Explorar
petróleo na Amazônia é “fazer guerra para ter paz”, compara ex-presidente do
IBAMA
Coordenadora
de Políticas Públicas do Observatório do Clima (OC) e presidente do IBAMA de
2016 a 2018, Suely Araújo negou uma licença para a petroleira francesa Total
explorar petróleo na Foz do Amazonas. De lá para cá, as condições ambientais e
de conhecimento sobre a bacia, que continua sem uma Avaliação Ambiental de Área
Sedimentar (AAAS), não mudaram, e a crise climática piorou, devido à crescente
queima de combustíveis fósseis.
Por
isso, a especialista é categórica em jogar por terra as justificativas
acionadas pelos defensores da exploração de petróleo no Brasil “até a última
gota” para buscar combustíveis fósseis na região. Narrativas que são acionadas
pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Petrobras, mas também pelo
presidente Lula e pelo governador do Amapá, Clécio Luís (Solidariedade), ávido
por receber possíveis royalties da
atividade petrolífera no litoral do estado, independentemente do preço
ambiental e climático a ser pago.
Suely
classifica como “absurdas” as falas de Lula em defesa de explorar petróleo e
gás fóssil na Foz. “É como se dissesse, eu vou gerar uma guerra para conseguir
paz. Não faz sentido: na verdade, está piorando o problema”, disse em
entrevista ao UOL.
Essa
“guerra” aumentou com o leilão da ANP na semana passada, quando 19 blocos na
região foram arrematados por Petrobras, Exxon, Chevron e CNPC. Somando as áreas
já sob concessão – como o FZA-M-59, para a qual a Petrobras pleiteia uma
licença de perfuração de um poço ao IBAMA –, já são 28 os blocos na Foz
concedidos a petroleiras.
“Esse
leilão [da ANP] teve um resultado: está claramente declarada a prioridade do
governo e da Petrobras pela exploração na Foz do Amazonas. Uma área onde, pelas
condições, seja no mar, seja na costa, não deveria haver exploração. É sensível
biologicamente, e complexa em termos de operação de perfuração e produção de
petróleo. Temos características ecológicas únicas na região, que tem correntes
fortíssimas, o que a torna propícia a acidentes. Em um eventual vazamento, em
menos de um dia, a maior parte do óleo já estaria em águas internacionais, e
não se sabe ainda quanto desse óleo voltaria para a nossa costa”, explicou a
coordenadora do OC.
O
governo defende a exploração da Foz argumentando que o dinheiro poderia
financiar a transição energética, lembra o UOL. “Por que a gente não pode
explorar essa riqueza para fazer outra riqueza acontecer, que é a transição
energética?”, questionou Lula. Outro motivo aventado é que os vizinhos Guiana e
Suriname já exploram a região, e que uma eventual demora do Brasil poderia
comprometer o volume descoberto – a ideia esdrúxula de que Guiana e Suriname
têm um “canudinho” que “chupa” o suposto petróleo da Foz.
“Essa
justificativa é absurda. Fere as leis da lógica justificar a expansão (da
exploração do petróleo) pela transição. A transição é para reduzir o uso de
combustíveis fósseis e substituir esse uso. Aí você vai ampliar esse problema
para colocar dinheiro na solução dele? Isso vai além da lógica. É um pouco como
dizer: ‘eu vou gerar uma guerra para conseguir a paz’”, frisou Suely.
Alheio
ao absurdo, o governador do Amapá põe mais gasolina na fogueira dos
combustíveis fósseis. Em entrevista ao UOL, Luís rebate as críticas de
especialistas e ambientalistas contra a exploração da Foz, acusa o Ministério
do Meio Ambiente (MMA) e o IBAMA de “falta de vontade política”, ignorando que
o órgão ambiental é técnico, e exalta a atuação do presidente do Senado, seu
conterrâneo Davi Alcolumbre (União Brasil), de Lula e da Petrobras para que os
projetos de exploração do petróleo na Foz possam ir adiante.
• Em tempo 1:
Em
2008, o líder indígena equatoriano Emílio Chong integrou um processo com ampla
participação popular e fez o país ser pioneiro em reconhecer legalmente os
Direitos da Natureza em sua Constituição. Em 2023, viu outra mobilização da
qual participou ativamente ter resultado, quando os equatorianos decidiram pôr
fim à exploração de petróleo no Parque Nacional de Yasuní. Diante disso, Chong
destacou ao Um Só Planeta a importância da mobilização para travar a exploração
de petróleo em áreas sensíveis como a Foz do Amazonas. “Somos poucos separados,
mas somos muitos juntos. É essencial que a população se pronuncie e organize
movimentos sociais, pressionando o governo a reconsiderar projetos de
exploração”, destacou.
