Tereza
Cruvinel: Lula X Congresso - sem confronto mas sem baixar a cabeça
Embora
o presidente Lula tenha autorizado na noite de quinta-feira o recurso ao STF
contra o Decreto Legislativo do Congresso que derrubou o aumento das alíquotas
do IOF, a opção do governo não é pelo confronto aberto com o Legislativo, uma
disputa em que dificilmente seria vencedor. Por outro lado, o governo também
não pode, como diz um assessor palaciano, “abaixar a cabeça e engolir o
desaforo”.
Por
isso, além de judicializar a questão, em defesa de uma prerrogativa do
presidente da República que o decreto legislativo do Congresso usurpa, o
Governo vai sustentar a retórica da justiça tributária embutida nas medidas que
propõe, denunciando a resistência dos mais ricos em pagar um pouco mais para
garantir o ajuste das contas públicas e a manutenção de políticas que favorecem
os mais pobres, principalmente os moradores do porão.
Obviamente
o Governo entende que a queda de braço com as forças de direita no Congresso
tem ao fundo a eleição do ano que vem, o plano de sangrar Lula para evitar sua
reeleição, como aliás já foi feito com ele antes do pleito de 2006, em que ele
se reelegeu. Mas será fazendo política, ora conciliando, ora endurecendo, que
Lula pretende atravessar o percurso que tem pela frente até à eleição, e não
partindo para o confronto sem volta.
A
decisão de recorrer ao Supremo, que inicialmente dividiu o entorno de Lula,
acabou produzindo uma rara unidade entre os ministros que compõem o centro
decisório do Governo, tais como Haddad, que foi o defensor inicial da medida,
Gleisi Hoffamann, Rui Costa, Jorge Messias e Sidônio Palmeira.
No
final, prevaleceu o entendimento de que o recurso ao STF não era simplesmente
uma opção, mas uma obrigação do presidente, para garantir a observância de uma
competência exclusiva que a Constituição lhe garante.
Embora
tenha sido noticiado para o final do dia de sexta-feira um provável encontro de
Lula com os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre,
ele só deve acontecer na próxima semana, quando a poeira já tiver baixado mais.
Quando
ele acontecer, o presidente explicará que tinha a obrigação de arguir junto ao
STF a inconstitucionalidade do Decreto Legislativo que derrubou seu decreto
sobre o IOF. Dirá, segundo um auxiliar, que sempre aceitou tudo o que o
Congresso lhe impôs, dentro da legalidade: rejeição de propostas, devolução e
não aprovação de MPs, derrubada de vetos e controle de boa fração do orçamento
através de emendas, por exemplo. Não poderia, porém, aceitar a violação de uma
competência privativa da Presidência da República, até porque o que lhe for
usurpado hoje o será também de seus sucessores.
O
artigo 153 da Constituição, de fato, diz que compete exclusivamente à União
instituir impostos sobre “operações de crédito, câmbio e seguro, ou relativas a
títulos ou valores mobiliários” e que é facultado ao Executivo alterar as
alíquotas destes tributos.
Será
uma conversa para distensionar a relação mas Lula não deixará também de
registrar seu profundo desagrado com a forma como se deu a imposição da derrota
acachapante na noite de quarta-feira. Primeiro, porque houve o entendimento
tácito de que o Governo disporia de pelo menos duas semanas, após a aprovação
da urgência na noite de segunda-feira, 23, para evitar a votação do PDL
(projeto de decreto legislativo), e isso não foi observado. Segundo porque
houve uma alteração do rito decisório. O presidente da Câmara sempre define a
pauta ouvindo o colégio de líderes e desta vez marcou a votação por decisão
unilateral (embora tenha competência legal para isso) através das redes
sociais, por volta das 23 horas da noite de terça-feira.
Diz-se
que ele fez isso a pedido da Davi Alcolumbre, presidente do Senado, que vem
tentando forçar o governo a demitir o ministro das Minas e Energia, Alexandre
Silveira, para indicar seu sucessor. Em troca, garantiu a Motta a aprovação
(que aconteceu na mesma noite) do projeto que aumentou o número de deputados.
Lavadas
as mágoas e a roupa suja, Lula buscará zerar o jogo. Reconhecerá, por exemplo,
que na mesma noite das derrota a Câmara aprovou outras matérias de seu
interesse, como a MP do crédito consignado para empregados do setor privado, o
projeto que permite a venda antecipada de campos de petróleo, a inclusão de
projetos habitacionais no Fundo Social do Pré-Sal e o reajuste da tabela de
isenção do imposto de renda para até dois salários-mínimos. O outro projeto,
que amplia a isenção até cinco salários-mínimos, continua parado como o
relator, Arthur Lira.
