricidade, identificou nesta situação uma janela
de oportunidade para reposicionar sua inserção na economia digital global.
O
conceito de powershoring emerge como marco teórico desta estratégia: o
deslocamento de atividades industriais intensivas em energia para regiões com
abundante energia limpa de baixo custo. Para o governo brasileiro, esta
abordagem oferece justificativa sólida para uma diplomacia econômica ativa,
legitimando missões presidenciais e ministeriais voltadas à atração de
investimentos em data centers.
A
estratégia de powershoring fundamentou as recentes incursões diplomáticas
brasileiras nos principais mercados de data centers. A visita presidencial à
China resultou em acordos concretos, incluindo o data center da ByteDance,
demonstrando como a vantagem energética brasileira pode ser convertida em fonte
de atração de investimentos. Esta abordagem responde às pressões crescentes
sobre empresas chinesas para descarbonização de suas operações, proporcionando
ao Brasil uma plataforma de cooperação além da tradicional exportação de
commodities.
Paralelamente,
a missão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao Vale do Silício, nos EUA,
exemplifica a operacionalização da estratégia de powershoring como instrumento
de política externa. A apresentação da política nacional de data centers para
executivos estadunidenses pretende posicionar o Brasil não como mero fornecedor
de energia, mas como parceiro estratégico na transição energética do setor
tecnológico global. A estimativa de R$ 2 trilhões em investimentos potenciais
serve como argumento de peso nestas negociações.
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Vantagens e riscos da inserção brasileira
A
estratégia brasileira reconhece que a intensidade energética dos data centers
modernos, comparável ao consumo de cidades inteiras, cria uma nova geografia
econômica onde a disponibilidade de energia limpa determina localizações
produtivas. O excedente energético brasileiro, tradicionalmente visto como
subutilização de capacidade instalada, torna-se vantagem comparativa decisiva
num mercado global crescentemente preocupado com a pegada de carbono.
O
relatório Global Data Center Trends 2025, da consultoria estadunidense CBRE, já
identifica São Paulo como líder no mercado latino-americano, com 493 MW de
capacidade em operação no primeiro trimestre de 2025. Essa cifra representa um
aumento de quase 13% em relação ao mesmo período de 2024. Em comparação, outros
mercados de grande porte, como Londres, Frankfurt ou Tóquio, operam com mais de
1 GW, enquanto nos EUA esses centros têm capacidade de 3 GW. Novos projetos
devem buscar regiões como o interior de São Paulo e o Nordeste, onde há
abundância de potencial para geração de energia elétrica a partir de fontes
renováveis.
Esta
reconfiguração altera a lógica tradicional de localização industrial, onde
proximidade a mercados consumidores predomina. No setor de data centers, a
conectividade digital permite operação remota, tornando o acesso à energia
limpa fator locacional primordial. O Brasil pode capitalizar esta transformação
estrutural, convertendo vantagem energética em instrumento de política
industrial ativa.
Além
dos benefícios econômicos diretos, o powershoring oferece ao governo brasileiro
uma narrativa coerente para sua estratégia de desenvolvimento. A abordagem
permite articular sustentabilidade ambiental, soberania digital e
diversificação produtiva numa proposta integrada, superando dicotomias
tradicionais entre crescimento econômico e proteção ambiental.
A
estratégia também responde às críticas históricas sobre a inserção
internacional brasileira baseada em commodities. Ao atrair data centers através
de energia limpa, o país teoricamente agrega valor à sua dotação de recursos
naturais, processando dados em vez de meramente exportar energia ou
matérias-primas. Esta narrativa fortalece a legitimidade política das missões
diplomático-comerciais.
Contudo,
a estratégia enfrenta questionamentos sobre sua efetividade transformadora
real. A automatização crescente dos data centers limita os impactos positivos
diretos no emprego, enquanto críticos alertam para riscos do “imperialismo
verde”, situação em que o país fornece energia e água a baixos preços sem
capturar valor agregado significativo. Dependência de tecnologias e
conhecimentos externos podem reproduzir padrões de dependência em novos
setores. A simples instalação de data centers para atender aos mercados dos
países de alta renda, desvinculada de uma política nacional de desenvolvimento
de capacidades endógenas, arrisca se tornar um enclave, que não gera emprego,
renda ou tecnologia em escala relevante para o país. Nesse caso, equivale à
exportação de uma nova matéria-prima: a energia verde.
A
competição por recursos energéticos e hídricos com outros setores produtivos
representa desafio adicional, especialmente considerando que os data centers
demandam não somente energia, mas também água para refrigeração. A
sustentabilidade dessa estratégia depende de marcos regulatórios que garantam
benefícios efetivos para o desenvolvimento nacional, evitando que incentivos
fiscais se traduzam somente em subsídios a empresas transnacionais.
A
estratégia de powershoring, portanto, configura-se como uma aposta arriscada,
mas potencialmente transformadora, justificando o ativismo diplomático
brasileiro na atração de data centers como componente central da política
externa industrial contemporânea.
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Conclusão
A
instalação dos data centers para o ultraprocessamento e o armazenamento digital
global representa um novo segmento de economia digital, em que a informação, o
território e a energia se entrelaçam. A consolidação e expansão dos data
centers como uma infraestrutura crítica para o setor da economia digital também
aponta para uma nova etapa de busca por recursos e territórios estratégicos.
Na
disputa para atrair esses novos grandes centros, o Brasil aposta em sua matriz
energética renovável como uma vantagem competitiva, delineando uma política
externa calcada na lógica do powershoring. Com isso, o país tem a possibilidade
de usar a vantagem energética como uma plataforma de atração de investimentos
para esse mercado em expansão. Ao mesmo tempo, essa inserção aponta para novos
dilemas. Fornecer energia de baixo carbono sem se apropriar da tecnologia,
inteligência e do valor agregado pode apenas repetir um padrão histórico de
subordinação, mas agora com uma roupagem verde.
O
Brasil pode assumir um papel protagonista neste processo, mas isso exige
políticas públicas que transcendam o simples fornecimento energético e que, de
fato, enfrentem as estruturas de dependência e assimetria que historicamente
marcam a posição do país no sistema internacional.
Fonte:
Observatório de Política Externa e da Inserção Internacional do Brasil

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