• Em tempo 2:
Protestos
de líderes indígenas da Amazônia fizeram o Senado estadual da Califórnia
apresentar uma resolução histórica instando autoridades a examinar o papel do
estado na importação de petróleo da região, informa a Associated Press. A
medida ocorre no momento em que o governo equatoriano se prepara para leiloar
14 blocos de petróleo, que somam mais de 2 milhões de hectares de Floresta
Amazônica – grande parte em Terras Indígenas.
• MPF pede à Justiça a suspensão das
próximas etapas do leilão para exploração de petróleo na foz do Amazonas
O
Ministério Público Federal (MPF) pediu à Justiça Federal, nesta segunda-feira
(23), que suspenda as próximas etapas do leilão de blocos de petróleo e gás da
5ª Oferta Permanente de Concessão (OPC), realizado na semana passada pela
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O
pedido é para que seja decretada a imediata proibição de atos administrativos
de formalização dos resultados até que sejam cumpridas uma série de medidas
previstas na legislação socioambiental. A homologação (confirmação) dos
resultados está prevista para 1º de setembro.
O MPF
tinha pedido à Justiça, no dia 12 deste mês, que impedisse a realização do
leilão até que a legislação fosse cumprida. O leilão foi realizado no dia 17,
sem que a Justiça tivesse decidido sobre os pedidos do MPF. Por isso, agora o
MPF aditou (atualizou) os seus pedidos.
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Pedidos anteriores
– A
ação, que tramita na Justiça Federal em Belém (PA), aponta a obrigatoriedade de
realização de estudo de impacto climático, de Avaliação Ambiental de Área
Sedimentar (AAAS), de estudos sobre povos e comunidades tradicionais e da
Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) a povos e comunidades tradicionais
impactados.
Segundo
o MPF, a realização do leilão sem os estudos prévios adequados e a CPLI
representa uma grave violação de direitos fundamentais, compromissos
internacionais e da legislação ambiental brasileira.
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Novos pedidos
–
Agora, ao fazer o aditamento à ação, além da realização dos estudos e da CPLI,
o MPF também solicita à Justiça, em caráter de urgência:
• a inclusão do Instituto Brasileiro do
Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como réu no processo,
ao lado da União e da ANP.
• a proibição imediata da homologação e
adjudicação dos resultados do leilão, etapa prevista para ocorrer até 1º de
setembro;
• a proibição do início de qualquer
processo de licenciamento ambiental para os 19 blocos arrematados;
• a imediata proibição de inclusão de
blocos situados na bacia sedimentar da foz do Rio Amazonas em novos leilões de
Oferta Permanente de Concessão (OPC), até o julgamento definitivo dos pedidos
do MPF.
Caso os
contratos de concessão sejam formalizados sem a realização dos estudos e da
CPLI obrigatórios, o MPF pede que a Justiça Federal anule o leilão.
Processo
1027692-52.2025.4.01.3900
• A solução vem do Sul Global
Atualmente,
a humanidade enfrenta dois dos maiores desafios de sua história: alimentar uma
crescente população de maneira sustentável e enfrentar as consequências das
mudanças climáticas. O não equacionamento desses desafios já se desdobra em
crises que não apenas colocam em risco o bem-estar humano, como também estão
profundamente interligadas e se retroalimentam.
Para
suprir a sempre crescente demanda por alimentos, fibras e biocombustíveis,
temos historicamente simplificado paisagens naturais, convertendo ecossistemas
megadiversos em campos agrícolas homogêneos. Via de regra, essa transformação
tem incrementado a produção de um serviço ecossistêmico, a produção
agropecuária, e comprometido muitos outros, como a regulação do fluxo hídrico,
a fixação de carbono, a manutenção da biodiversidade e a polinização.
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O protagonismo do Sul Global
Ao
homogeneizar as paisagens, alteramos ciclos biogeoquímicos fundamentais, como o
do carbono e da água, ampliamos a crise climática e o colapso da
biodiversidade. É nesse contexto que o Sul Global surge não como um ator
coadjuvante, mas como um protagonista na busca por soluções.
Ao
contrário das propostas de desenvolvimento historicamente oriundas no Norte
Global, que frequentemente promovem modelos homogêneos e simplificados, os
países do Sul carregam características únicas e estratégicas.
Localizados
predominantemente entre os trópicos, esses países abrigam ecossistemas de
altíssima biodiversidade. As florestas tropicais, por exemplo, ocupam cerca de
11% da superfície terrestre, mas concentram mais de 50% das espécies terrestres
conhecidas.
Os
ambientes aquáticos tropicais, especialmente os marinhos, também apresentam
níveis excepcionais de diversidade e produtividade primária. E não é apenas a
diversidade biológica que chama atenção, uma vez que os trópicos também são o
berço de uma impressionante diversidade cultural.
