segunda-feira, 30 de junho de 2025

Trump não merece crédito pelo cessar-fogo entre Israel e Irã

Em 24 de junho, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma trégua entre Israel e Irã, após quase duas semanas de escalada. Israel começou a guerra, lançando uma ofensiva de surpresa em 13 de junho, com ataques aéreos contra instalações nucleares iranianas, instalações de mísseis e alto escalão de militares e cientistas, além de vários civis.

Em resposta, o Irã lançou uma onda de mísseis balísticos e drones em território israelense, acionando sirenes de ataque aéreo em Tel Aviv, Haifa e Bersheba e vários outros locais, causando destruição sem precedentes no país.

O que testemunhos foi uma encenação política — uma disputa cuidadosamente orquestrada entre dois parceiros que jogam dos dois lados de um jogo perigoso. O que começou como uma escalada bilateral, rapidamente se transformou em algo muito mais consequente: um confronto direto entre os Estados Unidos e o Irã.

Em 22 de junho, às Forças Aéreas e a Marinha dos Estados Unidos realizaram um ataque de larga escala em três instalações iranianas — Fordow, Natanz e Isfahan — em um ataque coordenado denominado Operação Martelo da Meia-Noite. Sete bombardeiros B-2 da 509ª Ala de Bombardeiro supostamente voaram sem escalas da Base Aérea de Whiteman, no Missouri, para realizar os ataques.

No dia seguinte, o Irã retaliou bombardeando a base militar norte-americana Al-Udeid, no Qatar, e disparando uma nova onda de mísseis contra alvos israelenses.

Isso marcou um ponto de virada. Pela primeira vez, Irã e Estados Unidos se enfrentaram no campo de batalha sem intermediários. E, pela primeira vez na história recente, a longa campanha de Israel para provocar uma guerra liderada pelos EUA contra o Irã foi bem sucedida.

<><> Consequências estratégicas

Nos 12 dias de guerra, Israel alcançou duas de suas metas. Primeiro, colocou Washington diretamente no conflito com Teerã, estabelecendo um precedente perigoso para o futuro envolvimento dos EUA nas guerras regionais de Israel. Segundo, gerou capital político imediato em casa e no exterior, retratando o apoio militar dos EUA como uma “vitória” para Israel.

Entretanto, além desses ganhos de curto prazo, as rachaduras na estratégia de Israel já estão aparecendo.

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, não conseguiu uma mudança de regime em Teerã — o verdadeiro objetivo de sua campanha de anos. Em vez disso, enfrentou um Irã resiliente e unificado que revidou com precisão e disciplina. Pior ainda, ele pode ter despertado algo ainda mais ameaçador para as ambições israelenses: uma nova consciência regional.

O Irã, por sua vez, emerge desse confronto significativamente mais forte. Apesar dos esforços dos EUA e de Israel para paralisar seu programa nuclear, demonstrou que suas capacidades estratégicas permanecem intactas e altamente funcionais.

Teerã estabeleceu uma nova e poderosa equação de dissuasão, provando que pode atingir não apenas cidades israelenses, mas também bases norte-americanas em toda a região.

Ainda mais importante, o Irã travou essa luta de forma independente, sem depender do Hezbollah ou dos Houthis, nem mesmo mobilizar milícias iraquianas. Essa independência surpreendeu muitos observadores e forçou uma recalibração do peso regional do Irã.

<><> Unidade iraniana

Talvez o acontecimento mais significativo de todos seja aquele que não pode ser medido em mísseis ou baixas: o aumento da unidade nacional dentro do Irã e o amplo apoio que recebeu em todo o mundo árabe e muçulmano.

Durante anos, Israel e seus aliados buscaram isolar o Irã, apresentando-o como um pária até mesmo entre os muçulmanos. No entanto, nos últimos dias, testemunhamos o oposto. De Bagdá a Beirute, até mesmo em capitais politicamente cautelosas como Amã e Cairo, o apoio ao Irã aumentou. Essa unidade, por si só, pode revelar o desafio mais formidável de Israel até o momento.

