Autonomia
africana: Os recursos naturais, a disputa geopolítica, e a luta pela soberania
africana
A
África é o segundo maior continente do mundo, com cerca de 1 bilhão e meio de
habitantes, ou seja,18,83% da população mundial. São nove territórios e 57
Estados independentes, divididos em cinco grandes regiões, e é comum separá-las
em dois grandes blocos: a África do Norte, predominantemente arábica, e a
África Negra ou Sub-Sahariana, ao sul do Sahel.
Apesar
de suas dimensões geográficas e demográficas, a África produz apenas 5,4% do
PIB mundial (em termos de paridade do poder de compra), 2% das transações
comerciais globais e captou menos de 2% do investimento direto estrangeiro dos
últimos anos.
A
independência africana, depois da Segunda Guerra Mundial, despertou grandes
expectativas com relação aos seus novos governos de “libertação nacional” e
projetos de desenvolvimento, que foram bem-sucedidos – em alguns casos –
durante os primeiros tempos de vida independente. Esse desempenho inicial,
entretanto, foi atropelado por sucessivos golpes militares (envolvendo, quase
sempre, suas ex-metrópoles coloniais) e pela crise mundial dos anos 1970, que
atingiu todas as sociedades periféricas, provocando um prolongado declínio da
economia africana até o início do século XXI.
Na
década de 1990, depois do fim do mundo socialista e da Guerra Fria, e no auge
da globalização financeira, o continente africano ficou praticamente à margem
dos novos fluxos de comércio e investimentos globais. E só voltou a crescer nas
primeiras décadas do século XXI, assim mesmo de forma extremamente desigual.
Nigéria, Egito e África do Sul são os três países mais ricos da África.
A
África conta com 25% das reservas mundiais de urânio, mais de 35% do potencial
hidroelétrico do mundo e é responsável pelo fornecimento de 15% da produção
mineral do planeta, dos quais 20% de diamantes e platina, 50% de cobalto, mais
de 30% de ouro e de cromo, e cerca de 20% de manganês e fosfato.[i]
Além
disso, a África é hoje uma grande produtora e fornecedora de petróleo para a
Europa e a Ásia. E foi graças a essa sua produção energética, e de alguns
outros minerais estratégicos, que a economia africana começou a se recuperar a
partir de 2001, alavancada pelo crescimento econômico da China e da Índia.
Hoje a
China é o maior parceiro comercial da África e vem aumentando seus
investimentos em infraestrutura, energia e mineração, assim como no caso da
Índia, que compete com os chineses em muitos casos, rivalizando e superando em
conjunto a Europa e os Estados Unidos, que foram os principais parceiros
econômicos do continente africano logo após as independências nacionais.
Nesse
novo contexto, adquire enorme importância a incorporação de Nigéria, Egito e
Etiópia como países-membros do BRICS, na 15ª Cúpula do BRICS, realizada em
Johanesburgo. Estes vieram se somar à África do Sul como “membros plenos”, e a
Nigéria e Uganda, que foram convidados como “membros associados” na 16ª. Cúpula
do BRICS, realizada na cidade de Kazan, Rússia.
Do lado
norte-americano, depois da frustrada “intervenção humanitária” na Somália, em
1993, o presidente Bill Clinton visitou o continente e definiu uma estratégia
de “baixo teor” para a África: democracia e crescimento econômico, através da
globalização de seus mercados nacionais.
Mas
após 2001, os Estados Unidos mudaram sua política africana, em nome do combate
ao terrorismo e da proteção de seus interesses estratégicos e energéticos,
culminando com a criação, em outubro de 2007, do Comando dos Estados Unidos
para a África, oAFRICOM, estabelecido em Camp Lamonier, a maior base militar
dos EUA na África, na cidade de Djibouti, onde França e China também possuem
bases ultramarinas.
Esse
aumento da presença militar americana, entretanto, não foi um fenômeno isolado
nas duas primeiras décadas do século XXI; pelo contrário, foi acompanhado de
perto pela União Europeia e Grã-Bretanha, que mantém uma importante base
militar conjunta com os EUA nas Ilhas Chagos, especificamente em Diego Garcia.
Por
outro lado, a Rússia vem expandindo sua presença africana, com a assinatura de
vários acordos de colaboração militar com países da África Negra – em
particular da região do Sahel, que se estende da Costa Atlântica até o Mar
Vermelho –, envolvendo o projeto de instalação de uma base naval na costa do
Mar Vermelho, no território do Sudão.