Nas
redes sociais há um clamor de militantes do PT e de apoiadores do governo pela
adoção de uma estratégia de confronto e até de rompimento, a exemplo da hastag
@Congresso inimigo do Povo. Não é o que busca Lula, com sua reconhecida
intuição e sua experiência política.
O
próprio ministro Fernando Haddad, certamente o mais machucado em todo este
embate, em palestra na USP, nesta sexta-feira, fez uma declaração sugestiva de
endurecimento: “Não é hora de se recolher (…). Agora é hora de vestir o
uniforme do embate, do bom debate público, do debate político, da disputa por
ideias, por futuro, com as nossas armas, que são o conhecimento, a empatia e o
bom senso”.
Mas
isso também faz parte do jogo orientado por Lula, de evitar o confronto sem
abaixar a cabeça. Haddad continuará continuará empinando, mais que todos, a
retórica da justiça tributária, que segundo pesquisas qualitativas, estaria
sendo bem recebida pela sociedade, em oposição a um Congresso percebido como
defensor dos mais ricos.
• O Lula analógico: em tempos de histeria
a lentidão é uma bênção
Tem
crescido a crítica ao presidente Lula de que ele seria “analógico”. E é verdade
que ele seja, mas o que alguns veem como defasagem, pode ser justamente sua
resistência mais valiosa.
No
podcast do Mano Brown, Lula foi certeiro: chamou as redes sociais de “redes
digitais” — lembrando que a eletrônica, os algoritmos e as ondas
eletromagnéticas não têm alma. Essa sabedoria de um homem de 80 anos, com a
capacidade cognitiva inquestionável, não pode ser menosprezada. Vivemos um
poderoso vício coletivo em telas e estamos cada vez mais refém da tecnologia.
Crescem
os estudos que comprovam como smartphones e redes digitais alteraram nosso
comportamento, afetando saúde mental e relações. Mesmo assim, continuamos
dispensando desenfreadamente nossa atenção a esses dispositivos.
Milton
Santos já alertava sobre essa aceleração desenfreada da globalização, que
trocou profundidade por velocidade, em seu texto “elogio à lentidão”, 2001:
“O
mundo de hoje parece existir sob o signo da velocidade. O triunfo da técnica, a
onipresença da competitividade, o deslumbramento da instantaneidade na
transmissão e recepção de palavras, sons e imagens e a própria esperança de
atingir outros mundos contribuem, juntos, para que a idéia de velocidade esteja
presente em todos os espíritos e a sua utilização constitua uma espécie de
tentação permanente. Ser atual ou eficaz, dentro dos parâmetros reinantes,
conduz a considerar a velocidade como uma necessidade e a pressa como uma
virtude. Quanto aos demais não incluídos, é como se apenas fossem arrastados a
participar incompletamente da produção da história.”
O
paradoxo é inquestionável: quando tudo é urgente, nada é. Consumimos
informações em excesso, mas perdemos a capacidade de refletir. A ansiedade vira
norma, e a política vira campo de gritaria — onde a irracionalidade cresce
justamente porque ninguém tem tempo para pensar.
Lula,
ao governar sem se render ao frenesi digital, mostra que é possível exercer
poder sem se perder no barulho da histeria. Seu nome circula diariamente em
todo o país e no mundo e mesmo assim ele não cai na armadilha de trocar sua
biografia por engajamento, seu prestígio pela urgência.
Sua
postura lembra que, num mundo intoxicado por estímulos, desacelerar pode ser o
gesto mais revolucionário. Num tempo em que até as indignações viram conteúdo
descartável, resistir ao ritmo das redes digitais não é nostalgia — é
sobrevivência.
• Ao contrário do que parece, é a oposição
a Lula que está se colocando numa situação de dificuldade. Por Mario Vitor
Santos
É uma
guerra de movimentos e posições. O governo Lula se move para a posição que lhe
interessa. A oposição vai se colocando num lugar em que fica vulnerável, em que
entra em choque com parte de sua base. Lula e Haddad perderam uma votação.
Paciência. O jogo só termina com a eleição. Ano que vem.
Outros
embates virão, com o mesmo sentido, reafirmando provavelmente a busca das
mesmas posições. Lula e Haddad defendendo mais equidade. Derrotas poderão
acontecer. São sacrifícios pela vitória em 26, contra adversários que temem
serem colocados na situação em que já foram derrotados tantas vezes.
Se se
olhar numa certa perspectiva, a votação de ontem na Câmara revela uma
estrutura.
Essa
estrutura explica as seguidas eleições do PT neste século.
Cada um
só faz o que acredita. Alguns optam pelos ricos, outros pelos necessitados.
Para além do que parece, quem está se fragilizando é a oposição. Logo chega a
eleição.