No Irã, a guerra apagou, pelo menos por enquanto, as profundas divisões entre reformistas e conservadores. Diante de uma ameaça existencial, o povo iraniano se uniu, não em torno de um único líder ou partido, em torno da defesa da sua Pátria.

Os descendentes de uma das civilizações mais antigas do mundo reagiram com uma dignidade e orgulho que nenhuma agressão estrangeira conseguiu extinguir.

<><> A questão nuclear

Apesar dos acontecimentos no campo de batalha, o resultado real desta guerra pode depender do que o Irã fizer em seguida com seu programa nuclear.

Se Teerã decidir se retirar do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) — mesmo que temporariamente — e sinalizar que seu programa continua funcional, as chamadas “conquistas” de Israel perderão o sentido.

No entanto, se o Irã não conseguir dar sequência a esse confronto militar com um reposicionamento político ousado, Netanyahu estará livre para alegar — falsamente ou não — que conseguiu conter as ambições nucleares do Irã. Os riscos são tão altos quanto sempre foram.

<><> Uma farsa fabricada

Alguns meios de comunicação estão agora elogiando Trump por supostamente “ordenar” que Netanyahu suspendesse novos ataques ao Irã.

Essa narrativa é tão ofensiva quanto falsa. O que estamos testemunhando é uma encenação política — uma disputa cuidadosamente orquestrada entre dois parceiros que jogam os dois lados de um jogo perigoso.

A publicação de Trump na Truth Social “tragam seus pilotos para casa” não foi um apelo à paz. Foi uma ação calculada para recuperar a credibilidade após a rendição total à guerra de Netanyahu. Ela permite que Trump se apresente como moderado, distraia a atenção das perdas de Israel no campo de batalha e crie a ilusão de um governo americano controlando a agressão israelense.

Na verdade, esta sempre foi uma guerra conjunta entre EUA e Israel — planejada, executada e justificada sob o pretexto de defender os interesses ocidentais, ao mesmo tempo em que preparava o terreno para uma intervenção mais profunda e uma potencial invasão.

<><> O retorno do povo

Em meio a todos os cálculos militares e teatro geopolítico, uma verdade se destaca: os verdadeiros vencedores são o povo iraniano.

Quando mais importava, eles permaneceram unidos. Compreenderam que resistir à agressão estrangeira era mais importante do que disputas internas. Lembraram ao mundo — e a si mesmos — que, em momentos de crise, as pessoas não são atores periféricos na história, são seus autores.

A mensagem de Teerã é inequívoca: estamos aqui. Estamos orgulhosos. E não seremos destruídos.

Essa é a mensagem que Israel e, talvez até Washington, não previu. E é a que poderá remodelar a região nos próximos anos.

¨      “Trégua”, o “cessar-fogo” e a “paz” naufragam em um mar de mentiras que Trump destila. Por Nilo Meza

A teoria de Lênin sobre a guerra imperialista (“Sobre a guerra imperialista: escritos selecionados de Lenin), elaborada entre 1914 e 1922, ganha relevância nos processos bélicos hoje protagonizadas pelas grandes e médias potências. Os EUA, a Rússia e a China aparecem como hegemônicos, enquanto a Alemanha, a Inglaterra e a França se perfilam como impérios de segundo nível, mas com o mesmo roteiro: conquista e manutenção de colônias, controle de mercados e fontes de matérias-primas, bem como do sistema financeiro, ampliação e consolidação de áreas de influência, entre outros. Sem dúvida, está em curso uma nova divisão do mundo e das áreas de influência.

Uma guerra de conquista e pilhagem que, para citar alguns casos, põe em evidência os “acordos comerciais” dos EUA com a Ucrânia em relação às terras raras, a anexação (recuperação) de territórios pela Rússia, a conquista de novos mercados, a ampliação das áreas de influência da China, entre outros, com base na devastação e no extermínio, são elementos que compõem um cenário de guerra imperialista.