Mais
recentemente, depois da reeleição de Donald Trump, os EUA recolocaram a
economia e recursos minerais no topo da sua agenda africana. Donald Trump
promoveu um primeiro acordo de paz entre Ruanda e a República Democrático do
Congo, depois de décadas de conflito, que rendeu para os EUA um acesso
privilegiado aos recursos minerais do Congo, como no caso dos seus acordos
recentes com a Ucrânia.
Assim
mesmo, este jogo de xadrez e econômico e militar tende a se complicar
complicou-se com o avanço da competição e do enfrentamento entre as “potencias
ocidentais” e o s países do BICS, liderados exatamente, pela China, Rússia e
Índia. Uma disputa que relembra a todo momento a mesa a ameaça de uma volta à
história trágica da dominação colonial da África.
Cabe
relembrar que tudo começou exatamente com a conquista portuguesa da cidade de
Ceuta, no norte da África, em 1415, seguindo depois pela costa africana,
transformando a população negra na principal commodity da economia mundial a
partir do século XVI. ]Depois, de novo, na “era dos impérios”, no final do
século XIX, as potências europeias conquistaram e submeteram – em poucos anos –
todo o continente africano, com exceção da Etiópia. E agora, já na terceira
década do século XXI, há sinais de que a África possa se transformar – uma vez
mais – no palco de um novo grande enfrentamento entre as velhas e novas grandes
potências do sistema internacional.
É nesse
contexto que se deve ler e interpretar a chamada “primavera árabe”, uma revolta
social que se alastrou de 2010 a 2015, no chamado “Grande Médio Oriente”
(expressão cunhada pela política externa dos EUA), começando pela Tunísia,
seguida por Líbia, Egito, Marrocos e Argélia.
Foi um
movimento que combinou, em todos os casos, a efervescência e a revolta social
interna de cada um destes países com o patrocínio e a intervenção externa,
direta ou indireta, dos Estados Unidos, visando a derrubada de governos ou a
mudança de regimes que haviam sido apoiados ou financiados até então pelas
próprias potências ocidentais. A revolta foi reprimida no Marrocos e na
Argélia, e foi revertida no Egito, mas se transformou numa guerra aberta no
caso da Líbia, com participação direta das forças da OTAN.
Após
2020, um novo “tufão político” sacudiu a África, com uma sucessão de golpes e
revoltas militares concentrados na região do Sahel, incluindo países como Mali,
Guiné, Chade, Burkina Faso, Níger e Gabão. Foram sete golpes de Estado em
apenas dois anos, quase todos com uma linguagem e proposta de ruptura
definitiva dos laços neocoloniais que mantiveram esses países ligados e
dependentes de seus colonizadores europeus, mesmo após suas independências.
E quase
todos se propuseram a aumentar seus graus de soberania interna através de um
realinhamento internacional, com uma aproximação militar e econômica da Rússia
e da China.
Não há
dúvida, entretanto, de que o grande momento de ruptura e afirmação da autonomia
africana, em particular a África Negra frente aos seus colonizadores brancos e
europeus, aconteceu quando o governo da África do Sul, à frente de vários
outros países africanos, entrou com ação judicial junto à Corte Internacional
de Justiça sediada em Haia, acusando Israel de genocídio da população palestina
da Faixa de Gaza. Uma petição judicial de 84 páginas que acusa Israel de haver
violado a Convenção de Genebra de 1948, apoiada posteriormente pelos 57 países
da Organização dos Países Islâmicos, e pelos 22 membros da Liga Árabe, além dos
governos de Turquia, Colômbia, Brasil e Bolívia.
Pela
primeira vez na história, um país africano e negro, ex-colônia europeia, se
levanta sobre seus próprios pés e toma a iniciativa soberana de acusar Israel,
um “país branco e escolhido por Deus”, por crimes contra a humanidade, frente a
um tribunal criado e controlado pelas grandes potências colonialistas
europeias, as mesmas que criaram e mantêm o Estado de Israel.
Um
verdadeiro momento revolucionário nas relações entre a África e seus
ex-colonizadores, e mais do que isto, um momento revolucionário na história
moral do sistema internacional e da humanidade.
Fonte:
Por José Luís Fiori, em A Terra é Redonda

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