segunda-feira, 30 de junho de 2025

Queda da taxa de fecundidade coloca Brasil diante de dilemas

Ter filhos é algo que não está nos planos de Ana Flávia Yarid, de 38 anos. A gerente de contratos conta que ser mãe nunca foi um sonho para ela, e essa hipótese se afastou em definitivo nos últimos anos devido ao seu estilo de vida como nômade digital.

"Sempre tive o sonho de conhecer o mundo, há alguns anos abri mão do meu apartamento, comecei a trabalhar remoto e a viajar por diversos países. Foi viajando que percebi que a maternidade realmente não se encaixa na minha vida", diz.

Mulheres como Ana Flávia, que optam por não terem filhos, são cada vez mais comuns. Prova disso é que a taxa de fecundidade no Brasil atingiu o menor patamar já registrado: 1,55 filho por mulher, segundo dados do Censo de 2022 divulgados nesta sexta-feira (27/06).

O número de nascimentos vem caindo ano a ano. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base nos registros cartorários de 2023 aponta que aquele ano foi o quinto consecutivo de redução do número de recém-nascidos: 2,52 milhões, 0,7% menos que no ano anterior.

Em relação à média registrada nos cinco anos anteriores à pandemia de covid-19, de 2015 a 2019, o número de nascimentos em 2023 foi 12% menor. Na série histórica divulgada pelo IBGE, o número de nascimentos em 2023 foi o menor desde 1976.

Com isso, a taxa de fecundidade do Brasil se aproxima de um patamar similar ao de países europeus, nos quais o envelhecimento populacional desafia sistemas previdenciários e de saúde. Na União Europeia, a taxa foi de 1,38 filho por mulher em 2023.

A projeção é que o crescimento da população brasileira deve se estagnar em 2041, com um pico de cerca de 230 milhões de habitantes, e entrar em declínio a partir daí. Em 2070, o país deve ter cerca de 199 milhões de pessoas, número inferior ao atual, e 1,5 milhão de nascimentos ao ano.

<><> Por que a população está encolhendo

A tendência está relacionada a uma série de transformações sociais, econômicas e demográficas que o país vem enfrentando e que se aprofundarão nas próximas décadas.

Entre os principais fatores que influenciam a queda na taxa de fecundidade, estão a maior inserção da mulher no mercado de trabalho, o alto custo de vida, o maior acesso a meios contraceptivos e também a maior autonomia das pessoas para investir em projetos pessoais que não incluem filhos.

"Na sociedade moderna, ter filhos é muito caro e exige gastos como com educação, lazer e alimentação. Aliado a isso, as pessoas passam a ter outros desejos de consumo como casa, bens duráveis, lazer, entre outros. Então as famílias ponderam isso e estão buscando ter menos filhos para ter melhor qualidade de vida", diz Alisson Flávio Barbieri, professor de demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Foi justamente a questão financeira que fez a jornalista Bruna Nascimento, de 34 anos, optar por ter "apenas" dois filhos. Ela afirma que sempre sonhou em ser mãe e ter a casa cheia de filhos – ela gostaria de ter ao menos quatro – mas o alto custo de vida e a falta de uma rede de apoio próxima a fizeram mudar de ideia.

"É muito caro viver em São Paulo. Mesmo no interior o custo de vida é alto. Hoje me vejo diante de escolhas no planejamento familiar: ou ter mais filhos ou planejar outros sonhos, como casa e viagens. Como já tenho dois, escolho seguir outros sonhos. Brinco que se ganhasse na loteria eu teria mais dois filhos", diz.

Além do número de filhos, a idade das mulheres no momento da maternidade também vem mudando. Em 2000, a idade média de fecundidade era de 26,3 anos. Em 2020, subiu para 26,8 anos, e em 2022 foi de 28,1 anos, segundo o último Censo. O adiamento está relacionado ao desejo de estabilidade financeira, à conclusão dos estudos e à busca por crescimento profissional.

<><> Previdência e saúde pública sob pressão

Daqui a duas décadas, projeta-se que haverá mais pessoas com 65 anos ou mais do que crianças e adolescentes com menos de 15 anos no Brasil. Um cenário que impõe desafios a médio e longo prazo, principalmente para os sistemas de previdência social e saúde pública, que precisarão se adaptar a uma população mais velha e com menos contribuintes ativos.

O sistema previdenciário brasileiro, que funciona com base em um modelo de repartição, no qual as contribuições dos trabalhadores ativos financiam os benefícios dos aposentados e pensionistas, provavelmente terá que passar por adequações para que siga funcionando com menos mão de obra ativa.

"Há a necessidade de readequação no sistema de saúde para lidar com comorbidades típicas de população envelhecida, como doenças crônicas. Precisará de mais profissionais capacitados e equipamentos para isso", afirma Barbieri. Por outro lado, diz, haverá menos crianças nas escolas públicas, reduzindo o número de vagas necessárias.

Mas nessa jornada o Brasil ainda terá muito a aprender com países de baixa taxa de natalidade, como o Japão, que tem taxa de fecundidade de 1,15 filho por mulher. "É um país rico e tecnologicamente muito avançado, com uma elevadíssima expectativa de vida ao nascer, com um sistema educacional de alta qualidade, com baixas taxas de mortalidade por causas externas como acidentes de trânsito e homicídios e que tem mantido o crescimento da renda per capita mesmo com o decrescimento populacional", diz.