Trump, com o ataque focado em usinas nucleares inventadas, não desencadeia necessariamente a Terceira Guerra Mundial, mas revela que está disposto a exibir seu poder bélico que, de muitas maneiras, está fazendo parte da atual guerra imperialista de conquista e pilhagem. Os “bandidos” (Lênin) estão em plena ação e buscam sua parte do “saque” na Groenlândia, Panamá, Ucrânia, Gaza, Congo e Sudão, depois de terem devastado a Somália, o Afeganistão, o Paquistão, o Líbano, a Síria, o Iraque, etc.

Em momentos em que o capitalismo e seus principais expoentes, como os EUA, apresentam crises de superprodução e, ao mesmo tempo, diminuição do consumo, tendência à queda da taxa de lucro, desemprego, concentração insustentável da riqueza, etc., Trump acredita que chegou o momento de recorrer à guerra como principal fator de solução para essa crise que compartilha com as outras potências de primeiro e segundo nível. Ou seja, se a guerra é “positiva” para o imperialismo norte-americano, por que não seria para os outros protagonistas da guerra?

<><> Pensando a guerra

Embora pareça uma verdade incontestável, é importante lembrar. A guerra, em primeiro lugar, é um fenômeno político e, em segundo lugar, um meio e não um fim. Então, qual seria o fim da guerra? Na perspectiva de um fim supremo, como é modificar a correlação de forças e as relações de poder existentes, seus objetivos concretos têm a ver com a gestão econômica e política global, incluindo, colateralmente, propósitos sociais. Por isso, “a guerra é a continuação da política por outros meios” (Carl von Clauewitz)

A guerra imperialista, nesse sentido, é um instrumento político das classes dominantes nos países que fazem parte do sistema imperialista. Seus objetivos estão associados à manutenção ou ampliação de seu domínio e poder no planeta.

Com a guerra, como estamos vendo, não só se queima todo o estoque de armas, mas se destrói o capital físico ocioso e ativo em todo o planeta. É a condição para que o capitalismo volte a colocar em marcha o processo de produção capitalista, com mercados ampliados, garantindo altas taxas de lucro, sem importar que seja igualmente autodestrutivo que a fase anterior.

É acionado todo o mecanismo de produção da poderosa indústria bélica que, por suas dimensões e alcance, arrasta todo o resto da economia, adquirindo especial relevância a recuperação e o desenvolvimento da infraestrutura econômica e social destruída pela guerra, bem como os processos industriais que requerem tecnologia.

<><> A paz e a guerra

Para Netanyahu e Trump, belicistas obstinados, a paz só será possível após a eliminação da resistência do inimigo, neste caso, dos palestinos e do Irã. Na lógica criminosa do imperialismo norte-americano e do sionismo, cabeças visíveis da hidra imperialista, “A paz através da força. Primeiro vem a força, depois a paz” (Trump e Netanyahu).

Com o ataque ao Irã, o imperialismo norte-americano não apenas viola a Carta das Nações Unidas e o Tratado de Não Proliferação, mas age de forma criminosa assassinando cidadãos, cientistas e líderes militares daquele país. Zomba e escarnece dos diálogos políticos e diplomáticos, sem deixar de usá-los como álibi para suas feitorias bélicas (ataque de Israel ao Irã e ataque dos EUA ao Irã), cujo “sucesso espetacular” estaria dando conta da “destruição completa e total” das instalações nucleares do Irã.

No dia seguinte ao ataque norte-americano, o Irã e outras fontes, incluindo meios de comunicação ocidentais, afirmaram que não há tal “sucesso” nem “destruição”, como Trump se gaba. O Programa Nuclear para fins pacíficos continua. Ao mesmo tempo, seu ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, disse que o Irã “se reserva todas as opções de resposta para defender sua soberania, seus interesses e seu povo” ao ataque criminoso de Trump. Certamente, isso não era esperado por Trump e seus aliados da UE, muito menos quando ele havia “ordenado” ao Irã que se abstivesse de represálias.

O mundo está reagindo. António Guterres, o fantasmagórico secretário-geral da ONU, saindo de sua lógica de “nem chicha nem limonada”, condenou o ataque dos EUA e alertou sobre suas consequências para a humanidade se a escalada bélica não for detida. É alguma coisa.

