A
construção de soberania em tempos de finança plataformizada
Momentos
de tensão geopolítica revelam com nitidez o que está realmente em disputa.
Quando analisados com atenção, os discursos de figuras eminentes expõem
subtextos carregados de intencionalidades. Na esteira dos ataques direcionados
ao Brasil por meio das redes sociais pelo então presidente Donald Trump, ganhou
relevância o documento intitulado “Investigação da Seção 301 sobre Práticas
Comerciais Desleais do Brasil”, anunciado pelo representante de Comércio dos
EUA, Jamieson Greer. Embora o PIX não seja mencionado nominalmente, a
referência é evidente na menção aos “serviços de pagamento eletrônico do
governo”, associados a uma suposta “vantagem” comercial indevida.
O PIX
se originou de um projeto levado a cabo em 2016 por uma equipe técnica do Banco
Central, mirando um sistema de pagamentos nacional eficiente, competitivo e
inclusivo. Sua publicização inicial em 2020 não provocou grandes movimentos por
parte do Governo Federal, à época chefiado por Jair Bolsonaro. Quando inquirido
publicamente pela primeira vez sobre este sistema inovador, o ex-presidente
demonstrou total desconhecimento sobre a temática ao confundi-la com o Programa
Voo Simples – anunciado pelo então ministro da infraestrutura, Tarcísio de
Freitas, como medida de desburocratização da aviação civil¹. Na medida em que
a projeção do sucesso do PIX começou a ficar evidente, este mesmo ex-presidente
deixou de confundir o sistema de pagamento eletrônico instantâneo com carteira
de habilitação de piloto de avião para, enfim, reivindicar a “paternidade” da
medida – paradoxalmente, associada ao movimento de autonomização do Banco
Central.
A
iniciativa do Pix se liga a uma série de desenvolvimentos no sentido da criação
de plataformas digitais de transferência de valores. No Brasil, vimos
iniciativas como o PicPay adentrarem o mercado após 2010, a partir dos chamados
pagamentos P2P (peer-to-peer), visando aproveitar as inovações financeiras
possibilitadas pela ampliação do uso de smartphones e do internet banking. O
mercado de transações desde então se incrementou bastante, inclusive com o
ingresso de grandes empresas como a Meta (via Whatsapp Pay) e a Alibaba (via
Alipay). Outros grandes sistemas estatais de transferências digitais incluem o
caso indiano do Unified Payments Interface (UPI) e o mexicano Cobro Digital
(CoDi).
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Geopolítica e geoeconomia da finança plataformizada
Se até
então as transferências brasileiras, mesmo digitais, eram de responsabilidade
dos bancos (públicos e privados) através dos sistemas TED e DOC, no período
atual se tornaram uma nova fronteira do capitalismo financeirizado. O aumento
de transações é uma consequência de fenômenos como a ampliação da bancarização
e o crescimento do comércio eletrônico. Assim sendo, é também uma importante
zona de controle sobre as transações – capaz de auferir lucros para quem as
facilite. Mais do que isso, seguindo a noção do “capitalismo de plataforma”2
proposta por Nick Srnicek (2016), a atuação na intermediação de serviços
confere diversas vantagens às corporações que se baseiam em plataformas: desde
a extração massiva de dados (que se tornam produtos em si) e a tendência
monopolização de serviços a partir do amplo volume de usuários, até a
possibilidade de oferecimento de “serviços casados” e de publicidade.
Caracterizadas
ao mesmo tempo como sistema técnico e modelo de negócio, as plataformas
representam não apenas um salto na capacidade infraestrutural de armazenamento
e circulação de informação, mas também, e sobretudo, a possibilidade de
extração de riqueza extraordinária por meio da coleta e do tratamento
algorítmico de volumes massivos de dados. Enquanto sistemas sociotécnicos, as
plataformas dependem da hiperescala3 derivada de intensa concentração e
centralização de capitais como base para uma atuação monopólica/oligopólica
cuja informação é operada como insumo e produto.