As
regiões mais ricas em espécies também são as mais ricas em línguas e culturas
humanas. No entanto, essa enorme riqueza está sob ameaça, com taxas de extinção
de espécies cerca de mil vezes superiores às naturais e previsões de que até
90% das línguas atualmente faladas possam desaparecer antes do final deste
século.
Essa
diversidade de espécies, modos de vida, línguas, saberes e formas de
organização social tornam o Sul Global inerentemente distinto. No entanto, a
trajetória de desenvolvimento dessas regiões tem sido marcada pela sistemática
importação de técnicas, tecnologias e modelos produtivos do Norte Global.
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Monoculturas e a homogeneização de paisagens
Muitas
dessas soluções foram concebidas em contextos ecológicos, sociais e históricos
completamente diferentes, e, ao serem aplicadas de maneira acrítica, têm
contribuído para a intensificação dos desequilíbrios ambientais, sociais e
econômicos.
O
resultado é o agravamento das crises globais e o aprofundamento das
desigualdades entre Norte e Sul. Um exemplo claro dessa lógica é o modelo
agrícola amplamente adotado nos trópicos, importado de regiões temperadas do
hemisfério norte.
Este
modelo aposta em grandes monoculturas e na homogeneização de paisagens,
favorecendo a mecanização e o uso intensivo de insumos químicos. Só que, ao
fazer isso, ele acaba desperdiçando uma das maiores riquezas das regiões
tropicais: a luz do sol, que brilha com força o ano todo.
Ao
deixar campos agrícolas e paisagens homogêneos e simplificados, com poucas
camadas de vegetação, esse tipo de agricultura apresenta reduzida capacidade de
aproveitamento da energia solar o que, consequentemente, diminui a
possibilidade de transformar tal energia em alimentos e em outros produtos
agrícolas. Ou seja, apesar de parecer moderno, esse modelo, quando empregado em
regiões tropicais, rende muito menos do que poderia.
Além
disso, esse processo de simplificação cria as condições ideais para o
surgimento de pragas e doenças, que só conseguem ser controladas com o uso
massivo de agrotóxicos. Isso gera um círculo vicioso de dependência, em que os
produtores se endividam para comprar insumos de multinacionais, geralmente
sediadas no Norte Global, e tornam-se reféns de um sistema que degrada o solo,
compromete os recursos hídricos e empobrece a biodiversidade.
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Sistemas agroflorestais
A
produtividade da agricultura tropical é, em grande parte, fruto das condições
naturais, como calor, chuvas e alta incidência solar ao longo de todo o ano. Um
recente estudo dos Institutos Fólio e Escolhas mostra, inclusive, a redução das
taxas de produtividade por quantidade de insumo utilizado (defensivos e
fertilizantes). Para realmente capturar essa energia solar de forma eficiente,
deveríamos olhar e aprender com a própria natureza.
Sistemas
agroflorestais, que combinam diversas espécies em múltiplos estratos
vegetativos, representam uma alternativa promissora. Eles mimetizam a estrutura
das florestas nativas, promovendo sinergias ecológicas e oferecendo uma ampla
gama de produtos, como alimentos, fibras, madeiras, entre outros serviços
ambientais, como a fixação do carbono e a regulação dos recursos hídricos.
As
agroflorestas podem aliar produtividade, conservação da biodiversidade e
resiliência climática, algo essencial para os desafios que enfrentamos. No
entanto, transformar as agroflorestas em uma solução viável em larga escala
exige investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento.
Portanto,
é necessário criar modelos produtivos ajustados às diferentes regiões e
contextos socioculturais. Também é fundamental desromantizar esse modo de
produção – agroflorestas não são uma panaceia, nem funcionam por mágica.
Nesse
sentido, precisamos de tecnologias que facilitem o manejo, reduzam a demanda
por mão de obra intensiva e tornem esses sistemas mais acessíveis aos pequenos
e médios produtores. É urgente o desenvolvimento de políticas públicas que
incentivem e viabilizem sua adoção, promovendo uma verdadeira transição
agroecológica no campo.
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Considerações finais
Em
síntese, o Sul Global não é apenas um território de dificuldades, onde os
problemas com distribuição de renda e pobreza ainda imperam, mas é também uma
região de possibilidades e terreno fértil para a criação e a gestão de soluções
para os graves problemas globais.
Ao
buscar soluções enraizadas na diversidade de seus territórios e saberes, o Sul
pode liderar uma nova forma de pensar e fazer o desenvolvimento. Um
desenvolvimento que não seja apenas sustentável no discurso, mas efetivamente
regenerativo, justo, diverso e plural.
As
agroflorestas são apenas um exemplo poderoso do que podemos alcançar quando
trocamos a lógica da imposição pela da cooperação com a natureza. Precisamos
reinventar o presente para garantirmos um futuro. E, talvez, reinventar o
presente seja justamente escutar melhor o que os trópicos têm a dizer.
Fonte:
ClimaInfo/MPF Pará/MST

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