Por sua vez, sem surpresa, a Rússia condenou a “decisão irresponsável dos EUA (que busca) submeter com mísseis e bombas um Estado soberano”, violando o “Direito Internacional, a Carta das Nações Unidas e as Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas”. A China, da mesma forma, afirmou que os EUA “violam gravemente os propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas e do DIU”, exacerbando as tensões no Oriente Médio. Além disso, lembrou os 30 países que bombardeou desde 1950. A Arábia Saudita, aliada dos EUA, disse que condenava “a violação da soberania do Irã”. Omã, sede de reuniões entre os EUA e o Irã, repetidamente frustradas por Trump, “condenou veementemente os ataques ao Irã”. O Líbano, o Catar e o Egito pediram moderação e “descartaram soluções militares” para o conflito, exigindo evitar a escalada na região.

A UE, por meio de Kaja Kallas, burocrata por excelência que ninguém elegeu, se posiciona ao lado dos EUA, mesmo sabendo que não existem os motivos invocados por Trump. Com a hipocrisia que o mundo conhece, pede o retorno “à mesa de negociações”, tantas vezes ridicularizada por seu chefe de facto. O Reino Unido, com submissão semelhante, afirmou que os EUA estavam aliviando a “ameaça nuclear” em que o Irã poderia se tornar.

Desta forma, em plena guerra imperialista, a nova ordem mundial vai mostrando uma de suas características: um mundo dividido em dois campos, o do Ocidente e seus seguidores, de um lado, e, do outro, o resto do mundo que tem como referências a Rússia e a China. Por enquanto.

<><> Não há mal menor para os socialistas

Todo socialista, a esta altura, sabe que nenhum dos grupos imperialistas está em guerra em defesa da pátria ou da democracia, mas sim para obter os maiores benefícios da nova divisão do mundo. Um socialista não pode optar por nenhum dos bandos imperialistas, nem mesmo apelando para o subterfúgio corrosivo do “mal menor”. Nenhuma guerra, menos ainda a imperialista, defende os interesses populares.

A luta encarniçada por mercados, recursos naturais e financeiros tem como complemento a tarefa de decapitar o movimento popular, adormecer as convicções de luta por um mundo melhor, dividir e fragmentar contingentes políticos e sindicais contestadores, pisotear os princípios da democracia, etc., o que não poderia merecer a adesão socialista.

¨      Trump chama declaração de Khamenei sobre vitória do Irã na guerra contra Israel de "mentira"

O presidente norte-americano, Donald Trump, rejeitou nesta sexta-feira (27) a afirmação do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, de vitória sobre Israel, classificando-a como mentira.

"Por que o chamado 'Líder Supremo', Aiatolá Ali Khamenei, do devastado país do Irã, diria de forma tão descarada e tola que venceu a guerra contra Israel, quando sabe que sua declaração é mentira, não é verdade? Como homem de grande fé, ele não deveria mentir", escreveu Trump em sua rede social Truth Social.

Trump também afirmou que sabia exatamente onde o líder iraniano estava escondido durante a guerra, mas optou por não permitir que Israel ou as forças dos EUA tirassem sua vida.

"Seu país foi devastado, seus três malignos locais nucleares foram obliterados, e eu sabia exatamente onde ele estava abrigado, e não permiti que Israel, ou as Forças Armadas dos EUA, de longe as maiores e mais poderosas do mundo, terminassem sua vida", disse.

O presidente norte-americano acrescentou que "salvou" Khamenei da morte, "e ele não precisa dizer".

"Na verdade, no ato final da guerra, exigi que Israel recolhesse um grande grupo de aviões, que estavam indo diretamente para Teerã, em busca de um grande dia, talvez o nocaute final! Um dano tremendo teria ocorrido, e muitos iranianos teriam morrido. Seria de longe o maior ataque da guerra", afirmou Trump.

Mais cedo, Khamenei declarou vitória na guerra contra Israel e falou em “tapa pesado na cara dos EUA” (com Sputnik).

 

Fonte: Opera Mundi

 

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