Ainda
que haja divergências sobre o enquadramento analítico que melhor traduz a
emergência das plataformas e seus impactos sobre o modo de produção
contemporâneo – seja apontando para o
“tecnofeudalismo”, de Yanis Varoufakis (um novo modo de produção assentado na
extração de renda por um punhado de Big Techs), seja para uma nova etapa dentro
do próprio capitalismo financeiro já decifrado por François Chesnais (na
tradição de Marx, Hilferding e Lênin) –
parece relativamente consensual a potência com que a articulação
simbiótica entre as variáveis financeira e informacional incide e reconfigura a
economia, a sociedade e o território neste primeiro quarto de século XXI. Essa
imbricação se verifica já na gênese das plataformas, convergindo um perfil de
investimento de alto risco e de alto retorno com o estabelecimento de um modelo
de negócio baseado na quase ausência de competição como requisito à mobilização
vultosa de dados informacionais visando a extração de riqueza.
Por
esses atributos, o modo de produção capitalista atualmente se configura, em
grande medida, pela escala da ação transnacional das Big Techs controladas
pelas duas potências que rivalizam por influência na geopolítica e geoeconômica
contemporânea – representadas pelos acrônimos GAFAM (Google, Apple,
Facebook/Meta, Amazon e Microsoft – no caso dos Estados Unidos) e BAITX (Baidu,
Alibaba, Tencent, Xiaomi – no caso da China). Ao ofertarem serviços de
computação em nuvem, datacenters, inteligência artificial, buscadores, lojas de
aplicativos, entre outros, tais corporações se apresentam como núcleo
infraestrutural e pontos de passagem obrigatória aos quais agentes
socioeconômicos de variados setores e nacionalidades devem recorrer⁴.
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PIX sob a perspectiva da soberania nacional
Neste
contexto, um sistema de transferências digitais público – não apenas regulado,
mas operado pelo Banco Central – e universal – que funciona para indivíduos e
empresas sem a cobrança de anuidades e taxas sobre valores de transações – é
importante em três dimensões fundamentais: a) soberania; b) eficiência e
inclusão na semiperiferia do capitalismo; c) difusão geográfica e capilarização
do dinheiro no território brasileiro.
Em
primeiro lugar, o advento do PIX representa uma iniciativa fundamental em
termos de soberania nacional alinhada às variáveis-chave do período atual
(finança e informação). Conforme destacamos, as transações PIX são encargo do
Estado brasileiro, que tem sobre elas controle e regulação, de modo que não
estão vulneráveis à ação direta de corporações transnacionais e/ou de Estados
estrangeiros, que têm mobilizado com frequência os instrumentos financeiros em
suas batalhas.
Em uma
sociedade altamente digitalizada, os termos da subordinação e dependência na
divisão internacional do trabalho tendem a se expressar cada vez mais nesta
arena financeira e informacional. É justamente neste campo que o PIX parece se
posicionar enquanto parte de um esforço de revide do território brasileiro
sobre a incidência de vetores verticais de dominação das Big Techs. O
fortalecimento interno dos nexos financeiros do território dinamiza relações
econômicas digitalizadas no contexto de um país semiperiférico atravessado pela
desigualdade que impõe escassez a amplos contingentes populacionais, e isso se
opõe a simplesmente “leiloar” o vasto mercado de serviços de pagamentos entre
corporações estrangeiras que, segundo suas próprias governanças e metas,
venderiam este produto transacional se munindo da ampla base de dados que tais
operações geram. Em alguma medida, nota-se a inversão da lógica em que
circuitos espaciais de produção coordenados por corporações transnacionais
impõem verticalmente adaptações rígidas ao território em que incidem, tornados,
então, alienados das etapas da decisão e especializados nas etapas do fazer
como traço definidor de países da periferia e semiperiferia do capitalismo.