Se a
estrutura prevalecer, e ela já suportou mesmo mudanças sociais tão grandes como
o advento da vida digital e a informatização de 50% da mão de obra no país,
Lula tem grande chance de vencer numa eleição disputada.
As
chances crescem pela colaboração da oposição, que vai inevitavelmente
oferecendo seu pescoço, como se viu na votação de ontem, e se verá em tantos
outros embates já pautados no Congresso.
O
governo não deveria desperdiçar nenhuma oportunidade de travar esse embate, mas
precisa fazê-lo com sabedoria. Existe ao mesmo tempo a necessidade de formar a
mais ampla frente eleitoral possível contra o fascismo, inclusive apostando na
divisão dos que agora pontualmente lhe fazem oposição. 2026 já começou e a
guerra de posições e movimentos orienta todas as ações. Até agora nada
surpreende, a rigor.
• O governo Lula romperia com o
Congresso? Por Arnóbio Rocha
Entre
mortos e feridos, o governo Lula continua vivo e com números positivos e um
estoque de entregas e perspectivas de melhoria da vida da maioria do país, pela
diminuição do desemprego, aumento da renda, inflação sob controle, mas com
preços altos do passado que não voltam. Apenas com maior renda mudará a visão
negativa.
Nem
otimista, nem pessimista, cada um sente as dores, suas impressões e visões
sobre o momento. Depois de 6 meses de virada política, especialmente índices de
popularidade e dificuldades no Congresso, tudo isso sem reversão a curto prazo,
ao mesmo tempo em que se aproxima um novo período eleitoral, duas corridas
contra o tempo.
Apenas
para comparar: em julho de 2021, a avaliação de Bolsonaro era, em média:
• 25% ótimo
• 24% regular
• 51% ruim
Em
setembro de 2021:
• 22% ótimo
• 23% regular
• 55% ruim
Um ano
depois, com a economia em frangalhos e 700 mil mortos, teve 49,10% dos votos.
Claro,
não se pode comparar mecanicamente as realidades, apenas ter alguns parâmetros
de análise, com dados que podem ajudar a debater com um pouco mais de
racionalidade. A situação atual é ruim, mas não vejo como desesperadora
(ainda). Houve uma discreta melhora na Secom, melhores entregas na saúde e na
educação.
A
grande ausência continua sendo: qual é o norte da política e qual a marca
tangível para a população do governo Lula III?
Falta
identificar um “inimigo” claro do governo, aquele que serve de paradigma e que
o governo se defende batendo nele. Uma ideia errônea é a de que se governa
“para todos”. Quando levada ao extremo, não se percebem acertos e erros, em
particular porque o Congresso, a Câmara especialmente, é o local em que a
extrema-direita usa para desmoralizar/desgastar o governo, sabotar e lhe tirar
os ganhos.
A
derrota imposta na questão do IOF demonstra que Hugo Motta não tem capacidade
de fazer acordos. Pior: é frágil e trai com prazer, mas não tem a habilidade e
força de um Eduardo Cunha que possa meter medo a ponto de sinalizar um
impeachment. No entanto, o governo é derrotado e a conta fica completamente
para si.
Uma das
decisões mais difíceis é romper com o ciclo vicioso aberto pelo golpe de 2016:
os músculos e a autonomia que ganhou o Congresso, reforçado por dois governos
entreguistas que simplesmente fecharam os olhos para o controle do orçamento
público por políticos minúsculos. Nos dois primeiros anos do governo, houve
tensões, mas o governo tinha energia e apoio popular, o que freou a sanha
golpista do Congresso, além do controle maior que Arthur Lira exercia.
O
governo tem que abandonar o republicanismo de araque, um luxo frente a uma
horda selvagem de extrema-direita que não faz nem ideia do que sejam marcos
civilizatórios e democracia.
O
governo estabeleceu ótima relação com o STF, que o Congresso quer controlar.
Então, a aliança tática deve virar estratégica e ir para o enfrentamento aberto
com a Câmara, em particular, emparedar Hugo Motta, um cidadão com telhado de
vidro, usar a força do governo e partir para cima. Demitir os indicados aos
cargos públicos feitos pelos congressistas que votaram contra o governo,
começando por ministros.
A
reação deveria ser bem coordenada: retomar o controle do orçamento e das
emendas, colocar o Congresso de volta ao seu lugar, pois parece que há um
caminho sem volta imposto pela Câmara com uma aposta alta. Ou o governo dobra a
aposta ou cairá — não por impeachment, mas por inanição.
Essa
reação tem que ser aberta, pública, enfrentamento de mídia, falar diretamente
para os trabalhadores e para a população em geral, chamar à defesa da
democracia, das conquistas econômicas e das instituições sob ameaças.
O
governo Lula teria essa ousadia?
Fonte:
Brasil 247/O Cafezinho

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