<><> O lado positivo da queda populacional

José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador aposentado do IBGE, afirma ver aspectos positivos nessa tendência.

"A redução do contingente de pessoas na base da pirâmide favorece a ampliação das matrículas escolares, a melhoria da qualidade do ensino, os cuidados com a saúde e a inserção produtiva no mercado de trabalho", diz. "E gerações menores facilitam o processo de adaptação às consequências da crise climática e ambiental que deve se agravar nas próximas décadas e séculos."

Ele avalia que o envelhecimento populacional não deve ser visto apenas como um obstáculo, e também pode gerar oportunidades "se as políticas públicas, a iniciativa privada e a sociedade civil abandonarem a percepção de que a população idosa é um fardo para o sistema produtivo". "O combate ao etarismo e o investimento no potencial das gerações com 50 anos ou mais são fundamentais para aproveitar a base da economia prateada."

A economia prateada, embora ainda em processo de consolidação como conceito, refere-se ao conjunto de atividades econômicas relacionadas à população idosa, considerando seu consumo, trabalho e contribuição social.

Ele aponta que o investimento em tecnologia e automação pode ajudar a aumentar a produtividade econômica, transformando setores, criando novas oportunidades e compensando a escassez de mão de obra. "Por exemplo, a inteligência artificial pode automatizar tarefas repetitivas e rotineiras, liberando os trabalhadores humanos para focar em tarefas mais complexas e de maior valor agregado", diz.

Já nos cuidados de saúde e na assistência aos idosos, onde a demanda aumentará devido ao envelhecimento populacional, a tecnologia poderia ajudar no diagnóstico precoce de doenças, monitoramento de pacientes e administração de medicamentos, reduzindo a carga sobre médicos, enfermeiros e cuidadores, afirma.

"Mas para garantir que os avanços tecnológicos beneficiem a maioria da população e não apenas uma elite, é importante garantir o funcionamento de instituições fortes e inclusivas, possibilitando que uma menor taxa de fecundidade garanta um futuro mais próspero e equitativo para todas as pessoas", finaliza Alves.

•        Pessoas têm menos bebês por falta de desejo ou de segurança?

Milhões de pessoas em todo o mundo não conseguem ter o número de filhos que gostariam de ter, segundo um levantamento do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), e os principais motivos para isso são sobretudo econômicos, mas também problemas de saúde, medo em relação ao futuro e a falta de um parceiro ou parceira adequado.

Quase um em cada cinco adultos com menos de 50 anos, ou 18%, diz acreditar que não terá o número de filhos que deseja (11% acham que terão menos filhos e 7%, mais filhos do que gostariam).

Entre os maiores de 50 anos, bem menos da metade (38%) afirma ter tido o número de filhos que desejava. Outros 31% dizem que tiveram menos do que esperavam e apenas 12%, que tiveram mais do que o número desejado.

Os dados são do relatório de 2025 sobre a situação da população mundial, A Real Crise da Fecundidade: Alcançando a Liberdade Reprodutiva em um Mundo em Transformação, elaborado pelo UNFPA e apresentado nesta terça-feira (10/06) em diversas capitais europeias.

O relatório da agência da ONU para a saúde sexual e reprodutiva observa que há ainda o problema das altas taxas de gravidez não planejadas, com uma em cada três pessoas relatando ter passado por isso.

O levantamento, que ouviu mais de 14 mil homens e mulheres adultos de 14 países que representam mais de 37% da população mundial, incluindo o Brasil, mostrou que uma percentagem muito alta de homens e mulheres em todo o mundo "não consegue atingir suas aspirações de fecundidade".

A humanidade enfrenta uma "situação sem precedentes" em sua história, pois atingiu um pico populacional, mas começa a se observar um "contexto global de baixa fecundidade", comentou o representante do UNFPA na Colômbia, Luis Mora.

<><> Faltam condições, e não vontade

Diante desses números, o UNFPA afirmou que muitas pessoas não estão tendo o número de filhos que gostariam de ter por falta de opção e não de vontade.

"A verdadeira crise [da fecundidade] é que as pessoas se sentem incapazes de criar as famílias que desejam", disse Ian McFarlane, diretor de Relações Externas do UNFPA, em Berlim. "Essa crise afeta o Norte Global tanto quanto o Sul Global."

A especialista Alanna Armitage, do UNFPA, enfatizou a importância de mudar a narrativa que sugere que as mulheres não querem mais ter filhos. "A pesquisa que realizamos mostra [que há] desejo de ter filhos. O que não ajuda são as condições", declarou a especialista à agência de notícias Efe.

Em todo o mundo, governos tentam influenciar as taxas de natalidade com medidas políticas, muitas vezes com efeitos apenas de curto prazo ou até mesmo opostos, quando na verdade deveriam adotar políticas que criem um ambiente favorável para quem quer ter filhos, o que inclui estabilidade no emprego, licença-maternidade e licença-paternidade, acesso à moradia, e também políticas universais de saúde sexual e reprodutiva, afirmou o UNFPA.

 

Fonte: DW Brasil

 

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