Nesse
sentido, alicerçadas sobre esta dimensão transversal da soberania, se desdobram
as outras duas esferas fundamentais apontadas anteriormente: eficiência e
inclusão; e difusão geográfica e capilarização do dinheiro no território. Tendo
por base a dimensão da soberania expressa pelo PIX, entendemos que tal advento
tem a formação socioespacial brasileira como ponto de partida e chegada. Por
isso, parece mobilizar características particularidades deste território usado⁵
que são fundamentais tanto para o desenho deste sistema quanto para a rápida
consolidação de resultados em termos de alcance de sua adoção.
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Eficiência, inclusão e capilaridade do PIX no território brasileiro
A
eficiência e inclusão deste sistema unificado, padronizado e universal
vislumbra, já em seu desenho institucional, uma maior dinamização das relações
econômicas entre famílias, indivíduos, empresas e Estado pela via da finança
digitalizada. O PIX se insere numa combinação sui generis do território
brasileiro entre alto desenvolvimento técnico do sistema financeiro nacional e
a segmentação de um mercado de trabalho e consumo desigual, marcado por
obstáculos econômicos e burocráticos a produtos, mecanismos e serviços
financeiros formais enfrentados por parte de amplos contingentes populacionais.
Enquanto país da periferia ou semiperiferia do sistema-mundo, o Brasil
apresenta marcas relativamente elevadas tanto de bancarização quanto de
robustez técnica de infraestrutura financeira digitalizada.
Conforme
apresentado, podemos averiguar que a população brasileira é altamente
bancarizada: com 86,4% da população possuindo conta bancária, está acima de
outros países latino-americanos que aderiram às métricas internacionais de
desenvolvimento da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico). Igualmente, a utilização de celular ou internet para pagamento de
contas está acima tanto de países tradicionais do Norte Global quanto de países
da formação inicial dos BRICS.
Neste
sentido, a condição de realizar, junto ao banco ao qual se possui conta, um
mero cadastro de chave-pix por meio de CPF, email ou telefone celular – ou
seja, requisitos ubíquos – para realizar transações financeiras sem taxas não
só parece ampliar este serviço para o conjunto da população bancarizada, como
impulsionar o processo de bancarização e formalização de pequenos e médios
negócios. Suprida a condição básica do cadastramento, todo o campo de
transações financeiras PIX pode ser realizado sem custos ao cliente, em
detrimento das taxas embutidas em outras formas de pagamento. Essa facilitação
do acesso soma-se à eficiência técnica do sistema de pagamentos eletrônico em
questão, tornando-o altamente atrativo para o conjunto da população.
Como
desfecho atual e provisório desta trajetória crescente, em junho de 2025
(aproximadamente 4 anos e meio após o lançamento do PIX) o estoque de
chaves-pix criadas no país alcança o patamar de mais de 858 milhões. Deste
total, cerca de 50 milhões de chaves são associadas a pessoas jurídica e o
restante a pessoas físicas. Em termos de quantidade de transações, o mês de
junho de 2025 registrou a marca de 6,5 bilhões, correspondentes à R$2,8
trilhões. Neste nível, a projeção consolidada para o ano de 2025 permite
vislumbrar uma nova superação do patamar alcançado no ano de 2024, quando o PIX
já havia sido o meio de pagamento mais utilizado no país (superando as outras
formas consideradas em conjunto: boleto, débito, cartão de crédito, TED, cartão
pré-pago e cheque).
Diretamente
associada à dimensão da soberania e às características específicas da formação
socioespacial brasileira evidenciadas pela eficiência técnica e inclusão de seu
sistema financeiro nacional, a difusão geográfica e capilaridade do PIX no
território brasileiro aparece como desdobramento fundamental com potencial para
impedir que a expansão comercial e da bancarização aprofunde disparidades
regionais.
Em sua
tese sobre a circulação do dinheiro no território brasileiro, Victor Iamonti6
observa como a modernização do macrossistema de pagamentos brasileiro
representada pelo PIX permite reduzir custos e buscar maior inclusão digital da
população via acesso a serviços de pagamentos, já que, sendo acessível mediante
a operação de um smartphone e disponibilidade de internet, o sistema pode
operar em áreas onde haja baixa infraestrutura bancária ou mesmo
indisponibilidade de dinheiro em espécie. A gratuidade no uso, evitando taxas
praticadas em compras no cartão, e a segurança e estabilidade do sistema
colaboraram para uma ampliação de sua difusão no comércio, inclusive em
circuitos comerciais até então refratários às tecnologias bancárias por seus
altos custos e/ou demandas tecnológicas.
Considerando
os dados do Banco Central sobre as transações PIX e os dados censitários do
IBGE, podemos observar que a ampla adesão ao sistema se estende pelo território
nacional. Em 2024, a quantidade total de transações realizadas era maior na
Região Norte (315,77 transações/pessoa), acima do Sudeste (280,97) e do Sul
(229,41). Entre os municípios que mais realizaram transações, Salvador e Manaus
ocupam a terceira e quarta posição (ambos com 1,04 bilhões) – antecedidos
apenas por São Paulo e Rio de Janeiro e seguidos por Fortaleza, Brasília, Belo
Horizonte, Belém e Recife. Enquanto isso, municípios menores que 50 mil
habitantes ocupam 22,52% do total, indicando sua difusão geográfica para além
das grandes metrópoles. Ao se levar em conta o uso pelos agentes (pessoas
físicas, jurídicas e governamentais) em 2024, dentre os R$22,12 trilhões
circulados via PIX, as transações entre pessoas físicas ocuparam 48,82% do
total, correspondendo a 30,78% do valor. Em seguida, vêm as transações entre
pessoas físicas e empresas, ocupando 47,82% das transações com 24,8% do valor.
Enquanto isso, as transações entre empresas, embora correspondam a apenas 3%,
movimentam 43,27% dos valores. Isso mostra a adesão tanto por parte da
população quanto por parte das empresas, demonstrando o caráter universal do
sistema que não se baseia unicamente na facilitação de um tipo de comércio ou
de negociações entre indivíduos, mas se propõe como instrumento para a economia
nacional como um todo. Daí a possibilidade de capilarização, a partir do
reconhecimento como parte integrante da economia em todo o país, possibilitando
a sustentação das relações econômicas mais diversas, desde aquelas relacionadas
aos grandes circuitos produtivos até aquilo que Milton Santos identificou como
circuito inferior da economia urbana7.
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Por uma ampla agenda de soberania digital
Diante
do quadro apresentado acima, as dimensões da soberania, da eficiência e
inclusão e da difusão e capilaridade do PIX no território brasileiro explicitam
o reforço à posição de liderança do país no segmento das tecnologias
informacionais bancárias e financeiras. Conforme publicado pelo economista
estadunidense ganhador do prêmio Nobel, Paul Krugman⁸, o Brasil reafirma sua
liderança em inovação financeira ao, possivelmente, “inventar o futuro do
dinheiro” por meio da implementação deste sistema eficiente e público para
realização de pagamentos entre contas bancárias como base de sustentação para o
desenvolvimento de moeda digital oficial (Central Bank Digital Currency/CBDC).
Portanto,
em vez do recuo sobre essa política com efeitos virtuosos e multiplicadores
sobre a particular realidade nacional (como ambiciona a ameaça de aplicação de
sanção econômica com motivação política por parte do Governo Trump), cabe ao
planejamento estratégico comprometido com a superação da condição de
dependência do país no sistema-mundo a perspectiva de avançar na expansão e
desenvolvimento de mais ecossistemas sociotécnicos com conteúdos nacionais;
como, por exemplo, a própria moeda digital oficial citada por Krugman (Digital
Real X/Drex) e o serviço de “Nuvem de Governo” articulado entre Serpro (Empresa
Nacional de Inteligência em Governo Digital e Tecnologia da Informação) e
Dataprev (Empresa de Tecnologias e Informações da Previdência) desde o início
desde ano.
Fonte:
Por Caio Zarino Jorge Alves e Wagner Nabarro, no Le Monde

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